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Cúria Diocesana

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32º Domingo do Tempo Comum

"Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele". (Evangelho segundo Lucas). "Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele". (Evangelho segundo Lucas). Fonte da imagem: https://franciscanos.org.br/vidacrista/wp-content/uploads/2019/11/liturgia_041119.jpg

Negar a ressurreição com a vida

Frei Gustavo Medella

“Alguns saduceus, que negam a ressurreição” (Lc 20,27b).

Negar a ressurreição não é mera recusa a abraçar uma doutrina ou um conjunto de ensinamentos, nem debater o tema a partir do mundo dos conceitos ou das ideias. Desta forma, a questão casuística posta pelos saduceus, ainda que pudesse ter um tom de certo deboche ou incredulidade, representava a face mais inocente e inofensiva de uma postura discordante com a proposta de Jesus Cristo.

A versão mais prejudicial de tal negação, com certeza, é o estado de arrogância e prepotência a que pode chegar o ser humano quando se julga senhor da própria vida e dono da única verdade absoluta que deseja impor aos outros. Quem age assim, não nega somente a ressurreição, mas nega a vida a quem ameaça seus planos egoístas e autocentrados. Esta negação autoafirmativa certamente já havia contaminado o coração do rei cruel apresentado no trecho do 2º Livro de Macabeus (2Mc 7,1-2.9-14) . Com requintes de covardia e crueldade, massacrou sete filhos e uma mãe movido pelo mero capricho de fazerem-nos pensar exatamente como ele pensava. Sua sanha era, por teimosia, orgulho e soberba, colocar-se como dono da vida daqueles que havia feito prisioneiros. Empatia, compaixão, solidariedade e respeito eram palavras que haviam sido banidas de seu vocabulário e de suas práticas. Pobre homem, morto já em vida.

A postura que parece o cume da crueldade e é narrada em um episódio do Antigo Testamento, poderia, falsamente, ser considerada por nós algo muito distante no tempo e no espaço, coisa de “gente primitiva”, algo que aconteceu no “muito antigamente da existência”, quando o ser humano era menos evoluído. Triste engano… A negação da ressurreição e da vida, e consequente negação de Cristo, continua atual e tem saltado aos olhos como prática, inclusive, de muitos que se autodenominam seguidores do Ressuscitado.

Mais do que em palavras, tal postura destruidora tem se mostrado em práticas marcadas pela ofensa, pela mentira e pela exclusão. Tem sido, inclusive, plataforma política de quem, em nome de Deus, chegou ao poder para garantir e perpetuar os próprios privilégios à custa da morte e do massacre dos pequenos, daqueles que pensam diferente, de quem sonha um mundo mais justo e igualitário. Os frutos nefastos desta mórbida opção pela morte, infelizmente, são numerosos. Não é difícil encontrá-los, pelo que não vou tomar o precioso tempo do estimado leitor declinando os muitos sinais de morte que têm nos deixado tristes e feridos. O mais importante é não esmorecermos e renovarmos a certeza de que, caminhando conosco, está o Deus da Vida, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011

 

32º Domingo do Tempo Comum, ano C2019

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Oração: “Deus de poder e misericórdia, afastai de nós todo obstáculo para que, inteiramente disponíveis, nos dediquemos ao vosso serviço”.

  1. Primeira leitura: 2Mc 7,1-2.9-14

O Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna.

Os últimos três domingos do ano litúrgico C, que precedem os domingos do Advento, estão voltados para a segunda vinda do Senhor, como Juiz dos vivos e dos mortos. No Antigo Testamento a crença na vida após a morte, junto de Deus, ainda não estava desenvolvida. Muito menos a fé na ressurreição dos mortos. Pensava-se que as pessoas que morriam iriam juntar-se aos seus antepassados, na morada dos mortos. Lá as pessoas estariam como que congeladas, incapazes até de louvar a Deus. Por isso nos Salmos de súplica e lamentação o salmista pede que Deus lhe conceda longa vida aqui na terra. Que vantagem teria Deus em fazer morrer o ser humano na flor da idade? Apenas perderia mais alguém capaz de louvá-lo estando vivo. No entanto, pequenos vislumbres de esperança de uma vida com Deus já aparecem nos salmos, como no Sl 73,23-26 e Sl 16,8-11, que já manifestam uma certeza: se alguém está em comunhão com Deus aqui na terra não precisa temer a morte.

A primeira leitura de hoje é uma confissão clara na ressurreição individual dos mortos. O texto se localiza no II século antes de Cristo. A Judeia estava então sob o domínio dos reis Selêucidas da Síria, herdeiros de parte do Império de Alexandre Magnos. O rei Antíoco IV, ferrenho amante da cultura grega, queria impor à força aos povos dominados os costumes gregos e o culto dos deuses pagãos. O texto narra a história duma mulher judia e de seus sete filhos. Exortados mãe viúva, resistem heroicamente às torturas, negando-se a oferecer incenso aos deuses pagãos. Importante é o que dizem os quatro primeiros filhos, momentos antes de serem executados: “Estamos prontos a morrer, antes que violar as leis de nossos pais” (v. 2). – “Tu, ó malvado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna” (v. 9); – “do Céu recebi estes membros… do Céu espero recebê-los de novo” v. 11); – “prefiro ser morto pelos homens tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará” (v. 14).

Os judeus não separavam o corpo da alma; consideravam que a identidade de cada pessoa consistia na união do corpo com sua alma. No Evangelho, Jesus nos esclarece como será a vida da pessoa ressuscitada.

Salmo responsorial: Sl 16

Ao despertar, me saciará vossa presença

                e verei a vossa face.

  1. Segunda leitura: 2Ts 2,16–3,5

O Senhor vos confirme em toda boa ação e palavra.

Paulo pregou o Evangelho na sinagoga de Tessalônica durante alguns sábados, na companhia de Silvano e Timóteo. Não foi bem acolhido pelos chefes da sinagoga e poucos judeus se converteram. Teve, porém, grande sucesso entre os pagãos, simpatizantes do judaísmo, causando inveja aos judeus, que o ameaçaram. Para fugir das ameaças, os cristãos enviaram Paulo às escondidas a Bereia. Como não teve tempo para confirmá-los na fé e no conhecimento de Jesus Cristo, escreveu-lhes duas Cartas, pelos anos 50/51, focadas na esperança da segunda vinda do Senhor (escatologia). As Cartas são os primeiros escritos do Novo Testamento. No trecho hoje lido, o Apóstolo reza para que os fiéis da nova comunidade perseverem no amor de Deus e firmes a esperança e produzam frutos pelas boas palavras e ações (v. 16-17); isto é, que sejam evangelizadores pela fé que vivem na prática. Paulo pede também orações para que a palavra do Senhor seja glorificada em outras cidades como o foi em Tessalônica. Exorta os fiéis a permanecerem firmes nos ensinamentos recebidos. Que sejam firmes no amor de Deus e na esperança em Cristo, assim como o Senhor Jesus é fiel.

Assim, pela mútua oração, a fé, a esperança e o amor a Jesus Cristo se fortaleciam, e crescia o número de cristãos.

Aclamação ao Evangelho

  Jesus Cristo é o Primogênito dos mortos;

                a ele a glória e o domínio para sempre!

  1. Evangelho

Deus não é Deus dos mortos, mas Deus dos vivos.

No Evangelho deste domingo os saduceus questionam Jesus sobre a ressurreição dos mortos. Pouco antes, Jesus havia expulso os vendedores do Templo, controlado pelos sumos sacerdotes escolhidos do partido dos saduceus (Lc 19,45-48). Jesus, o partido dos fariseus e muitos outros judeus (1ª leitura) acreditavam na ressurreição, mas os saduceus não (cf. At 23,1-11). Para eles os mortos ficavam para sempre na morada dos mortos. Para ridicularizar a fé na ressurreição dos mortos, citam a lei do levirato (Dt 25,5-10; Gn 38; Rt 4,3-5). Segundo essa lei, se um homem se casa com uma moça e morre antes de lhe dar um filho, o irmão dele é obrigado a casar com a cunhada para gerar um filho em nome do irmão falecido. Os saduceus contam para Jesus um “caso” no qual sete irmãos casaram com a mesma mulher e todos morreram antes de gerar um filho; por fim morreu também a mulher. E perguntam: Na ressurreição, de qual do sete será ela mulher? Primeiro, Jesus lhes explica que as pessoas se casam apenas nesta vida presente, porque morrem. Mas os que forem dignos da ressurreição e da vida eterna não se casam porque já não podem morrer. Serão iguais aos anjos, serão filhos de Deus, porque já ressuscitaram. Isto é, estarão na vida eterna com Deus. Jesus confirma a fé na ressurreição com o episódio da sarça ardente (Ex 3,1-6). Ali Deus se apresenta a Moisés como o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, antepassados do povo. Portanto – diz Jesus – “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos”, e conclui: “pois todos vivem para ele”.

Paulo apóstolo escreve longamente aos cristãos de Corinto sobre a ressurreição (1Cor 15,1-58). Alguns tinham dificuldade em acreditar que outros mortos haveriam de ressuscitar, embora acreditassem que Cristo ressuscitou dos mortos. Para explicar como será um corpo ressuscitado, Paulo Apóstolo recorre à imagem da semente: quando semeada, ela morre mas produz a planta e seus frutos (1Cor 15,35-49; cf. Jo 12,24). Na ressurreição, o que importa é a continuidade e identidade pessoal, entre a vida presente e a vida futura. Na semente está a futura planta, mas o formato da semente e da planta são totalmente diferentes.

Na missa, quando o sacerdote diz “eis o mistério da fé”, afirmamos nossa fé na continuidade de vida entre o Cristo morto e Ressuscitado: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”! É o que acontecerá com todos aqueles que nele creem.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

 

Um tema de vida ou morte

Frei Clarêncio Neotti

Os saduceus (o nome deriva-se provavelmente do Sumo Sacerdote do tempo de Salomão, Saddoc, que deu início à seita e à casta dos Sumos Sacerdotes – 1Rs 2,35) eram hebreus, mas só aceitavam o que Moisés dissera no Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). O grupo era bem menor do que o dos fariseus, mas a ele pertencia a aristocracia sacerdotal e laical, a classe mais rica e influente. Caifás, por exemplo, era saduceu. Os saduceus interessavam­se mais pelo jogo político que pelo jogo religioso.

Os saduceus negavam a existência dos anjos e de outros espíritos (At 23,8). Mas, sobretudo, negavam a ressurreição (Mc 12,18-27; At 4,l-2), tema, aliás, bastante obscuro no Antigo Testamento. Só textos sagrados mais recentes falaram da vida depois da morte, como Daniel 12,2: “Muitos dos que dormem na terra despertarão; uns para a vida eterna, outros para a eterna abominação”. Ou passagens como as da morte dos irmãos Macabeus e sua mãe (2Mc 7), escritas em torno de 130 a. C, quando já existia a seita dos fariseus, que acreditavam na ressurreição. Ora, a ressurreição seria o tema fundante e fundamental da Nova Aliança. Jesus devia esclarecê-lo, também em vista de sua Ressurreição, que seria a prova cabal de sua divindade e de sua missão.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

 

Divagações em torno do casamento

Frei Almir Guimarães

♦ Na realidade, o tema desse nosso domingo é o da afirmação de que Deus é o Deus dos vivos e dos mortos. Aborda a questão da ressurreição. Fala de uma mulher que teve sete maridos. Coloca a questão: “Na ressureição, ela será mulher de quem?” Nesse mundo futuro, afirma o texto, todos serão como anjos e não haverá marido e mulher. O assunto espinhoso da ressurreição dos mortos e o status da glória mereceria uma longa e complexa abordagem. Vamos, no entanto, aproveitar o ensejo para refletir sobre o tema do casamento e, de modo particular, do casal.

♦ Normal que num determinado momento da vida um rapaz e uma moça comecem a ser olhar diferentemente. As forças e os impulsos que estavam adormecidos despertam com doçura ou com violência. Pode ser que no começo dos encontros entre um e outro nada havia sido despertado. Viviam como colegas, ou um desconhecido que encontrava uma desconhecida. Depois, talvez de um cruzar de olhares, uma leve manifestação ternura e a vontade de voltar ao lugar onde os olhares se entrecruzaram… Começou a busca… Quem sabe um primeiro encontro tenha sido marcado por timidez ou então por volúpia… Não sei… um jeito de andar, uma graça, a beleza do interior, a vontade de viver uma história a dois. “Não é bom que o homem esteja só…”.

♦ Vem o tempo do conhecimento, a carinhosa tentativa de espreitar o mistério do outro e chega o momento da decisão, da arrumação das coisas internas para colocar os passos num outro universo. “Deixará pai e mãe”. Um novo nascimento que é precedido de uma decisão. Meu companheiro, minha companheira, mãe e pai dos meus filhos. Sim, está bem, toma-se a decisão. Arrumo o meu interior e deixo de lado esse coração que pula de perfume em perfume e passo a viver uma fidelidade lúcida. Eu te prometo… Eles vão se ajudar para serem gente. Cuidado com essas uniões de pessoas imaturas que desgraçam a própria vida e a vida do parceiro. Lucidez nas decisões.

♦ Fidelidade à verdade do outro, nunca aceitando olhá-lo como parceiro de uma aventura passageira, sempre com um profundo respeito e uma ternura extremamente delicada. O ponto alto, o píncaro da união de um homem e de uma mulher não acontece com começo do viver juntos, mas depois, bem depois, resultado de incessante construção. Uma fidelidade criativa. No fazer-se presente na vida do outro de maneira substancial e não sufocante, numa abertura ao mundo, numa feliz harmonia entre tantas solicitações: o cuidado da casa, os filhos, os pais envelhecidos, o trabalho exaustivo dos dois fora de casa, a busca da harmonia sexual, o incansável desejo e empenho dos dois de serem do Senhor. O píncaro de um casamento se dá na comemoração das Bodas de Ouro. Uma estrada bem percorrida, felizmente percorrida.

♦ Fazer-se presente na vida do outro e dos filhos. Tema delicado. A vida conjugal e familiar precisa ser alimentada por meio de momentos em que se tira o pé do acelerador, nas delicadas revisões da conjugalidade, na participação de grupos de reflexão sobre o andar da carruagem, no estar todos juntos em torno da mesa de maneira não esporádica, no cuidadoso exercício da arte de prestar atenção nos movimentos dos músculos do rosto e no apagar do brilho do olhar. Sentir que há nuvens que precisam ser enxotadas. Voltar aos primeiros bem-querer quando a vida nos sacudiu por dentro.

♦ Há uma maneira cristã de viver o casamento. Dois cristãos, penso agora em cristãos de verdade, convictos de sua fé, mesmo com eventuais falhas, dois seres que foram deixando que o homem velho morresse e, ao longo da vida, foram vivendo o seguimento de Cristo, sem carolices e pieguices. No momento de encetarem sua vida a dois e familiar vivem um momento de visita do Senhor. Vão se unir pelo sacramento dos casados. Há promessa de amor, de fidelidade, de abertura da vida dos dois para a vida dos filhos…. Todos os dias da minha vida”. Promessa complexa. Como fazer com que o amor dure, com que as circunstâncias inesperadas não afetem esta união? Continuar quando as coisas de tornaram adversas?   Tudo isso atravessa nossa mente quando pensamos na concreta realidade da vida conjugal e familiar  hoje. “Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja”.

♦ Casamento e família se entrelaçam. Família é comunhão de pessoas, de pessoas que carregam o mistério humano de viver, união feita com plena liberdade, orientada por um projeto de bem-querer e aberta à chegada, cuidados, educação dos filhos que lhes são emprestados por um tempo, dois seres maduros que não choramingam, que se respeitam e um casal aberto ao mundo, unidos no Senhor, os esposos se amando no amor de Cristo, constituindo a Igreja doméstica.


Pensamentos tonificantes

“Foi o tempo que perdeste com a tua rosa, que tornou a tua rosa tão importante para ti”. (Antoine de Saint-Éxupéry).

 Talvez precisemos voltar a essa arte humana que é a lentidão. Nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são puro desperdício: dizem-nos que temos que valorizar resultados, apenas resultados” (José Tolentino Mendonça).


Prece

Pai amado, realiza por meio de nós a obra da verdade.
Mantém nossas mãos ocupadas em servir a todos.
Faze com que tua voz anuncie a todos o teu reino.
Faze com que nossos pés avancem pelos caminhos da justiça.
Guia-nos da ignorância para a luz.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

 

Amigo da vida

José Antonio Pagola

“Deus é amigo da vida”. Esta é uma das convicções básicas de Jesus. Por isso, discutindo certo dia com um grupo de saduceus, que negavam a ressurreição, confessou-lhes claramente sua fé: “Deus não é Deus de mortos, mas de vivos”.

Jesus não pode imaginar que para Deus suas criaturas lhe vão morrendo; que, depois de alguns anos de vida, a morte o vá deixando sem seus filhos e filhas queridos. Não é possível. Deus é fonte inesgotável de vida. Deus cria os viventes, cuida deles, defende-os, se compadece deles e resgata sua vida do pecado e da morte.

Provavelmente Jesus nunca leu o livro da Sabedoria, escrito por volta do ano 50 a.c. em Alexandria, mas sua mensagem acerca de Deus lembra uma página inesquecível desse sábio judeu que escreve assim: “Tu te compadeces de todos, porque tudo podes; fechas os olhos aos pecados dos homens para que se arrependam. Amas todos os seres e não detestas nada do que fizeste; se tivesses odiado alguma coisa, não a terias criado. Como conservariam sua existência se tu não os tivesses criado? Mas tu perdoas a todos porque são teus, Senhor, amigo da vida” (Sb 11,23-26).

Deus é amigo da vida. Por isso se compadece de todos os que não sabem ou não podem viver de maneira digna. Chega, inclusive, a “fechar os olhos” aos pecados dos homens para que descubram novamente o caminho da vida. Não detesta nada do que criou. Ama todos os seres; do contrário, não os teria feito. Perdoa a todos, se compadece de todos, quer a vida de todos, porque todos são seus.

Como não amamos com mais paixão a criação inteira? Por que não cuidamos da vida de todos os seres e não a defendemos mais energicamente de tanta depredação e agressão? Por que não nos compadecemos de tantos “excluídos” para os quais este mundo não é sua casa? Como podemos continuar pensando que nosso bem-estar é mais importante do que a vida de tantos homens e mulheres que se sentem estranhos e sem lugar nesta Terra criada por Deus para eles?

É incrível que não captemos o absurdo de nossa religião quando cantamos ao Criador e Ressuscitador da vida e, ao mesmo tempo, contribuímos para produzir fome, sofrimento e degradação em suas criaturas.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

 

Ressurreição e vida eterna

Pe. Johan Konings

O ano litúrgico está indo para o fim. Com o fim diante dos olhos, pensamos: depois da morte, que haverá? Ora, muita gente prefere nem pensar na morte e no que vem depois. Outros acreditam na reencarnação, uma maneira de tirar da morte seu caráter definitivo.

Bem antigamente, os israelitas não pensavam em vida pessoal depois da morte. Consolava-os a esperança de uma alta idade e da sobrevivência nos seus filhos e netos. Mas, por volta de 165 a.C., quando o rei da Síria perseguia os judeus e provocou a revolta dos Macabeus, muitos jovens morreram martirizados, sem deixar descendentes. Desde então, os judeus começaram a crer na ressurreição pessoal. A 1ª leitura narra um episódio dessa perseguição: o martírio dos sete irmãos.

Os mais conservadores, porém, os saduceus, que nunca iriam morrer num combate, caçoavam dessa fé; pior, achavam-na uma inovação perigosa. O evangelho conta que, para contrariar a pregação de Jesus, queriam provar que a ressurreição contradiz a lei de Moisés. A Lei estabelece que, quando um homem morre sem filhos, seu irmão ou parente próximo deve tomar sua mulher e gerar um descendente para seu falecido irmão (Dt 25,5-6). Assim poderia acontecer que uma mulher fosse esposa de sete maridos sucessivos. Como ficaria isso na ressurreição? Jesus responde: “Primeiro, de ressurreição vocês nada entendem. É algo totalmente diferente da vida aqui. Já não será preciso casar para continuar a vida nos descendentes, uma vez que a vida é eterna! E, segundo, vocês desconhecem os livros da Lei de Moisés, pois aí está que Deus se chamou ‘o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó’ (Ex 3,6). Ora, Deus não é um Deus dos mortos, mas dos vivos. Portanto, esses antepassados do povo estão com vida … “

Este assunto não se esgota em cinco minutos, mas para hoje vale a seguinte lição. Não pensemos a ressurreição como mero prolongamento desta vida aqui, com todas as suas complicações, como casar etc. Nem concebamos o além da morte como reencarnação, que seria como uma segunda chance no vestibular, sem mudança radical. A ressurreição é uma realidade totalmente nova, divina, livre das limitações da vida terrena. A “ressurreição da carne” é uma transformação radical, que tomará nossa “carne” (= existência humana) totalmente diferente. Diz Paulo (1 Cor 15,44) que o que era um corpo biopsicológico (“carnal”) será transformado num corpo “espiritual”, assumido no poder vivificador de Deus que chamamos o seu Espírito. Não é fácil imaginar isso, mas podemos pensar que a vida eterna é a consagração e confirmação do amor a Deus e ao próximo que tivermos vivido aqui na terra – a única coisa que levaremos para o além!


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Todas as reflexões foram retiradas do site franciscanos.org.br

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EVANGELIZAR, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Eucaristia e orientada pela animação bíblica, promovendo a catequese de inspiração catecumenal, a setorização e a juventude, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10), rumo ao reino definitivo.

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