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Cúria Diocesana

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33º Domingo do Tempo Comum

"Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome". (Evangelho segundo Lucas). "Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome". (Evangelho segundo Lucas). Fonte da imagem: https://franciscanos.org.br/vidacrista/wp-content/uploads/2019/11/pao_1711.jpg

“Não ficará pedra sobre pedra”: O desafio de ser Igreja na “era dos escombros”

Frei Gustavo Medella

“Em nome do Senhor Jesus Cristo, ordenamos e exortamos a estas pessoas que, trabalhando, comam na tranquilidade o seu próprio pão” (2Ts 3,12). No Brasil de hoje, atender ao apelo de São Paulo na Segunda Carta aos Tessalonicenses soa como privilégio. Já são quase 30 milhões de brasileiros desempregados ou subempregados sem nenhuma garantia ou segurança em relação ao trabalho. A situação de desalento e desamparo de quem não tem trabalho é mencionada pelo Papa Francisco, em sua Mensagem para o 3º Dia Mundial dos Pobres, celebrado neste domingo, quando o Santo Padre escreve: “Qualquer possibilidade que eventualmente lhes seja oferecida, torna-se um vislumbre de luz; e mesmo nos lugares onde deveria haver pelo menos justiça, até lá muitas vezes se abate sobre eles violentamente a prepotência. Constrangidos durante horas infinitas sob um sol abrasador para recolher a fruta da época, são recompensados com um ordenado irrisório; não têm segurança no trabalho, nem condições humanas que lhes permitam sentir-se iguais aos outros. Para eles, não existe fundo de desemprego, liquidação nem sequer a possibilidade de adoecer”.

Neste contexto, no Domingo em que se celebra a solidariedade e a partilha com aqueles que nada têm, às vésperas da Solenidade de Cristo Rei (24 de novembro), que encerra o ciclo do Ano Litúrgico, a Igreja tem o compromisso de se reafirmar como porta-voz da esperança desta multidão desassistida, garantido a eles a certeza de que devem “permanecer firmes a fim de ganhar a vida” (Cf. Lc 25,19).

No entanto, levar esta garantia é tarefa séria e exigente que demanda mais do que palavras bem elaboradas e discursos corretos e adequadamente fundamentados. Quando se depara com a admiração de seus conterrâneos diante de imponência e da beleza do Templo, Jesus os adverte: “Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (Lc 25,6). Não foi compreendido em sua provocação e, no decorrer do diálogo, chegaram a dele duvidar e debochar.

Nos dias do hoje, talvez tenhamos já chegado à “era dos escombros”. Pelo menos é o que se pode imaginar diante de tantos sinais de morte que se apresentam com insistência diante de nossos olhos. Levar esperança neste cenário exige desapego e coragem da parte da Igreja, que é a família dos filhos e filhas de Deus. É urgente o abandono de qualquer tentação ao triunfalismo ou ao apego a um status de poder e destaque que a alienam e a afastam da fidelidade ao Evangelho. É hora de sair pelas ruas, entre os escombros, sem medo, erguendo os caídos e consolando os aflitos. O momento é de deixar de lado todo e qualquer preciosismo, assim como os apegos mundanos e, a partir da pouca argamassa de esperança que ainda resta, reconstruir tantas casas que jazem feridas, desrespeitadas e ameaçadas: desde nossa Casa Comum à casa da humanidade que sente na pele as dores de um mundo que, parece, está desaprendendo a amar.

 

Jesus Cristo, Rei do universo, ano C 2019

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”.

  1. Primeira leitura: 2Sm 5,1-3

Eles ungiram Davi como rei de Israel.

O texto da primeira leitura lembra como Davi se tornou rei de Israel. O primeiro rei de Israel a ser ungido pelo profeta Samuel foi Saul (1Sm 10,1). Quando Saul caiu na desgraça por ter desobedecido às ordens de Deus (1Sm 15,16-23), o profeta Samuel ungiu a Davi como rei de Israel (1Sm 16,12-13). Com a morte de Saul, Davi foi ungido pela tribo de Judá como rei (2Sm 2,4) e, depois, reconhecido como rei também pelas tribos de todo o Israel. Na leitura de hoje são dadas as razões da escolha e unção de Davi como rei:

1º A tribos se apresentam a Davi em Hebron e dizem: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne”, isto é, somos teus irmãos. Reconhecem, portanto, que são parentes.

2º Recordam a decisiva liderança de Davi durante o reinado de Saul nas guerras de libertação contra os filisteus.

3º Reconhecem Davi como o escolhido do Senhor: “Tu apascentarás o meu povo Israel e serás o nosso chefe”. Davi fez uma aliança com eles, na presença do Senhor, e foi ungido com rei de todo Israel.

Davi foi pastor de ovelhas, antes de se tornar rei. Como pastor conduzia as ovelhas com muito cuidado para as fontes de água e as pastagens. Sabia defender as ovelhas contra animais ferozes ou ladrões. Qualidades importantes para cuidar do bem-estar do seu povo e defendê-lo contra os inimigos.

Hoje celebramos a festa de Cristo, Rei do Universo. Como rei, Jesus apresenta na sinagoga de Nazaré como seu plano o reinado de Deus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres…” (Lc 4,18). Fiel ao projeto do Reino de Deus, Jesus morre na cruz, coroado de espinhos (Evangelho).

Salmo responsorial

Quanta alegria e felicidade, vamos à casa do Senhor.

  1. Segunda leitura: Cl 1,12-20

Recebeu-nos no reino de seu Filho amado.

Na segunda leitura, o trecho da Carta aos Colossenses começa com uma ação de graças. Na primeira parte (v. 12-14), o Apóstolo reconhece que é do Pai a iniciativa da salvação, descrita como passagem das trevas à luz. “Por meio de seu Filho amado, temos a redenção/salvação e o perdão dos pecados”. O Pai nos tornou capazes de entrar em comunhão com ele, porque fez de nós filhos seus e herdeiros de sua luz. A segunda parte (v. 15-20) é um hino pleno de encanto e alegria com o primado absoluto de Cristo. No hino se explanam os motivos da ação de graças a Deus: Por meio de Cristo nos fez participantes da sua luz, isto é, de sua divindade; Cristo é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Por causa de Cristo, por meio dele e para ele foram criadas todas as coisas, visíveis e invisíveis. Cristo existe antes de todas as coisas, portanto, ele é Deus que sustenta a existência de todas as coisas. Como Igreja, nós somos o corpo e Cristo é a cabeça (1ª leitura: “somos teus ossos e tua carne”). Ele é o primeiro dos ressuscitados. O motivo deste plano maravilhoso que Deus tem para com toda a humanidade é expresso pela encarnação do Filho de Deus – “porque Deus quis habitar nele com toda a sua plenitude”. Por meio de Cristo, o Pai quis reconciliar consigo não só a humanidade, mas todos os seres, pelo sangue da sua cruz. Eis porque Cristo é um rei crucificado, coroado de espinhos.

Aclamação ao Evangelho: Mc 11,9.10

           É bendito aquele que vem vindo, que vem vindo em nome do Senhor;

            e o Reino que vem, seja bendito, ao que vem e a seu Reino, o louvor.

  1. Evangelho: Lc 23,35-43

Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado.

O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta Jesus crucificado entre dois malfeitores, zombado pelos chefes do povo, pelos soldados romanos e até por um dos malfeitores condenados ao mesmo suplício. As zombarias dos chefes do povo se referem a títulos religiosos como “Cristo (Messias) de Deus” e “o Escolhido”. Quando Lucas escrevia seu evangelho estes dois títulos faziam parte da fé cristã: Pedro confessa que Jesus é “o Cristo de Deus” (9,20); na transfiguração de Jesus uma voz se faz ouvir do meio da nuvem, dizendo: “Este é o meu Filho, o Escolhido, escutai-o” (9,35). Acreditar que Jesus crucificado entre malfeitores era o Messias esperado, era um escândalo para os judeus e uma loucura para os gregos (1Cor 1,23; At 17,32-33). O motivo de condenação de Jesus pelo tribunal dos judeus (Sinédrio) era o título Messias que lhe davam e porque se dizia “Filho de Deus”. A zombaria dos soldados romanos gira em torno ao título “rei dos judeus”. Foi essa a acusação que o Sinédrio apresentou diante de Pilatos, governador romano. Pilatos, depois de interrogar a Jesus sobre se era rei dos judeus, ficou convencido de sua inocência. Mesmo assim, forçado pelos chefes, juízes e o povo, acabou condenando Jesus ao suplício da cruz, sentença que foi fixada acima de sua cabeça: “Este é o rei dos judeus”. O Messias era o descendente de Davi esperado como salvador do povo, função atribuída também ao rei. Os chefes dos judeus e os soldados ridicularizavam Jesus, suspenso na cruz, porque era incapaz de salvar o povo: Se és o Cristo de Deus, o Escolhido… se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

Lucas é o único dos evangelistas a registrar o diálogo dos dois malfeitores com Jesus. Um deles retoma o insulto dos chefes dos judeus: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós”! Outro o repreende, reconhecendo que eles dois estão sofrendo o suplício da cruz porque são culpados, mas Jesus é inocente. E acrescenta: “Jesus, lembra-te de mim, quando chegares ao teu reinado”. Reconhece que Jesus é um rei que salva. Em resposta Jesus lhe diz: “… ainda hoje estarás comigo no Paraíso”, isto é, nos jardins divinos de Jesus Cristo, Rei do Universo.

 

Um estilo para uma lição

Frei Clarêncio Neotti

Lembremos que o Evangelho de hoje está escrito dentro de um estilo chamado ‘apocalipse’, bastante comum desde dois séculos antes de Cristo até um século depois. Assim como podemos passar uma mensagem por meio de poesia, teatro, novela, os povos antigos passavam uma mensagem também por meio do apocalipse. Era um gênero literário, que lançava mão de imagens fortes, como o cair do sol, maremotos, feras, montanhas que se derretem como água, visões de anjos.

Esse gênero literário era usado para ensinar uma lição sobre o futuro, especialmente o possível fim dos tempos, tema que preocupava todas as culturas, inclusive a bíblica. Ao lê-lo, portanto, não devemos ir atrás de seu sentido literal, mas procurar qual o significado do símbolo. Por exemplo, pode estar escrito sol. Mas sol significa luz; luz significa segurança (porque no escuro facilmente se tropeça). Cair o sol, então, significa não ter mais nenhuma segurança. Levado à linguagem religiosa, que descreve o fim dos tempos – a morte -, cair o sol vai significar que, na hora da morte, estamos sem nenhuma das proteções que tivemos em vida (riquezas, amigos, glória). Estaremos sós, sem contar com ninguém, a não ser Deus; nele devemos confiar, porque Deus nos será a única segurança, quando a morte chegar.

 

As turbulências se tornaram frequentes

Esses tempos difíceis

 Frei Almir Guimarães

A grandeza do homem está naquilo que lhe resta precisamente quando tudo o que lhe dava algum brilho exterior se apaga. E o que lhe resta? Os seus recursos interiores e nada mais.

José Tolentino Mendonça

Libertar o Tempo, p.29

Os tempos difíceis não devem ser tempos para as lamentações, a nostalgia ou o desânimo. Não é hora da resignação, da passividade ou da omissão. A ideia de Jesus é outra: em tempos difíceis “tereis ocasião de dar testemunho”. É precisamente agora que precisamos reavivar entre nós o chamado a ser testemunhas humildes, mas convincentes, de Jesus, de sua mensagem e de seu projeto.

Pagola, Lucas, p. 326-327

♦ Chegamos ao final do ano litúrgico de 2019. No primeiro domingo de dezembro voltaremos a percorrer as sendas do advento que nos levarão ao presépio do Menino das Palhas e à contemplação do maravilhoso mistério da encarnação do Verbo de Deus. As leituras deste domingo falam de perseguições, de tempos difíceis, de turbulências. Estamos sendo convidados a refletir sobre o final dos tempos e as anunciadas tribulações descritas num estilo apocalíptico. Ficamos cheios de consolo, no entanto, quando ouvimos dizer que, em momentos de desafio e de perseguição por causa de nossas convicções, o Senhor há de nos dar palavras acertadas. Não perderemos um só fio de cabelo. Somos convidados a perseverar e ter paciência.

♦ Não podemos aqui elencar todas as transformações, mudanças, mutações e turbulências que estão a nos afetar de modo especial nas últimas décadas. Os que fizemos boa parte do caminho temos a impressão que as coisas se aceleraram. Tudo muda e se transforma loucamente em termos de tecnologia, na busca da identidade do ser homem e ser mulher, na educação dos filhos, na concepção dos valores, no jeito de educar, no casamento. Nós, cristãos, ficamos preocupados com a transmissão da fé às novas gerações e com a distância que muitos foram tomando da fé cristã e, ao mesmo tempo com desvios morais mais ou menos graves, tomadas de posição de ultradireita ou de ultraesquerda.  Parecem terremotos como aqueles descritos nas páginas dos Evangelhos agora proclamados.

♦ Que fazer? Ter espírito crítico. Cultivar o hábito de discernir. Nada de embarcar em canoas que possam estar furadas. Não alimentar nostalgia do passado que pôde também ter tido deficiências, nem querer começar tudo de zero. Em todos os campos. Não andar atrás da primeira novidade que aparece. Nada de ingenuidade. Discernir. Tentar descobrir aquilo que constrói o ser humano, o que respeita sua dignidade, o que contribui para diminuir desigualdades, o que minora as dores, o que nos permite saborear o fato de viver, o que nos torna santos.

♦ Focando mais de perto a questão da vivência cristã parece importante fixarmo-nos no essencial, como em tudo aliás. O essencial não são tradições, costumes e visões que nos apequenam. Sair da superfície e chegar ao fundo. Muitos, em nossos dias, vivendo e participando das turbulências se dizem perdidos e com vontade de tudo abandonar. Então:

>>Nada de uma religião cerebral, busca de um Deus frio. Antes de mais nada prestar atenção nessa legítima saudade de Deus que experimentamos. Essa sede de plenitude. Essa vontade de achegarmo-nos a um Tu que nos ama, nos atrai, solicita uma resposta pessoal. Buscar áreas verdes. Desvencilharmo-nos de nós mesmos. Karl Ranher advertia, em meados do século  passado, que o cristão do amanhã seria um místico ou nada;

>>Rever a maneira como rezamos. O movimento dos lábios precisa acompanhar os reclamos de um ser pobre que se lança no Mistério. Positivamente precisamos nos tornar amigos de Deus, para além das prescrições e observância dos ritos.

>> Procurar reencontrar nosso eu mais profundo, nosso interior, a plataforma interior a partir da qual se constrói a pessoa. Milan Kundera: “Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo”. Tolentino fala da necessidade de resgatar nossa relação com o tempo. Precisamos reaprender o aqui e agora da presença.

>> Concentrar-se no essencial. Cada geração cristã tem seus próprios problemas, dificuldades e buscas. Não devemos perder a calma, mas assumir nossa responsabilidade. Não se pede nada que esteja acima de nossas forças. O essencial continua sendo um imenso senso de solidariedade e bondade e um decidido empenho de ouvir a voz do Senhor.  Nos dias de claridade e nas noites escuras sem estrelas.

>> O trecho do Evangelho hoje proclamado fala de perseverança e paciência. Os pais precisam paciência para entender as opções que filhos parecem assumir, os sacerdotes necessitam  descobrir um meio de fazer com seus fiéis cresçam de fato e não enveredem pela trilha do intimismo e das emoções ditas místicas; os governantes haverão de  paciente e perseverantemente   descobrir meios para que não falte trabalho, especialmente para  os jovens. Dar tempo ao tempo.  Apressado come cru. Perseverança e paciência.

>> Ser capaz de acolher as surpresas do Senhor. Vivíamos a vida de um jeito, numa Igreja diferente, nos tempos das coisas antigas. Deus se nos manifestava numa certa estabilidade, talvez meio parada.  Hoje ele nos surpreende na globalização, na necessidade acolher os refugiados, no sermos uma Igreja em saída, num mundo que não esperávamos viver.

>> Pode-se dizer que o antídoto da crise civilizatória que vivemos é o empenho de humanizar os humanos que, aos poucos, foram perdendo sua essência: a alegria de viver, a redescoberta da confiança, o cuidado de escutar e enxergar.  Precisamos, novamente, fazer a experiência do espanto diante das coisas simples:  um jantar em família, atenção para um colega de trabalho revoltado com a vida, da alegria um cafezinho tomado com um pessoa que mal conhecemos  no instante.

>> Cristãos que somos necessitamos urgentemente de ler e reler, meditar e viver o Sermão da Montanha de Mateus (5-7). Revestirmo-nos dos sentimentos que animaram o Senhor Jesus.


Texto seleto

Os tempos estão mudando. E os tempos de mudança são inspiradores, não o esqueçamos. O inverno conspira para que surjam inesperadas flores. “O que está sendo dito para nós?” é a pergunta necessária. O que esta avalanche cultural nos revela? De fato, a grande crise, a mais aguda, não é sequer os acontecimentos, decisões e deserções que nos trouxeram aqui. Dia a dia sobrepõe-se um problema maior:  a crise da interpretação.  Isto é, a falta de um saber partilhado sobre o essencial, sobre o que nos une, sobre o que pode alicerçar,  para cada um enquanto indivíduo e para todos  enquanto comunidade, os modos possíveis de nos reinventarmos (Tolentino, A Mística do Instante, p. 123)


Oração

Confiarei…

ainda que me perca em teus caminhos,

ainda que não encontre meu destino,

confiarei…

Confiarei…

ainda que não entenda tuas palavras,

ainda que teu olhar me queime,

confiarei…

Eu te seguirei,

duvidando e andando ao mesmo tempo

e te amarei,

tremendo e amando ao mesmo tempo.

 

Dar por terminado

José Antonio Pagola

É a última visita de Jesus a Jerusalém. Alguns dos que o acompanham admiram-se ao contemplar “a beleza do templo”. Jesus, pelo contrário, sente algo muito diferente. Seus olhos de profeta veem o templo de maneira mais profunda: naquele lugar grandioso não se está acolhendo o reino de Deus. Por isso, Jesus o dá por terminado: “Quanto a estas coisas que contemplais, virão dias em que não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído”.

De repente, as palavras de Jesus dissiparam o autoengano que se vive em torno do templo. Aquele edifício esplêndido está alimentando uma ilusão falsa de eternidade. Aquela maneira de viver a religião sem acolher a justiça de Deus nem ouvir os que sofrem é enganosa e perecível: “Tudo isso será destruído”.

As palavras de Jesus não nascem da ira. Menos ainda do desprezo ou do ressentimento. O próprio Lucas nos diz um pouco antes que, ao aproximar-se de Jerusalém e ver a cidade, Jesus “pôs-se a chorar”. Seu pranto é profético. Os poderosos não choram. O profeta da compaixão sim.

Jesus chora diante de Jerusalém porque ama a cidade mais que ninguém. Chora por uma “religião velha” que não se abre ao reino de Deus. Suas lágrimas expressam sua solidariedade com o sofrimento de seu povo e, ao mesmo tempo, sua crítica radical àquele sistema religioso que põe obstáculo à visita de Deus: Jerusalém – a cidade da paz! – “não conhece o que leva à paz”, porque “está oculto aos seus olhos”.

A atuação de Jesus lança não pouca luz sobre a situação atual. Às vezes, em tempos de crise, como os nossos, a única maneira de abrir caminhos à novidade criadora do reino de Deus é dar por terminado aquilo que alimenta uma religião caduca, sem produzir a vida que Deus quer introduzir no mundo.

Dar por terminado algo que foi vivido de maneira sagrada durante séculos não é fácil. Não se faz isso condenando os que querem conservá-lo como eterno e absoluto. Faz-se “chorando”, porque as mudanças exigidas pela conversão ao reino de Deus trazem sofrimento a muitos. Os profetas denunciam o pecado da Igreja chorando.

 

O fim de uma era

Pe. Johan Konings

Com o ano 2000, o fim do mundo não chegou… Nem com o ataque contra o centro comercial de Nova York em 2001. No evangelho, Jesus anuncia a destruição de Jerusalém e do seu magnífico templo. Para muitos judeus, dizer isso era a mesma coisa que anunciar o fim do mundo. Jesus, porém, não considera isso o fim do mundo, mas um sinal de que tudo passa, mesmo o sistema religioso mais venerado, a civilização mais preciosa. Só não passa o que ele ensina por sua vida e sua palavra. “Minha palavra não passará”. Para os cristãos, as vicissitudes da queda de Jerusalém significam um tempo de provação, mas também de testemunho. Na firmeza da fé, ganharão a vida eterna.

Ora, não podemos negar que estamos seriamente confrontados com a possibilidade do fim de uma civilização. As armas de guerra, a poluição, a depredação da natureza, a incontrolabilidade da própria ciência… são bombas-relógio que podem explodir a qualquer hora. Contudo, não são razão de desespero. O cristão há de ver em tudo isso um desafio para a sua firmeza. “O mundo pode cair aos pedaços, mas eu não vou desistir daquilo que Jesus me ensinou”, assim é que devemos falar.

Certos cristãos, de mentalidade muito individualista, dizem: “A sociedade como tal já não pode ser salva; o único que podemos fazer é cada qual salvar sua alma”. Tal atitude é irresponsável. Exatamente diante da ameaça do colapso de nossa civilização é que devemos engajar-nos para construir desde já o início de uma nova civilização, mais justa e mais fraterna, mais respeitosa também para com as possibilidades que Deus colocou nas mãos do ser humano. Assim fizeram os primeiros cristãos. Diante dos ameaçadores sinais dos tempos, não cruzaram os braços (cf. a 2ª leitura), mas construíram as suas comunidades que, depois da desintegração do mundo de então, se tornaram semente de uma nova era aqui na terra, além de abrirem as portas para a vida com Deus na eternidade.

Conta-se de S. João Berchmans o seguinte: enquanto, numa hora de recreio, estava jogando bilhar, perguntaram-lhe o que faria se um anjo o avisasse de que iria morrer já.

Respondeu: “Continuar jogando”. Do mesmo modo devemos continuar a construção do Reino de Deus encarnado em nossa história, mesmo se existem sinais de que nosso mundo pode estar chegando ao fim. Seja como for, aconteça o que acontecer, Deus quer nos encontrar ocupados com seu Reino neste mundo e firmes no testemunho de Jesus.

Todas as reflexões foram tiradas do site franciscanos.org.br

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