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Cúria Diocesana

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Festa da Sagrada Família

“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. (Evangelho segundo Mateus). “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. (Evangelho segundo Mateus). Fonte da imagem: https://franciscanos.org.br/vidacrista/wp-content/uploads/2019/12/sagrada_familia2912.jpg

A celebração de um Deus em fuga

Frei Gustavo Medella

“Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito. Porque Herodes vai procurar o menino para mata-lo” (Mt 2, 13b). Na Sagrada Família, Deus se coloca em fuga e mostra o quão se torna difícil para o divino habitar onde o egoísmo, a sede de poder, a prepotência e a ganância se tornam lei. Não se trata de uma espécie de “derrota” da Onipotência, mas a insistência do Senhor em acreditar num caminho pacífico de conversão para seus filhos e filhas. Esta postura humilde e abnegada faz parte do projeto da Encarnação.

Celebrar a Sagrada Família significa renovar a disposição de se colocar em movimento e vencer o medo que sufoca as esperanças e subtrai o ânimo de quem decide apostar na construção de um mundo diferente. A ousadia de José e Maria que, sob a orientação do anjo, se colocam num desafiante percurso de itinerância, vem nos ensinar que, na provisoriedade dos esquemas humanos, habita uma força singela e poderosa capaz de guiar os passos de quem se confia aos desígnios de Deus.

Que, ao celebrar a Sagrada Família, renovemos, no profundo do nosso ser, a coragem de, mesmo diante de uma cultura de ódio, de morte e de destruição, colocar-nos corajosamente na contracorrente, seguindo as orientações de São Paulo em sua Carta aos Colossenses: “Revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também. Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição” (Cl 3, 12b-14).

 

Sagrada Família, ano A

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

 Oração do dia: “O Deus de bondade, que nos destes a Sagrada Família como exemplo, concedei-nos imitar em nossos lares as suas virtudes, para que, unidos pelos laços do amor, possamos chegar um dia às alegrias da vossa casa”.

  1. Primeira leitura: Eclo 3,3-7.14-17a

Quem teme o Senhor, honra seus pais.

O tema da 1ª leitura está centrado no relacionamento ideal dos filhos com seus pais. A reflexão se baseia no 4º mandamento, “honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Ex 20,12). Apoia-se também na tradição sapiencial de Israel e dos povos vizinhos. O ensino sapiencial é dado pelo sábio a seus discípulos ou pelo ancião da família a seus filhos. Por isso os conselhos se dirigem mais aos filhos que aos pais. Um relacionamento de respeito e de amor dos filhos com os pais traz e bênção de Deus, que é uma vida feliz. Ao contrário, o mau relacionamento na família traz a desgraça e a maldição. O texto termina exortando os filhos para que honrem e cuidem de seus pais, especialmente na velhice. Segundo o sábio, esse cuidado amoroso dos pais idosos servirá como reparação dos pecados cometidos contra seus pais.

Salmo responsorial: Sl 127

Felizes os que temem o Senhor e trilham seus caminhos.

  1. Segunda leitura: Cl 3,12-21

A vida da família no Senhor.

Na exortação, Paulo se dirige em primeiro lugar à Igreja (v. 12-17), composta por famílias cristãs. Em seguida, a cada família cristã. Desde o batismo, os cristãos são amados por Deus, santos eleitos. Em consequência, devem revestir-se das virtudes de Cristo: misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência. Para superar divergências na comunidade, recomenda-se suportar uns aos outros e perdoar-se mutuamente (Pai Nosso!). Antes de tudo, é o amor mútuo que une os cristãos na comunidade. Assim o cristão estará unido a Cristo e aos irmãos, formando um único corpo. Esta união de amor se fortalece pela palavra de Cristo, pela catequese e pela admoestação. Deus quer habitar no coração das pessoas, pois é do coração que brota a liturgia, os salmos, os cânticos de louvor e gratidão e todas as boas obras serão feitas em nome do Senhor Jesus Cristo.

As admoestações dirigidas à família são válidas ainda hoje: as mulheres sejam solícitas “como convém no Senhor”; os maridos devem amar suas esposas, evitando grosserias; os filhos sejam obedientes em tudo a seus pais, “pois isso é bom e correto no Senhor” (Evangelho). A autoridade dos pais seja exercida com mansidão, para não intimidar nem desanimar seus filhos. A família cristã se orienta pela sabedoria recebido dos pais, mas é fortalecida no amor de Cristo, que quis morar na Sagrada Família e era obediente a Maria e José (cf. Lc 2,51).

Aclamação ao Evangelho

Que a paz de Cristo reine em vossos corações

e ricamente habite em vós sua palavra.

  1. Evangelho: Mt 2,13-15.19-23

Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito.

No domingo entre o Natal e o Ano novo é sempre lembrada a Sagrada Família de Jesus, Maria e José. As duas primeiras leituras são as mesmas dos anos B e C. No ano A o Evangelho é tirado de Mateus. Para descrever a fuga da Sagrada Família para o Egito e seu retorno para a terra de Israel, Mateus faz um paralelo com a história de Moisés, o libertador de Israel do Egito. O faraó mandou matar todos os meninos hebreus recém-nascidos, então a mãe de Moisés expôs seu filho numa cesta de palha nas margens do rio Nilo. Ali a filha do faraó costumava banhar-se; vendo o lindo bebê, teve pena dele e o adotou como filho. Moisés foi criado pela própria mãe e, depois, no palácio do faraó. Já adulto, Moisés tenta libertar seus irmãos hebreus da escravidão, mas é perseguido pelo faraó e foge para o deserto. Quando morre o faraó opressor dos hebreus, Deus envia Moisés de volta ao Egito para libertar Israel da escravidão. Da mesma forma, quando Herodes sente-se ameaçado por um menino nascido em Belém, do qual que se dizia que seria o futuro rei, manda matar todos os meninos ali nascidos até a idade de dois anos. Um anjo anuncia a José para fugir às pressas com o menino e sua mãe para o Egito e Jesus é salvo da morte. Informado pelo anjo da morte de Herodes, José recebe a ordem de voltar a Israel. Para mostrar que a fuga para o Egito e o retorno a Israel refazem a história da libertação dos hebreus do Egito, Mateus conclui: “Assim aconteceu para que se cumprisse a palavra do profeta: ‘Do Egito chamei o meu Filho’”. Antes Israel era o filho. Agora Jesus é o “Filho amado” (Mt 3,17). Por fim, a Sagrada Família se estabelece em Nazaré. E Mateus conclui: Assim aconteceu para cumprir o que os profetas falaram: “Ele será chamado Nazareno”. Esta frase liga a história da infância com a vida pública de Jesus e é um prenuncio de sua futura morte. A sentença de morte, pregada na cruz, dirá: “Jesus Nazareno, o rei dos Judeus” (Jo 19,19; Mt 27,37).

A família de Nazaré é um modelo para nossas famílias pobres, desempregadas, expulsas de suas casas, obrigadas migrar para outras cidades ou países em busca de segurança e educação de seus filhos. Hoje, milhões de famílias, ameaçadas pela fome causada pelo aquecimento global ou pela violência político-religiosa são forçadas a migrar em busca de trabalho, segurança e paz em outros países. É numa realidade conflitiva semelhante que o Filho de Deus se encarnou. Maria e José tiveram que deslocar-se para o recenseamento, de Nazaré a Belém, onde Jesus nasceu numa estrebaria. A Sagrada Família foi obrigada a migrar para o Egito, fugindo da ira do cruel rei Herodes. Jesus viveu numa família pobre, humilde e piedosa, ameaçada pela violência, mas confiante na proteção divina.

 

Um Herodes cruel vive dentro de nós

Frei Clarêncio Neotti

Esse episódio do Evangelho, lido na festa da Sagrada Família, tem também o sentido de mostrar uma família do povo, sujeita a toda espécie de sacrifícios e tribulações. Uma família que permanece unida nas dificuldades e nas desgraças. Uma família que, apesar de santa e agradável a Deus, padece, angustia-se, sofre. É visível a lição de que o sofrimento não é, por si, castigo de pecado. Desde a infância, Jesus passa pelo sofrimento, sobretudo pelo sofrimento causado pela estupidez e cobiça dos outros. Se olharmos para as nossas angústias, grande parte delas tem sua nascente na maldade alheia. Se respondermos com nossa maldade, estupidez e ganância, tornamo-nos fonte de sofrimento para os outros. Enquanto não compreendermos isso, não construiremos o mundo da paz. Herodes e Arquelau temos também hoje. Precisamos é de Josés e Marias, que não respondam com violência à violência no meio da qual vivemos.

Isso vale também para o dia a dia dentro de casa. Todos temos a experiência de que nem sempre a convivência é festiva. Nem sempre o conflito normal das gerações é fácil. Nem sempre a autoridade dos pais e o aprendizado dos filhos convergem. Se olharmos com sinceridade para nós mesmos, encontraremos um Herodes cruel, morando em nosso coração, e bem ativo. A criatura humana tem dificuldade de compreender que não criam espírito fraterno e espírito familiar, impondo-os pela força ou moldando-os segundo nosso modo de pensar, crer e fazer. Como gosta de repetir o Papa Francisco, caminhar juntos exige amor.

 

Família: urgência das urgências

Frei Almir Guimarães

Dou graças a Deus porque muitas famílias, que estão bem longe de se considerarem perfeitas, vivem no amor, realizam sua vocação, e continuam caminhando, embora caiam muitas vezes ao longo do caminho.

Papa  Francisco

Domingo da Sagrada Família Jesus, Maria e José.  O Altíssimo nasceu e cresceu numa família. Quando nos referimos à família fechamos os olhos e tentamos evocar nossa própria família. Coisas   simples que foram se realizando:  a mãe e o pai, um homem e mulher que se encontraram e resolveram fazer história juntos, a casa, os quartos, o balanço no quintal, o pé de ameixas, a galinha com seus pintinhos, as hortênsias, o cheiro forte de café, a chegada do Papai Noel, a visita do tio e da tia, o enterro do vô com bigode ao jeito dos portugueses.   Família com suas luzes e sombras. “O futuro da humanidade passa pela família (João Paulo II).

Antes de tudo sabemos que o casal não está feito no dia do casamento.  Uma realidade em construção. Não é bom que o homem esteja só.  Companheiros, de mãos dadas, desbravando a história, dias de sol e jornadas de densa cerração. Vontade jogar tudo para o ar.  Olhar para frente, atentos aos ajustes, não jogando lixo para debaixo do tapete.   Construção de uma  conjugabilidade. Unidade na diversidade. Lentamente, belamente, persistentemente. O casal  é  uma obra de arte.

Ele com sua história, ela com sua trajetória.  Ela e ele, oriundos um e outro de família marcada por carinho e delicadezas ou gerados de qualquer jeito, menino e menina marcados pelo negativo, pela violência, por abusos de todos os jeitos.  Um formado pelo contato com a fé cristã,  já tendo até mesmo    feito experiências de profunda  intimidade com Deus  e o outro  que nunca  ouviu falar das coisas da fé, tendo levado uma  vida toda atrapalhada e  desajeitadamente faz o sinal da cruz, Agora juntos. Quanta garra será necessária!!!  Conversas,  sinceridade, amor profundo,  dialogo, respeito pelas lentidões.

Esses dois são colaboradores da obra da criação.  Os amantes se tornam pais.  Criam uma célula de amor e de dedicação.  Comunidade de vida e de amor. Vivendo no meio do mundo, trabalhando, vivendo a vida como ela é,  sempre tendo como referência a casa, o casal, os filhos… sem viver um “familismo”, quer dizer um grupo fechado, a família  convive com outras famílias e juntas elaboram estratégias para poderem educar os filhos, tirar deles o melhor que  a vida ali depositou.  Os pais se recusam a colocar coisas antigas e ultrapassadas em suas cabeças, mas querem que sejam homens e mulheres de pé, seres capazes de conviver com os outros,  vacinados contra a indiferença para com os outros e a peste do individualismo e a filosofia do descarte.

Presença, testemunho, coragem para viver, ânimo para começar tudo de novo, capacidade da correção mútua,  promoção de encontros com celulares desligados e em que olhos encontram outros olhos e não apenas a telinha do celular.  Vivência de relacionamentos sem pressa, com a tática da lentidão. Relacionamentos gratuitos.  “Vivemos num mundo em          que tudo precisa ser caucionado por uma qualquer utilidade e isso nos desvia de um viver gratuito, disponível e autêntico.  Só a inutilidade nos dá acesso à polifonia da vida, na sua variedade,  nos seus contrastes, na sua realidade densa, na sua surpresa e na sua inteireza” (Tolentino).

Pai e mãe que vivam alegremente  o discipulado cristão. Nada de pieguice.  Força do Evangelho. Pessoas que vão escrevendo suas histórias a partir da história de Jesus. Nada de catequese nocional e seca, mas multiplicações de encontros com Jesus vivo:  na oração à mesa, no aprendizado da partilha, na atenção a ser prestada aos mais abandonados,  no testemunho discreto e sem alarde.  Família que vive no mundo, mas que não é do mundo.  Família alegre, espaço onde as pessoas se sentem à vontade.  Não uma camisa de força, mas  um espaço de encontros humanizadores. Comunidade de vida e de amor.

Família onde as pessoas se exercitam na arte da convivência, da solidariedade e da ajuda mútua. Uns se interessando pelos outros, de graça, sem interesses pequenos. Solidariedade em casa, com os avós doentes, com os filhos que escorregam nas ladeiras da vida, com os vizinhos que precisam de sopa quente.

Família cristã, fincada no sacramento do matrimônio, marido e mulher sinais do amor de Cristo pela Igreja onde se respira  o espírito das bem-aventuranças,  o gesto do lava-pés e o espírito do  Hino da Caridade  de Paulo aos  Coríntios.  Família tal que possa ser  a melhor preparação para o casamento dos filhos. Um Igreja em casa, doméstica.


Texto para reflexão

 Bebendo juntos o melhor vinho

A história de uma família está marcada por crises de todo o gênero, que são parte também de sua dramática beleza. É preciso ajudar a descobrir que uma crise superada não leva a uma relação menos intensa, mas a melhorar, sedimentar e maturar o vinho da união. Não se vive juntos para ser cada vez menos feliz, mas para aprender a ser feliz de maneira nova, a partir das possibilidades que abre uma nova etapa. Cada crise implica uma aprendizagem, que permite incrementar a intensidade da vida comum, ou pelo menos encontrar um novo sentido para a experiência matrimonial. É preciso não se resignar de modo algum a uma curva descendente, a uma inevitável deterioração, a uma mediocridade que se tem de suportar.  Pelo contrário,  quando se assume o matrimônio  como uma tarefa  que implica também superar obstáculos, cada crise é sentida como uma ocasião a chegar  beber,   juntos, o  vinho melhor (…). Cada crise  esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração”.

Papa  Francisco,  A alegria do amor,  n. 232


Prece de ação e graças

Senhor, pela chuva e pelo sol,

pelo sorriso das crianças,

pelos cabelos brancos dos idosos,

pelas mãos calejadas do agricultor,

nós te damos graças.

Pela fertilidade da terra,

pela generosidade das fontes,

pela serenidade das noites de luar,

nós te damos graças.

Pelos amigos  que cruzaram nossos caminhos,

pelos dons que recebemos a cada instante,

pelos  que enxugaram nossas lágrimas,

nós te damos graças.

Pelas dores experimentadas com serenidade,

]pelas cruzes abraçadas,

pelas preocupações  vividas com esperança,

nós te damos graças.

Pelos médicos que se dobram  sobre os enfermos,

pelos cautelosos e  sábios cirurgiões,

pelos enfermeiros que velam a noite nos hospitais,

nós te damos graças.

Pelo tempo da vida e pelo ano que passou,

pelos amores e dissabores,

pela ofensa que nos foi perdoada,

nós te damos  imensas e infinitas graças,

Senhor grande e belo, por  Cristo. Amém.

 

Deus encarnado

José Antonio Pagola

O Natal nos obriga a revisar ideias e imagens que temos habitualmente de Deus, mas que nos impedem de aproximar-nos de seu verdadeiro rosto. Deus não se deixa aprisionar em nossos esquemas e moldes de pensamento. Não segue os caminhos que nós lhe traçamos. Deus é imprevisível.

Nós o imaginamos forte e poderoso, majestoso e onipotente, mas Ele se nos apresenta na fragilidade de um menino, nascido na mais absoluta simplicidade e pobreza. Nós o colocamos quase sempre no extraordinário, no prodigioso e no surpreendente, mas Ele se nos apresenta no cotidiano, no normal e no ordinário. Nós o imaginamos grande e longínquo, e Ele se nos torna pequeno e próximo.

Não. Este Deus encarnado no menino de Belém não é o que nós teríamos esperado. Não está à altura do que nós teríamos imaginado. Este Deus nos pode decepcionar. No entanto, não é precisamente deste Deus próximo que precisamos junto de nós? Não é esta proximidade ao humano o que melhor revela o verdadeiro mistério de Deus? Não se manifesta na debilidade deste menino sua verdadeira grandeza?

O Natal nos lembra que a presença de Deus nem sempre corresponde às nossas expectativas, porque Ele se nos apresenta onde nós menos o esperamos. Certamente devemos procurá-lo na oração e no silêncio, na superação do egoísmo, na vida fiel e obediente à sua vontade, mas Deus pode apresentar-se a nós quando quer e como quer, inclusive no mais ordinário e comum da vida.

Agora sabemos que podemos encontrá-lo em qualquer ser indefeso e fraco que precisa de nossa acolhida. Ele pode estar nas lágrimas de uma criança ou na solidão de um ancião. No rosto de qualquer irmão podemos descobrir a presença desse Deus que quis encarnar-se no humano.

Esta é a fé revolucionária do Natal, o escândalo maior do cristianismo, expresso de maneira lapidar por Paulo: “Cristo, apesar de sua condição divina, não se apegou à sua igualdade com Deus; pelo contrário, despojou-se de sua categoria e assumiu a condição de servo, fazendo-se um entre tantos e apresentando-se como simples homem” (Fl 2,6-7).

O Deus cristão não é um deus desencarnado, longínquo e inacessível. É um Deus encarnado, próximo, vizinho. Um Deus que podemos tocar de certa maneira sempre que tocamos o humano.

 

A família vista à Luz de Jesus

Pe. Johan Konings

Em nossa sociedade, a família é um emaranhado de problemas: falta de habitação e orçamentos, dificuldades internas. A própria estrutura familiar tornou-se problemática. Muitos não veem sentido na estrutura familiar. As famílias se desfazem com facilidade. Em breve a família poderá deixar de ser um problema, porque já não existirá. A festa de hoje nos convida a refletir sobre a família à luz do Natal, tomando como ponto de referência a família na qual nasceu Jesus. As duas primeiras leituras oferecem conselhos para a vida familiar.

O sábio judeu (1ª leitura) troca em miúdos o mandamento de “honrar pai e mãe”. Paulo, na 2ª leitura, descreve a paz e a união que o amor que é o do Cristo, em todas as direções (esposa-marido e vice-versa, filhos-pai e vice-versa).

Mais ainda que esses textos, o evangelho nos leva a valorizar a família, ao narrar a migração da família de Nazaré. Era uma família migrante, em consequência das ambições dos poderosos: o recenseamento ordenado pelo imperador romano e a perseguição deflagrada por Herodes, o Grande, que tinha medo de uma criancinha, porque poderia colocá-lo na sombra… Mas José cuida de oferecer sempre um lar a Jesus. Foge ao Egito, para depois voltar a Nazaré. Até nisto, Jesus “cumpre as Escrituras”, pois Os 11,1 diz que Deus chama; “seu filho” (o povo de Israel) do Egito.

Jesus se identifica com o antigo povo migrante, que volta da terra do Egito, para a terra que Deus lhe quer dar. Jesus se identifica também com as famílias migrantes de hoje, oprimidas, expulsas, acampadas, faveladas, quase sem condições de vida familiar, em consequência da cobiça dos que querem tudo para si. Também para estas famílias vale a boa-nova: a solidariedade de Cristo e a santificação da família como missão da Igreja.

Daí as exigências que se fazem à sociedade: empenho por uma dignidade e estabilidade mínima no lar. A Sagrada Família, migrando de um lugar para outro, reclama “uma Nazaré para todos”. Também gente pobre é “gente de família”. Exigências também da parte do indivíduo: amor, carinho, respeito enquanto membro da família. Desenha-se assim a missão da família: ser uma célula de vida e amor, mas também assumir sua responsabilidade na luta para que isso seja materialmente possível.

À sociedade como tal e a todos os seus membros cabe respeitar e proteger a estabilidade e dignidade da família, ajudá-la a realizar sua vocação e a encontrar moradia e trabalho, a educar os filhos e cuidar dos pais idosos, numa palavra, a cumprir a sua missão. Só no quadro de uma sociedade que seja justa para com a família – uma sociedade que “repare o tecido social desfeito” – pode-se pensar em reencontrar o sentido da família, para o bem de todos.

Todas as reflexões foram tiradas do site franciscanos.org.br

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