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Cúria Diocesana

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Segundo domingo do Tempo Comum

"Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo". (Evangelho segundo João). "Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo". (Evangelho segundo João). Fonte da imagem: https://franciscanos.org.br/vidacrista/wp-content/uploads/2020/01/liturgia_15_domingo.jpg

Necessidade de quê?

Frei Gustavo Medella

“Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor”!

Medo da morte, da invisibilidade, da fome. Certamente estes três fantasmas sejam motivadores fundamentais da busca incessante de prazer que orienta muitas vidas humanas. O prazer sexual, por exemplo, que movimenta uma milionária indústria pornográfica, a prostituição e o “boom” de aplicativos voltados para encontros casuais, pode ter em sua base uma fuga, ainda que inconsciente, do fato de que todos somos finitos e mortais. Aquele instante fugaz de prazer talvez seja o equivalente ao choro do bebê que, imaginando-se solitário, chora forte à espera do afago da mãe, como quem diz: “Sozinho não conseguirei sobreviver!”. O investimento pesado em roupas de marcas, em joias da última moda, em carros de luxo e hábitos requintados, talvez seja o equivalente às estripulias do menino de colo que quer gritar ao mundo: “Eu existo, eu estou aqui, por favor, não deixem de me enxergar!”. A busca voraz pelo lucro, pelo acúmulo, pela expansão traduz, certamente, a preocupação primitiva de ter para si garantido o alimento e a nutrição necessários à manutenção da vida.

Diante de necessidades tão básicas e da busca medrosa e irracional pelo prazer na satisfação exagerada delas, o que significa “fazer, com prazer, a vontade do Senhor”? Dois rápidos acenos para possíveis respostas a esta desafiadora questão podem vir do próprio Salmo 39 – proclamado na Liturgia deste 2º Domingo do Tempo Comum –, que traz o propósito daquele que crê em praticar prazerosamente a vontade de Deus.

1) Esperar no Senhor – Significa reconhecer que todo o Bem de Deus procede e que a finitude e o limite são características próprias do ser humano. As necessidades básicas existem e é um direito de toda pessoa satisfazê-las com equilíbrio. No entanto, elegê-las como finalidade absoluta da existência é postura equivocada, que produz um cenário desolador de desequilíbrio, injustiça e morte diante do qual Dom Helder Câmara foi capaz de gritar em sua célebre “Invocação a Mariama”: “Basta de injustiça! Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar. Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano. Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia”.

2) Cantar um canto novo – É o canto que o Senhor põe nos lábios daquele que n’Ele espera. Um canto novo, um novo modo – inspirado por Deus – de relacionar-se consigo mesmo, com as coisas e com as pessoas. Na relação consigo mesmo, perceber-se falível e frágil, mas profundamente amado e, por isso, humilde e grato. Na relação com as coisas, conscientizar-se de que elas não são a finalidade última da existência, que existem para facilitar a vida e não para dominá-la. Quem se julga livre e poderoso porque tem demais, na verdade está possuído por aquilo que julga possuir. E, no que diz respeito ao outro, significa olhar o próximo como um dom, um presente, um irmão que, como todo ser humano, possui defeitos e dificuldades, mas que também traz em si a luz de Deus.

Cultivando a confiança no Senhor, origem e finalidade da vida e de tudo que é bom, o ser humano consegue dar passos na direção de uma existência mais leve e feliz, apesar das lutas e dores que fazem parte da jornada. No amor a Deus e ao próximo, que se concretiza na prática do serviço, a pessoa pode encontrar o verdadeiro “prazer em fazer a vontade do Senhor”.

 

João Batista: o exemplo de quem testemunha

Frei Clarêncio Neotti

O Evangelho de João foi escrito para acentuar a última frase do texto de hoje: dar testemunho de que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus. Todos os milagres e acontecimentos narrados por João se direcionam a essa única conclusão. Qualquer
conclusão menor ou de menos conteúdo é insuficiente. Muitas vezes, o povo olhou para Jesus e concluiu que ele era um grande profeta. Essa conclusão ainda não é suficiente. Hoje, o maior de todos os profetas diz expressamente: “Ele está à
minha frente, ele existiu antes de mim”, isto é, ele é maior do que eu, ele existiu antes que o tempo existisse.

João Batista afirma a eternidade de Jesus. E eterno só é Deus. Contudo, ainda que eterno, Jesus apareceu dentro do tempo, entre os homens, com uma missão divina. Isso vem dito com a figura da pomba – Espírito de Deus -, que desce,
paira e permanece sobre Jesus. É como que uma consagração. É a maneira de dizer que Jesus de Nazaré, eterno como Deus, tem a plenitude de Deus e vai agir com a força e o poder de Deus (“batizará no Espírito Santo”).

O evangelista coloca João Batista como exemplo de atitude de todo aquele que quer seguir Jesus: “Eu vi e dou testemunho”. Primeiro é preciso ver na pessoa humana de Jesus de Nazaré o Filho de Deus, eterno e com uma missão divina.  Entender e convencer-se desse fato. Depois testemunhar essa verdade, isto é, passá-Ia aos outros com humildade e convicção. “Dar testemunho” de Jesus é uma obrigação que João evangelista inculca ao longo de todo o Evangelho (por exemplo, 14,26; 15,27).

 

A luz das Nações: Ele veio ensinar os caminhos da vida

Frei Almir Guimarães

♦ Terminados os dias do Advento e do Natal vamos penetrando no tempo comum enquanto esperamos a chegada do retiro quaresmal que nos levará à festa da Páscoa. Vamos fazendo nosso caminho, forjando nossa personalidade cristã com todas as naturais e eventuais dificuldades. João, o Batista, aponta Jesus no meio do povo. Ele é o Cordeiro que tira a maldade do mundo. Isaías, por sua vez, retoma a voz do Senhor dirigida ao misterioso Servo de Javé: “Não basta seres meu servo(…). Eu te farei luz das nações”. Somos convidados, sempre de novo, a alimentar e criar relacionamentos de intimidade aquele que nos ensina a ouvir a voz do Senhor e se se apresenta como luz da caminhada dos humanos e sobre o qual repousou o Espírito. Ele veio nos ensinar os caminhos da vida viçosa.

♦ João vira o Espírito descer sobre Jesus como uma pomba do céu e descer sobre ele. Pagola afirma: “As primeiras comunidades cristãs se preocuparam em diferenciar muito bem o batismo de João, que mergulhava as pessoas nas águas do Jordão, e o batismo de Jesus, que comunicava seu Espírito para purificar, renovar e transformar o coração de seus seguidores. Sem esse Espírito, a Igreja se apaga e se extingue’ (Pagola).

♦ Voltar a Jesus, retornar ao Evangelho, tecer relacionamentos de veneração e de estima para com esse Jesus ungido pelo Espírito: esta a urgência de nossos tempos. Andamos sempre precisando de equilíbrio. Nada de exageros de um ou de outro lado. Nada de uma religião fixada em formulações doutrinárias petrificadas e repetidas incansavelmente com os lábios. Longe manifestações exteriores marcadas por gestos quase delirantes e alimentadas com emoções. Antes de tudo está esse cuidado acercarmo-nos corretamente de Jesus vivo e presente em nosso meio.

♦ Desde a infância, e principalmente a partir da idade madura, seremos pessoas de convívio com o Senhor Jesus: certeza de sua misteriosa presença como ressuscitado, convivência pessoal e comunitária com sua palavra no Evangelho, nossa união ao seu sacrifício do altar fazendo-nos oferta da vida ao Pai com ele, certeza de que o encontramos nos seres mais diminuídos em sua dignidade, descobrindo sua presença nos salmos que balbuciamos, vivendo de tal maneira unidos a ele que podemos dizer que para nós viver é Cristo, sempre nos encantando com sua intimidade com o Senhor. Aos poucos, vamos tecendo laços de amor verdadeiro.

♦ Ele veio como o Servo do Senhor, para auscultar a vontade de seu Pai a quem se refere sempre com carinho. Veio também como luz, claridade, esclarecimento. Triste a experiência de caminhar nas trevas nos caminhos da vida ou no universo de nossa existência. Não podemos viver por viver, empurrar a vida para frente, esperando que as coisas aconteçam automaticamente. Precisamos organizar nosso presente e colocar as pedras da construção do amanhã.

♦ Cristo Jesus é luz. Andar em sua companhia e dirigir-se para o Pai, seu Pai e nosso Pai. Quem o vê de verdade, vê o Pai. Esse Jesus vivo nos faz entrar na esfera da luz. Ele nos toma pela mão e nos apresenta ao Pai.

♦ O que fazer de nossa vida? Há um momento em que precisamos ter um buquê de convicções para levar a bom termo a empreitada da existência. Jesus nos ilumina:

> Uma vida de carinhosa e densa oração que não seja mero balbuciar dos lábios, mas gemidos e louvores que brotem de nossas entranhas quando acolhemos o Espírito. A oração de Jesus ilumina nosso rezar. Oração sem muitos efeitos sonoros e visuais. De preferência no silêncio do quarto com a porta fechada. Oração de entrega.
>> Ter a certeza de que o Senhor, vivo e ressuscitado, nos chamou. Somos peregrinos na direção por ele mostrada. Discípulos que não guardam o tesouro para si. Discípulos que irradiam sem espalhafato. Somos sal da terra e luz do mundo. A luz que pode brilhar em nós vem da luz de Jesus.
>> Estar sempre atento ao outro. A todos os outros. Com cuidado, sem afetação, dando tempo ao outro. O outro perto, em casa e o outro de fora e de dentro que quase pede desculpas pelo fato de existir. Atenção para com os jogados à beira do caminho. Não existimos para rodopiar em torno nosso mundinho. Como Jesus vivemos para haja luz à nossa volta.
>> No momento das grandes decisões examinar se as escolhas que fazemos correspondem ao espírito das bem-aventuranças e às posturas de Jesus. Por detrás de nossas escolhas (modo de viver, casamento, paternidade e maternidade, administração do dinheiro, etc.) sempre deixar que a luz de Cristo a tudo ilumine.
>> De modo particular nos momentos de turbulência, de dúvidas e de desânimo haveremos de nos expor à luz que é Cristo. Contemplaremos a maneira como enfrentou seus adversários. Diante do inevitável desfecho de sua trajetória não há passividade, mas confiança e entrega nos braços do Pai.


Oração

Aqui estou, Senhor;
como o cego à beira do caminho,
cansado, suado, poeirento;
mendigo por necessidade e ofício.
Passas ao meu lado e não te vejo.
Tenho os olhos fechados para a luz.
Costume, dor, desalento…
Sobre eles cresceram duras escamas
que me impedem de ver-te…
Ah! Que pergunta a tua!
O que deseja um cego senão ver?
Que eu veja, Senhor, as tuas veredas.
Que eu veja, Senhor, os caminhos da vida.
Que eu veja, Senhor, sobretudo, teu rosto,
teus olhos, teu coração.

F. Ulibarri

 

O batismo do Espírito

José Antonio Pagola

O novelista Julien Green descreve uma assembleia de cristãos com estas penetrantes palavras: “Todo mundo acreditava, mas ninguém gritava de assombro, de felicidade ou de espanto”. Nós, cristãos de hoje, estamos conscientes da profunda contradição que se opera no interior de nossa vida, quando a apatia e a indiferença apagam em nós o fogo do Espírito.

Parecemos homens e mulheres que, para dizê-lo com as palavras do Batista, foram “batizados com água” mas que lhes falta ainda serem batizados com “Espírito Santo e fogo”. Cristãos que vivem repetindo o que, talvez, aprenderam há anos em algum catecismo, ou o que escutam hoje dos pregadores. Falta-Ihes sua própria experiência de Deus.

Pessoas que foram crescendo em outros aspectos da vida, mas que permaneceram atrofiadas interiormente, frustradas em seu “desenvolvimento espiritual”. Pessoas boas que continuam cumprindo com fidelidade admirável suas práticas religiosas, mas que não conhecem o Deus vivo que alegra a vida e desata as forças para viver.

O que falta em nossas comunidades e paróquias não é tanto a repetição da mensagem evangélica ou o serviço sacramental, mas a experiência de encontro com esse Deus vivo. De modo geral, é insuficiente o que se faz entre nós para ensinar os crentes a penetrar em seu interior e descobrir a presença do Espírito no coração de cada um e no interior da vida. Escassos são os esforços para aprender praticamente caminhos de oração e silêncio que nos aproximem de Deus como fonte de vida.

Seguimos escutando e repetindo as palavras de Jesus como vindas “do exterior”. Quase não nos detemos a escutar sua voz interior, essa voz amistosa e estimulante que ilumina, conforta e faz crescer em nós a vida. Dizemos de Deus palavras admiráveis, mas pouco nos ajudamos a pressentir Deus com emoção e assombro, como essa Realidade na qual nos sentimos vivos e seguros, porque nos sentimos amados sem fim e de maneira incondicional.

Para degustar esse Deus não bastam as palavras nem os ritos. Não bastam os conceitos nem os discursos teológicos. É necessária a experiência pessoal. Que cada um se aproxime da Fonte e beba.

Nós, cristãos, não deveríamos esquecer aquela observação que Tony de Mello fazia com seu habitual encanto: jamais alguém se embriagou pensando intelectualmente na palavra “vinho”. Assim também, para saborear e degustar a Deus, não basta teorizar sobre Ele. É necessário beber do Espírito.

 

O Cordeiro de Deus

Pe. Johan Konings

Terminado o tempo natalino, a liturgia dominical inicia uma primeira série de “domingos comuns”nos quais os evangelhos descrevem a vida pública de Jesus, depois de seu batismo por João. No Brasil, o 1º domingo comum é substituído pela festa do Batismo do Senhor. No 2º domingo, o evangelho conta como João Batista apresenta Jesus a seus discípulos chamando-o de “cordeiro de Deus”. Este título é estranho para nós e certamente não suscita muita simpatia entre os jovens. Nesta época de super-homens, nenhum jovem gostaria de ser chamado de “cordeiro”.

O pano de fundo deste título é a imagem do Servo do Senhor, que se encontra nos “Cânticos do Servo”da profecia de Isaías. Domingo passado (Batismo do Senhor) foi-nos lido o 1º Cântico do Servo (Is 42 1-4): Deus coloca no Servo o seu Espírito. Hoje, a 1ª leitura nos faz ouvir o 2º Cântico: o Servo (Israel) deve reunir o povo de Deus e ser a luz das nações (Is 49, 3.5-6). O 3º e 4º Cântico (Is 50 e 53) serão lidos na Semana Santa, e é precisamente no 4º Cântico que o Servo Sofredor é comparado com o cordeiro levado ao matadouro, imagem que estende sua força também sobre os três primeiros cânticos.

Se Jesus, ao ser batizado por João, aparece como o Servo do Senhor (cf. dom passado), João o chama, mais explicitamente, “o cordeiro que tira o pecado do mundo”, “aquele sobre quem o Espírito permanece” e que “batiza com o Espírito”. Tudo isso para dizer que Jesus é enviado por Deus para libertar o mundo do pecado e comunicar o Espírito de Deus aos fiéis. Ambas as coisas, ele as realiza por sua morte por amor a nós. Ele morre como o cordeiro redentor e, quando de sua “exaltação” (na cruz e na glória), confere-nos o Espírito (Jô 7,39), para libertar o mundo do pecado (cf. ev. De Pentecostes).

Se combinarmos essas idéias, parece que este “cordeiro”não é tão passivo assim. Somos batizados no Espírito conferido pelo cordeiro libertador, para libertar o mundo do mal. Somos chamados a realizar a mesma missão do Servo e Cordeiro: dar a nossa vida, para que o pecado seja derrotado. É o sentido profundo do martírio cristão, que sempre acompanha a caminhada da comunidade de Jesus, até hoje. Martírio significa testemunho. Sempre haverá cristãos que representando o povo de Deus inteiro, darão sua vida para desfazer a força do pecado, para desarmar o mal do mundo (não apenas os atos maldosos de cada um, mas também as estruturas do mal, que devem ser combatidas com o empenho radical de nossa própria postura social). Tudo isso faz parte de nossa “vocação a sermos santos”, ou seja, a pertencermos a Deus (cf. 2ª leitura).

Todas as reflexões foram tiradas do site: franciscanos.org.br

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