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Cúria Diocesana

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Primeiro domingo da Quaresma

"Vá embora, Satanás, porque a Escritura diz: ‘Você adorará ao Senhor seu Deus e somente a ele servirá.’" (Evangelho segundo Mateus). "Vá embora, Satanás, porque a Escritura diz: ‘Você adorará ao Senhor seu Deus e somente a ele servirá.’" (Evangelho segundo Mateus). Fonte da imagem: https://franciscanos.org.br/vidacrista/wp-content/uploads/2020/02/tentacao_deserto.png

O lugar e o remédio das tentações

Frei Gustavo Medella

Ao comentar o fato de Jesus, homem e Deus, ter-se submetido às insídias do maligno no deserto, São Leão Magno afirma: “O Senhor permitiu que o tentador lhe visitasse, para que nós recebêssemos, além da força de seu socorro, o ensinamento de seu exemplo”. Fica explicitada, desta forma, a função pedagógica do episódio que pode e deve ser aplicada na vida pessoal de cada cristão e também da comunidade de fé. Trazer para nossa realidade o perigo das tentações e buscar em Cristo – por sua força divina e seu exemplo humano – o caminho para superar tais riscos são duas ações que sintetizam a proposta central do Tempo da Quaresma: penitência e conversão.

Sobre a atualidade das tentações e os exercícios disponíveis para superá-las, o franciscano Santo Antônio de Pádua escreve em seus Sermões: “Observa ainda que, como o diabo tentou o Senhor pela gula no deserto, pela vanglória no templo e pela avareza sobre o monte, assim também faz conosco hoje em dia: tenta-nos pela gula no deserto do jejum, pela vanglória no templo da oração e do ofício, e por muitas formas de avareza no monte de nossos ofícios”. Chamam atenção os ambientes onde tais tentações são apresentadas e os exercícios quaresmais aos quais elas estão relacionadas.

A tentação da gula no deserto

Deserto é lugar de grande espaço vazio, da solidão, onde o ser humano se confronta com a própria pequenez diante da imensidão vazia que percebe a seu redor. Vazio que expressa também o vácuo interior de carências e necessidades que cada um traz dentro de si. É justamente no afã de preencher este vazio que a pessoa sucumbe à tentação da gula que, para além da voracidade em obter e ingerir alimentos, expressa a ilusão de quem acredita que a plenitude de sua vida está numa postura de consumo exagerado, na busca desenfreada por luxos e prazeres que se mostram escandalosamente passageiros e perecíveis.

O jejum, neste caso, é o exercício corajoso daquele que se coloca sem medo diante das próprias necessidades, buscando responder honestamente a questões que são incômodas, mas, ao mesmo tempo, profundamente libertadoras: “Por que, apesar de minha vida social agitada e cheia de luxos, sinto-me tão infeliz? Preciso mesmo de todo este aparato para viver de forma digna e sóbria? Até que ponto esta lógica de consumo e superficialidade também se estende no universo de meus relacionamentos?” Quem tem a ousadia de buscar respostas sinceras a tais perguntas, certamente chegará a respostas que mostrarão um caminho de maior sobriedade e consistência existencial.

A tentação da vanglória no templo

Templo é lugar de cultivar a relação com o Sagrado, de forma que a este tipo de tentação, a princípio, estão sujeitas as pessoas que se identificam com práticas religiosas, às vezes mais ou menos institucionalizadas. É o caminho do fanatismo, da intolerância, do julgar-se mais perfeito do que seus semelhantes, do compreender a figura de Deus como um devedor de alguém (no caso o próprio crente) que, em tese, lhe é tão fiel na observância de doutrinas e práticas bem delineadas.

O antídoto para esta delirante tentação é a oração humilde, que brota de um coração que se percebe pequeno e fragilizado. É a reza sofrida e esperançada do publicano (Lc 18,9-14), que não se vale dos próprios méritos, mas entrega-se com confiança à misericórdia infinita do Pai. Encontrar esta via de uma oração sincera e despretensiosa de qualquer vestígio de vaidade é achar o tesouro de uma relação íntima e amorosa com Deus.

A tentação da avareza no alto do monte

Alto do monte é o lugar das responsabilidades e encargos que cada um possui em sua caminhada. Diz das posições de poder que a pessoa alcança em seu percurso existencial. No entanto, na perspectiva cristã, nenhum poder é finalidade em si mesmo, mas sempre deve estar a serviço da promoção do bem comum. A tentação de amarrar-se a uma posição de mando ou coordenação como meio de sustentar-se em privilégios e garantir-se no acúmulo de bens é uma armadilha perigosa que conduz ao isolamento do egoísmo e da desumanização.

Para vencer a avareza, o exercício proposto é o da esmola, da partilha generosa ao modo do discreto e silencioso óbolo da viúva (Mc 12,41-44) que, ao dividir o pouco que possuía, manifestou a riqueza de um coração capaz de confiar em Deus e se doar ao próximo.

 

1º Domingo da Quaresma, ano A

Reflexões de Frei Ludovico Garmus

 Oração: Possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa.

  1. Primeira leitura: Gn 2,7-9; 3,1-7

Criação e pecado dos primeiros pais. 

Lemos parte da segunda narrativa da criação. O texto não pretende dar uma explicação científica da origem do ser humano. Os capítulos 2 e 3 de Gênesis não contam a história de um indivíduo. Trazem, sim, uma mensagem profunda que se refere à vida de todas as pessoas. O Adão aqui representa a humanidade. A narrativa mostra a dependência total do ser humano de seu Criador, representada na imagem do oleiro (cf. Jr 18,1-6). Deus modela o ser humano a partir da terra fértil (húmus), sopra em suas narinas o sopro da vida. Depois planta um jardim com árvores e plantas de todas as espécies, entre elas a árvore da vida – à qual o homem tinha livre acesso – e a árvore do conhecimento do bem e do mal: “No dia em que dela comeres… serás condenado a morrer” (Gn 2,17). Em seguida, Deus coloca o ser humano para cuidar do jardim que plantou. No texto hoje anunciado, o ser humano já aparece como homem e mulher, criados um para o outro, como auxílio, ajuda e companhia adequada (cf. 2,20-23). Agora são marido e mulher, ele e ela, complemento mútuo, um para o outro. A serpente mentirosa exerce a função do tentador e convence a mulher a desobedecer ao Criador: “No dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Quando desobedecem à ordem divina, os olhos deles se abrem e percebem a própria limitação (nudez, desamparo). O ser humano é mortal e limitado. Se Deus lhe tira o “sopro” de vida, volta ao pó do qual foi tirado (Sl 104,29-30). Não pode ocupar o lugar de seu Criador. Deus não quer a morte do ser humano. Ele o criou livre, capaz de escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. Sem esta liberdade, jamais poderia escolher o bem e o Amor.

Salmo responsorial: Sl 50

Piedade, ó Senhor, tende piedade,

pois pecamos contra vós.

  1. Segunda leitura: Rm 5,12.17-19

Onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça. 

A primeira leitura fala do pecado de Adão, que sucumbiu diante da tentação; e o evangelho narra as tentações de Jesus no deserto e como Ele as venceu. A segunda leitura compara a figura de Adão com a de Cristo. O pecado de Adão tornou pecadora toda a humanidade e gerou a morte. A fiel obediência de Jesus ao Pai, até a morte na cruz, gerou a vida divina para todos os homens. Deus torna justos, isto é, agradáveis a Deus, todos aqueles que acolhem com fé o dom gratuito de sua graça. Onde se multiplicou o pecado de Adão na humanidade pecadora, muito mais se multiplicou a graça em Jesus. Todos somos pecadores, condenados a morrer pelo pecado de Adão. Mas  Jesus tomou o lugar de todos os pecados, venceu a morte e conquistou para todos a vida eterna, na comunhão com Deus.

Aclamação ao Evangelho


  1. Evangelho: Mt 4,1-11

Jesus jejuou durante quarenta dias e foi tentado.

Adão foi tentado no jardim de Éden e não resistiu à tentação (1ª leitura). Israel, escolhido por Deus como seu povo, foi provado no deserto e também sucumbiu à tentação (Dt 8,2-3). Depois de ser batizado por João, Jesus é tomado pelo Espírito de Deus e conduzido ao deserto. Passa aí quarenta dias e quarenta noites em jejum e oração e é tentando pelo diabo. Na 1ª tentação o diabo sugere a Jesus que transforme as pedras em pão, se é de fato o Filho de Deus. E Jesus responde que o ser humano não vive somente de pão, “mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. A segunda tentação está ligada à “fome” de glória. O diabo sugere a Jesus que se jogue do ponto mais alto do Templo, diante de todo o povo, como espetáculo e prova que é Filho de Deus; certamente nada lhe aconteceria porque os anjos viriam em seu socorro. Jesus responde com a Escritura: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. A terceira tentação se refere à “fome” e dinheiro e poder. O diabo leva Jesus ao alto de um monte e lhe mostra todas as riquezas do mundo e diz: “Tudo isso eu te darei, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. E Jesus diz: “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás”. São três tentações messiânicas, mas Jesus escolheu ser o Servo Sofredor.

No deserto Jesus define as linhas orientadoras de sua missão. As tentações no deserto acompanharam Jesus durante toda a vida pública (cf. Lc 22,28). Para resolver o problema da fome de pão Jesus propõe a partilha do pão e a conversão para o Evangelho do Reino de Deus. Para a tentação da glória, Jesus propõe o amor ao próximo, no serviço humilde. A terceira tentação é a de querer ser igual a Deus, como a serpente sugeriu para Adão e Eva (1ª leitura). A missão de Jesus se caracteriza pela luta constante contra o pretenso reinado do diabo neste mundo (v. 9), anunciando o evangelho do Reino de Deus. Ao final da 3ª tentação Jesus expulsa o diabo, prenúncio das expulsões de demônios durante sua vida pública.

Jesus exige de seus discípulos, de ontem e de hoje, uma opção básica: Ceder às tentações do diabo ou seguir firmemente a Jesus Cristo no caminho das práticas do Reino de Deus. “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6,24).

 

Vence quem crer em Jesus, Filho de Deus

Frei Clarêncio Neotti

Embora para nós, brasileiros, a palavra ‘deserto’ pouco nos diga, porque dele não temos nenhuma experiência, na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, chega a ser mais que uma região geográfica calcinada e árida. O deserto
vira símbolo. Hoje, olhemos apenas seu lado improdutivo e inabitável, que recorda a maldição de Deus; lugar ideal para a moradia do diabo. Jesus começa sua vida pública no deserto. No meio da humanidade, incapaz de produzir frutos dignos
de Deus, aparece Jesus Cristo, a encarnação da bênção divina. Aparece para transformar, na expressão do profeta Isaías (41,18-19), o deserto em um jardim regado e florido. No entanto, a salvação, que Jesus trouxe, não tira o sofrimento humano, não dispensa o homem de lutar contra as forças do mal e, sobretudo, não o dispensa de uma decisão pessoal. O homem já foi chamado de filho da desgraça. Em forma figurada, diríamos: filho do deserto. Mas pode tornar-se filho da graça, se superar as propostas do Maligno, que lhe são apresentadas tão atraentemente. Às tentações do ter, do poder e do dominar, que estão em nosso sangue, desde a desgraça de Adão, Jesus veio propor o desapego, a fraternidade e o serviço.

“Se és o Filho de Deus …” Duas vezes hoje o diabo inicia a interpelação de Jesus com essa frase condicional, carregada de ironia. Todo o Evangelho de Mateus foi escrito para mostrar que Jesus de Nazaré era e é o Filho de Deus. Estando Jesus agonizante, volta a frase: “Se és o Filho de Deus, desce da Cruz!” (Mt 27,40). Hoje, Jesus sai da cruz das tentações e sobre essa vitória constrói o Reino, a maneira humano-divina de viver na terra, que Adão não soube fazer. Jesus hoje é vitorioso sem o alarde do milagre. Na Sexta-feira Santa, ele não desce da Cruz, porque nela estava a vitória definitiva do desapego, do serviço, da fraternidade, que geram vida e paz, verdade e salvação.

A frase duvidosa do diabo, repetida ironicamente pelos que o injuriavam ao pé da Cruz, precisa transformar-se em afirmativa: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” (Mt 14,33 e 27,54). A fé tem muito a ver com uma decisão pessoal, intransferível. Exatamente a decisão frisada no Evangelho de hoje.

 

A difícil arte de bem escolher os caminhos da vida

As tentações de ontem e de sempre

Frei Almir Guimarães

Há tentações em nosso caminho que, se cairmos, podem arruinar nossa vida e nos afastar do seguimento de Jesus. Dizemos todos os dias: “Não nos deixeis cair em tentação!”

O deserto é o lugar onde ficamos completamente desprotegidos. Lá estamos sozinhos, frente a frente com nós mesmos, com nosso vazio interior, nosso desamparo, nossa solidão, com o imenso nada ao redor e dentro de nós.
Grün-Reepen

♦ Tentações, sugestões que nos são feitas para apequenar nossa vida. Convites atraentes para que aproveitemos a vida, de nosso jeito e a partir de nossos interesses, nem sempre os mais generosos, nem sempre os mais transparentes. As tentações sugerem que acolhamos o que nos é proposto sem outras preocupações, deixando de lado de ouvir o grito de plenitude que ecoa dentro de nós nos momentos de verdade, sem prestar atenção ao murmúrio daqueles que perderam a força de viver e clamam à beira dos caminhos da vida.

♦ O tempo da quaresma sempre foi tido como uma bem propícia ocasião para exercitarmo-nos no combate contra as forças que sempre perturbaram e continuam perturbando a implantação de um mundo transparente que veio criar Cristo Jesus, nosso amado e nosso Senhor. Jesus, tentado no deserto, resiste aos convites do poder, do prestígio da autorreferencialidade. O homem vive, isto sim, de toda palavra que sai da boca de Deus.

♦ Começando sua vida pública Jesus vai ao deserto e sai vitorioso. Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Haverás de adorar ao Senhor teu Deus e só a ele servirás. Não tentarás ao Senhor teu Deus.

♦ “Dizer sim ao que posso fazer em conformidade com Cristo. Dizer não às pulsões idolátricas e egocêntricas que nos alienam e contradizem nossas relações com Deus, com os outros, com as coisas, conosco mesmos, relações chamadas a se caracterizarem pela liberdade e pelo amor” (Enzo Bianchi).

♦ Não somos completamente autônomos. Não existimos porque tenhamos nos inventado a nós mesmos. Somos parte dos sonhos de Deus. Escutaremos sempre sua voz, seus apelos para permanecer em seu amor e no bem querer de todos os que também por ele foram sonhados e inventados. Dependemos do Senhor e caminhamos com companheiros de viagem. Vivemos numa definitiva dependência. Não há como sair. Eu e tu, tu e eu.

♦ O diabo havia sugerido que Jesus transformasse pedras em pães. Jesus não se colocará a serviço de seu próprio interesse esquecendo o desígnio do Pai. “Nossas necessidades não ficam satisfeitas apenas com o fato de termos assegurado nosso pão material. O ser humano necessita de muito mais. Inclusive para regatar da fome e da miséria os que não têm pão, precisamos escutar a Deus, nosso Pai, e despertar em nossa consciência a fome de justiça, a compaixão e solidariedade (Pagola, A Boa Nova de Jesus, Vozes, p. 31). Os anseios do homem não se apagam com o consumo. Homem e mulher vão se tornando humanos quando aprendem a viver como irmãos.

♦ Terrível a tentação do poder, de dominar, de não possibilitar a participação de outros em nossos projetos, de deixar de ouvir o murmúrio que vem do mistério da vida do outro. Tal acontece em nossa vida pessoal, na sociedade e na Igreja. Quanto mais bens e prestigio se tem, mais se deseja. Francisco de Assis quis que seus seguidores e ele mesmo fossem designados de frades, irmãos menores: “E nenhum se chame prior, mas todos, indistintamente se chamem irmãos menores. E lavem os pés uns dos outros” (Regra não-bulada 6,3).

♦ Não se pode viver de maneira inerte e esperar presunçosamente tudo de Deus. Quem entendeu um pouco o que é ser fiel a um Deus que é Pai de todos, arrisca-se cada dia mais na luta pela construção de um mundo mais digno e justo para todos Não tentarás ao Senhor teu Deus.

♦ Tentações de retirar-se da luta, do isolamento, da ideia de que as pessoas se arranjem sozinhas. Do indiferentismo e do “salve-se-quem-puder”. Tentação de enfiar a cabeça na areia e não tomar consciências dos problemas que afetam o presente e o futuro. Tentações nos desertos de ontem e na aridez de nossa vida humana e cristã. Tentação da intolerância e da intransigência. Tentação de parar tomados pelo desânimo.

♦ Nossa escolha será a de tentar ouvir a voz do Senhor, de buscar simplicidade de vida, de colocar de lado a busca da realização de tantos desejos que, uma vez realizados, deixam um sem gosto em nossos lábios, de tentar olhar com carinho efetivo todos os rostos que andam nos olhando.

♦ AFINAL DE CONTAS, QUAL É A NOSSA ESCOLHA?


Texto para reflexão

“Adão, onde estás?”

O Senhor não esperou os teólogos para se explicar em poucas palavras. Todo o esforço de Deus desde a criação tem sido, por todos os meios, fazer o homem compreender que o amava. Esgotados todos os argumentos, apresenta a maior prova. “Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que amamos”. Eis tudo. Depois disso não há mais nada a dizer. Quem quiser que compreenda. Aí está o livro aberto sobre a cruz. Toda infelicidade dos homens vem do amor inimaginável que Deus lhes tem. O único pecado é o da recusa. Só se recusa o que é oferecido. “Se eu não tivesse vindo eles estariam sem pecado. Agora não têm mais desculpa”.

O Cristo na cruz traduz para o homem um uma linguagem universal, em um sinal tão simples como o pão e a água, o amor incompreensível que o consome. Eis por que não há pecado senão de infidelidade. Os moralistas podem esforçar-se por organizar listas e calcular as contas; é um meio como outro qualquer de escapar ao amor. A verdade é que os caminhos que permitem fugir são numerosos. Não importa qual seja o que se toma: o pecado é o afastamento. Cristo morreu por correr atrás do homem que o atraiu a uma sociedade que sempre mata quem a atrapalha.

Em vez de dizer que a Paixão foi a salvação para a humanidade, seria mais exato ver nela o derradeiro apelo: “Adão, onde estás?”
É o grito que escapa de todas as chagas do crucificado e impede o autêntico cristão de dormir tranquilo.

Jean Sulivan, Provocação ou a fraqueza de Deus, Ed. Herder, São Paulo 1966, p. 111-112


Oração

“E não nos deixeis cair em tentação”
Rezo devagar estas palavras, fazendo-as minhas.
Não me deixes quando as paredes do tempo se tornam instáveis e as palavras de hoje têm a dureza do pão amassado ontem.
Não me deixes quando recuo porque é difícil, quando quase me inclino perante idolatria do que é cômodo e vulgar.
Não me deixes atravessar sozinho os embaciados corredores da incerteza, ou perder-me no sentimento do cansaço e da desilusão.
Não me deixes tombar na maledicência e no descrédito quanto à vida.
Que a tua mão levante à altura da luz a minha esperança.

José Tolentino Mendonça
Um Deus que dança, Paulinas, p. 97

 

As tentações da Igreja de hoje

José Antonio Pagola

A primeira tentação acontece no “deserto”. Depois de um longo jejum, dedicado ao encontro com Deus, Jesus sente fome. É então que o tentador lhe sugere atuar pensando em si mesmo, esquecendo o projeto do Pai: “Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pão”. Jesus, desfalecido, mas cheio do Espírito de Deus, reage: “Nem só de pão vive o ser humano, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Ele não viverá buscando seu próprio interesse. Não será um Messias egoísta. Multiplicará os pães quando os pobres estiverem passando fome. Ele se alimentará da Palavra viva de Deus.

Sempre que a Igreja busca seu próprio interesse, esquecendo-se do projeto do Reino de Deus, ela se desvia de Jesus. Sempre que nós, cristãos, antepomos nosso bem-estar às necessidades dos últimos nos afastamos de Jesus.

A segunda tentação ocorreu no “templo”. O tentador propõe a Jesus fazer sua entrada triunfal na cidade santa, descendo do alto como Messias glorioso. A proteção de Deus estará assegurada. Seus anjos “cuidarão” dele. Jesus reage rapidamente: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Ele não será um Messias triunfador. Não colocará Deus a serviço de sua glória. Não fará “sinais do céu”. Só sinais para curar enfermos.

Sempre que a Igreja coloca Deus a serviço de sua própria glória e “desce do alto” para mostrar sua própria dignidade, ela se desvia de Jesus. Quando nós seguidores de Jesus buscamos mais “nos dar bem” do que “fazer o bem”, também nos afastamos dele.

A terceira tentação sucede numa “montanha altíssima”. Dela se divisam todos os reinos do mundo. Todos estão controlados pelo diabo que faz a Jesus uma oferta assombrosa: ele lhe dará todo o poder do mundo, mas com uma condição: “se te prostras e me adoras”. Jesus reage violentamente: “Vai-te, satanás”. “Só ao Senhor, teu Deus, adorarás”. Deus não o chama para dominar o mundo como o imperador de Roma, mas para servir aos que vivem oprimidos por seu império. Jesus não será um Messias dominador, mas servidor. O Reino de Deus não se impõe com poder, mas se oferece com amor.

A Igreja tem que afugentar hoje todas as tentações de poder, de glória ou dominação, gritando com Jesus: “Vai-te, satanás” O poder mundano é uma oferta diabólica. Quando nós cristãos o buscamos, nos afastamos de Jesus.

 

A libertação do pecado

Pe. Johan Konings

Se a Quaresma é um tempo de conversão, deve haver de que se converter: o pecado. Mas para muitos, hoje, já não existe pecado. Sobretudo para os que se iludem com seu aparente sucesso e não sentem na pele quanto seu pecado faz sofrer os outros.

A história humana se move entre o projeto de Deus e o poder do mal.

O mal tenta seduzir o homem para que o adore no lugar de Deus. A 1ª leitura e o evangelho de hoje mostram como Satanás disfarça sua tentação por trás de bens aparentes: conhecimento que nos faz capazes de brincar de deus, satisfação material, poder, sucesso… desde que adoremos o diabo no lugar de Deus!

Todos, desde Adão até nós, caímos muitas vezes, ensina o apóstolo Paulo (2ª leitura). O pecado parece estar inscrito na nossa vida. Chama-se isso o “pecado original” – o mal que nos espreita desde a origem, com as suas conseqüências. Será que se pode atribuir um defeito à nossa origem? Deus não fez bem sua obra? Fez bem, sim, mas deixou o acabamento para nós. Deixou um espaço para a nossa liberdade, para que pudéssemos ser semelhantes a Ele de verdade! E é no mau uso dessa liberdade que se manifesta a força do mal que nos espreita.

Somos esboços inacabados daquilo que o ser humano, em sua liberdade, é chamado a ser. Mas em uma única pessoa o esboço foi levado à perfeição, e essa pessoa nos serve de modelo. Jesus foi tentado, à maneira de nós, mas não caiu, não se dobrou à tentação do “Satanás”, do Sedutor. Ele obedeceu somente a Deus, não apenas quando das tentações no deserto, mas em toda a sua vida, especialmente na “última tentação”, a hora de sua morte. Por isso, tornou-se para nós fundamento de uma vida nova. Reparou o pecado de Adão.

Todas as reflexões foram tiradas do site: franciscanos.org.br

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