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Segundo domingo da Quaresma

"Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz". (Evangelho segundo Mateus). "Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz". (Evangelho segundo Mateus). Fonte da imagem: franciscanos.org.br

Que a transfiguração ajude-nos a ver além

Frei Gustavo Medella

Oxalá o episódio da transfiguração ajude-nos a ver além. Seja inspiração do Mestre que nos promova um olhar mais humanitário, caritativo e ativo. Tomara Deus nos ajude a ter um coração samaritano para enxergarmos naquele que jaz à beira do caminho não uma oportunidade de lucro fácil e ganhos pessoais ilícitos – como enxergaram os ladrões – nem um estorvo à nossa programação pessoal – como viram o levita e o sacerdote –, mas um irmão necessitado de ajuda que, naquele momento, só pode contar conosco. Ou nós ou ninguém. Ou nossa solidariedade ou a morte.

A glória de Deus é o ser humano liberto, os direitos respeitados, todo mundo tendo a chance de amar e ser amado. Ao transfigurar-se diante de Pedro, Tiago e João, Jesus deseja revelar a eles – e também a nós – que este mundo diferente é possível e necessário. Em vez do preconceito pautado em rótulos rápidos e rasos, a empatia de quem tem a ousadia de se perguntar: “E se fosse eu, a enfrentar o desespero de estar sem trabalho e ver meus filhos chorando de fome; a precisar com urgência de um exame médico e saber que não vou consegui-lo antes de seis meses; a enfrentar a solidão terrível da inaceitação, do abandono e do desprezo por conta de minha situação vulnerável; a dormir pelas esquinas e vielas sujeito ao frio, à fome, à falta de higiene? E se fosse eu?”.

Em vez das soluções fáceis para problemas complexos, em vez da construção de muros e cercas para separar quem tem muito de quem nada possui, o espírito da generosidade e da partilha. Em vez da felicidade de fachada manifesta em selfies e mensagens coloridas nas redes eletrônicas, a transparência de quem se reconhece frágil e pecador, mas profundamente amado por Deus. Oxalá o episódio da transfiguração ajude-nos a ver além!

 

Segundo Domingo da Quaresma, ano A

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

 Oração: “Ó Deus, que mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai o nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão de vossa glória”.

  1. Primeira leitura: Gn 12,1-4a

Vocação de Abraão, pai do povo de Deus.

A vocação e missão de Abraão estão ligadas à promessa divina de uma terra e de uma grande descendência. Será uma bênção o simples fato de alguém ser descendente de Abraão. A promessa inclui também uma grande bênção: “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (v. 3); isto é, a salvação para todos os povos. Movido pela fé (cf. Rm 4), Abraão larga o conforto e a segurança da terra natal e parte para o desconhecido, confiando nas promessas divinas. A  do patriarca Abraão torna-se modelo (Hb 10) para todos os seus descendentes e para os cristãos em geral: “A fé é o fundamento do que se espera e a prova das realidades que não se veem” (Hb 11,1). Em Abraão, Deus começa e revelar o plano de sua graça – a nossa salvação –, plano mantido em segredo desde toda a eternidade. Este desígnio de salvação “foi revelado agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo” (2ª leitura).

Nós também, cheios de confiança, pelas palavras do Salmo responsorial, rezamos com a Igreja: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça! Venha a vossa salvação”.

Salmo responsorial: Sl 32

Sobre nós, Senhor, venha a vossa graça!

Venha a vossa salvação.

  1. Segunda Leitura: 2Tm 1,8b-10

Deus nos chama e ilumina.

Paulo está na prisão e nesta Carta convida seu bispo Timóteo a sofrer com ele pelo Evangelho que os dois estão anunciando, movidos pela força que vem de Deus. Participar do anúncio do Evangelho é um chamado de Deus para a salvação, “por uma vocação santa”. A salvação a qual Deus nos chama não se deve a nossas boas obras, mas é fruto da graça divina. Esta graça, escondida, mas garantida, desde toda a eternidade, foi revelada somente agora, pela manifestação de Jesus Cristo. Apenas agora Deus fez brilhar a vida e a imortalidade, através do Evangelho. – A manifestação de Jesus Cristo se dá pela sua vida terrena, pela sua morte e ressurreição, como vemos na Transfiguração (Evangelho). O caminho para a ressurreição passa pela cruz.

Jesus tinha um objetivo em sua vida: Trazer o Reino de Deus, que Ele anunciou e viveu. Ao término de sua viagem a Jerusalém, quis livremente doar sua vida pela nossa salvação. Ressuscitando dos mortos, abriu o caminho da imortalidade para toda a humanidade.

Aclamação ao Evangelho

Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória.

Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai:

Eis meu Filho muito amado, escutai-o, todos vós.

  1. Evangelho: Mt 17,1-9

O seu rosto brilhou como o sol.

Quando Mateus escreve seu Evangelho, seguindo o evangelho de Marcos, coloca a cena da transfiguração na grande viagem de Jesus da Galileia a Jerusalém (Mt 16–20). Os ensinamentos de Jesus e os acontecimentos ao longo desta viagem constituem uma catequese para a vida cristã. Chamam a nossa atenção os três anúncios da paixão e ressurreição de Jesus (Mt 17,21-23; 17,22-23; 20,17-19). Para nós, que vivemos após os acontecimentos, parece tudo claro: Jesus é Messias (Cristo), o Filho de Deus enviado pelo Pai a este mundo, que pregou e viveu o Reino de Deus, morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia. Mas nada era claro para os apóstolos e o povo que seguia Jesus. Quando Pedro confessou Jesus como o Cristo, pensava que o Mestre acabaria sendo proclamado rei em Jerusalém. Achou-se no direito de repreender o próprio Mestre, quando este falava de sua morte em Jerusalém; por isso Jesus o chamou de “satanás”, isto é, alguém que se opõe ao plano divino. Depois disso é que vem a presente cena da Transfiguração. E ainda no mesmo cap. 17 Jesus anuncia, pela segunda vez, sua morte e ressurreição. É neste contexto que devemos ler a Transfiguração. Era noite e, enquanto Pedro Tiago e João dormem envolvidos pelo sono, Jesus está em profunda oração junto ao Pai. De repente, os discípulos acordam e veem Jesus com o rosto brilhante e suas vestes resplandecentes de luz, tendo a seu lado Moisés e Elias. Pedro, então, exclama: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”… Parece ter esquecido que estavam a caminho de Jerusalém e pouco antes da visão gloriosa Jesus lhes falava de sua próxima morte. Por isso, a voz do céu insiste: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o”.

Sim, o fato de o Pai ter permitido a morte violenta de seu Filho amado é a manifestação máxima de seu amor por nós. Ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida por seus amigos – diz Jesus. Muitos anos depois, Pedro, na Segunda Epístola, recorda a cena da Transfiguração: (Jesus) “Recebeu de Deus Pai a honra e a glória, quando da glória magnífica se fez ouvir a voz que dizia: ‘Este é o meu filho amado, de quem eu me agrado’. E esta voz, que veio do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2Pd 1,17-18).

O Evangelho que hoje meditamos nos ensina a não pararmos em nossa vida no monte da transfiguração (“Senhor, é bom ficarmos aqui…”). Como discípulos e discípulas de Jesus, somos convidados a seguir Jesus até o Calvário, aguardando sua gloriosa ressurreição, ao terceiro dia.

 

Paixão e morte: caminho obrigatório da ressurreição

Frei Clarêncio Neotti

Não sabemos qual tenha sido o monte em que Jesus se transfigurou. Como o Evangelho fala em ‘alto monte’, a tradição o identificou com o Monte Tabor, o único monte alto da região, com 588 metros de altura, e já tido, havia muito tempo, como montanha sagrada. Na verdade, não interessa a Mateus o problema geográfico, mas o simbólico. A grande aliança de Deus com o povo no deserto acontecera no alto do Sinai, e as tábuas da Lei eram o sinal concreto, visível e viável, do pacto entre Deus e o povo eleito: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Lv 26,12). Jesus está agora caminhando para o momento decisivo da recriação da aliança entre Deus e o povo, está para fazer a “nova e eterna aliança”, como dizem as palavras da Consagração na missa, já não mais gravada em pedra, mas escrita com seu sangue no coração de cada criatura humana.

No Sinai, o povo traiu a aliança e preferiu um bezerro de ouro (Êx 32). Agora, pouco antes do episódio da Transfiguração, o povo se divide: a maioria se nega a aceitar a pregação de Jesus; e a minoria torna-se a dividir: uns esperam para logo um reino terreno de liberdade política, liderado por Jesus; outros estão perplexos, apesar da declaração de Pedro, que professara em nome dos doze: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Tanto a incredulidade da maioria quanto o comportamento dúbio da minoria vêm anotados por Mateus no contexto da Transfiguração. Jesus seleciona três entre os que ainda podiam crer, e que se tornariam “as colunas da Igreja”, (Gl 2,9) e os leva para o monte, confirma-lhes o caminho da paixão como passagem obrigatória para a ressurreição.

 

Quanto esplendor no rosto do Senhor!

Frei Almir Guimarães

Muitas vezes em horas avançadas da vida, assalta-nos a tentação de achar que tudo se passou e nada se construiu, que não há verdadeiramente um fundamento. Olhamos para as nossas mãos e estão vazias, nuas e a tentação é dizer: Será que valeu a pena?”, o que é que eu escutei?”, o que é que meus olhos viram?”
José Tolentino Mendonça

♦ Sempre, neste segundo domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha da transfiguração de Jesus com Pedro, Tiago e João. No final de todo o retiro quaresmal, vamos comemorar a Páscoa do Senhor. Na solene Vigília Pascal acenderemos o círio, luz, claridade. Páscoa é festa da luz. Jesus é beleza e luminosidade. Sua beleza mais deslumbrante manifestou-se em sua ressureição. No início de nossa caminhada quaresmal (ou na caminhada da vida) somos convidados a fazer uma pausa e subir a montanha. Antes de contemplar o semblante chagado, empoeirado, desrespeitado em sua paixão, temos, na montanha, uma prefiguração da glória do Senhor. O que ali vimos com os olhos da fé?

♦ Uma alta montanha… lugar de silêncio e propício para ouvir a voz do Senhor. A transfiguração se dá num espaço de silêncio, recolhimento, sem ruídos de dentro nem de fora, numa atmosfera de oração silenciosa. Jesus se coloca em união íntima com o Pai. Os dois se conhecem e se amam. Nesse misterioso face a face com o Pai o rosto do Filho ficou brilhante e suas vestes brancas. Um ofuscante banho de luz.

♦ Dois personagens se fazem presentes: Moisés e Elias. Moisés, aquele que falava com um Senhor como um amigo fala a um amigo. Moisés que, ao descer da montanha, tinha o rosto todo banhado de luz, da claridade do Senhor, como também se dizia de Santa Clara quando estava em oração. Elias, o homem cansado da luta, desgastado pela oposição, coloca-se à entrada da caverna e, quando a brisa suave acaricia seu rosto, ele se dá conta que era visitado pelo Senhor. Montanha, transfiguração, silêncio, oração. Oração que não é um mero balbuciar de fórmulas, mas êxtase de pobres que abraçam o Senhor. Tolentino gosta de dizer que rezar é abraçar a vida. Tempo do grande retiro quaresmal: tempo de oração com a porta do quarto fechada.

♦ Pedro exprime um desejo: “É bom estarmos aqui… vamos fazer três tendas e eternizar esse momento, estancar o tempo”. Experiência jubilosa de uma proximidade de Deus. O invisível como que se tornava palpável. Pode acontecer que muitas pessoas foram se desvencilhando de seus pequenos interesses e desobstruindo as portas de seu interior, de sua intimidade e venham a ter certeza da proximidade do Senhor. A quaresma não seria um tempo para vivenciarmos uma oração sem pressa, num simples estar com o Senhor, no silêncio?

♦ Quando Pedro ainda falava “apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Presença do Senhor. Os discípulos ficaram com medo de entrar na nuvem. Quando Deus nos cerca e nos coloca contra a parede, quando sua voz atinge o mistério mais profundo de nós mesmos, tudo pode ser diferente. Temos receio de lançarmo-nos de corpo inteiro na louca aventura da fé. A claridade de Deus nos ofusca e temos medo de não suportar. Ele nos seduz, mas temos medo de sermos seduzidos. Ora, vivemos nesse mundo para habilitar-nos a viver na Claridade. Ela será nossa pátria.

♦ “Este é meu filho amado no qual eu pus todo o meu agrado, escutai-o”. No coração da Quaresma, no alto da montanha, em clima de recolhimento e silêncio somos convidados a abrir nossa intimidade à audição do Filho amado. Escutar é mais do que acolher sons que chegam ao nosso aparelho auditivo. Trata-se de dar hospitalidade ao Mistério de Deus que se avizinha. E tirar todas as consequências.

♦ Aqui se insere todo o capítulo do seguimento de Jesus, do aprendizado de ser discípulo. Temos convicção de que não podemos viver apenas de uma fé infantil, não trabalhada, não assumida pessoalmente. Estamos convencidos de que precisamos ser discípulos. Bom seria se pudéssemos viver numa comunidade de pessoas sinceras e transparentes e respirarmos o mesmo ar de busca sem pieguices e infantilismos.

♦ “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do homem enha ressuscitado dos mortos”. Jesus não que os privilegiados discípulos divulguem o que experenciaram. Aquele não passava de um momento. Haveria uma outra montanha: Gólgota, Calvário, Crâneo. Esse Jesus haveria de lá estar pregado ao madeiro, desfigurado, sem beleza, as pessoas virando o rosto ao verem tanta feiura. Tudo vai terminar na entrega: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

♦ “Mais do que nunca devemos atender ao apelo evangélico: Este é o meu Filho amado, de quem me agrado. Escutar”. Devemos parar, fazer silêncio e escutar mais a Deus revelado em Jesus Cristo. Esta escuta interior ajuda a viver a verdade, a saborear a vida em suas raízes, e não esbanja-la de qualquer maneira, a não passar superficialmente diante do essencial. Escutando a Deus encarnado em Jesus descobrimos nossa pequenez e pobreza, mas também nossa grandeza de seres amados infinitamente por Ele (Pagola, Mateus, p. 217).

♦ Escutar o Senhor é nascer para um mundo novo…


Texto para meditação

Ouvir o silêncio

Diria isto: por vezes o que nos aproxima da autenticidade é o continuar, por vezes o parar. E só o saberemos no exercício paciente e inacabado da escuta. Mas esta audição de nós mesmos não se faz sem coragem e sem esvaziamento, E não podemos estar à espera de condições ideais. Acredito naquilo que o músico John Cage deixou escrito: em nenhuma parte do espaço ou do tempo existe isso que, de forma idealizada, nós chamamos de silêncio. À nossa volta tudo é som, por muito que tentemos encontrar um silêncio. E do mesmo modo se expressou Kafka, falando de sua trincheira, a literatura: “Nunca conseguimos estar o suficientemente sozinhos quando escrevemos, até mesmo a noite nunca é noite nunca é noite o suficiente”. Aquilo que chamamos de silêncio só se torna real e efetivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira”.
José Tolentino Mendonça – A mística do instante, Paulinas, p. 118


Para rezar

Desfigurações e transfigurações
Rostos desfigurados:
doentes se contorcendo no leito do sofrimentos,
migrantes sacudidos pelas turbulências vida,
meninos e meninas sofrendo abuso sexual,
crianças que perderam os pais na guerra d tráfico,
farrapos humanos encontrados mortos depois de um sequestro.

Rostos transfigurados:
pessoas em oração,
religiosa idosa sentada no quintal olhando as borboletas,
gente com rosto bonito visitando os abandonados,
pessoas livres de si mesmas.

 

O risco de instalar-se

José Antonio Pagola

Cedo ou tarde, todos corremos o risco de instalar-nos na vida, buscando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos nem preocupações excessivas, renunciando a qualquer outra aspiração.

Conseguido já um certo êxito profissional, encaminhada a família e assegurado, de alguma maneira, o futuro, é fácil deixar-se levar por um conformismo cômodo que nos permita prosseguir caminhando na vida da maneira mais confortável.

É o momento de buscar uma atmosfera agradável e acolhedora. Viver relaxado num ambiente feliz. Fazer do lar um refúgio entranhável, um rincão para ler e ouvir boa música. Saborear boas férias, assegurar agradáveis fins de semana …

Mas, com frequência, é então que a pessoa descobre, com mais clareza do que nunca, que a felicidade não coincide com o bem-estar. Falta nessa vida algo que nos deixa vazios e insatisfeitos. Algo que não se pode comprar com dinheiro nem assegurar com uma vida confortável. Falta simplesmente a alegria própria de quem sabe vibrar com os problemas e necessidades dos outros, sentir-se solidário com os necessitados e viver, de alguma maneira, mais perto dos maltratados pela sociedade.

Mas existe também um modo de “instalar-se” que pode ser falsamente reforçado com “tons cristãos”. É a eterna tentação de Pedro que sempre nos espreita: “levantar tendas no alto da montanha”. Quer dizer, buscar na religião nosso bem-estar interior, eludindo nossa responsabilidade individual e coletiva na conquista de uma convivência mais humana.

E, não obstante, a mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se ela nos isola dos irmãos, nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados. Se escutamos a Jesus, vamos sentir-nos convidados a sair do nosso conformismo, romper com um modo de vida egoísta, no qual estamos talvez confortavelmente instalados, e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega dos mais desamparados de nossa sociedade.

 

Vocação e Promessa

Pe. Johan Konings

Viver é ser chamado por Deus a entregar-se à sua palavra. No Antigo Testamento, Abraão é o exemplo disso. Tem de deixar toda segurança e confiar-se cegamente à promessa de Deus (1ª leitura). Jesus, no Novo Testamento, é a plentitude dessa atitude (evangelho). Antes de iniciar seu caminho rumo a Jerusalém, ele encontra Deus na oração, na montanha. Aí, Deus o confirma na sua vocação.

E, ao mesmo tempo, dá aos discípulos segurança para que sigam Jesus: mostra-lhes Jesus transfigurado pela glória e proclama que este seu Filho é o portador de seu bem-querer, de seu projeto. Se incluímos em nossa meditação a 2ª leitura de hoje, aprendemos que nossa “santa vocação” não é um peso, mas uma graça de Deus. Portanto, não deve nos assustar.

A prática cristã exige conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz o evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dele – até a glória, passando pela cruz. Assim como Abraão escutou a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.

Isso é impossível sem renúncia (para usar um termo que saiu de moda). Renúncia não é algo negativo, mas positivo: é a liberdade que nos permite escolher um bem maior. Isso vale para ricos e pobres. De fato, o povo explorado deve descobrir a renúncia libertadora. Não privação, mas renúncia. O povo precisa renunciar ao medo, ao individualismo e a outros vícios que aprende dos poderosos. Então saberá assumir sua vocação. E os ricos e poderosos, se quiserem ser discípulos do Cristo, terão de considerar aquilo que possuem como um meio, não para dormir, mas para servir mais, colocando-o à disposição de uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Todas as reflexões foram tiradas do site: franciscanos.org.br

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