phone 

Cúria Diocesana

91 3425-1108

PESO E LIÇÕES DO DISTANCIAMENTO SOCIAL

Introdução A pandemia da COVID-19 está provocando um enorme impacto nos critérios e na dinâmica do comportamento das pessoas em todo o mundo. Todas as dimensões da vida humana, de modo direto ou indireto, estão sendo e/ou foram afetadas. É importante que, conscientes dessa realidade que se impôs a nós, mantenhamos a devida serenidade, capacidade de percepção das novas exigências, acolhida dos novos padrões de sociabilidade (provisórios), bem como a devida reflexão sobre aquilo que, querendo ou não, devemos adotar como procedimentos de segurança e prudência. Uma dessas novas exigências é o distanciamento social. Para muitos certamente tem sido um verdadeiro desafio, peso, tortura e até é visto como exigência causadora de grande sofrimento pessoal. Mas será que há algo de positivo nessa experiência? Que oportunidades temos com esse comportamento compulsório? Quais lições podemos tirar do distanciamento social?        O homem é um ser social A experiência do distanciamento social nos pesa porque é uma medida que limita a liberdade e disciplina o dinamismo da nossa experiência de convivência social. O homem é um ser social; é na liberdade do relacionamento com os outros que ele cresce, se fortalece, aprende, toma consciência da sua identidade e manifesta seus afetos. O distanciamento social também envolve a nossa afetividade, pois é na espontaneidade da relação com os outros que revelamos os nossos sentimentos, desejos, sonhos e paixões. O distanciamento social também nos pesa porque já não nos é permitido expressar nossas emoções através do contato físico. Nós latino-americanos, carregamos conosco, uma forte carga afetiva que passa pelo corpo, pelo toque; manifestamos nossos afetos não somente com palavras, mas sobretudo, com o aperto de mão, com o abraço, com o beijo, com o tapinha nas costas, com as mãos na cabeça do outro e com colo, como lugar de ternura, de aconchego, de ternura. Por isso, o distanciamento social nos custa tanto. Expressamos o nosso bem-querer através do contato físico. O corpo a corpo também marca as nossas origens, desde o útero materno até os primeiros anos de vida. Na cultura brasileira, em geral, de norte a sul, um bebê é sempre foco de atração passando de braço em braço e recebendo abraços, beijos, apertos, carícias!    O distanciamento como proteção Uma das mais brilhantes capacidades humanas é aquela de ressignificar e dar sentido para o seu comportamento. A ressignificação e o redimensionamento do nosso comportamento estão sempre condicionados pelo contexto de vida. Sem considerarmos o nosso contexto existencial não conseguimos dar um novo sentido para aquilo pelo qual passamos. Situado no contexto de uma grande doença contagiosa de proporção mundial, a COVID-19, impôs ao coletivo o distanciamento social, por razões sanitárias, tendo como objetivo reduzir a possibilidade da propagação da doença e favorecer a preservação da saúde dos indivíduos. Há uma hierarquia de valores que deve ser obedecida que justifica a obediência dessa medida. Trata-se da vida, da saúde, do bem-estar e da segurança de todos. Partindo do princípio da beneficência, essa medida é maravilhosa. Isso significa que o bem-fazer é o princípio fundamental que deve reger o nosso relacionamento com os outros. O mais importante não é a proximidade, mas a relação segura, serena, boa, saudável. Não se trata de negação da sociabilidade, mas de disciplina das suas manifestações em vista de preservar a saúde dos envolvidos.   A justa e saudável distância A pandemia da COVID-19 que nos impõe a necessidade do distanciamento social, independente do atual contexto sanitário, também nos oferece a oportunidade de refletir sobre a justa e positiva distância do outro que deveríamos sempre cultivar. É por falta da justa distância do outro que acontecem violências. Toda violência é sempre um ato de ruptura da saudável margem de distância do outro. Também o respeito pelo direito à privacidade alheia só é possível, preservando o adequado distanciamento social. Há outro espaço que não é físico, que precisa ser preservado e aprofundado. Trata-se do espaço de liberdade (deixar que o outro se manifeste), do espaço afetivo (deixar que o outro revele seus sentimentos com liberdade), do espaço moral (respeito pelo testemunho de valores e virtudes), do espaço intelectual (ausência de repressão à opinião alheia), do espaço religioso (liberdade de testemunho da própria fé). A qualidade da aproximação ou o distanciamento social dependem das consequências. Nem sempre a intimidade é positiva, nem toda aproximação é benéfica e nem todo distanciamento social é negativo. O atual distanciamento social nos convida a fazer a experiência da higienização das nossas relações interpessoais. Não há somente a ameaça do micro-organismo chamado coronavírus, sofremos também de uma diversidade de epidemias que acometem a qualidade das relações interpessoais, a política, a economia, a autêntica vida religiosa. Somos convidados a promover o que nos contagia positivamente e a evitar tudo aquilo que não é positivo.   Responsabilidade e honestidade Na Bíblia o zelo pela saúde da comunidade motivou os líderes (sacerdotes, sobretudo) a estabelecerem sérios procedimentos de tratamento de cada caso: a pessoa doente, era isolada para ser analisada por diversos dias (cf. Lv 13,3-5), observava-se o desenvolvimento da doença (cf. Lv 13,8) enfim, após a comprovação da mesma, o sacerdote fazia a declaração. Aquele que recebia o resultado positivo do exame de lepra, era imediatamente afastado do convívio comunitário para não contaminar os outros (cf. Lv 13,46), assumia a responsabilidade de reconhecer o próprio estado de impureza por onde andasse gritando: «Impuro! Impuro!» além de adotar uma postura diferente capaz de ser logo reconhecido pelos membros da comunidade andando com roupas rasgadas, despenteado e barbado (cf. Lv 13, 46). O que nos interessa acolher dessa dramática referência é o senso de responsabilidade que o doente devia assumir para não contagiar os outros. Entre infectados e sadios deve haver uma profunda sinceridade. É necessário buscar o equilíbrio entre o indivíduo contaminado e a preservação da saúde da comunidade, bem sabemos que um indivíduo “contaminado” pode comprometer o bem-estar de uma comunidade inteira; é necessário, portanto, o amadurecimento no que tange ao reconhecimento e consciência dos males pessoais que ameaçam a comunidade. É uma atitude de delicadeza e honestidade preservar o bem alheio. É tempo de ressignificar as nossas relações! Em nossa sociedade ninguém declara a “própria impureza” e por isso, cresce a cada dia, os contaminados pela corrupção, pelo suborno, pela mentira, pelas fake news etc. É um grave pecado, disseminar o mal. Por isso São Paulo recomendava aos seus fieis: “peço que vocês tomem cuidado com aqueles que provocam divisões e obstáculos contra a doutrina que vocês aprenderam. Fiquem longe deles…” (Rm 16,17-18); “não se deixem iludir: as más companhias corrompem os bons costumes” (1Cor 15,33). “Fiquem longe de toda espécie de mal” (1Ts 5,22). Independente da pandemia, somos chamados a cuidar do espaço entre nós e o outro. Se de um lado o excesso de distanciamento gera solidão, o abuso da aproximação agride!   PARA REFLEXÃO PESSOAL: Como você está fazendo a experiência do distanciamento social? Quando a proximidade é negativa? O que São Paulo nos alerta na relação com os outros? POR DOM ANTÔNIO DE ASSIS RIBEIRO, SDB Bispo Auxiliar de Belém - PA e Secretário Regional da CNBB Norte 2 Tirado do site da CNBB N2

ARTIGO: A EXPERIÊNCIA DO NAMORO: UM CAMINHO DE AMADURECIMENTO

Introdução Mais uma vez as publicidades se enchem de anúncios amorosos! Chegou o dia dos namorados! A linguagem comercial é imperativa impondo a todos os usuários das mais variadas mídias uma ideia radical: “se você ama dê um presente para o seu amor!”. É um amor que passa pelo consumo! O dia dos namorados é a quarta data mais importante para o comércio nacional, superado apenas pelo Natal, dia das mães e dia das crianças. Esse é somente um dos tantos apelos que recaem sobre os namorados; lamentavelmente o amor é vinculado às coisas, ao consumo e aos prazeres. A economia faz os seus apelos e a pastoral deve também fazer a sua parte. Por isso, achei oportuno nesta semana convidá-lo para refletir sobre a natureza do namoro, sobretudo para os jovens. Diante da banalização das relações humanas que gera múltiplos e dramáticos fenômenos como a violência, a indiferença, a solidão, o homicídio e o máximo dos prazeres, somos convidados a aproveitar da ocasião do dia dos namorados para convidar os jovens a refletirem sobre a experiência do namoro. Os crescentes dados sobre da violência contra a mulher (espancamento, assédio moral, feminicídio…) nos alertam para a urgente necessidade da educação para o amor e as relações de gênero na sociedade.   Uma linda experiência humana Uma das mais profundas e confortantes experiências humanas é aquela de dar e receber afeto. Isso está no íntimo do nosso ser, em nossa mente e coração! Não somos somente seres sociais, capazes de interação com os outros, somos também dotados da capacidade de amar; de manifestar sentimentos, de revelar aos outros a nossa ternura, o nosso carinho, nossa admiração; somos portadores do sentimento de atração! Não existe o ser humano naturalmente bruto, violento, seco, vazio de afeto. Na verdade, somos naturalmente carentes de amor, sentimos necessidade de amar e ser amados; de dar e receber afeto. O namoro deve ser uma experiência fundada nesse húmus do coração humano e, por isso, deve ser um relacionamento no qual só deve haver espaço para acolhida gratuita, para a ternura, cuidado, proteção, sinceridade, confiança. No centro da palavra namorado(a) está a palavra amor (no+amor+ado); os namorados, por coerência do sentido da relação, deveriam ser aqueles que estão ancorados no amor. Essa relação perde todo sentido e sua positiva qualidade, quando um ou ambos se afastam do seu fundamento que é o amor, do qual brotam os devidos cuidados éticos e atitudes de ternura, respeito, perdão, paciência, etc. Se não houver essa consciência de amor enquanto cuidado com o bem do outro, restarão os impulsos, os instintos e os interesses pessoais que promoverão a violência.   Experiência de amadurecimento Na Exortação Apostólica Alegria do Amor (Amoris Leatitia), o Papa Francisco nos fala generosamente do desafio para o processo da preparação matrimonial. Nessa perspectiva, a experiência do namoro deve ser um caminho de amadurecimento humano do casal. Apesar da liberdade, deve ser uma experiência que pressupõe compromisso com o outro. Sem isso tudo fica em risco; aqueles que estão verdadeiramente enamorados devem assumir o compromisso de amor um para com o outro que pressupõe amizade, gestos de cuidados e esforços para evitar a mesquinhez e egoísmo (cf. AL,132-133). Nesse dinâmico horizonte de relacionamento, o namoro é uma experiência formativa. Casais que não se educam não se amam! Namorados que evitam qualquer forma de descontentamentos recíprocos, que não se confrontam seriamente, não crescem, não amadurecem. Dessa forma, lamentavelmente viverão um relacionamento baseado em concessões recíprocas. Isso vicia, alicia e infantiliza. Na perspectiva da vida matrimonial, nenhum namoro baseado simplesmente no consumismo prazeroso, será capaz de contribuir para sustentar a séria responsabilidade da constituição de uma nova família. A vida não é só feita de prazer, mas de luta, trabalho, suor, convivência e para saber superar os desafios é necessário virtudes.    Dez pistas reflexivas para os jovens Não existe verdadeiro namoro se não houver amor entre os dois. O Amor não é atração física; o amor é querer o bem do outro; o amor é compromisso, é responsabilidade, é pacto com a verdade. Não existe verdadeiro amor onde não há honestidade, autenticidade, sinceridade;   O amor exige que os dois tenham uma profunda reta intenção, um olhar para o mesmo rumo e com liberdade. Jamais um deverá fazer do outro objeto a ser manipulado. Toda espécie de chantagem afetiva é sinal de dependência e imaturidade; O amor exige dos dois um processo de contínuo confronto e discernimento daquilo que é bom e justo para ambos. Não é bom sinal quando os dois estão sempre se acusando e se defendendo, sem buscar o entendimento e a comunhão; O ciúme é a insegurança que machuca qualquer relacionamento amoroso; aliás, quem é doentiamente ciumento, é afetivamente imaturo e tenta transformar o outro num objeto a ser possuído e manipulado; o ciumento doentio tende a ser a violento; O amor exige amadurecimento humano, processo, etapas; essa dinâmica de relação estimula a formação humana integral das pessoas, porque o amor é íntegro. Quem diz que ama deve estar disposto a crescer e a se educar; amor e verdade caminham juntos; por sua própria natureza, o amor evita tudo o que é inconveniente; O namoro é um caminho de descobertas e conhecimento recíproco; não deve ser aprisionamento no prazer; por isso casal é chamado a se conhecer, a se revelarem, a serem confrontados em seus modos de pensar e agir olhando para o futuro; Quem ama não força um relacionamento. Os namorados devem manter-se livres e responsáveis! Relacionamento forçado, quase sempre termina em violência. Não existe namoro, por favor, por piedade, por compaixão, por pena do outro; Não existe verdadeiro amor sem Deus, porque Deus é Amor. Sem fé, os namorados serão continuamente arrastados pela impulsividade irresponsável; mas o amor é paciente, tudo espera! Sem a experiência da oração, tendem a se afogar nos prazeres; a fé educa para o verdadeiro amor; O engajamento na Igreja purifica a experiência do amor do casal; jovens casais de namorados, discípulos de Jesus, devem estar participando ativamente da vida da Igreja; Essa é uma experiência que irá proporciona-lhes grande crescimento humano e espiritual; Enfim, e o casal de namorados que pensa em vida matrimonial seriamente, deverá pouco a pouco, caminhando para o noivado, elaborar o próprio projeto de vida familiar (tema já tratado em artigos anteriores). Sem projeto de vida, tudo será antecipado e atropelado gerando fracasso.   PARA REFLEXÃO PESSOAL: Quais apelos a mídia apresenta para os namorados atualmente? Como os jovens namorados podem crescer reciprocamente? Qual dos dez itens elencados mais lhe chamou a atenção? POR DOM ANTÔNIO DE ASSIS RIBEIRO, SDB Bispo Auxiliar de Belém - PA e Secretário Regional da CNBB Norte 2 Tirado do site da CNBB N2

GEORGE FLOYD: UM SUSSURRO POR MISERICÓRDIA

Introdução O dia 25 de maio de 2020 poderia ter sido mais uma jornada em que os jornais do mundo estariam concentrados nos mais variados subtemas da pandemia da COVID-19, se não tivesse acontecido outra tragédia. Desta vez, não provocada por um vírus, mas por um bruto e frio policial americano chamado Derek Chauvin. O fato, largamente noticiado, aconteceu em Minneapolis, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Um homem chamado George Perry Floyd, 46 anos, afro-americano, fora acusado de usar uma nota falsificada de US$ 20,00 (vinte dólares) numa loja; denunciado por um funcionário, George foi perseguido pela polícia, imobilizado, algemado, deitado de bruços. Como se não bastasse o bruto Derek ajoelhou-se em seu pescoço enquanto o acusado sussurrava dizendo que não conseguia respirar; foi asfixiando-o até à morte. A imagem é chocante! O ato brutal, hediondo, deprimente, indignante, vergonhoso causou comoção imediata naquela cidade formando um enorme protesto que se alastrou por outros estados americanos, Europa e outros países do mundo.   “Não consigo respirar!” O sussurro estrangulado de George Floyd foi suficientemente para incomodar o mundo. Isso aconteceu porque lá onde um ser humano é humilhado e violentado, ocorre um atentado contra a humanidade. O grito do mundo, com seus protestos e até lamentavelmente, atos violentos, é a manifestação de que hoje cresce cada vez mais na humanidade a consciência de dignidade, respeito e irmandade universal. Uma vez que os povos e nações deram passos tão significativos na economia, nas ciências, na seriedade política e consciência de direitos, não há espaço para a tolerância diante de crimes dessa natureza. As atitudes do assassino Derek Chauvin representam o monstruoso bicho que está em cada um de nós quando perdemos a consciência de civilidade e a racionalidade que tempera as nossas atitudes. Isso não é poesia, nem utopia, é a realidade do ser humano. Há uma só humanidade. Fora dos status socio-econômico e das condições circunstanciais, ninguém é maior do que ninguém. Na essência somos todos iguais, independente de origem, cor, sexo, língua, religião, profissão, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição; é isso que postula a Declaração Universal dos Direitos Humanos. “Não consigo respirar” é o grito pelo mínimo respeito pela dignidade de ser e viver. “Não consigo respirar” é a dramática denúncia da prepotência humana, do absurdo da insensatez e da brutalidade de quem em nome da ordem, despreza a vida e a suprime. “Não consigo respirar” é o gemido denunciante do atentado contra a negação daquilo que é mínimo e gratuito, o oxigênio. A negação do oxigênio ao outro, porém, de forma tão humilhante (estando de joelhos em cima do pescoço do outro) é reflexo da total perda daquilo que mais nos caracteriza enquanto humanos, a capacidade de discernimento e de expressar compaixão, a capacidade de se colocar no lugar do outro.   “Eu tenho um Sonho” O aterrorizante fato de Minneapolis que aniquilou Geoge Floyd gerando uma incontida fúria de milhões de pessoas pelo mundo afora, nos recordou a luta do mártir da defesa da dignidade humana, contra o racismo, o pastor batista Martin Luther King, assassinado em 1968. A grande convicção de Martin Luther King era esta: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar ódio; só o amor pode fazer isso”. Tratava-se da força da não violência! Impulsionado pela força do amor contra toda e qualquer forma de violência baseada em diferenças raciais, Martin Luther King, sonhava com um mundo onde as relações humanas não fossem medidas pelo critério de padrões secundários, mas pela essência da mesma dignidade, comum a todos os humanos. E seu sonho ecoou pelo mundo! “Eu digo a vocês hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades do hoje e do amanhã… Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano… Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais… Eu tenho um sonho… os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade… Eu tenho um sonho que um dia… um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça… Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter…” (Martin Luther King).   A Igreja e a dignidade humana Seguindo a sensibilidade e os passos do seu fundador, mestre e senhor, a Igreja também sonha! Seu sonho é o Reino de Deus, a radical transformação das relações humanas baseadas no amor. Por isso, os discípulos de Jesus Cristo conservam a consciência que há uma íntima união entre fé, acolhida, tutela, defesa e promoção da dignidade humana. Certa dessa convicção a Igreja afirma: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS, 1). Os fatos de Minneapolis não estão confinados na questão racial, mas atingem a totalidade das relações humanas. Há um “Derek Chauvin” dentro de cada um de nós que se levanta embrutecido quando não crescemos na consciência da íntima relação entre amor a Deus e ao próximo. Essa é a dimensão moral da fé que confere sentido e qualidade agradáveis para as nossas atitudes e escolhas. A Igreja, porta-voz dos valores e atitudes do Reino de Deus, tem a consciência de ser «perita em humanidade» (PP, 13), por isso, fatos como esse, onde quer que aconteçam, devem nos inquietar, ferir e ser objeto de reflexão. A Igreja, à semelhança das manifestações do Deus libertador do Êxodo deve também continuar sensível aos mais variados clamores humanos: deve vê-los, ouvi-los, aproximar-se deles, senti-los, descer ao seu encontro e tomar iniciativas pastorais estimulando processos de transformação da realidade. Ai de nós se um dia não formos mais sensíveis e capazes de ouvir os sussurros dos humilhados e de oferecer a eles nossa compreensão e compaixão. George Floyd sussurrou “não consigo respirar” e Jesus “tenho sede”! Com esses gemidos de dor ambos revelaram o radical estado de negação do básico das necessidades humanas. Somos chamados a consolidar em nós convicções éticas e a assumir compromissos pastorais que evidenciem, como Igreja e pastorais específicas, a nossa luta pela transformação das estruturas de violência deste mundo promovendo o Reino de Deus. George Floyd está entre nós de muitos modos e com diversas aparências; ele se faz presente nas áreas de ocupação entre os sem tetos, nos pobres excluídos do bem comum, nos indígenas violentados, nos moradores de rua, nos encarcerados, nos doentes sem atendimento, nos migrantes sem amparo, nas mulheres violentadas, no Estado saqueado pela corrupção, etc. Nesses e em tantos outros sujeitos, Cristo é estrangulado todos os nossos dias. Jesus nos alerta: ”bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça porque serão saciados” (Mt 5,6).   PARA A REFLEXÃO PESSOAL: Você tomou conhecimento dos fatos mencionados? O que você sentiu ao contemplar a imagem humilhante de Derek sobre George? Que mensagens e compromissos podemos colher desse fato? POR DOM ANTÔNIO DE ASSIS RIBEIRO, SDB Bispo Auxiliar de Belém - PA e Secretário Regional da CNBB Norte 2 Tirado do site da CNBB N2

MARIA, MULHER COMO AS OUTRAS? (2)

Introdução Devido o forte carinho dos fieis católicos para com a pessoa da Mãe de Jesus e considerando a importância pastoral deste tema, foi-me solicitado continuar esta reflexão apresentando outros aspectos. Agradeço a atenção por isso. De fato, minha preocupação é justamente de caráter pastoral visando oferecer aos leitores, pistas como subsídios que possam favorecer uma visão mais profunda da beleza e grandeza de Nossa Senhora. A didática de apresentação está em sintonia com as provocações; por outro lado, da parte dos fieis católicos se constata a necessidade da assimilação de mais conteúdo mariano para poderem contra-argumentar diante das investidas fundamentalistas e intolerantes contra a dignidade da mãe de Jesus Cristo. Espero que tais reflexões contribuam para crescermos no desejo de mais fundamentação da devoção mariana. Somente na objetividade do conhecimento dos Evangelhos é que a figura de Maria poderá ser, em sua excepcional dignidade, acolhida e respeitada como convém; os Evangelhos nos oferecem as bases fundamentais e os parâmetros para a justa e saudável devoção. Então continuemos nossa reflexão!   Se Maria é uma mulher como as outras, por que chamá-la de Nossa Senhora? A questão é simples. A mãe de um senhor é uma senhora! E por isso, a mãe do Nosso Senhor é Nossa Senhora. Essa não é uma invenção da Igreja Católica; é uma declaração de Isabel que disse: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,42-43) e do próprio Jesus Cristo dizendo: “eu sou o Mestre e o Senhor” (Jo 13,13). Também o apóstolo Tomé proclamou sua fé em Jesus Ressuscitado declarando-lhe: “Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28). São Paulo afirma: “Jesus Cristo é o Senhor para a Glória de Deus Pai” (Fl 2,11); justamente em virtude do mistério da Santíssima Trindade, Maria gestante, não é portadora simplesmente de uma pessoa humana, mas também portadora do Filho de Deus nela encarnado. O menino, desde a sua concepção tem dupla natureza, a humana e a divina. Essas duas realidades são indissociáveis, por isso disse o anjo: “o menino que nascer de ti…” (Lc 1,31). Na carta aos Gálatas está escrito: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho; nascido de uma mulher” (Gl 4,4). É daí que vem a Senhoria de Maria! Maria é uma mulher como outras? Então, todas elas já carregaram no seu ventre o Salvador da humanidade? E será que fizeram essa experiência degustando o silêncio contemplativo? Na verdade só Maria de Nazaré viveu tudo isso. Ela é a mulher do Mistério! Ela é a mãe do Mistério escondido por séculos que a nós foi revelado e anunciado (cf. Rm 16,25; Ef 3,9; Cl 1,26). Por isso, consciente de ser portadora dessa realidade sublime e divina sua atitude foi de silêncio e contemplação. O evangelista Lucas afirma que Maria, conservava todos os fatos e palavras e meditava sobre eles em seu coração (cf. Lc 2,19.51). Maria é a mulher do silêncio eloquente, portadora do mistério da salvação, por isso não é uma mulher qualquer! Maria é uma mulher como as outras? Então, quantas tiveram a honra de ser a educadora do Mestre dos mestres? Isso não é invenção! Jesus, o Filho de Deus, foi obediente à sua mãe e por ela foi acompanhado e educado na condição de filho, em processo de desenvolvimento: ele crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens (cf. Lc 2,51-52). Quem das mulheres teve o privilégio de fazer-se obedecer pelo Rei dos reis, se impondo a ele como mãe e educadora com toda autoridade? É justamente isso que nos relata o evangelista Lucas narrando o encontro do menino no templo entre os doutores da lei; Maria lhe disse: «Meu filho, por que você fez isso conosco? Olhe que seu pai e eu estávamos angustiados, à sua procura» (Lc 2,48). “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e permaneceu obediente a eles” (Lc 2,51). Essa autoridade, liberdade e carinho para com o seu Filho, Maria nunca perdeu, porque mãe é sempre mãe; por isso, hoje, é nossa mãe no seu filho e, como tal, nossa intercessora. As mães sempre intercedem por seus filhos. Essa autoridade diante do Nosso Salvador, só ela tem no céu! Por isso não nos cansamos de dizer: “rogai por nós”! Maria é uma mulher como as outras? E quantas acompanharam o Salvador carregando a sua cruz? Quantas viram seu filho sendo crucificado, morto e mais ainda ressuscitado? A quantas mulheres o crucificado do alto da cruz disse: «Mulher, eis aí o seu filho.» Maria é declarada pelo próprio Jesus como mãe do discípulo amado. E depois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe»? Jesus diz ao discípulo que Maria era sua mãe, ou seja, a maternidade de Maria é compartilhada, estendida a toda à Igreja, sendo representada pelo discípulo amado. O discípulo amado de Jesus acolhe a sua mãe e por isso João declara: “E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,25-26). Nenhuma outra mulher viveu essa experiência e ouviu essas declarações. Então, Maria não é como outra qualquer! Maria é uma mulher como as outras? Analisemos outra questão. Desta vez consideremos o nascimento do seu filho e as repercussões dessa notícia. O nascimento dessa criança foi fato gerador de grande impacto para os habitantes da Judeia. Um anjo anunciou o nascimento da criança, mais ainda também declarou a sua identidade e o seu futuro: “um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: «Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc 2,9-11). “De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados» (Lc 2,12-13). Qual mulher na história da humanidade viu isso acontecer no ato de dar a luz seu filho, quantos anjos lhe apareceram, o que cantaram e o que disseram da criança? Só Maria de Nazaré viveu essa experiência, por isso ela não é uma como as outras! Após o nascimento da criança iniciaram as visitas a ela. Fato comum a tantas mães vendo os parentes, amigos e vizinhos se alegrarem por causa do recém-nascido. Mas de um grupo de visitantes algo extraordinário Maria contemplou o que certamente lhe causou profunda comoção. Vejamos o que nos descreve o evangelista Mateus: “quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem. Depois, abriram seus cofres, e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Receber visitas tudo bem, ser homenageado(a) é compreensível, mas ajoelhar-se diante do bebê é algo único. Com esse gesto os magos do oriente reconheceram a divindade do menino, por isso, se prostraram em adoração diante dele. Alguma outra mulher já presenciou visitantes prostrando-se em adoração diante do seu bebê? Só Maria de Nazaré viu isso, então ela não é como as outras mulheres. Naquele bebê habitava a plenitude da divindade (cf. Cl 2,9); Ele é a irradiação da glória de Deus e por isso está acima dos anjos (cf. Hb 1,1-4). Estamos diante do mistério da encarnação do Filho de Deus! Maria não é mãe de um mero corpo, mas de uma pessoa, Jesus Cristo, plenamente humano e divino! Portanto, a negação da extraordinária dignidade de Maria, não é um simples ataque à mãe de Jesus, mas ofensa à identidade do próprio Filho de Deus! A ignorância gera confusão. Boa conclusão do mês mariano!   PARA REFLEXÃO PESSOAL: Por que é importante a clareza da relação entre Maria e Jesus? Quais os perigos de uma devoção mariana sem base bíblica? Qual dos itens mais chamou sua atenção? POR DOM ANTÔNIO DE ASSIS RIBEIRO, SDB Bispo Auxiliar de Belém - PA ••• Todos os artigos de Dom Antônio sobre a pandemia do novo coronavírus (COVID-19): 1- EM TEMPOS DE CRISE, GRANDES LIÇÕES: a dimensão socioafetiva e moral (Parte 1) 2- EM TEMPOS DE CRISE, GRANDES LIÇÕES: A Pastoral Juvenil em tempos de Quarentena (Parte 2) 3- O sofrimento na pandemia da COVID-19 e a questão religiosa (parte 3) 4- A pandemia da COVID-19: A saúde, dom e responsabilidade (Parte 4) 5- Jesus Cristo e a Promoção da Saúde (Parte 5) Tirado do site da CNBB N2

MARIA, MULHER COMO AS OUTRAS? (1)

Introdução O mês Mariano nos estimula a aprofundar a mariologia, ou seja, o conhecimento objetivo da identidade de Maria, a mãe de Jesus Cristo. Na Exortação Apostólica “Marialis cultus” do Papa São Paulo VI (1974), temos orientações para o reto desenvolvimento do culto à bem-aventurada Virgem Maria; nela encontramos o convite para darmos a devida atenção à dimensão bíblica da devoção à Nossa Senhora. Se de um lado há a tendência devocionista por parte de fiéis católicos, por outro, no meio neopentecostal encontramos a incoerência do vazio em relação à referência à Maria; esse vácuo de reflexão bíblica e teológica sobre a figura de Maria tem causado graves danos na vida religiosa de muitos fiéis tais como: manifestando-se na incoerência em relação aos dados bíblicos, na seletividade contraditória de personagens bíblicos (por exemplo, ressaltando Abraão, Moisés, Gideão, Salomão… mas ocultando radicalmente a grandeza de Maria), na ignorância sobre o impacto de uma distorcida mariologia sobre a identidade de Jesus Cristo, na agressividade por causa da ignorância, implícito sentimento de orfandade materna!  Um fato que resume tudo isso é, por exemplo, a famosa sentença: “Maria é uma mulher como as outras”. A resposta objetiva e crítica sobre esse equívoco preconceituoso é uma necessidade, uma vez que trata da profunda relação existente entre a pessoa do Filho de Deus e sua mãe. Uma mulher como outra qualquer também teria tido um filho como os demais homens. Mas não é isso que encontramos nas referências bíblicas. É preciso ser honesto! A quantas mulheres foi enviado por Deus o anjo Gabriel? (cf. Lc 1,26). Quantos anjos ou quantas vezes Gabriel, o mensageiro de Deus, já apareceu para as mulheres deste mundo? Já pareceu para você, para sua mãe, para a sua avó, para a sua bisavó, para as suas irmãs? Sabe de alguém que viveu essa experiência? Não!? Pois é isso mesmo, só sabemos de um caso! Por aquilo que sabemos, por coerência histórica, não foi algo comum. Maria, a mãe de Jesus, então, não foi e nem é como as outras mulheres! Quantas mulheres em sua experiência mística, em sua oração pessoal ou comunitária, recebeu esta saudação de um anjo: «Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com você!» (Lc 1,28)? Saudada como cheia de Graça? Cheia da presença de Deus, portanto, sem espaço para o pecado! Por aquilo que sabemos nenhuma outra mulher ouviu essas palavras direcionadas a si mesma por um dos habitantes do céu, mensageiro de Deus, mas a Mãe de Jesus, sim. Então, será que ela é como as outras? Quantas mulheres já receberam de um dos mensageiros celeste esta notícia: “Eis que você vai ficar grávida, terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1,31-32; Mt 1,25).). Normalmente, a notícia da gravidez vem pela medicina, através de exames, ou ainda pela própria grávida quando percebe mudanças em seu dinamismo ginecológico. Por outro lado, a qual das mulheres recebeu a notícia que seu filho seria Filho do Altíssimo, por Ele gerado? Sobre isso a história não nos revela outros dados, só aconteceu com uma mulher, chamava-se Maria de Nazaré! Então, será que ela é como as outras? Continuemos o nosso diálogo! Se alguns insistem em dizer que “Maria é como as outras mulheres”, então, por honestidade mais uma questão pertinente nos vem à mente: quantas mulheres recebeu a informação que ficaria grávida por ação do Espírito Santo? Assim lhe disse o anjo: «O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). Por aquilo que sabemos, naturalmente, a gravidez de uma mulher requer a participação de um homem. Ainda hoje no interior amazônico, há os “filhos de boto”, expressão que significa crianças de pais desconhecidos, ocultados pela mãe por causa da vergonha, da violência e outros motivos. Mas na verdade, boto não engravida mulher! Mas aquela jovem de Nazaré, ficou grávida por ação do Espírito Santo! Por isso o seu Filho, é o Santo, Filho de Deus, o Salvador da humanidade por ser Deus encarnado. Então é justo afirmar que Maria é como as outras? Isso não cheira a orgulho? Outro fato que nos chama atenção com total sintonia com os dados bíblicos diz respeito às palavras de Isabel a Maria; quando estava grávida foi lhe visitar para dar-lhe a sua ajuda (cf. Lc 1,39-47). O evangelista Luca afirma: “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1,41). Maria, com Jesus Cristo em seu ventre, é também portadora do Espírito Santo! Tendo sido saudada como “cheia de Graça” pelo anjo Gabriel, ela é portadora do Espírito Santo e por isso gera impacto em sua prima! Você já ouviu alguma mulher receber esse elogio sendo portadora do Espírito Santo por trazer no seu ventre o Salvador? Então, a história de Maria é extraordinária, não é como as outras mulheres! Continuemos aprofundando o perfil de Maria seguindo os dados bíblicos comuns tanto na Bíblica Católica quanto na protestante. Agora recordemos o grito de Isabel movida por grande alegria declarando à grávida jovem visitante: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1,42). A declaração de Isabel é fantástica, única, poética e real; recheada de senso de meditação sobre o mistério de Deus, de humildade diante da outra e de fé. Para Isabel Maria é a bem-aventurada (agraciada) entre todas as mulheres do mundo e o menino Jesus é por Isabel reconhecido como o Bendito fruto do seu ventre. O Bendito é Deus! Só Deus é o Bendito, como nos afirma o profeta Daniel: «Bendito sejas tu, Senhor, Deus de nossos pais, tu és digno de louvor e o teu nome é glorificado para sempre!” (Dn 3,26-27). O Filho de Maria é o Bendito aclamado como Rei e Senhor (cf. Lc 19,38). Alguma outra mulher já recebeu uma declaração de tal calibre? Então, Maria não é como as outras mulheres! Outro fato é digno de ser ressaltado que faz de Maria a mais extraordinária das mulheres. No seu hino no qual proclama a grandeza de Deus reconhecendo-o como o Senhor da história, ela profeticamente afirma: “Daqui para frente todas as gerações me felicitarão, porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor” (Lc 1,46-48). Aquilo que os fieis católicos nutrem para com a Mãe do Senhor, é hoje no mundo, obediência a essa profecia, realizando e atualizando a mesma. Qual outra mulher ao longo da história da humanidade já ousou dizer: daqui pra frente todas as gerações me chamarão bem-aventurada? A história da humanidade está cheia de grandes mulheres, místicas, teólogas, mártires, santas, filósofas, cientistas, escritoras, líderes etc., todavia, para nenhuma delas se deve a consideração à semelhança de Maria, a Mãe do Mestre de Nazaré. Então, Maria é como outra qualquer? O honesto reconhecimento dos dados da Sagrada Escritura a respeito de Maria é necessário para que não se desqualifique a identidade de Jesus Cristo. Não se pode atacar a mãe sem atingir o Filho, muito menos acolher o Filho e desprezar sua mãe. Há uma relação íntima entre Cristologia e Mariologia, entre Mãe e Filho, entre o Filho e sua Mãe. Continuaremos… PARA REFLEXÃO PESSOAL: Você já ouviu alguém afirmar: “Maria é uma mulher como as outras”? Como você reagiu? Por que algumas pessoas pensam dessa forma e quais as consequências? Elenque outros motivos pelos quais Maria, a Mãe de Jesus, não é uma como as outras mulheres?   POR DOM ANTÔNIO DE ASSIS RIBEIRO, SDB Bispo Auxiliar de Belém - PA ••• Todos os artigos de Dom Antônio sobre a pandemia do novo coronavírus (COVID-19): 1- EM TEMPOS DE CRISE, GRANDES LIÇÕES: a dimensão socioafetiva e moral (Parte 1) 2- EM TEMPOS DE CRISE, GRANDES LIÇÕES: A Pastoral Juvenil em tempos de Quarentena (Parte 2) 3- O sofrimento na pandemia da COVID-19 e a questão religiosa (parte 3) 4- A pandemia da COVID-19: A saúde, dom e responsabilidade (Parte 4) 5- Jesus Cristo e a Promoção da Saúde (Parte 5) Tirado do site da CNBB N2

Via-Sacra: meditações escritas do cárcere

Cinco detentos, uma família vítima de homicídio, a filha de um condenado a prisão perpétua, uma educadora, um juiz corregedor de presídios, a mãe de um presidiário, uma catequista, um sacerdote acusado injustamente, um frade voluntário, um policial, todos ligados à Capelania do Cárcere “Due Palazzi” de Pádua: são os autores das meditações que serão lidas durante a Via-Sacra deste ano, presidida pelo Papa Francisco no adro da Basílica de São Pedro. “Acompanhar Cristo no Caminho da Cruz, com a voz rouca dos que vivem no mundo carcerário, é uma oportunidade para assistir ao prodigioso duelo entre a Vida e a Morte, descobrindo como os fios do bem se entrelacem inevitavelmente com os fios do mal”. São palavras escritas na introdução das meditações da Via-Sacra publicadas pela Libreria Editrice Vaticana. Os textos, as narrações do capelão do Instituto carcerário “Due Palazzi” de Pádua, padre Marco Pozza, e da voluntária Tatuana Mario, foram escritos por eles mesmos, mas pretendem dar voz a todos os que compartilham a mesma condição no mundo inteiro. No cárcere, Jesus me procurou “Crucifica-o, crucifica-o!”. A pessoa que comenta a primeira estação (Jesus é condenado à morte) é um condenado à prisão perpétua. Crucifica-o “é um grito que ouvi dirigido a mim”, escreve. A sua crucificação iniciou quando era criança, uma criança marginalizada, agora considera-se mais semelhante a Barrabás do que a Cristo. O seu passado é algo que lhe causa repulsa. “Depois de 29 anos de prisão – afirma – ainda não perdi a capacidade de chorar, de me envergonhar pelo mal que fiz (…) porém sempre procurei algo que fosse vida”. Hoje “percebo, no coração, que aquele Homem inocente, condenado como eu, veio me procurar no cárcere para me educar para a vida”. O amor é mais forte que o mal Na segunda estação (“Jesus carrega a cruz”), a meditação foi escrita por um casal que teve sua filha assassinada. “Nossa vida foi sempre uma vida de sacrifícios, baseada no trabalho e na família. Muitas vezes nos perguntamos: Por que este mal foi acontecer exatamente conosco? Não temos paz”. Sobreviver à morte de um filho é doloroso, mas “no momento em que o desespero parece tomar conta de tudo, o Senhor, de mais de um modo, vem ao nosso encontro, nos dando a graça de nos amarmos como casal, apoiando-nos um ao outro, mesmo com dificuldade”. Continuam a fazer o bem aos outros, e deste modo encontram uma forma de salvação, não querem se render ao mal. Provam que “o amor de Deus é capaz de regenerar a vida”. No mundo há também a bondade Na terceira estação (“Jesus cai pela primeira vez”) um presidiário conta que a sua queda, a primeira foi o seu fim. Depois de uma vida difícil, na qual não se dava conta que o mal estava crescendo dentro de si, dominando-o, tirou a vida de uma pessoa. “Uma noite, em um instante, como uma avalanche – escreve – desencadearam na minha cabeça todas as injustiças às quais fui submetido durante a vida. A raiva assassinou a gentileza, cometi um mal imensamente maior do que todos os que tinha recebido”. Na prisão tentou o suicídio, mas depois encontrou a luz, por meio do encontro com pessoas que lhe davam novamente “a confiança perdida”, mostrando-lhe que neste mundo existe também a bondade. O olhar do amor entre a mãe e o filho “Nem mesmo por um instante tive a tentação de abandonar meu filho à sua condenação”, afirma a mãe de um detento. As suas palavras comentam a quarta estação (Jesus encontra Maria, sua Mãe”). Desde a prisão do filho “as feridas crescem com o passar dos dias, tirando-nos até mesmo o ar que respiramos. Percebo a proximidade de Nossa Senhora… Confiei meu filho a Ela: posso confiar os meus medos somente a Maria, visto que ela mesma os sofreu enquanto subia o Calvário”. E continua: “Imagino Jesus, ao elevar seu olhar, tenha cruzado com os olhos de sua mãe cheios de amor e não tenha se sentido sozinho em nenhum momento. Assim eu quero que meu filho se sinta”. O sonho de ser um Cireneu para os outros A quinta estação também é explicada por um prisioneiro (O Cireneu ajuda Jesus a levar a cruz”). A cruz a ser carregada é pesada, mas “dentro da prisão Simão Cireneu é conhecido por todos: é o segundo nome dos voluntários, dos que sobem este calvário para ajudar a levar a uma cruz”. Um outro Simão Cireneu é o seu companheiro de cela, capaz de uma generosidade inesperada. Conclui: “Estou envelhecendo na prisão: sonho em um dia poder confiar no homem. Torna-me um cireneu da alegria para alguém”. Um olhar que permite recomeçar “Como catequista enxugo muitas lágrimas, deixando-as escorrer: não se pode deter o pranto de corações dilacerados”. São as palavras de uma catequista que reflete deste modo a sexta estação (“Verônica enxuga o rosto de Jesus”). Como fazer para abrandar a angústia de homens “que não encontram uma saída depois de cederam ao mal?”. O único caminho é ficar ali, ao lado deles, sem nenhum medo, “respeitando seus silêncios, escutando suas dores, procurando olhar além do preconceito”. Assim como faz Jesus com as nossas fragilidades. E escreve: “A cada um, também aos reclusos, é oferecido todos os dias, a possibilidade de se tornarem pessoas novas graças Àquele olhar que não julga, mas inspira vida e esperança”. A vontade de reconstruir a própria vida Na sétima estação (“Jesus cai pela segunda vez”), um prisioneiro culpado de tráfico de drogas, que causou a prisão de toda sua família junto com ele, sente uma infinita vergonha de si mesmo. Escreve: “Só hoje consigo admitir: naquela época que não sabia o que fazia, agora que sei, com a ajuda de Deus, estou tentando reconstruir a minha vida”. A ideia de que o mal continue e comandar a sua vida lhe é insuportável, tornou-se a sua via-sacra. A oração ao Senhor é: “Por todos os que ainda não souberam como escapar do poder de Satanás, a todo o fascínio das suas obras e às suas múltiplas formas de sedução”. Para mim esperar é uma obrigação “Há 28 anos pago a pena de crescer sem pai”, é a experiência de uma filha de um condenado à prisão perpétua ao comentar a oitava estação (“Jesus encontra as mulheres de Jerusalém”). Na minha família tudo se desagregou, ela viaja pela Itália para ficar perto de seu pai todas as vezes que o transferem de uma prisão a outra, e refletindo sobre sua vida diz: “Há pais que por amor aprendem a esperar que o filho amadureça. Para mim, por amor, espero a volta de meu pai. Para os que vivem como nós, a esperança é uma obrigação”. A força de se levantar e a coragem de deixar-se ajudar Cair e todas as vezes se levantar é o testemunho de um detento que se identifica com o que vê na nona estação (“Jesus cai pela terceira vez”). “Como Pedro procurei e encontrei mil desculpas para os meus erros: o fato estranho é que um fragmento de bem sempre ficou aceso dentro de mim”, escreve. E conclui: “É verdade que me despedacei em mil pedaços, mas a beleza é que aqueles pedaços podem ainda ser recompostos. Não é fácil: porém é a única coisa, que aqui dentro, ainda tenha um significado”. Sustentar os que perderam tudo Na décima estação é recordado “Jesus é despojado de suas vestes”, uma educadora que trabalha na prisão vê isso em muitos cárceres, pessoas despojadas de sua dignidade e do respeito por si e pelos outros. São homens e mulheres “desesperados em suas fragilidades, muitas vezes privados do necessário para compreender o mal que cometeram. Porém, lentamente assemelham a crianças recém-nascidas que ainda podem ser modeladas”. Mas não é fácil levar adiante este compromisso. “Neste serviço tão delicado – escreve – temos necessidade de não nos sentirmos tão abandonados, para poder sustentar tantas vidas que nos foram confiadas e que correm todos os dias o risco de naufragarem”. Os inocentes culpados por falsas acusações Na décima-primeira estação da Via-Sacra (“Jesus é pregado na cruz”), a meditação é de um sacerdote acusado e depois absolvido. A sua pessoal via-sacra durou 10 anos, “inundada por arquivos, suspeitas, acusações e injúrias”. Enquanto subia o calvário, conta, encontrou muitos cireneus que lhe ajudaram a carregar o peso da cruz. Juntos rezaram pelo jovem que o tinha acusado. “O dia em que fui absolvido – escreve – descobri que era mais feliz do que dez anos atrás: toquei com a mão a ação de Deus na minha vida. Preso na cruz, o meu sacerdócio se iluminou”. A pessoa por trás da culpa O comentário da décima-segunda estação é de um juiz corregedor de presídios (“Jesus morre na cruz”). Uma verdadeira justiça – afirma – é possível somente através da misericórdia que não prega o homem na cruz para sempre”. É necessário ajudá-lo a se levantar, descobrindo que o bem, apesar de tudo, “nunca se apaga completamente no seu coração”. Mas isso só será possível aprendendo “a reconhecer a pessoa escondida por trás da culpa cometida”, deste modo pode-se “entrever um horizonte que pode dar esperança às pessoas condenadas”. A oração ao Senhor é pelos “magistrados, juízes e advogados, para que se mantenham íntegros no exercício de seu serviço” em favor principalmente dos mais pobres. Imaginarmo-nos diferente de como nos vemos Na décima-terceira estação (“Jesus é descido da cruz”) a meditação é de um frade que é voluntário há sessenta anos nos cárceres. Nós cristãos – afirma – facilmente caímos na tentação de nos sentirmos melhores do que os outros (…) Passando de uma cela a outra vejo a morte que mora ali dentro”. A sua tarefa é a de se deter em silêncio diante dos muitos “rostos devastados pelo mal e escutá-los com misericórdia”. Acolher a pessoa é deslocar do seu olhar o erro que cometeu. “Só assim poderá confiar em si mesmo e reencontrar a força de se render ao Bem, imaginando-se outra pessoa de como agora se vê”. Esta é a missão da Igreja. Gestos e palavras que fazem a diferença “Jesus é depositado no sepulcro” é a última estação, a décima-quarta. As palavras de um agente da Polícia Penitenciária, diácono permanente, concluem a Via-Sacra. No seu trabalho, todos os dias vive com o sofrimento e sabe que no cárcere “um homem bom pode se tornar um homem sádico. Um homem mau pode se tornar melhor”. Depende também dele. E dar outra possibilidade aos que fizeram o mal é a sua tarefa diária que se traduz “em gestos, atenções e palavras capazes de fazer a diferença”. Capazes de dar novamente esperança a pessoas resignadas e assustadas pelo pensamento de receber, ao cumprir a pena, uma nova rejeição por parte da sociedade. “No cárcere – conclui – recordo a todos que, com Deus, nenhum pecado jamais terá a última palavra”. Por Adriana Masotti Em Vatican News

Matrimônio na ausência de fé é válido? Documento da Comissão Teológica explica

Entrevista sobre o documento "Reciprocidade entre fé e Sacramentos na economia sacramental" ao padre jesuíta Gabino Uríbarri Bilbao, da Pontifícia Universidade Comillas de Madri, membro da Comissão Teológica Internacional (Roma): 1) O senhor poderia explicar a gênese e resumir o conteúdo do documento? Na primeira Sessão Plenária da Comissão Teológica Internacional, iniciado seu nono quinquênio, em dezembro de 2014, foi aprovado por votação que o tópico relacionado ao relatório "Fé e Sacramentos" também fosse estudado.  Custou-nos muito identificar uma metodologia e encontrar uma direção para o tópico a ser tratado, pela amplitude das questões envolvidas: teologia sacramental geral, fundamento bíblico, impacto pastoral, diversos sacramentos a serem estudados, variedade de situações continentais. Foram necessários 11 esboços antes de se chegar ao documento final. O documento, em cinco capítulos, quer salientar o fato de que a reciprocidade entre fé e sacramentos se encontra hoje em crise na prática pastoral. O coração do documento, o capítulo 2, consiste em um argumento teológico em que ele percebe a reciprocidade entre fé e sacramentos. Articulam-se em três teses fundamentais: 1) A revelação de Deus e a história da salvação possuem um teor sacramental, pela importância máxima devida à encarnação; 2) tal revelação sacramental é ordenada à comunicação da graça divina à pessoa humana: é dialógica; 3) por isso, a fé cristã, como resposta a uma revelação sacramental, é de caráter sacramental. Sobre tal base, no terceiro capítulo, são levados em consideração os três sacramentos da iniciação cristã, e no quarto capítulo, o matrimônio. O texto termina com um capítulo de síntese, mais breve, no qual a reciprocidade essencial entre fé e sacramentos é recuperada de acordo com a perspectiva católica. 2) A reciprocidade entre fé e sacramentos é um tema discutido há anos, especialmente em relação ao matrimônio. Quer Bento XVI como Francisco apresentaram questionamentos sobre a validade de muitos casamentos celebrados na igreja por hábito ou tradição, mas sem uma verdadeira fé. Os dois Pontífices indicaram esta como uma possível maneira para rever alguns critérios relativos aos processos de nulidade. O que o documento esclarece a este respeito? Não somente os Papas Bento e Francisco. As Assembleias sinodais sobre a Família (1980, 2014, 2015) e sobre a Eucaristia (2005) pediram, com uma porcentagem próxima aos 100% dos votos, um esclarecimento a propósito de uma situação pastoral não resolvida: a celebração de um sacramento, o matrimônio, sem fé. Procuramos iluminar esse problema complexo do ponto de vista da Teologia Dogmática, que é o primeiro passo. A regulamentação canônica da celebração e da validade do sacramento do matrimônio se deduz da verdade dogmática do mesmo. Se a doutrina que propomos for aceita, caberá aos canonistas estruturar sua tradução jurídica nos processos de nulidade. Não obstante isso, gostaria de enfatizar que nosso documento quis ter presente a sabedoria que o direito canônico engloba, como uma ciência sagrada. Nesse contexto, quero destacar que a jurisprudência do Tribunal da Rota Romana já proferiu sentenças na linha de nosso documento. Ou seja, considerando o fato de que a falta de fé pode prejudicar a intenção de celebrar um casamento natural (por exemplo: a sentença coram Stankiewicz, 19 de abril de 1991). 3) O senhor poderia explicar por que a falta de fé coloca em dúvida a validade do matrimônio sacramental? A doutrina católica sustenta que o matrimônio é uma realidade natural, que pertence à ordem da criação (cf. Gn 2,24). Jesus Cristo elevou essa realidade natural a sacramento. Em função disso, para que exista um matrimônio sacramental, também deve existir um matrimônio natural. Para a Igreja, o matrimônio natural inclui as mesmas características do matrimônio sacramental. Os bens do matrimônio natural, que fazem com que seja um verdadeiro matrimônio, são os mesmos que os bens do matrimônio sacramental. E são: a indissolubilidade, a fidelidade e a procriação. Seguindo Bento XVI, partimos do fato de que a fé determina as concepções antropológicas em cada âmbito da vida, compreendido o que se refere ao matrimônio. A pergunta que nos colocamos é se a ausência consistente de fé, própria daqueles que podem ser chamados de "batizados não-crentes", prejudica sua compreensão do matrimônio. Sobretudo tendo presente que em muitos lugares a compreensão socialmente compartilhada sobre o matrimônio, incluída aquela legalmente estabelecida, não se baseia na indissolubilidade (para sempre), na fidelidade (a exclusividade e o bem do cônjuge) e a procriação (aberta à descendência). Em outras palavras, argumentamos que no caso de "batizados não-crentes", a intenção de contrair um verdadeiro matrimônio natural não é garantida. Sem o matrimônio natural, não existe realidade que possa ser elevada a matrimônio sacramental: não há matrimônio sacramental. 4) O texto da Comissão rejeita tanto o automatismo segundo o qual todo matrimônio entre os batizados é um sacramento, como o "ceticismo elitista", segundo o qual qualquer grau de ausência de fé viciaria a macularia e invalidaria o sacramento. Qual é então o caminho correto a ser percorrido e como aplicar essas indicações à realidade concreta das situações dos casais? Damos um passo para esclarecer uma questão que necessita maiores aprofundamentos. No ritual do matrimônio é dito: "Os pastores, guiados pelo amor de Cristo, acolhem os noivos e, em primeiro lugar, despertam e alimentam a própria fé: o sacramento do matrimônio, de fato, pressupõe e requer a fé" (Praenotanda § 16). No Catecismo da Igreja Católica, o matrimônio é definido como:  «O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre os batizados foi elevado por Cristo Senhor à dignidade de sacramento» (§ 1601). Há uma tensão não resolvida entre as duas afirmações: na primeira, a fé é mencionada como um requisito (supõe e requer); na outra, não. O que está por vir é uma missão delicada para os pastores e para todos os agentes envolvidos no cuidado pastoral matrimonial, no ajudar os futuros cônjuges a crescer na própria fé em relação ao significado do matrimônio. Pode-se rezar pelos cônjuges, mas nem sempre será apropriado celebrar o rito. Em seu documento intitulado ‘A Doutrina Católica sobre o Sacramento do Matrimônio’ (1977), a Comissão Teológica Internacional já havia afirmado que a falta de fé, entendida como uma disposição para crer, compromete a validade do sacramento, especialmente se não houver o desejo de graça e da salvação (§ 2.3). São João Paulo II, por sua vez, após uma longa e gradual dissertação, declarou: «Quando, pelo contrário, não obstante todas as tentativas feitas, os nubentes mostram recusar de modo explícito e formal o que a Igreja quer fazer ao celebrar o matrimónio dos batizados, o pastor não os pode admitir à celebração.» (Familiaris consortio, 68). Portanto, nos referimos, por assim dizer, a casos extremos: total falta de fé, rejeição do que o sacramento significa. É tarefa dos pastores conduzir o discernimento em cada caso concreto. Nós procuramos evitar qualquer tipo de casuística. Caso  não se perceba, por falta de fé, a intenção de contrair um matrimônio natural, não se deve celebrar o rito sacramental. Devemos estar bem cientes do fato de que, por um lado, a Igreja facilita muito o acesso ao sacramento do matrimônio. E por outro, porém, tem em relação ao matrimônio um conceito muito alto, que envolve demandas muito elevadas. Aqui também existe uma tensão. 5) O argumento da falta de fé como motivação para declarar a nulidade de um casamento pode apresentar dificuldades: como é possível constatar a falta de fé? Como se faz para ‘medir’ a fé? Medir a fé não é possível. A liturgia diz: "[...] dos quais só tu conheceste a fé" (Oração Eucarística IV). Isso não significa que a fé não tenha necessariamente uma tradução externa visível: a fé se manifesta mediante a confissão de fé, por exemplo, ou por meio da caridade. No entanto, sim, é possível julgar sobre a intenção, que está ligada à fé. Nós argumentamos a partir da intenção, no caso dos batizados não-crentes, descritos segundo uma tipologia precisa: trata-se daqueles batizados que permaneceram como crianças que nunca aderiram pessoalmente à fé e daqueles que conscientemente negaram a fé e a rejeitam. 6) O que o documento traz de novo a respeito dos sacramentos da iniciação cristã? Com referência aos três sacramentos [da iniciação], enfatizamos que a recepção de um sacramento sempre envolve um caráter missionário. Um sacramento não é recebido apenas para si mesmo, mas também para outros: para fortalecer a Igreja como Corpo de Cristo e para ser testemunhas de Jesus Cristo Ressuscitado. Insistimos também sobre a necessidade de processos catecumenais prévios, como preparação para a recepção do sacramento; e sobre a necessidade que acontece na própria recepção, como dom da graça e momento de compreensão pessoal do significado do sacramento; e sobre a necessidade de catequeses subsequentes à recepção dos sacramentos, inspiradas na catequese mistagógica dos Padres da Igreja. Enfatizamos que a figura da fé especificada para cada sacramento é diferente. No batismo é necessário assegurar a presença do elemento dialógico que caracteriza a história da salvação e o relacionamento com Deus. Isso não comporta problemas para o Batismo dos adultos. Para as crianças, é necessário assegurar a presença de pessoas próximas, pais, padrinhos, avós, alguns membros da família, que garantam o objetivo de uma educação cristã. No caso da Confirmação, insistimos na maturidade necessária para uma inserção mais adulta e responsável na comunidade cristã, quer em relação ao seu lado interno de construção comunitária, quer em relação à missão em direção ao externo. Acentuamos a importância da relação pessoal com o Senhor, mediante a oração. A Eucaristia é o sacramento da fé por excelência. Nela a fé é exercida e nutrida. É necessária uma maior adesão pessoal ao credo e uma coerência basilar com a vida cristã. Nossa intenção está muito longe de colocar barreiras aos sacramentos. Pelo contrário, gostaríamos que o documento ajudasse a estimular a pastoral e a prática sacramental. Levar a sério a sacramentalidade da história da salvação requer um mínimo de fé para evitar que a celebração dos sacramentos caia no ritualismo vazio, na magia ou em uma privatização da fé que não corresponde mais à fé eclesial. Tirado do site Vatican News

Liturgia

Clique e leia a liturgia diária

Calendário

Calendário de pastoral da Diocese

Sobre a Diocese

EVANGELIZAR, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Eucaristia e orientada pela animação bíblica, promovendo a catequese de inspiração catecumenal, a setorização e a juventude, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10), rumo ao reino definitivo.

Boletim de Notícias

Deixe seu e-mail para ser avisado de novas publicações no site da Diocese de Bragança: