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Cúria Diocesana

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24º Domingo do Tempo Comum

A ovelha, a moeda e o filho Frei Gustavo Medella A ovelha perdida pelo pastor era uma em cem. Encontrá-la foi motivo de júbilo e festa para o dono do rebanho. A moeda, extraviada da viúva, uma em 10. Achá-la foi ocasião de festa para a proprietária daqueles poucos trocados. O filho, que num gesto de impensada ingratidão, abandona o pai e a família, era um de dois. Seu humilde e arrependido retorno foi causa de alegria indizível no coração do Pai. A ovelha, a moeda e o filho: 01, 10 e 50%. Amar como Deus ama é, portanto, ter a sensibilidade e o entusiasmo de vibrar diante das pequenas e grandes conquistas. É apostar sempre na força da transformação e jamais desistir daquele a quem se ama. É o bom orgulho da mãe que celebra mais um dia de abstinência do filho que caiu na armadilha do vício, é o encantamento do fisioterapeuta que registra um piscar de olhos em seu paciente até então totalmente inerte, é a nota suficiente que o aluno alcança com dificuldade depois de incansável e sistemática ajuda do professor, é o concurso público que o jovem vence depois de inúmeras noites mal dormidas em empenhada preparação. Pequenas e grande conquistas. Caminhar na fé é, portanto, animar-se em Cristo que, para conquistar nosso coração, em 01, 10 ou 50%, entregou-se 100% no sacrifício da cruz. Se fosse um negócio, a escolha de Jesus o levaria à falência. No entanto, como entrega incondicional de amor, Deus não faz conta e celebra com alegria, cada passo, por pequeno que seja, que conseguimos dar em nossa frágil humanidade.   24º Domingo do Tempo Comum, ano C Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos em nós a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”. Primeira leitura: Ex 32,7-11.13-14 E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer. A primeira leitura nos ensina que a misericórdia divina para com o pecador prevalece sobre a cobrança da Lei de Moisés. No monte Sinai, Deus havia dado a Israel os dez mandamentos e outras leis, por intermédio de Moisés. Firmou também uma aliança (pacto) com o povo libertado da escravidão do Egito. Por esta aliança, Deus escolheu Israel como seu povo. Israel, por sua vez, se comprometia a ter o Senhor como seu único Deus e a observar as suas leis. Mas enquanto Moisés recebia na montanha as tábuas da Lei o povo caiu na idolatria. Fizeram para si um bezerro de ouro para adorar e diziam: “Estes são os teus deuses, que te fizeram sair do Egito”. No entanto, na introdução aos dez mandamentos, Deus assim se apresenta: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te libertou do Egito, lugar de escravidão” (Ex 20,2). Portanto, Israel traiu a aliança com seu Deus e tornou-se infiel. Deixou de ser para Deus o “meu povo” e passou a ser “não-meu-povo” (cf. Os 1,9; 2,22-25). Por isso, na leitura de hoje, Deus manda Moisés descer do monte e lhe diz: “Corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito”. Em outras palavras, Deus já não reconhecia Israel como o seu povo que libertou do Egito. Por isso, Deus parece pedir a Moisés que não interceda mais em favor do povo (cf. Jr 7,16; 11,14; 14,11) e que o deixe exterminar Israel, com a promessa de fazer de Moisés uma grande nação. Moisés, porém, é solidário com o povo que, em nome de Deus, libertou os hebreus do Egito (“teu povo”), e começou logo a interceder em favor dos hebreus. Pela fé, Moisés tinha consciência que Deus ouve os lamentos dos hebreus oprimidos e se lembra da aliança com Abraão, Isaac e Jacó (Ex 2,23-25; 3,7-10). Moisés tinha consciência que Deus o havia escolhido para libertar seu povo oprimido e conduzi-lo à terra prometida (cf. Ex 2,1-10). Enfim, se Deus exterminasse seu povo seria infiel às promessas que havia feito (cf. Ex 3,7-10). Então Deus desistiu de cumprir sua ameaça, em atenção à súplica de Moisés. Podemos resumir assim a mensagem desta leitura: Deus é sempre fiel a sua aliança; a misericórdia divina triunfa sobre a justiça da Lei; por outro lado, a súplica confiante dirigida a Deus atrai sua misericórdia. Salmo responsorial: Sl 50 Vou agora, levantar-me, volto à casa de meu pai. Segunda leitura: 1Tm 1,12-17 Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. Na segunda leitura ouvimos parte da carta que Paulo escreveu a Timóteo, bispo de Éfeso, talvez quando estava preso em Roma. Com simplicidade apresenta sua missão num tom místico. Agradece a Cristo pelo dom da fé e pela força da graça recebida. Paulo, que antes blasfemava a Cristo e perseguia nos cristãos reconhece que, mesmo assim, Cristo o escolheu para servi-lo como pregador do Evangelho. Apesar de ser pecador, Paulo encontrou a misericórdia divina pelo dom da graça, da fé e do amor que há em Cristo Jesus. Agradece porque “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores” e Paulo se considera o primeiro deles. Paulo encontrou em Cristo a misericórdia divina, tornando-se modelo para todos os crêem em Cristo e esperam alcançar a vida eterna. – Reconheço a ação da misericórdia divina em minha vida? Sou capaz de manifestá-la aos outros? Aclamação ao Evangelho: 2Cor 5,19     O Senhor reconciliou o mundo com Cristo, confiando-nos sua Palavra,             A Palavra da reconciliação, a Palavra que hoje, aqui, nos salva! Evangelho: Lc 15,1-32 Haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte. Lucas reúne no cap. 15 três parábolas sobre a misericórdia. A liturgia de hoje permite escolher o texto mais curto, com as parábolas da ovelha e da moeda perdidas, ou o texto mais longo, que inclui a parábola do filho pródigo (ver 4º Domingo da Quaresma, ano C). Para melhor entendermos a mensagem convém prestar atenção ao contexto em que são colocadas as parábolas. Jesus, seguido por multidões (23º domingo), está em viagem a Jerusalém. Nessa viagem Lucas situa muitos ensinamentos do Mestre. A cena de hoje mostra Jesus rodeado de cobradores de imposto e de pecadores, dispostos a escutar seus ensinamentos. Também os fariseus estavam ali, mas apenas para criticá-lo. Os fariseus consideravam-se justos, mas criticavam os publicanos e pecadores. É neste contexto que Jesus conta as três parábolas. Na parábola da ovelha perdida Jesus traz um exemplo da vida do campo. Um pastor tem cem ovelhas, perde uma, deixa no curral as noventa e nove e vai à procura da única ovelha perdida. Quando a encontra, carrega-a nos ombros e, cheio de alegria, convida os amigos para uma festa. E Jesus arremata a parábola com uma sentença: “Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”. Na parábola da moeda perdida, o exemplo trazido é o da dona de casa numa cidade. Toda a sua “poupança” se resumia a dez moedas de prata. Ao perder uma delas, acendeu uma lamparina e procurou cuidadosamente a moeda até encontrá-la. Feliz por ter encontrado a moeda perdida, a mulher convidou as amigas e vizinhas para festejarem com ela. E Jesus conclui: “Haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte”. – A ovelha perdida torna-se até mais querida que as noventa recolhidas no curral; a moeda perdida torna-se mais preciosa que as nove ainda guardadas. A alegria de encontrar a ovelha e a moeda perdidas é partilhada com amigos e vizinhos. Assim também, diz Jesus, a alegria será partilhada no céu, isto é, com Deus e seus anjos, por um só pecador que se converte. Em outras palavras, Deus misericordioso (1ª leitura) quer salvar a todos os que criou no seu amor (cf. Ez 18,32).   Santos e pecadores Frei Clarêncio Neotti Lucas começa as parábolas da misericórdia com uma observação, que mostra bem o contexto em que foram pronunciadas pelo Mestre. Jesus acolhe os pecadores e come com eles (v. 1). Os Sinóticos são unânimes em dizer que Jesus sentava-se à mesa e comia com os pecadores e aceitava sua hospitalidade (Mc 2,15; Mt 9,10; Lc 5,29). Lembremos que “pecadores” aqui não são necessariamente os que transgrediam os Dez Mandamentos, mas os que não podiam observar os 365 preceitos que os fariseus impunham, ou exerciam uma profissão considerada aviltante (pastor, pescador, curtidor de couros, vendedor ambulante, condutor de bestas de carga, jogador de dados) ou eram analfabetos (porque não conseguiam ler os livros sagrados). Os publicanos cobravam os impostos para os romanos e, por isso, eram considerados traidores do povo eleito, ladrões e impuros. Jesus costumava comer com publicanos e pecadores, tanto que os fariseus o chamaram de “comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores” (Lc 7,34). Sentar-se à mesa de alguém era sinal muito claro de comunhão e amizade. Isso escandalizava fariseus e escribas e era uma das razões por que não conseguiam acreditar em Jesus como profeta e enviado de Deus. Nas parábolas de hoje, Jesus se justifica, mostrando que seu Deus e Pai é diferente do Deus dos fariseus: é um Deus misericordioso com justos e injustos, com santos e pecadores (Lc 6,35-36; Mt 5,43-48).   Um imenso e inaudito amor O pai espreita seus filhos com ternura Frei Almir Guimarães Vós sereis amamentados e ao colo carregados e afagados com carícias; como a mãe consola o filho, em Sião vou consolar-vos. Isaías 66, 12-13 As parábolas de Jesus não cessam de nos encantar e surpreender. Por detrás de cada delas um convite a que continuemos a buscar o Evangelho vivo que se chama Jesus. Lições de vida. Convites do Altíssimo a que venhamos a ser bemsucedidos nas fascinante arte de viver. Mais uma vez esse texto de Lucas. Costumamos dizer que se trata da parábola do filho pródigo que volta à casa depois de loucuras. Muitos preferem dizer que a história do Pai das misericórdias.Outros afirmam que o nó da trama está no filho mais velho que não consegue ter a grandeza de deixar seu próprio ego e buscava aplicar a lei do dente por dente, friamente, rejeitando o irmão delinquente. Prefiro ver nessa historieta oderramamento sem limites da bondade do pai que lembra o Pai das alturas e do mais íntimo nos quer um bem sem limites. Que nos leva pela mão e nos acaricia como uma mãe. Ele é pai e é mãe. O filho mais novo partiu. Quis tentar a vida. Pediu a parte da herança que lhe cabia para fazer a aventura da vida a seu modo e jeito. O pai não impediu a saída. A partir de então sentiu-se paralisado e vivia espreitando ohorizonte. “Esse meu filho, precisava voltar. Que tolo, esse a quem quero tanto bem”. Um autor chama atenção para o pormenor de que o pai em vez de procurar o filho, torna-se um espia do horizonte. Nada faz. Paralisado. Tem no nome dofilho gravado na palma de suas mãos. Inativo, inerte, espera. Tudo leva a crer que o filho mais velho não ficou ao lado pai. O irmão mais novo tinha resolvido fazer a vida… Agora sua vida não podia parar. Não teve ideia de ficar ao lado do pai no seu sofrimento. Fechou-se no seu mundoe na convicção de que o outro não merecia compaixão. Ele continuaria a fazer as coisas bem certinhas para passar no vestibular da vida. Um autor observa que o olhar atento do pai para o horizonte lembra a atitude do Senhor Deus no jardim do Éden: “Adão, onde tu estás?”. Esse grito do Senhor vai se repetir ao longo das páginas das Escritura ao longo da históriada salvação e que só cessará quando todos se reunirem em torno de Cristo, santos e imaculados. Onde tu estás nesta fase de tua vida, depois de uma parte da viagem? Somos o pródigo. Talvez tenhamos praticado loucuras. Talvez muitos teríamos podido ser mais gente se fôssemos mais atentos aos olhares cabisbaixos, aos passos titubeantes, aos fracassos existenciais de tantos. Talvez estejamosou estivemos vivendo uma vida de satisfações de pequenos interesses, no meio de um emaranhado de meias mentiras, nada de bárbaro, mas uma sucessão de atos que nos levaram a ser banais, posturas que nos apequenaram. Uma vida cristã deritos e de repetição de fórmulas cerebrais que nunca nos disseram nada no passado e muito menos no presente. Sensação de solidão. Não chegamos ao extremo vivido pelo rapazinho da parábola. Nosso nome está gravado nas mãos do Senhor. Quando o pai avistou ou vulto do filho correu, sentiu compaixão, abraçou-o ternamente. Era ali o Deus de ternura e piedade. Mesmo que uma mãe esqueça de seu filho, ele, o Pai, não esquecerá de seus filhos. Nada mais a recordar. “Quando o jovem destruído pela fome e pela humilhação, volta para a casa, o pai torna a surpreender a todos. “Comovido” corre ao seu encontro e o beija efusivamente diante de todos. Esquece-se de sua própria dignidade, oferece-lhe o perdão antes de ele declarar-se culpado; restabelece-o em sua honra de filho, protege-o da rejeição dos vizinhos e organiza uma festa para todos. Por fim, poderão viver em família de maneira digna e feliz” (Pagola, Lucas,p. 260). “O Senhor é indulgente e favorável, é paciente, bondoso e compassivo… Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune me proporão às nossas culpas… Como um pai se compadece de seus filhos, o Senhor tem compaixão dos queo temem” (Sl 102). O filho mais velho. Um mistério. Estava acostumado a ser “certinho”. Sente-se ofendido. O irmão ingrato e inconsequente era agora recebido com festa e gastança. Seu pai havia enlouquecido. O pai o convida para a festa. Nãoaceita e sente-se um estranho em sua própria casa. Deixa a descoberto seu ressentimento. Passou a vida inteira com o pai e não aprendeu a amar como ele amava. Só sabe exigir seus direitos e não amar o irmão que volta completamentearruinado. Não entrou na festa da acolhida. Um pai bom, extremamente bom, sempre a espreitar o horizonte de nossas vidas. Sem se cansar. Inventou-nos para o amor preferimos privilegiar a nós mesmos. Um pai acolhendo de braços abertos os que andam perdidos e suplicando aosfiéis que acolham todos com amor. Um rapaz que abusa da liberdade, que mergulha em abismos profundos. Nós. Degrada-se. Drogas, infidelidades, falta de carinho para com pais idosos mesmo se não tenham sido os melhores pais da face da terra. Pessoas queacumularam e não tiveram capacidade de olhar o rosto dos passantes. Apesar de todos os convites misteriosos de Deus preferiram seu mundo e o resto… bom o resto. Um homem certinho mas corroído pelo orgulho de ser correto e incapaz de olhar o irmão com olhar de seu pai. Um vida sem amor que é antecipação do inferno com tudo muito e bem certinho. A porta do coração do Pai está sempre aberta e ele anda espreitando os filhos que podem chegar de longa ausência, cansados e com a impressão de terem sido derrotados. Deus prepara uma festa para nós se voltarmos para o rumode sua casa. Oração Desperta, Senhor, nossos corações,que adormeceram em coisas triviaise já não têm força para amar com paixão.Desperta Senhor nossa esperança,que se apagou com pobres ilusõese já não tem razões para esperar.Desperta, Senhor, nossa sede de ti,porque bebemos águas de sabor amargo,que não saciam nossos anseios diários.Desperta, Senhor, nosso silencio vazio,porque precisamos de palavras de vida para vivere só escutamos propagandas da moda e do consumo. F.Ulíbarri   Parábola para nossos dias José Antonio Pagola Em nenhuma outra parábola Jesus conseguiu penetrar tão profundamente no mistério de Deus e no mistério da condição humana. Nenhuma outra é tão atual para nós como esta do “pai bom”. O filho mais moço diz ao pai: “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe”. Ao reclamá-la, está de alguma forma pedindo a morte do pai. Quer ser livre, romper amarras. Não será feliz enquanto seu pai não desaparecer. O pai consente com seu desejo sem dizer nenhuma palavra: o filho deve escolher livremente seu caminho. Não é esta a situação atual? Muitos querem hoje ver-se livres de Deus, ser felizes sem a presença de um Pai eterno em seu horizonte. Deus deve desaparecer da sociedade e das consciências. E, da mesma forma que na parábola, o Pai mantém silêncio. Deus não coage ninguém. O filho parte para “um país distante”. Precisa viver longe de seu pai e de sua família. O pai o vê partir, mas não o abandona; seu coração de pai o acompanha; cada manhã o estará esperando. A sociedade moderna se afasta sempre mais de Deus, de sua autoridade, de sua lembrança … Não está Deus nos acompanhando enquanto o vamos perdendo de vista? Logo o filho se instala numa “vida desordenada”. O termo original não sugere apenas uma desordem moral, mas uma existência insana, descontrolada, caótica. Em pouco tempo sua aventura começa a transformar-se em drama. Sobrevém uma “fome terrível” e ele só sobrevive cuidando de porcoS, como escravo de um estranho. Suas palavras revelam sua tragédia: “Eu aqui morro de fome”. O vazio interior e a fome de amor podem ser os primeiros sinais de nosso afastamento de Deus. Não é fácil o caminho da liberdade. O que nos falta? O que poderia encher o nosso coração? Temos quase tudo, então por que sentimos tanta fome? O jovem “entrou em si mesmo” e, aprofundando-se em seu próprio vazio, recordou o rosto de seu pai, associado à abundância de pão: na casa de meu pai eles “têm pão” e aqui “eu morro de fome”. Em seu interior desperta o desejo de uma liberdade nova junto a seu pai. Ele reconhece seu erro e toma uma decisão: “Pôr-me-ei a caminho e irei procurar meu pai”. Pôr-nos-emos a caminho para Deus, nosso Pai? Muitos o fariam se conhecessem este Deus que, segundo a parábola de Jesus, “sai correndo ao encontro do filho, lança-se ao seu pescoço e põe-se a beijá-lo efusívamente”. Estes abraços e beijos falam de seu amor melhor que todos os livros de teologia. Junto a ele sempre poderemos encontrar uma liberdade mais digna e feliz.   Opção preferencial pelos pecadores? Pe. Johan Konings Certo dia, eu tive de interromper uma palestra para um grupo de padres, porque não aceitavam que os pecadores convertidos serão tão bem-vindos no céu quanto os que se comportaram bem. Será que Deus é generoso demais para com os malandros que se convertem? São Paulo diz com clareza: “Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (2ª leitura). Já a 1ª leitura nos ensina que Deus é capaz de mudar de ideia: reconcilia consigo o pecador penitente. O evangelho (texto longo) nos mostra Deus como um pastor procurando a ovelha perdida do rebanho, como um pai que espera a volta de seu filho vagabundo. Nós achamos estranho um Deus que dá mais atenção a uma ovelha desgarrada do que a noventa e nove que permanecem no rebanho. Não será melhor que uma se perca do que o rebanho todo? Pois bem, foi exatamente isso que disse o sumo sacerdote Caifás para justificar a morte de Jesus. “É melhor que um morra pelo povo todo” (Jô 11, 49-51)! Mas esse um, não era pecador. Deus, em relação ao pecador, não segue o raciocínio de Caifás. É mais parecido com um motorista, que não se preocupa com aquilo que funciona bem, mas fica atento àquilo que parece estar com defeito. Os pensamentos de Deus não ficam parados nos bons; ele está mais preocupado com os extraviados. Faz “opção preferencial” pelos que mais necessitam, os que estão em perigo e, sobretudo, os que já caíram – pois para Deus nenhum mortal está perdido definitivamente. Quem caiu tem de ser recuperado. Esta é a preocupação de Deus. Com os bons, os seus semelhantes se preocupam; para Deus, todos importam. Por isso, ele se preocupa com quem é abandonado por todos. Ele não descansa enquanto uma ovelha está fora do rebanho. Ele não quer a morte do pecador, mas sua volta e sua vida (Ez 33,11). E nós? Nós devemos assumir os interesses de Deus. A Igreja deve voltar-se com preferência para os pecadores, orientá-los com todos os recursos do carinho pastoral e mostrar-lhes o incomparável coração de pai de Deus. Quem se considera justo, como o irmão do filho pródigo, não deve queixar deste modo de agir de Deus. Pois ser justo é estar em harmonia com Deus, receber dele o bem e a felicidade, estar realizado. Por que então lamentar sua generosidade para com o pecador convertido? O “justo” alegre-se com o pecador, aquele que realmente necessitava atenção, o morto que voltou à vida! Mas, talvez, muitos se comportem como justos, não por amor e alegria em união de coração com Deus, mas por medo… e então, frustrados porque Deus é bom, resmungam, como Jonas quando a cidade de Nínive, se converteu. Todas as reflexões foram retiradas do site franciscanos.org.br

PARÓQUIA DE IRITUIA REALIZA MISSA DE ENVIO DAS IMAGENS DO CÍRIO 2019

No dia 13 de setembro, no Cenóbio da Piedade, aconteceu a missa de envio das imagens do Círio de Nossa Senhora da Piedade 2019, que este ano traz como tema: “Batizados e enviados”. Presidida pelo vigário Pe. Manoel Lopes e concelebrada pelo pároco Pe. Aldo Fernandes, a santa missa contou com a presença dos fieis que residem na sede do município e com as lideranças de comunidades, regiões e distritos da Paróquia que vieram também para participar de uma miniassembleia paroquial. Durante a procissão de entrada da santa missa foi apresentada a imagem peregrina de Nossa Senhora da Piedade e o cartaz da festa deste ano. Já no encerramento, Pe. Aldo fez a benção da água e das imagens que peregrinarão por todo o município até a abertura do Círio que este ano será celebrado de 19 a 27 de outubro. Seguindo a programação do dia, aconteceu a miniassembleia paroquial para avaliação do 1º semestre de 2019 e planejamento das ações para a continuidade do ano, visto que em dezembro acontecerá a assembleia paroquial como de costume. O Círio de Nossa Senhora da Piedade é uma das maiores festas religiosas do município de Irituia. Atrai romeiros da cidade, do interior e de outras cidades que vem apreciar as homenagens que a Paróquia faz em honra de sua padroeira, Maria, a Mãe de Jesus, que carinhosamente é chamada pelos irituienses de Mãe da Piedade. Nossa Senhora da Piedade, Rogai por nós! Por Laury de Jesus Paróquia Nossa Senhora da Piedade

Grito dos/as Excluídos/as 2019

O Grito dos excluídos e excluídas em 2019 está na sua 25ª edição, mantendo sempre o tema e o objetivo de defender a vida antes de qualquer outra coisa, anunciando a esperança de um mundo melhor, promovendo ações de denúncias dos males causados por este modelo econômico. Assim, o lema desta edição mais uma vez alerta para a insustentabilidade deste sistema que não vale! Lutamos por justiça, direito e liberdade. E a 25ª edição do Grito dos Excluídos levou às ruas mais de 200 atos por todo o país, entre os dias 5 e 7 de setembro, segundo balanço da organização divulgado neste domingo (8). Rodas de conversa em preparação ao Grito dos Excluídos 2019/ Foto: Cáritas Diocesana Em Bragança também houve a Marcha dos/as Excluídos/as, no dia 7 de setembro a noite. Dezenas de pessoas participaram. O Grito dos Excluídos 2019, unido ao tema da Campanha da Fraternidade (Fraternidade e Políticas Públicas), deve colaborar para desencadear um amplo processo de movimentação popular em defesa dos direitos sociais. São muitos os problemas e desafios da sociedade atual. É preciso olhar, sobretudo para a realidade das pessoas que mais sofrem as consequências de um sistema que impede a vida com dignidade em nome do acúmulo cada vez maior do capital. E, juntos, lutarmos por justiça, direitos e liberdade! Cartaz do Grito ano 2019/ Imagem: Divulgação Por Diocese de Bragança Com informações de: https://www.gritodosexcluidos.com/jornal-70

23º Domingo do Tempo Comum

O privilégio do desapego  Frei Gustavo Medella “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). À primeira vista, a frase de Jesus parece chocar quem a lê, dado que os laços familiares são, a princípio, algo importante e central na vida do ser humano. No entanto, se o leitor, em vez de colocar a ênfase do ensinamento sobre os parentes (pai, mãe, irmãos etc.) e perceber que no centro da questão está o desapego, a compreensão se torna mais fácil e plausível. Apegar-se é um caminho que aprisiona e aliena, pois geralmente leva a uma espécie de “objetificação” do outro. Quem vive apegado a pessoas corre o risco de considerá-las coisas de sua propriedade. Pais com apego excessivo aos filhos, por exemplo, podem torná-los muito dependentes e pouco preparados para enfrentar os desafios da vida. No relacionamento a dois, o apego geralmente gera ciúmes excessivos e até violência. Ninguém é propriedade de ninguém. Desapegar-se é, portanto, uma graça. É adquirir a maturidade de que a vida é maravilhosa, mas muito curta e passageira, tal como reza o salmista, quando diz que os dias do ser humano, “Eles passam como o sono da manhã, são iguais à erva verde pelos campos: De manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca” (Sl 89). Carregar a cruz significa aceitar os limites a abraçá-los com amor, vivendo na gratuidade e confiando-se ao seguimento de Cristo sob os olhos amorosos do Pai.   23º Domingo do Tempo Comum Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Ó Deus, pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que crêem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”. 1. Primeira leitura: Sb 9,13-18 Quem pode conhecer os desígnios do Senhor? O texto da primeira leitura parte de uma pergunta: Pode o ser humano conhecer os “desígnios”, isto é, os planos do Senhor? E responde que o ser humano é mortal e como tal é incapaz de conhecer, isto é, desvendar qual é o projeto de Deus que lhe diz respeito. Pode conhecer o mundo que o cerca, mas não o desígnio de Deus. Conhecer o desígnio ou vontade de Deus é um dom que Deus nos concede. Iluminado pela Sabedoria do espírito’ divino, o ser humano aprende como agradar a Deus e será salvo. A sabedoria transmitida pelas nossas famílias e pela comunidade cristã nos conduzem a Jesus. Cristo, a Sabedoria de Deus, é quem nos ensina o caminho da salvação. Salmo responsorial: Sl 89 Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós. 2. Segunda leitura: Fm 9b-10.12-17 Recebe-o, não mais como escravo, mas como um irmão querido. Na segunda leitura ouvimos parte da menor das Cartas do apóstolo Paulo. Tem apenas um capítulo. Paulo está preso por causa da pregação do Evangelho. Na prisão está também um escravo fugitivo de nome Onésimo (= inútil), pertencente a um amigo cristão, chamado Filêmon. Paulo, já idoso e preso, não deixa de falar de Jesus ao escravo Onésimo, que se converte, é batizado e torna-se seu filho, que ele “fez nascer para Cristo na prisão”. Paulo é cidadão romano e respeita as leis do Império referentes a um escravo fugitivo. Dispõe-se a devolver o escravo. Poderia pedir a Filêmon que deixasse Onésimo como seu representante para cuidar de Paulo na prisão. Mas não o faz para não forçar um gesto de bondade de Filêmon. Pede-lhe que receba de volta Onésimo, já não como escravo, propriedade do patrão, mas como irmão muito querido em Cristo como o próprio coração de Paulo. Receba Onésimo como pessoa humana e como irmão em Cristo. Toda a Carta revela a delicadeza de Paulo no trato com os irmãos de fé. Paulo não despreza as leis romanas, mas eleva a relação patrão-escravo a um novo patamar mais elevado, onde prevalecem os direitos humanos e se vive o evangelho de Jesus Cristo. Entre os cristãos, diz Paulo, “já não há judeu nem grego, escravo nem livre, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28). Por fim, Paulo faz um último apelo: Recebendo Onésimo como escravo-irmão, Filêmon mostrará que está em comunhão de fé porque no escravo fugitivo recebe o próprio com Paulo. Devolve o escravo Onésimo a Filêmon, como se fosse “o seu próprio coração”. Paulo ama Onésimo como irmão em Cristo, assim o deve receber Filêmon, já não como simples escravo, mas como irmão. Aclamação ao Evangelho: Sl 118,135 Fazei brilhar vosso semblante ao vosso servoe ensinai-me vossas leis e mandamentos. 3. Evangelho: Lc 14,25-33 Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo que tem,Não pode ser meu discípulo. Jesus está a caminho de Jerusalém, onde seria preso, condenado à morte e crucificado. Era uma viagem à Cidade Santa para as celebrações da festa da Páscoa dos judeus e Jesus estava acompanhado por “multidões”. Muita gente do povo e os discípulos pretendiam proclamá-lo como rei, mas o propósito de Jesus era cumprir a vontade do Pai. No caminho, Jesus já havia alertado os discípulos que “o Filho do Homem seria entregue nas mãos dos homens” (9,21-22.43-45), porque um profeta devia morrer em Jerusalém (13,31-35). Multidões o acompanhavam para a festa. Mas acompanhar não é a mesma coisa que seguir a Jesus. Exige-se a capacidade de segui-lo no caminho que o levaria ao Gólgota. Por isso Jesus estabelece as condições para alguém se tornar um discípulo: 1) desapego da família e da própria vida; 2) carregar a própria cruz, isto é, as contradições, o desprezo e os sofrimentos que a vida cristã impõe; 3) enfim, renunciar-se a si mesmo, isto é, aos próprios projetos para assumir os que Jesus nos propõe. Para esclarecer as exigências para os discípulos, Jesus conta duas pequenas parábolas que levam cada pessoa a medir as próprias capacidades de seguir o Mestre. A primeira parábola fala do homem que decidiu a construir uma torre, porém foi incapaz de concluí-la. Ficou coberto de vergonha porque as pessoas que passavam diante a torre inacabada diziam: “Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar”! A construção de uma torre exige mais do que construir uma casa… A segunda parábola fala do rei que se preparava para a guerra contra um rei inimigo. Segundo Jesus, o rei deve examinar bem se tem um exército bem treinado, capaz de enfrentar as forças inimigas. Caso contrário, seria melhor enviar embaixadores e negociar a paz. A prudência aconselha a “não dar passos maiores que as pernas”. Aos discípulos de ontem e de hoje, Jesus ensina que o discípulo precisa renunciar ao projeto pessoal e assumir o de Jesus. Não devemos enquadrar Jesus e sua mensagem em nosso projeto pessoal, mas abraçar o projeto que o Mestre nos propõe.   Jesus dá o exemplo Frei Clarêncio Neotti São quatro as condições radicais postas por Jesus: o desprendimento das coisas familiares; o desprendimento da própria vida (dos próprios interesses); o desprendimento de qualquer tipo de posse material ou espiritual e o assumir a cruz, isto é, a própria história em suas situações concretas de cada dia. É, certamente, muito o que Jesus exige. Mas, se olharmos bem, é exatamente o que ele fez, quando veio a este mundo: deixou a glória do paraíso, assumiu a pobreza em todos os sentidos, “aniquilou-se a si mesmo, tomando a condição de servo” (Fl 2,7), sofreu todas as vicissitudes de seu tempo e de seu povo e morreu crucificado. Jesus nada exige que não tenha experimentado primeiro. Aliás, Lucas sugere isso ao dizer que Jesus caminhava à frente das multidões, para quem ‘se voltou’ para ensinar (v. 25). Em outra ocasião, Jesus dissera explicitamente: “O discípulo, para ser perfeito, deve ser como o mestre” (Lc 6,40). Jesus repartiu tudo o que era e o que tinha com os discípulos, até mesmo seu poder divino de perdoar pecados e de santificar (Jo 20,23). Mas quer repartir também a cruz e a morte, partes integrantes de sua missão salvadora, e partilhar a ressurreição e a glorificação, nova meta da criatura redimida.   Que seja bem feita a construção da vida Frei Almir Guimarães De novo estamos com o tema da urgência de um vigoroso seguimento do Mestre. Jesus traça algumas orientações a respeito das qualidades do discípulo. Tudo deve ser centrado nele, o Mestre. Nada pela metade. Não pensamos no seguimento meio longínquo de um Jesus encerrado no tempo que se foi, refém das páginas impressas de um livro chamado Bíblia ou engessado em fórmulas que aprendemos de cor, mas sem condições de dar cores belas à nossa vida. Pensamos no Cristo vivo e misteriosamente presente. Viemos da nada. Vivemos. Um corpo com suas necessidades e reclamos. Os olhos, as mãos, os pés, anelos e desejos do coração. Perguntas e mais perguntas. De onde vim? Para onde vou? Esses outros, tantos outros? Como conviver? Esse planeta, essas águas, essas flores, essas ruas, essa gente toda? Esses dias de paz e de encantadora beleza e esse tempo de dores, de incompreensão? Cabe-nos construir nossa vida a partir de nós e com os outros. Respeitar os gritos de nosso interior. Queremos a beleza, o bem, a verdade e não a ilusão. Queremos ser gente atenta aos movimentos da vida e às sugestões que Deus que as anda fazendo através dos mais sábios, do perfume do Evangelho e dos sinais dos tempos e simplesmente pelo palpitar da vida. Crescer, viver, respeitar os que nos cercam, estar atento aos misteriosos apelos que o Senhor nos faz, não construir de qualquer maneira, cuidar da terra e da água, construir espaços de união e pontos que unam, evitar tudo o que possa nos animalizar, tornar-nos indiferentes a tudo e a todos. Tentar, a duras penas, ouvir o que o Mistério anda sussurrando aos nossos ouvidos por suas visitas. “Estou à porta e bato”. Queremos viver de maneira evangélica. Casa na rocha, sair para a guerra com certeza da vitória. Os que querem seguir a Jesus calculam gastos, procuram se prevenir as surpresas que podem acontecer com o tempo que vai passando. Perseverança para que a torre seja concluída com êxito e não fique inacabada, que o exercito seja forte em coragem e número permitindo a vitória. Como construir a vida com êxito e como discípulos do Senhor? Não existe receita mágica. • Desde o tempo da juventude procurar a verdade do existir. Fugir de tudo que possa ser ilusão, mera aparência, ou seja, enganar-se a si mesmo. Sinceridade consigo mesmo, com sua verdade.• No tempo privilegiado da juventude, entre os 16 aos 30 anos colocar as bases de uma vida sólida: viagens ao fundo do coração para escutar nossos sonhos mais legítimos, viver densas, profundas e sérias amizades, escolher com nitidez uma profissão que não somente dê bons salários, mas que seja também colaboração na construção de um mundo segundo o coração de Deus, fazer uma opção séria e bela pelo casamento, tomar a decisão de um vida de oração e de vivência da missa dominical. Lucidez, responsabilidade e firmeza de propósitos. Tudo feito sobre o sólido. Questão de decisão.• A solidez uma existência humana e cristã se torna possível com o exercício do discernimento, tentar ver claro no meio do nevoeiro. Ter o hábito de refletir.• Na formação sólida do discípulo de Cristo dever-se-á pensar em debates, exercício de meditação, revisões regulares do modo de viver.• A primeira leitura, do livro da Sabedoria, afirma que os desígnios do Senhor só podem ser conhecidos precisamente pela sabedoria. Sabor das coisas. Sabor, sabedoria que acontece quando nos expomos à luz do Espírito que penetra o mais fundo de nós mesmos. Oração A terra começará a ser teu reino… Se nós sairmos para a vidapartindo nosso pão com o faminto,eliminando, uma a uma, as discórdias,pondo o bem em todos os teus caminhos,a terra começará, Senhor, a ser teu reino. Se sairmos para a vidaarmados de concórdia e sem estrondo,tirando a opressão do oprimido,abrindo a casa ao forasteiro,a terra começará, Senhor, a ser o teu reino. Se sairmos para a vidavivendo em nossa carne o teu Evangelho,dizendo que é urgente despertar,que só os sinceros vêm teu reino,a terra começará, Senhor, a ser teu reino.   O que é carregar a cruz? José Antonio Pagola A cruz é o critério decisivo para verificar o que merece trazer o nome de cristão. Quando as gerações cristãs o esquecem, sua religião se aburguesa, se dilui e se esvazia da verdade. Por isso, nós crentes precisamos perguntar-nos qual é o significado mais original do apelo de Jesus: “Quem não carregar sua cruz atrás de mim não pode ser meu discípulo”. Embora pareça surpreendente, nós cristãos desenvolvemos frequentemente diversos aspectos da cruz, esvaziando-a de seu verdadeiro conteúdo. Assim, há cristãos que pensam que seguir o Crucificado é buscar pequenas mortificações, privando-se de satisfações e renunciando a prazeres legítimos para chegar – através do sofrimento – a uma comunhão mais profunda com Cristo. Sem dúvida, é grande o valor de uma ascese cristã, e mais ainda numa sociedade como a nossa, mas Jesus não é um asceta que vive buscando mortificações; quando fala da cruz, não está convidando a uma “vida mortificada”. Há outros para quem “carregar a cruz” é aceitar as contrariedades da vida, as desgraças ou adversidades. Mas os evangelhos nunca falam destes sofrimentos “naturais” de Jesus. Sua crucificação foi consequência de sua atuação de obediência absoluta ao Pai e de amor aos últimos. Sem dúvida precisamos valorizar o conteúdo cristão desta aceitação, do “lado escuro e doloroso” da vida, a partir de uma atitude de fé; mas, se queremos descobrir o sentido original do chamado de Jesus, precisamos recordar com toda a simplicidade o que era “carregar a cruz”. Carregar a cruz fazia parte do ritual da execução: o réu era obrigado a atravessar a cidade carregando a cruz e levando o titulus, um cartaz onde aparecia seu delito. Desta maneira, era mostrado como culpado perante a sociedade, excluído do povo, indigno de continuar vivendo entre os seus.   Os cristãos e as estruturas sociais Pe. Johan Konings “Se Deus só serve para deixar tudo como está, não precisamos dele”; palavra de uma agente de educação popular. O Deus que é apenas o arquiteto do universo, mas fica impassível diante da injustiça dos habitantes de sua arquitetura, não tem relevância alguma. O cristianismo serve ou não para mudar as estruturas da sociedade? São Paulo tinha um amigo, Filêmon. Este – como todos os ricos de seu tempo – tinha escravos, que eram como se fossem as máquinas de hoje. Um dos escravos, sabendo que Paulo tinha sido preso, fugiu de Filêmon para ajudar Paulo na prisão. Paulo o batizou (“o fez nascer para Cristo”). Depois mandou-o de volta a Filêmon, recomendando que este o acolhesse, não como escravo, mas como irmão… Mais: como se ele fosse o próprio Paulo (2ª leitura). Essa história é emocionante, mas nos deixa insatisfeitos. Por que Paulo não exigiu que o escravo fosse libertado, em vez de acolhido como irmão, continuando como escravo? Aliás, a mesma pergunta surge ao ler outros textos do Novo Testamento (1 Cor 7,21; 1Pd 2,18). Por que o Novo Testamento não condena a escravidão? A humanidade leva tempo para tomar consciência de certas incoerências, e mais tempo ainda para encontrar-lhes remédio. A escravidão, naquele tempo, era uma forma de compensação de dívidas contraídas ou de uma guerra perdida. Imagine que se resolvesse desse jeito a dívida externa do Brasil! Seríamos todos vendidos (se já não é o caso…) Antigamente (?), a escravidão fazia parte da estrutura econômica. Na Idade Média, com os numerosos raptos praticados pelos piratas mouros, surgiram ordens religiosas para resgatar os escravos, até tomando o lugar deles. Mas ainda na época moderna, a Igreja foi conivente com a escravidão dos negros. A consciência moral cresce devagar, e mudar alguma coisa nas estruturas é mais demorado ainda, porque depende da consciência e das possibilidades históricas. As estruturas manifestam só aos poucos sua injustiça, e então leva séculos para transformá-las. Porém, a lição de Paulo é que, não obstante essa lentidão histórica, devemos viver já como irmãos, vivenciando um espírito novo, que vai muito além das estruturas vigentes e que – como uma bomba-relógio – fará explodir, cedo ou tarde, a estrutura injusta. Novas formas de convivência social, voluntariados dos mais diversos tipos, organismos não-governamentais, pastorais junto aos excluídos – a criatividade cristã pode inventar mil maneiras para viver aquilo que as estruturas só irão assimilar muito depois. Todas as reflexões foram retiradas do site franciscanos.org.br

22º Domingo do Tempo Comum

Deus se coloca no fim da fila Frei Gustavo Medella Em Portugal, chama-se “bicha”. No Brasil, fila. Reza a lenda que brasileiro é fã de fila. Há controvérsias. De qualquer modo, ela existe de muitos modos. Fila do banco, do pão, do supermercado, de entrada no teatro ou no estádio, do gás, do concurso, a famosa fila do SUS, a da espera ansiosa por um transplante, a do pronto-socorro. Pode ser ordenada a partir de muitos critérios: tamanho, chegada, idade, necessidade, urgência, a partir da distribuição de senhas etc. Às vezes, muitos podem ter a tentação de furá-la, entrando sorrateiramente à frente de um conhecido, acompanhando espertamente o fluxo, pedindo a ajuda ou a intercessão de alguém influente e poderoso. Se há algo comum entre as filas, de todo tipo e espécie, são as desvantagens que se encontra nos últimos lugares. Afinal, estes muitas vezes carecem de garantias. Não sabem se vai sobrar comida para eles, se haverá tempo hábil para seu atendimento, se serão de fato atendidos em suas demandas. O lugar dos últimos é um lugar de incertezas. Quando vem participar integralmente da vida da humanidade em Jesus Cristo, Deus escolhe entrar no último lugar da fila, pois vem pobre, humilde, pequeno, discreto e sem privilégio. Dali, consegue ter uma visão do todo – e esta é uma das possíveis vantagens de se estar no fim da fila. Tem a possibilidade de perceber quem está mais necessitado, quem caminha com honestidade esperando a sua vez e consegue ver as artimanhas dos espertos, que nem sempre se utilizam dos meios mais lícitos para se manterem nos primeiros lugares e, assim, não deixam a fila andar. Do último lugar, o Senhor também se entristece com o egoísmo de quem passa duas, três ou mais vezes na fila sem olhar para seus irmãos que enfrentam a dura dor da carência. É assumindo o lugar dos últimos que o Senhor cumpre os prodígios narrados pelo salmista: “Dos órfãos ele é pai, e das viúvas protetor: é assim o nosso Deus em sua santa habitação. É o Senhor quem dá abrigo, dá um lar aos deserdados, quem liberta os prisioneiros e os sacia com fartura” (Sl 67). Com seu modo de ser, Deus nos ensina a não brigarmos nem a gastarmos energia lutando pelos primeiros lugares, mas a nos colocarmos como últimos e servidores daqueles que não têm a quem recorrer a não ser ao Senhor.   22º Domingo do Tempo Comum, ano C Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”. Primeira leitura: Eclo 3,19-21.30-31 Sê humilde, e encontrarás graça diante de Deus. A primeira leitura trata da humildade em confronto com o orgulho. A pessoa que trabalha com mansidão e humildade, exercendo seus talentos, será mais amada do que uma pessoa apenas generosa. Quanto mais uma pessoa “subir na vida”, tanto mais deve ser humilde; é isso que agrada a Deus. Deus revela seus mistérios aos humildes e não aos orgulhosos. Jesus louva ao Pai que assim age: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Os humildes – continua o texto – glorificam o poder do Senhor, enquanto os orgulhosos se glorificam a si mesmos. Por isso, para o orgulhoso não há remédio, porque o pecado está enraizado nele. Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (cf. Lc 1,52). Salmo responsorial: Sl 67 Com carinho preparastes uma mesa para o pobre. Segunda leitura: Hb 12,18-19.22-24a Vós vos aproximastes do monte Sião eda cidade do Deus vivo. Para confortar os judeus convertidos ao cristianismo, o autor da Carta aos Hebreus compara a antiga aliança com Deus no Sinai com a nova aliança em Cristo Jesus. Joga com as palavras aproximar/afastar, separar/reunir. A teofania (manifestação de Deus) do Sinai era descrita, até certo ponto, como “realidade palpável”. Mas também assustadora: fogo, escuridão, trevas e tempestade, som de trombeta e voz poderosa (Ex 19,16). O povo suplicava para não ouvir essa voz poderosa e pedia que o Senhor lhes falasse por intermédio de Moisés (Dt 5,23-30; 18,16). O povo devia afastar-se da montanha sagrada; somente Moisés pôde ali subir (Ex 19, 12-24). Por um lado, pela aliança Deus se unia a seu povo; por outro, era um Deus assustador, que afastava o povo. Se na antiga aliança o povo não podia aproximar-se do monte santo nem de Deus, na nova aliança o cristão pode aproximar-se do monte Sião, cidade do Deus vivo, da cidade celeste, da reunião festiva de anjos, da assembleia dos primogênitos. Pode aproximar-se, sem temor, do próprio Deus, Juiz de todos, de Jesus de Nazaré. Em Jesus, mediador da nova aliança, Deus fez sua morada entre nós (Jo 1,14), para que pudéssemos morar para sempre com Ele na Jerusalém celeste, a cidade do Deus vivo. Em Jesus de Nazaré Deus se aproximou de nós, se fez humano para entrarmos em comunhão definitiva com Ele. “A proximidade com Jesus não assusta, mas compromete” (Konings). Aclamação ao Evangelho: Tomai meu jugo sobre vós e aprendei de mim,que sou manso e humilde de coração! Evangelho: Lc 14,1.7-14 Quem se eleva, será humilhado,e quem se humilha, será elevado. Na aclamação ao Evangelho Jesus dizia: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. E no texto que ouvimos Jesus aparece como exemplo de humildade. Jesus foi convidado por um fariseu para tomar uma refeição com ele. Como era se esperar, o fariseu convidou também seus amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos (v. 12); portanto, pessoas do mesmo nível social dos ricos. O fariseu e seus convidados observavam a Jesus, para terem motivo de acusá-lo de uma possível transgressão da Lei. Jesus também os observava e notou que os convidados escolhiam os primeiros lugares, mais próximos do dono da casa. Contou-lhes então uma parábola na qual um convidado a uma festa de casamento, que havia ocupado o primeiro lugar, teve que ceder seu lugar para outro convidado mais importante, passou muito vergonha e foi ocupar o último lugar. É melhor, dizia Jesus, ocupar o último lugar. Neste caso, se o dono da festa te disser: “Amigo, vem mais para cima, isto seria uma honra para ti diante dos convidados”. E Jesus mesmo tira a lição: “Quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”. Em seguida, Jesus aconselha o fariseu a não convidar os amigos de seu nível social, e sim, os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Estes não poderiam retribuí-lo com um convite, como os amigos ricos. O Reino de Deus não é o da meritocracia, mas da gratuidade: os pobres e aleijados jamais teriam condições de convidar Jesus a um banquete, muito menos ao fariseu e seus amigos. O que traz a verdadeira felicidade, já aqui na terra, é a esperança da “ressurreição dos justos”, isto é, a participação no banquete da vida eterna. Fariseu significa “separado”. Era a elite religiosa rigorista na interpretação da Lei, que se separava da massa dos pecadores e “impuros”. Jesus não separa, mas une e agrega (2ª leitura). Pede aos ricos que tenham misericórdia dos pobres, desçam de suas “árvores”, convertam-se e partilhem seus bens com os pobres, como o fez Zaqueu (cf. Lc 19,1-10).   Gente dentro, gente fora Frei Clarêncio Neotti Era sábado. Dia santo para os hebreus. Recordavam a criação do mundo e lembravam a libertação da vida escrava do Egito. Liam os Profetas e a Lei. Rezavam salmos de agradecimento. Era um refazer da fé, da unidade, da dependência de Deus. Era também um momento de confirmação do povo santo e escolhido. Jesus aceitou a refeição, mas foi além do comer e do falar. Mais tarde, o autor da Carta aos Hebreus imaginou a glória do céu como um sábado sem-fim (Hb 4,9-10). Mais de uma vez Jesus comparou o Reino dos Céus a um grande banquete, a uma ceia de comunhão eterna, como diz uma das Orações Eucarísticas. Jesus contou duas parábolas. Uma, dirigida diretamente aos convivas. A outra, dirigida ao dono da casa, mas foi dita em voz alta para que os pobres e os estropiados, que estavam de fora, sem convite, pudessem-no escutar e entender. Aliás, nesse dia, os pobres e deficientes físicos deviam ser muitos. Há um trecho, que é saltado na leitura de hoje, em que, apenas chegado ao banquete, Jesus cura um hidrópico (vv. 2-6). O fato deve ter aglomerado muitos para ver Jesus. A liturgia salta o milagre, porque quer acentuar a lição sobre a humildade e a gratuidade. A lição é de atualidade imensa. Se observarmos o mundo de hoje, vemos uns poucos sentados à mesa da fartura, conversando, não raramente sobre Deus, enquanto a maioria dos pobres é tolerada como espectadora, do lado de fora da sala do bem-estar.   O delicado perfume da gratuidade Frei Almir Guimarães A sociedade atual tende a produzir um tipo de homem insolidário, consumista, de coração mesquinho e horizonte estreito, incapaz de generosidade. É difícil ver gestos gratuitos. Às vezes até a amizade e o amor aparecem influenciados pelo interesse e pelo egoísmo.José Antonio Pagola Mais uma vez entramos em contato com a parábola dos convidados para uma festa de casamento que estavam ansiosos por ocupar os primeiros lugares à mesa do banquete. Foram afoitos. Poderia haver gente mais importante a ocupar os lugares que eles andavam pretendendo tomar. Tema da gratuidade, tema da humildade. Postura essencial para entrarmos no mundo de Jesus: pessoas não presunçosas, gente que conhece sua dignidade mas não querem estar sempre na passarela. As coisas não aconteceram tal qual como são descritas por Lucas. Trata-se de uma história que deve nos levar a pensar. As pessoas começavam a chegar. Esperavam os noivos. O desejo de muitos era de ocupar os primeiros lugares, perto dos principais do lugar. Merecimento? Vontade de aparecer? Os que agora são convidados, posteriormente convidariam seus anfitriões. Jogo de troca. Toma lá, dá cá. Às vezes, como diz Pagola, até a amizade e o amor aparecem marcados pelo interesse e pelo egoísmo. Em nossos dias há pessoas que cumprem obrigações sociais em certos eventos… Há mesmo os que ousam ocupar os primeiros lugares sem mérito. Podem ser convidados a deixar o lugar para os amigos mais íntimos do anfitrião. Cuidado. Humildade se opõe a orgulho, pretensões de superioridade, desejo de dominar, imaginação de que somos melhores do que os outros e merecedores de favores. Postura que torna a pessoa insolidária e mesquinha. Os de bom senso contemplam a falta de quem avança esquecendo os outros. Luta pelo poder, desejo desmedido do ego. Em latim se diz humilitas. A palavra deriva de humus, isto é, terra, chão, humus. Humildade significa a coragem de aceitarmos nosso vínculo com a terra, a vontade de conciliarmos com nossa realidade, com o fato que viemos da terra e fomos alçados à dignidade de filhos de Deus por graça, sem mérito de nossa parte. Sabemos que tudo é graça, tudo é dom. Não somos os donos de nós mesmos. Ele, o Senhor, nos inventou e anda nos acompanhando e fecundando o labor de nossas mãos. Tudo dele recebemos. Quando atribuímos valores a nós mesmos estamos roubando o que é do Senhor. São Francisco de Assis dizia: “Nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá” (Carta a toda a Ordem 29). O pior que pode acontecer com uma pessoa é que ela viva orgulhosamente. Este talvez seja o mais grave pecado. Homem algum é uma ilha. O mestre não hesitou em ser lavador dos pés dos irmãos. Jesus buscava organização do mundo diferente, sob a lei da partilha. Uma sociedade em que as pessoas pensassem nos mais fracos, nos sem prestígio público, que não ficasse vidrada nas pessoas que pudessem lhes dar lucros, em amizades interesseiras. A leitura do Eclesiástico aborda o mesmo tema: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele e ele não compreende”. Em inúmeras passagens a Escritura nos diz que Deus se revela aos humildes e se fecha aos soberbos, que o publicano que rezava com o coração arrependido encontrou a Deus e não o fariseu presunçoso. É extremamente agradável conviver com pessoas simples. Não conseguimos dar atenção por longo tempo a pessoas amantes de ilusórias grandezas e que aberta ou camufladamente incensam-se a si mesmas. A pessoa humilde não precisa alardear sua humildade: sua vida respira simplicidade e temos vontade de conviver com ela. Os que se dizem humildes, nem sempre o são. A pessoa humilde aceita que sua agenda seja modificada diante de um exigência urgente. Não reclama. Troca o bom pelo melhor.A pessoa humilde aceita ocupações simples, domésticas, feitas no oculto.A pessoas humildes dizem como Maria: “O Senhor fez em mim maravilhas.., santo é seu nome. É o Senhor que opera o bem em nós”.O humilde volta atrás numa decisão tomada desde que outro o convença de algo melhor.O humilde não é intransigente, mas senta-se à mesa do diálogo. É homem de negociações. Anselm Grün: “Pessoas humildes não são pessoas que se diminuem ou que sintam paralisadas diante de qualquer tarefa, por se acharem incapazes das mesmas. Humildes são aqueles que têm a coragem de assumir a própria realidade e, nela, comportam-se modestamente”. Eclesiástico: “Na medida em que fores grande deverás praticar a humildade e assim encontrarás graça diante de nosso Senhor”. Texto seleto Maria reconhece sua pequenez diante da grandeza de Deus, e porque reconhece é porque ela pode também alegrar-se. Colocar nossa vida nua, a nossa inteira e pequena vida nas mãos de Deus em nada nos diminui. São Paulo há de escrever, na linha do Magnificat, “quando sou fraco, então sou forte, porque nos basta a graça de Deus (2Cor 12,10). (…). Deus nos ama sem por que, ama-nos porque nos ama. A fraqueza que achamos dentro de nós não é obstáculo ao seu amor, ao contrário do que pensamos. Deixemos Deus amar a nossa pequenez, insignificância, escassez, o nosso nada. Porque só isso permitirá que abramos realmente as portas do nosso coração a Deus e aí ele possa dizer que a nossa vocação, qualquer que seja, será o Amor (José Tolentino Mendonça). Oração Pai amado, realiza por meio de nós a obra da verdade.Mantém nossas mãos ocupadas em servir a todos.Faze com que nossa voz anuncie a todos o teu reino.Faze com que nossos pés avancem sempre pelos caminhos da justiça.Guia-nos da ignorância para a tua luz.   Gratuitamente José Antonio Pagola Há uma “bem-aventurança” de Jesus que nós, cristãos, temos ignorado. “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Feliz de ti, porque eles não podem retribuir-te”. Na realidade, fica difícil para nós entender estas palavras, porque a linguagem da gratuidade nos é estranha e incompreensível. Em nossa “civilização do possuir” quase nada é gratuito. Tudo é intercambiado, emprestado, devido ou exigido. Ninguém acredita que “é melhor dar do que receber”. Só sabemos prestar serviços remunerados e “cobrar juros” por tudo o que fazemos ao longo da vida. No entanto, os momentos mais intensos e culminantes da vida são aqueles em que sabemos viver a gratuidade. Só na entrega desinteressada pode-se saborear o verdadeiro amor, a alegria, a solidariedade, a confiança mútua. Gregório Nazianzeno diz que “Deus fez o homem cantor de sua irradiação” e, certamente, nunca o homem é tão grande como quando sabe irradiar amor gratuito e desinteressado. Não poderíamos ser mais generosos com os que nunca nos poderão retribuir o que fizermos por eles? Não poderíamos aproximar-nos dos que vivem sozinhos e desamparados, pensando apenas no bem deles? Viveremos sempre buscando nosso interesse? Acostumados a correr atrás de todo tipo de gozos e satisfações, atrever-nos-emos a saborear a felicidade oculta, mas autêntica, que se encerra na entrega gratuita a quem de nós precisa? Charles Péguy, um seguidor fiel de Jesus, vivia convencido de que, na vida, “aquele que perde, ganha”.   Simplicidade e gratuidade Pe. Johan Konings As leituras de hoje insistem em virtudes fora de moda: mansidão e humildade (1ª leitura), modéstia e gratuidade (evangelho). Quanto à modéstia, Jesus usa um argumento da sabedoria popular, do bom senso: se alguém for sentar no primeiro lugar num banquete e um convidado mais digno chegar depois dele, esse primeiro terá de ceder seu lugar e contentar-se com qualquer lugarzinho que sobrar. Mas quem se coloca no último lugar só pode ser convidado para subir e ocupar um lugar mais próximo do anfitrião. Ora, citando essa humildade de quem se faz de burro para comer milho, Jesus pensa em algo mais. Por isso, acrescenta uma outra parábola, para nos ensinar a fazer as coisas não por interesse egoísta, mas com gratuidade. Seremos felizes – diz Jesus – se convidarmos os que não podem retribuir, porque Deus mesmo será então nossa recompensa. Estaremos bem com ele, por termos feito o bem aos seus filhos mais necessitados. A gratuidade não é a indiferença do homem frio, que faz as coisas de graça porque não se importa com nada, pois isso é orgulho! Devemos ser gratuitos simplesmente porque os nossos “convidados” são pobres e sua indigência toca o nosso coração fraterno. O que lhes damos tem importância, tanto para eles como para nós. Tem valor. Recebemo-lo de Deus, com muito prazer. E repartimo-lo, porque o valorizamos. Dar o que não tem valor não é partilha: é liquidação… Mas quando damos de graça aquilo que com gratidão recebemos como dom de Deus, estamos repartindo o seu amor. Tal gratuidade é muito importante na transformação que a sociedade está necessitando. Importa não apenas “fazer o bem sem olhar para quem” individualmente, mas também social ou coletivamente: contribuir para as necessidades da comunidade, sem desejar destaque ou reconhecimento especial; trabalhar e lutar por estruturas mais justas, independentemente do proveito pessoal que isso nos vai trazer; praticar a justiça e humanitarismo anônimos; ocupar-nos com os insignificantes e inúteis… Assim, a lição de hoje tem dois aspectos: para nós mesmos, procurar a modéstia, ser simplesmente o que somos, para que a graça de Deus nos possa inundar e não encontre obstáculo em nosso orgulho. E para os outros, sermos anfitriões generosos, que não esperam compreensão, mas, sem considerações de retorno em dinheiro ou fama, oferecem generosamente suas dádivas a quem precisa. Todas as reflexões foram retiradas do site franciscanos.org.br

21º Domingo do Tempo Comum

As muitas portas estreitas da vida Frei Gustavo Medella “Viver é muito perigoso”. Bastante conhecida e citada a afirmação de Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. Na mesma obra, o autor compara a vida a uma travessia, que se aprende a atravessar atravessando, mais ou menos como aprática de andar de bicicleta, impossível de se adquiri sem tombos, esbarrões, hematomas e arranhões. No Evangelho deste 21º Domingo do Tempo Comum, Jesus fala da “porta estreita” que dá acesso à salvação. À primeira vista, a afirmação pode dar a ideia de que Deus preferiu complicar as coisas no lugar de oferecer a seus filhos e filhas uma porta larga e alta para que entrassem facilmente na felicidade definitiva. No entanto, ao observarmos a trajetória e osensinamentos de Jesus, percebemos, da parte do Mestre, uma disposição inabalável de atravessar as muitas portas estreitas que a fidelidade à missão lhe reservou. Nasceu pobre, numa família simples, sem nenhuma regalia. Até para conseguir o básico, seus pais tiveram de abusar da humilde criatividade de quem se obriga a viver no improviso. A gruta de Belém, onde o Menino nasceu, com certeza nãopossuía uma entrada suntuosa ou imponente, mas uma porta estreita pela qual Deus adentra a nossa humanidade. Da mesma forma podemos pensar na rotina de uma família simples daquele tempo, desde as incertezas de um trabalhador braçal autônomo qual São José ao dia a dia do exaustivo trabalho doméstico da jovem Maria, apenas para citar algumas portas estreitas que Jesus e os seus precisaram atravessar desde muito cedo. Quando pensamos na missão, nas perseguições sofridas por Ele e pelos apóstolos, nas situações de privação e perigo, percebemos que, também para o Filho de Deus, “viver foi muito perigoso”. Nesta mesma direção, quem procura fazer um exercício sério e transparente da própria existência, não tem dificuldade em perceber quantas portas estreitas precisou atravessar pelo caminho e quantas ainda encontrará pela frente:relacionamentos, paternidade e maternidade, vida profissional, doenças, mudanças repentinas… Tudo isso revela que as travessias, algumas mais ou menos previstas e outras tantas totalmente imprevisíveis, são parte integrante da históriahumana e ajuda a forjar o caráter de quem busca realizá-las com confiança, dando o melhor de si. Na qualidade de batizados e batizadas, olhando para o Mestre, adquirimos coragem para atravessar as muitas portas estreitas que nos aparecem. Peçamos ao Senhor a graça de, nas travessias da vida, sejamos sempre balizados pela fé, pelaesperança e pelo amor.   21º Domingo do Tempo Comum, ano C 2019 Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, dai ao vosso povo amar que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.   Primeira leitura: Is 66,18-21 E reconduzirão, de toda parte, vossos irmãos.   O texto da primeira leitura foi escrito quando os exilados voltavam da Babilônia. O retorno a Jerusalém se deu aos poucos, em pequenos grupos. No retorno, os exilados encontraram ruínas a serem reconstruídas, viviam enfrentaram conflitos com os que ocuparam suas propriedades. A convivência com outros povos em terra estranha abriu a mente de não poucos exilados, que aprenderam a conviver com costumes e religiões diferentes. O profeta que nos fala hoje representa este grupo de mente mais aberta. Por um lado, procura animar os que trabalhavam na reconstrução da cidade em ruínas; por outro lado, convoca os judeus dispersos entre os povos a fazerem o mesmo caminho dos que retornavam da Babilônia, em busca do monte santo de Jerusalém, onde brilha a glória do Senhor. O profeta vê os pagãos convertidos ao judaísmo na dispersão como missionários, escolhidos por Deus para anunciar sua glória entre as nações e reconduzir os judeus dispersos, a fim de prestar culto na casa do Senhor. Na visão do profeta, os pagãos convertidos ao judaísmo poderão servir como sacerdotes e levitas em Jerusalém. Estas promessas remetem para a dimensão universal da salvação preparada por Deus, em Jesus Cristo (Evangelho).   Salmo responsorial: Sl 116 Proclamai o Evangelho a toda criatura!   Segunda leitura: Hb 12,5-7.11-13 O Senhor corrige a quem ele ama.   A Carta aos Hebreus não tem o estilo das cartas escritas pelo apóstolo Paulo. Na verdade, é antes uma coleção de pregações. O autor desconhecido dirige-se a judeu-cristãos de língua grega e, sobretudo, a pagãos convertidos, residentes em Alexandria, no Egito. Os cristãos pertencem à segunda geração, dos anos 80 d.C. Estes cristãos já tinham perdido o fervor inicial, fraquejavam na fé em Jesus Cristo e tendiam perigosamente à indiferença (Hb 5,11–6,12). Na leitura de hoje, o autor se dirige aos ouvintes como “irmãos” na fé. Conhece as dificuldades e sofrimentos pelos quais estão passando, num ambiente hostil. Como um sábio educador, lembra o valor da educação cristã recebida: “Não desprezes a educação do Senhor, não desanimes quando ele te repreende”. Deus é como um pai, que corrige seu filho por amor. No sofrimento percebemos melhor que Deus é nosso Pai e nos trata como filhos seus. A dor da correção é sempre desagradável. No entanto, a educação do Senhor não é apenas teórica. É uma formação permanente e, quando exercitada em meio ao sofrimento, produz frutos de paz e justiça (v. 11). O autor conclui com uma exortação, válida para todos nós: “Firmai as mãos cansadas e joelhos enfraquecidos, acertai os passos dos vossos pés”. A vida cristã é um caminho para chegarmos a Deus, nosso Pai. No caminho não estamos sós. “Ele está no meio de nós”! Basta acertar nossos passos com os de Jesus. Ele mesmo nos diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida: ninguém chega ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Se examinarmos nossa caminhada na vida cristã, podemos nos perguntar em que situações sentimos mais forte a presença de Deus.   Aclamação ao Evangelho Eu sou o caminho a verdade e a Vida: Ninguém chega ao Pai senão por mim.   Evangelho: Lc 13,22-30 Virão do oriente e do ocidente, E tomarão lugar à mesa no reino de Deus.   No Evangelho, Jesus está a caminho de Jerusalém, seguido pelos discípulos e pelo povo, onde celebraria a festa da Páscoa. Lucas coloca muitos ensinamentos de Jesus durante a grande viagem para Jerusalém (Lc 9,51–19,28). Três temas perpassam os capítulos sobre a viagem: as exigências para a salvação, o seguimento de Jesus Cristo e a acolhida ou rejeição do Reino anunciado por Jesus. No caminho, três vezes Jesus anuncia que, em Jerusalém, o Filho do Homem será entregue pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei ao poder romano e será condenado à morte; mas, ao terceiro dia ressuscitará. Depois de cada anúncio seguem ensinamentos, sempre mais exigentes, para quem se propõe a ser discípulo de Jesus. O caminho vai se tornando cada vez mais estreito. Por fim, é a porta de entrada para o banquete do Reino que se torna mais estreita ainda. Em Jerusalém havia muitas portas pelas quais os peregrinos tinham acesso à esplanada do Templo. No texto paralelo ao de Lucas, Mateus fala de duas portas: a porta larga que leva à perdição e a porta estreita que conduz ao caminho da vida (Mt 7,13-14). Lucas menciona apenas a porta estreita. À pergunta “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam” Jesus responde: “Fazei esforço para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. No entanto, esta porta, além de estreita, pode ser fechada a qualquer momento pelo dono da casa. Os que chegarem atrasados irão gritar “Senhor, abre-nos a porta” (v. 25; cf. Mt 25,15). Mas o dono da casa responderá: ”Não sei de onde sois… Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça”! Os atrasados serão excluídos do banquete do Reino. A frase se refere ao judaísmo oficial que rejeitou Jesus e o condenou à morte. No lugar deles, diz Jesus, a salvação se abrirá aos pagãos: “Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar no baquete do Reino de Deus” (ver 1ª leitura). Se os que praticam a injustiça são excluídos do banquete do Reino de Deus, significa que a chave mais segura para abrir a porta estreita da entrada no Reino de Deus é a prática da justiça. Em outras palavras, a porta da salvação continua sempre aberta para todos os que buscam com sinceridade a Deus e praticam a justiça. Mas o esforço deverá ser contínuo. Deus aguarda nossa conversão com paciência. Ele nos dá um tempo extra para que nos deixemos corrigir (2ª leitura). Ele é um Pai que nos corrige como a seus filhos, porque nos ama (Lc 13,6-9).   Esforço e perseverança Frei Clarêncio Neotti As palavras de Jesus assumem tom apocalíptico, próprio de quando as Escrituras falam dos últimos acontecimentos da vida humana (na teologia esse capítulo da História da Salvação se chama Escatologia). As palavras tomam sentido figurado, às vezes até mais forte do que o sentido normal. Não basta ouvir sermões sobre Jesus ou ir à mesa da Comunhão. É preciso viver a justiça, isto é, pôr em prática os ensinamentos de Jesus, entender a Paixão e sofrer com ele os fatos acontecidos em Jerusalém. E poder dizer com o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate. Vivi a fé!” (2Tm 4,7). Em outra ocasião, Jesus diz a mesma coisa com outras palavras: “Nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai” (Mt 7,21). O critério, portanto, para participar da mesa divina não é o de sangue. Também não depende de títulos e grandezas humanas. Depende da conversão. Jesus é claro ao dizer: “Esforçai-vos!” (v. 24). É a palavra principal do Evangelho de hoje. Todos são chamados, do oriente e do ocidente, do norte e do sul (v. 29). Mas a resposta é individual e é dada com o esforço consciente de cada um. Fica sempre de pé e válido o convite de Jesus: “Vinde a mim, vós todos, que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). O ‘vinde’ implica um caminhar de quem é chamado. Esse caminhar, feito de esforço, luta, perseverança, fidelidade está incluído no “esforçai-vos por passar pela porta estreita”. A salvação é uma graça, não uma conquista meritória humana. Mas a graça é dada a quem a procura, a quem a pede, a quem se apresenta como um terreno fértil para as sementes divinas. Quando Paulo se despedia das comunidades recém-fundadas, para continuar sua viagem, costumava exortar a todos à perseverança e ao esforço, “porque, para entrar no Reino, são necessárias muitas tribulações” (At 14,22). Essas tribulações podem vir de fora, como perseguições e calúnias, mas podem vir de dentro de cada um, como o desânimo, a indiferença, a ganância. Trabalhar o próprio coração, confrontá-lo com o coração de Jesus é converter-se, é morrer com Jesus.   Passar pela porta estreita Frei Almir Guimarães É realmente difícil os valores éticos crescerem-no homem-massa.López Ibor ♦ Jesus é, com efeito, um Mestre diferente. Nada de lições muito teóricas e cansativas em salas fechadas. Conversava com as pessoas que ia encontrando ao longo do caminho. Encontrava-se com gente nas estradas, nas aldeias, em casas. Ia a festas de casamento e era convidado a tocar nos doentes em suas casas. Sua tarefa era comunicar o que lhe fora confiado pelo Pai: Deus quer o bem mais profundo das pessoas, Todos são convidados a expor-se a ele e assim contar com seu perdão amoroso. Os fariseus não entendiam essa linguagem já que se tinham por senhores acima de toda suspeita. Pessoas simples com vida nem sempre tão límpida como a dos certinhos doutores da religião se aproximavam de Jesus e arrancavam dele uma palavra de esperança, ganhando novo ânimo de vida. Jesus é alguém que entra em sintonia com os que o buscam com sinceridade de coração. Alguém do grupo coloca uma questão: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam? A pergunta dá ensejo a que Jesus converse sobre o tema da porta estreita. ♦ “Esforçai-vos por passar pela porta estreita”. Frase exigente. Quase dura. Uma lição de religião talvez dos tempos antigos se apoiava nela: dureza, sacrifícios, distanciamento até mesmo das coisas lícitas, jejum, inferno, rigor. Será que era isso que Jesus estava querendo dizer? Dar uma lição de mestre rigoroso? Nem sempre os intérpretes desta passagem se põem de acordo. ♦ Vivemos uma sociedade dita permissiva que deixa de lado todo esforço que contraria nossas tendências menos nobres. Nem tanto ao mar, nem tanto terra. Virtus in medio. Levar uma vida cristã séria, vivendo um processo de conversão, mas sem penitências exteriores e requintadas, que muitas vezes não partem de um interior sincero. No tempo do julgamento pessoas que, pensavam terem sido corretas poderão ouvir. Não basta passar de qualquer modo… É preciso viver a fé a partir do interior, o que supõe esforço, perseverança e luta. ♦ Vejamos a ponderada interpretação de José Antonio Pagola falando da “porta estreita”. Trata-se de necessária disciplina para que as pessoas possam entrar nos salões do Reino. “O afã do consumo enfraquece o núcleo moral da pessoa, colocando em primeiro lugar o valor das coisas e empobrecendo o espírito das pessoas. Leva-se a sério o supérfluo e se perde de vista o profundo. A pessoa se dispersa em muitas coisas e escapa-lhe a alma” (Pagola, Lucas p. 237-238) ♦ O esforço da disciplina é absolutamente necessário. Não podemos apostar na facilidade. Felicidade não é facilidade. Salvar-se? Fazer com que a mensagem de Jesus e sua pessoa penetrem em nós. Nascer de novo. Tentar eliminar o que em nós é semente de morte. Arregaçar as mangas e tomar as providências necessárias para que o carinho e o amor de Jesus penetre nos compartimentos mais íntimos de nós, permitir que ele tome posse de nós arredando caminho vaidades, sede de posse, veleidades, deixando de lado a mentira, o autoengano. Estas são algumas caraterísticas da porta estreita pela qual somos convidados a passar. ♦A Carta aos Hebreus, leitura da liturgia deste domingo, fala da correção. Tema também delicado ao lado da “porta estreita”. Correção necessária que devem fazer os que são colocados à frente dos filhos, das pessoas que estão à sua volta e dos amigos. A primeira modalidade de conversão se dá pelo exemplo. Há uma luz, um sal, um fermento que partem do homem de Deus e dos sinceros discípulos de Jesus. O exemplo pode corrigir rotas menos seguras da vida. Há também a palavra que corrige. Palavra carinhosa que faz com que as pessoas deixem a porta larga e enveredem por outras sendas. Oração QUERO SEGUIR-TE Tu me conheces e sabes o que quero,tanto meus projetos como minhas fraquezas.Não posso ocultar-te nada, Jesus.Gostaria de deixar de pensa em mime dedicar mais tempo a ti.Gostaria de entregar-me inteiramente a ti.Gostaria de seguir-te aonde fores,Mas nem isso me atrevo a dizer-teporque sou fraco. Tu o sabes melhor do que eu.Sabes de que barro sou feito,tão frágil e inconstante.Por isso, preciso ainda mais de ti,para que me guies sem cessar, paraque sejas meu apoio e meu descanso.Obrigado Jesus por tua amizade. Texto para reflexão DOS QUE SALVAM Salvar, salvação… Que experiência temos nós de salvação? Um cão nos ataca e alguém nos socorre, uma enchente começa a inundar a rua e um carro dos bombeiros nos livram de sermos arrastados pelo perigo, uma calúnia é levantada contra nós, conseguimos esclarecer o erro e somos salvos em nossa boa fama. Salvar nosso viver. Não empurrar as coisas para frente sem refletir. Cuidar de não deteriorar nosso corpo, cultivar a mente por meio de estudos bem feitos, não apenas para passar de série. Gosto pela leitura. Exercício de discernimento para tomar decisões que nos tornem mais gente Seremos salvos de um incômodo isolamento existencial na medida em que cultivamos relacionamentos de dom, gratuitos, alegres. Sentimo-nos solidários dos outros e isso nos salva de um mortal isolamento. Jesus vivo e presente em nosso meio nos cativa. Vamos nos entregando ao Evangelho, íntimos de Jesus, ele nos leva ao Pai e com isso o Espirito é derramado em nós. Somos salvos: filhos de um Pai que nos alma. E esse Jesus nosso caminho, nossa vida. Somos fadados a viver plenamente. Estamos salvos. Não esquecer: será preciso passar pela porta estreita.   Rigorismo ou radicalidade? José Antonio Pagola Há ditos de Jesus que, se não soubermos lê-los em sua verdadeira perspectiva, podem levar a uma grave deformação de todo o Evangelho. É o que acontece com estas palavras tão conhecidas: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita”, pois podem levar-nos a um rigorismo estreito, rígido e antievangélico, em vez de orientar-nos para a verdadeira radical idade exigida por Jesus. O pensamento genuíno de Jesus, tal como o recolhe a tradição de Lucas, é suficientemente claro. Aqueles judeus que perguntam a Jesus pela salvação recebem dele a advertência: a salvação não é algo que se produz automaticamente. Não basta ser filho de Abraão. É necessário acolher a mensagem de Jesus e suas profundas exigências. Jesus imagina uma multidão aglomerada diante de uma porta estreita. Se não se faz um esforço não é possível entrar por ela. Quem não se esforça por entrar pela porta do Evangelho pode ficar excluído da salvação. Este esforço por entrar pela porta não consiste no rigorismo estreito, angustiante e, definitivamente, estéril que Jesus condenou tantas vezes nos círculos fariseus. Jesus, pelo contrário, chama à radicalidade – “radical” vem de “raiz” – e nos convida a mudar a orientação do coração para viver dando primazia absoluta ao amor a Deus e aos irmãos. Esta conversão não é algo teórico, sem repercussões práticas no comportamento diário. É uma decisão que transtorna os nossos critérios de atuação e exige uma conduta nova: um modo novo de relacionar-nos com as pessoas, com as coisas e com Deus. Se não ouvirmos este chamado radical, corremos o risco de esvaziar de conteúdo a mensagem evangélica e fazer de Jesus um pequeno mestre de sabedoria humana, que nos ensina a viver sem grandes escândalos, mas também sem grandes exigências. Por outro lado, o chamado radical a entrar pela porta só é ouvido corretamente quando se descobre que o próprio Jesus é a porta. “Eu sou a porta: se alguém entrar por mim, estará salvo” (Jo 10,9). Por isso, o chamado de Jesus cria tensão, mas não angústia. É fonte de exigência, mas não de perturbação estéril. A pessoa sabe que procura uma porta sempre aberta ao perdão: Jesus Cristo.   Cristianismo instalado ou aberto? Pe. Johan Konings São poucos os que vão ser salvos? Muitos cristãos vivem com esta pergunta angustiante, inculcada às vezes por pregadores insensatos. Segundo Jesus, no Evangelho, a salvação é para todos, vindos de todos os lados, dos quatro ventos, de perto e de longe. Só não é para aqueles que se fecham na auto-suficiência nos seus presumidos privilégios. A 1ª leitura lembra que Deus não apenas quis salvar o povo de Israel do exílio babilônico, como também o encarregou de abrir o Templo e a Aliança a todasas nações. Quando Deus concede um privilégio, como foi a salvação de Israel do cativeiro babilônico, este privilégio se torna responsabilidade para com os outros. Deus rejeita a auto-suficiência. Existem muitos cristãos instalados, que se sentem seguros fazendo formalmente tudo o que lhes foi prescrito, mas não assumem com o coração aquilo que Jesus deseja que façam, sobretudo o incansável amor ao próximo. Eles ficarão de fora, se não se converterem, enquanto outros, considerados pagãos, vão encontrar lugar no Reino. Aqueles que só servem a Deus com os lábios e não com o coração e de verdade, o Senhor não os conhecerá! Na América Latina, hoje, os que sempre foram os donos da Igreja estão se enterrando no materialismo, e os pobres – há séculos marginalizados da vida eclesial ou relegados a uma posição inferior – estão entrando nas comunidades e ocupando o lugar dos antigos donos. As catedrais dos centros se esvaziam e as capelas da periferia se enchem. Esvazia-se também o comportamento tradicional, enquanto se abre espaço para um novo modo de ser cristão, mais jovem e mais simples, mais participativo e menos fechado. Contudo, esta chegada de um novo tipo de cristãos, aparentemente “vindo de longe”, não significa que se esteja facilitando o ser cristão. Antes pelo contrário. Exige desinstalação. Exige busca permanente daquilo que é realmente ser cristão: não apegar-se a fórmulas farisaicas, mas entregar-se a uma vida de doação e de amor, que sempre nos desinstala. Então, a questão não é se poucos ou muitos vão ser salvos. A questão é se estamos dispostos a entrar pela “porta estreita” da desinstalação e do compromisso com os que sempre foram relegados. A questão é se abrirmos amplamente a porta de nosso coração, para que a porta estreita se torne ampla para nós também. Deus não fechou o número. A nós cabe nos incluirmos nele…. Todas as reflexões foram retiradas do site: franciscanos.org.br

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Maria, Mãe que nos alcança as coisas do alto Frei Gustavo Medella “Mãe, por favor, alcance para mim aquele pote de biscoito em cima da geladeira! Mãe, a senhora pode pegar na parte de cima do armário aquele brinquedo que a senhora guardou?” Para o filho pequeno, a mãe é gigante. Alcança lugares que ele, em sua baixa estatura, não consegue alcançar. Tão grande e tão próxima! Tão distante no tamanho e tão acessível na disponibilidade! Grandeza que se faz pequenez para atender aos pedidos de pequenos tão amados. Maria assunta aos céus é esta Mãe Grande capaz de interceder pelos filhos e filhas a fim de que eles tenham acesso a graças que, caso não recebessem ajuda, seriam para eles inacessíveis. Intercessão poderosa e incansável. No dia em que a Igreja celebra esta verdade de fé que apresenta Nossa Senhora em sua versão mais sublime e gloriosa, é tempo propício para recordarmos desta presença materna tão importante na vida de fé da comunidade. A porta de acesso a Cristo é a Rainha que se encontra à sua direita, conforme reza o Salmo proposto para esta solenidade (Sl 44). Estar próxima ao Rei, especialmente a seu lado direito, manifesta a proximidade que existe entre Maria e seu Filho e, por outro lado, a confiança que Jesus deposita em sua Mãe, elegendo-a como auxílio fundamental para a instauração do Reino. Na beleza do Mistério da Encarnação, o mesmo Jesus Glorioso é o menino pequeno da Galileia que dependeu do seio de Maria para vir ao mundo e para se alimentar. Para Jesus, Maria também foi grande, do Natal à Cruz. Nada mais justo que, com Ele, participasse ativamente da grandeza da Ressurreição. Que aprendamos desta Grande Mãe a fidelidade incondicional ao Filho. Que Ela nos alcance, hoje e sempre, a graça de um coração generoso, disponível e serviçal, sempre pronto a colocar-se a serviço do Reino.   Assunção de Nossa Senhora ao Céu Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”. Primeira leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6ab.10ab Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés. O texto que ouvimos utiliza uma linguagem simbólica, de tipo apocalíptico, linguagem apropriada para revelar o agir de Deus na história do seu povo. O templo que se abre não é mais o segundo templo de Jerusalém, reconstruído após o exílio, mas é o templo escatológico, do fim dos tempos. A antiga arca da aliança, guardada no templo, marcava a presença do Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito. Lembrava também a aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. A arca desapareceu quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios (587 a.C.). Segundo a lenda, a arca foi escondida pelo profeta Jeremias num lugar desconhecido, para ser reapresentada “quando Deus reunir de novo seu povo disperso e lhe fizer misericórdia” (2Mc 2,5-8). Segundo o vidente do Apocalipse, a tenda na qual Deus vai morar com a humanidade redimida reaparecerá na nova Jerusalém. Então, a antiga aliança será substituída pela nova e definitiva aliança com Deus (Ap 21,1-4). A mulher com a coroa de doze estrelas simboliza o povo de Israel do qual nasceu o Messias, e também Maria, a mãe do Messias. A criança (Messias) recém-nascida, ameaçada pelo dragão (falso messias), representa a Igreja perseguida. O dragão/serpente é o mesmo dragão cuja cabeça a primeira Eva haveria de esmagar (cf. Gn 3,15). De fato, esmagou por meio de Maria, a Mãe de Jesus, que nos trouxe o Salvador prometido (Ap 12,10). Trata-se de um texto cheio de esperança para a comunidade cristã perseguida, no tempo do vidente João. Maria assunta ao céu resume em si toda a certeza do triunfo e da glória do povo de Deus. O dragão ameaça a criança recém-nascida, isto é, a vida da jovem comunidade cristã. No Evangelho, Isabel e Maria geram a vida que renova e traz salvação para a comunidade. Hoje, o dragão ameaçador é o capitalismo financeiro e consumista, que devora as riquezas de nossa “casa” comum. Ameaça não só a humanidade, mas a própria vida do planeta Terra. Que a Virgem Maria, Assunta ao Céu, nos proteja e nos ajude a esmagar a cabeça do dragão, símbolo das forças do mal. Salmo responsorial: Sl 44(45) À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir. Segunda leitura: 1Cor 15,20-27a Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo. Paulo nos diz que a ressurreição dos mortos acontece numa ordem de sequência, onde Cristo é o primeiro dos ressuscitados e garantia de nossa futura ressurreição: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Ninguém melhor do que Maria pertence ao seu Filho. A fé nos diz que em Maria já se realizou esta ressurreição, que todos nós esperamos, quando morrermos. Então, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26). – Em 1950, o Papa Pio XII, declarou como verdade infalível de nossa fé que “a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”. Aclamação ao Evangelho Maria é elevada ao céu, alegram-se os coros dos anjos. Evangelho: Lc 1,39-56 O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor: elevou os humildes. O Cântico de Maria revela a pedagogia de Deus: Deus opera “grandes coisas”, isto é, a obra de nossa salvação, através da humildade de Maria, a serva do Senhor. No encontro das duas mães, Maria e Isabel, encontram-se também duas crianças, João Batista, o Precursor, e Jesus, o Salvador prometido. Pela saudação de Maria comunicam-se as mães. Mas o louvor de Isabel a Maria – aquela “que acreditou” – brota do reconhecimento prévio da presença do Messias Jesus pelo seu filho João. No seio de Isabel o filho se agita, dá o alarme e, cheia de alegria, ela exclama: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” É o encontro do tempo da promessa, que termina com João Batista, com o tempo da realização da promessa, que se inicia com Jesus. Torna-se verdadeiro o que diz o salmo: “Da boca das criancinhas tiraste o teu louvor” (Sl 8,3). De fato, porque duas crianças se encontraram – a promessa e a realização da promessa – Isabel louva Maria e Maria põe-se a louvar o Senhor, que fez grandes coisas nela e por meio dela, ao gerar em seu seio o Salvador do mundo. Assim se manifesta o amor misericordioso de Deus, para Israel, seu povo, e para toda a humanidade. Maria é Assunta ao céu. Maria que em sua vida colocou-se a serviço de Deus; por obra do Espírito Santo acolheu em seu ventre o Filho de Deus e tornou-se a serva do Senhor. Ao final de sua vida foi definitivamente atraída, assumida e glorificada por Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). Na Solenidade da Assunção de Maria ao Céu, o louvor de Maria torna-se o nosso louvor. “Terminado o curso de sua vida terrena”, Maria foi assunta em corpo e alma ao Céu significa que nela já se realizou de modo absoluto a vida em Deus. Pois “a morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal”. Para nós, a Assunção significa que aquilo que “Maria vive agora, no corpo e na alma, é o que nós iremos também viver quando morrermos e formos ao céu” (Leonardo Boff).   Causa de esperança Frei Clarêncio Neotti Quando o Papa Pio XII proclamou verdade de fé a Assunção de Maria ao céu, destacou quatro razões. A primeira delas seria para maior glória da Santíssima Trindade (…) A segunda razão, apontada por Pio XII, seria a de provocar na Igrejao aumento do amor a Maria (…), a terceira razão seria a de alcançar de Maria, Mãe do Cristo-Cabeça, uma maior unidade entre os membros do corpo de Cristo, que é a Igreja (…) A quarta razão seria para a sociedade tomar consciência do valor da vida humana e das funções do nosso corpo. Como andamos necessitados dessa consciência! Fala-se muito numa teologia do corpo, numa teologia da vida. Mas a sociedadeperdeu o sentido da sacralidade do corpo humano e do caráter divino da vida. O documento do papa João Paulo II – Evangelium Vitae – e suas inúmeras intervenções em defesa dos nascituros, dos famintos, das etnias perseguidas, da mulher escravizada, dos anciãos e doentes soam como um contínuo e insistente alerta. Maria de Nazaré, que gerou o Autor da Vida (At 3,15), aquele que se definiu como sendo “a Vida” (Jo 14,6), aquele que disse ter vindo ao mundo para “dar a vida e dá-la em abundância” (Jo 10,10), é hoje glorificada em corpo e alma ao céupara mostrar-nos a dignidade da pessoa humana e o destino eterno da vida, que de Deus recebemos. Maria, elevada ao céu e coroada rainha dos anjos e dos santos, foi e continua o exemplo de mulher forte que não duvidou em afirmar que Deus é o vingador dos humildes e dos oprimidos e derruba do trono os poderosos do mundo (w. 51-53). Joia da Santíssima Trindade, mulher cheia de graça, encarnação do amor mais terno e puro, que mereceu dar vida humana ao Filho de Deus, mãe venerada de todas as criaturas, primogênita da eternidade, a ti cantam os anjos e aplaudem os santos, enquanto nós na terra exultamos de esperança.   A Senhora assunta na glória Frei Almir Guimarães Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelasAp 11,19a Nossa viagem através do tempo Nossa vida pode se comparar a uma viagem através do tempo. Entre o nascer e o morrer atravessamos planícies, escalamos montanhas, andamos com facilidade no terreno plano e, com o tempo, as pessoas nos sugerem delicadamente o uso de uma bengala ou nos oferecem o braço. Colocamos gestos, tomamos decisões, acertamos e erramos. E tudo passa. Não conseguimos reter essa sucessão de coisas, de estados interiores, esse incessante fluir. Tudo tem perfume de caducidade. Ao longo do tempo que passa vamos modelando nosso semblante interior, nosso verdadeiro rosto. Não somos donos do tempo. Temos a graça de viver no tempo. E há tempo para tudo, como diz o Eclesiastes: tempo para rir e para chorar, tempo para trabalhar e descansar, tempo pra viver e tempo para morrer. A impressão que temos é que Na estrada percorrida houve tempos fortes, belos, fecundos que deixaram marcas para sempre. De outro lado, também, houve tempos mortos. Permanece para sempre o bem que foi sendo feito. Terrível pensar nesses tempos vazios, tempos que nos ocupamos demais de nós mesmos, tempo em que não fizemos questão de marcar ou aceitar os toques do Senhor, tempo marcado pelo dilaceramento do pecado. Maria teve uma existência sem tempos mortos Hoje, solenidade da Assunção de Maria à glória, Maria, a cheia de graça, o tabernáculo do Senhor, comemoramos o tempo de Maria que se transformou em eternidade. Claro, ela também vivera sob o signo do efêmero e transitório. Vicissitudes, tempo de menina moça, promessa de casamento, a visita do anjo, o menino que nasceu nas palhas e toda a sua trajetória até o momento de sua dormição. Nasceu ela num cantinho do Oriente Médio: cuidados com as coisas de todos os dias, o pão que precisava ser assado, o cântaro para buscar água poço, a conversa com as vizinhas sobre coisas que se passavam aldeia, ramalhete de preocupações e sofrimentos, buquê de alegrias, horas cinzentas e momentos doloridos como todos vivemos. Mas com Maria acontece alguma coisa diferente daquilo que conosco sucede. Em seu caminhar, por graça de Deus, ela não conheceu a tragédia do pecado, essa fissura interior, esse desejo contrariado de fazer o bem, mas de efetivamente fazer o mal. Maria não conheceu o drama do pecado. De nada teve que se arrepender, de renegar o que quer que seja de seu passado. Quando terminou sua carreira estava pronta para entrar na glória. Maria não conheceu tempos mortos. A Imaculada é Senhora da glória Fixando nosso olhar nessa mulher agraciada divisamos aquela na qual o Senhor opera maravilhas, fiel serva do Senhor que levava para o fundo dos corações tudo que lhe era anunciado, aquela que teve sua vida profundamente vinculada a de Jesus, a segunda pessoa da Trindade que tomou nossa carne na carne de Maria. Dele, desse Deus encarnado, ela fora mãe. Em tudo acompanhou o Filho e teve como ápice desse acompanhamento o estar ao pé da cruz. Ela não conheceu o pecado e por privilégio, ao terminar sua peregrinação foi elevada à glória. Maria é a porteira da glória. Está nos espaços espirituais que designamos de céu. Seu nome é Maria da Glória, Maria do face-a-face eterno. Nós que não fomos poupados do pecado, mas resgatados pelo filho de Virgem, por sua paixão, morte e ressurreição somos também destinados à mesma glória que Maria. Pio XII, no dia 1° de novembro de 1950 declarou como verdade de fé assunção da Virgem: “Desde toda a eternidade unida misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo desígnio de predestinação, a augusta Mãe de Deus, Imaculada na concepção, virgem completamente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor que obteve pleno triunfo sobre o pecado e suas consequências, ela alcançou ser guardada imune da corrupção do sepulcro como suprema coroa de seus privilégios, Semelhantemente a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à pátria celeste, onde, rainha, refulge à direita de seu Filho, o Imortal, rei dos séculos”. Texto para oração MARIA, FILHA E MÃE DA HUMANIDADE Maria, no coração do mundo,no começo dos tempos,na aurora de nossas vidas. Maria, na noite de Belémque dá a terra a Deus. Maria, ternura e fidelidade,tendo a Vida em nossas mãos. Maria, doce e frágil,a força e a luz,pobre e humilde,a glória e a riqueza. Maria, ao pé da cruz,mãe e filha, só,traspassada e radiante,humana em teu sofrimento,divina em teu semblante. Maria, mãe de nosso salvador,salvadora tu mesma para nosso mundo perdido, sem rota. Maria, filha e mãe de nossa humanidade,ao pé da cruz. Maria, nossa força e nossa luz,nossa glória e nossa riqueza. Maria, na manhã de Páscoadiscreta e quase ausente,Maria do dias de alegria,feliz e esquecida. Maria, nossa alegria e nosso sorriso,mão estendida ao pecador,socorro dos aflitos,Maria – perdão. Maria, em Pentecostes,fortaleza dos apóstolos,sustentáculo nosso na tormenta de nossas incertezas. Maria, nossa esperança,que a cada dia dás ao mundonosso Deus.   Traços característicos de Maria José Antonio Pagola A visita de Maria a Isabel permite ao evangelista Lucas pôr em contato o Batista e Jesus, antes mesmo de nascer. A cena está carregada de uma atmosfera muito especial. As duas mulheres vão ser mães. As duas foram chamadas a colaborar noplano de Deus. Não há varões. Zacarias ficou mudo. José está surpreendentemente ausente. As duas mulheres ocupam toda a cena. Maria, que veio apressadamente de Nazaré, transforma-se na figura central. Tudo gira em torno dela e de seu Filho. Sua imagem brilha com certos traços mais genuínos do que muitos outros que lhe foram acrescentados ao longo dos séculos, apartir de invocações e títulos alheios aos evangelhos. Maria, “a mãe de meu Senhor”. Assim o proclama Isabel em alta voz e cheia do Espírito Santo. Isto é certo: para os seguidores de Jesus, Maria é, antes de tudo, a Mãe de nosso Senhor. Daí parte sua grandeza. Os primeiros cristãos nuncaseparam Maria de Jesus. Eles são inseparáveis. “Bendita por Deus entre todas as mulheres”, ela nos oferece Jesus, “fruto bendito de seu ventre”. Maria, a crente. Isabel proclama Maria feliz porque ela “acreditou”. Maria é grande não simplesmente por sua maternidade biológica, mas por ter acolhido com fé o chamado de Deus para ser Mãe do Salvador. Ela soube ouvir a Deus; guardou sua Palavra dentro de seu coração; meditou-a; a pôs em prática cumprindo fielmente sua vocação. Maria é mãe crente. Maria, a evangelizadora. Maria oferece a todos a salvação de Deus, que ela acolheu em seu próprio Filho. Essa é sua grande missão e seu serviço. De acordo com o relato, Maria evangeliza não só com seus gestos e palavras, mas porque trazconsigo, para onde vai, a pessoa de Jesus e seu Espírito. Isto é o essencial do ato evangelizador. Maria, portadora de alegria. A saudação de Maria comunica a alegria que brota de seu Filho Jesus. Ela foi a primeira a ouvir o convite de Deus: “Alegra-te…, o Senhor está contigo”. Agora, a partir de uma atitude de serviço e de ajuda aquem precisa, Maria irradia a Boa Notícia de Jesus, o Cristo, que ela sempre traz consigo. Ela é para a Igreja o melhor modelo de uma evangelização prazerosa.   A mãe gloriosa e a grandeza dos pobres Pe. Johan Konings Em 1950, o Papa Pio XII definiu a Assunção de Maria como dogma, ou seja, como ponto referencial de sua fé. Maria, no fim de sua vida, foi acolhida por Deus no céu “com corpo e alma”, ou seja, coroada plena e definitivamente com a glóriaque Deus preparou para os seus santos. Assim como ela foi a primeira a servir Cristo na fé, ela é a primeira a participar na plenitude de sua glória, a “perfeitissimamente redimida”. Maria foi acolhida completamente no céu porque elaacolheu o Céu nela – inseparavelmente. O evangelho de hoje é o Magnificat de Maria, resumo da obra de Deus com ela e em torno dela. Humilde serva – nem tinha sequer o status de mulher casada -, ela foi “exaltada” por Deus, para ser mãe do Salvador e participar de sua glória,pois o amor verdadeiro une para sempre. Sua grandeza não vem do valor que a sociedade lhe confere, mas da maravilha que Deus opera nela. Um diálogo de amor entre Deus e a moça de Nazaré: ao convite de Deus responde o “sim” de Maria, e àdoação de Maria na maternidade e no seguimento de Jesus, responde o grande “sim” de Deus, a glorificação de sua serva. Em Maria, Deus tem espaço para operar maravilhas. Em compensação, os que estão cheios de si mesmos não deixam Deus agir e, por isso, são despedidos de mãos vazias, pelo menos no que diz respeito às coisas de Deus. O filho de Maria coloca na sombra os poderosos deste mundo, pois enquanto estes oprimem, ele salva de verdade. Essa maravilha, só é possível porque Maria não está cheia de si mesma, como os que confiam no seu dinheiro e seu status. Ela é serva, está a serviço – como costumam fazer os pobres – e, por isso, sabe colaborar com as maravilhas de Deus.Sabe doar-se, entregar-se àquilo que é maior que sua própria pessoa. A grandeza do pobre é que ele se dispõe para ser servo de Deus, superando todas as servidões humanas. Mas, para que seu serviço seja grandeza, tem que saber decidir aquem serve: a Deus ou aos que se arrogam injustamente o poder sobre seus semelhantes. Consciente de sua opção, o pobre realizará coisas que os ricos, presos na sua auto-suficiência, não realizam: a radical doação aos outros, asimplicidade, a generosidade sem cálculo, a solidariedade, a criação de um homem novo para um mundo novo, um mundo de Deus. A vida de Maria, a “serva”, assemelha-se à do “servo”, Jesus, “exaltado” por Deus por causa de sua fidelidade até a morte (Fl 2,6-11). O amor torna semelhantes as pessoas. Também a glória. Em Maria realiza-se, desde o fim de sua vida naterra, o que Paulo descreve na 2ª leitura: a entrada dos que pertencem a Cristo na vida gloriosa do pai, uma vez que o Filho venceu a morte. Todas as reflexões foram tirados do site: franciscanos.org.br

IPIXUNA: FORMAÇÃO PARA MULTIPLICADORES DO MÊS MISSIONÁRIO EXTRAORDINÁRIO

No dia 10 de agosto de 2019, na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Ipixuna - Pará, realizou-se a Formação para os Missionários (as) que serão os multiplicadores do Mês Missionário Extraordinário nas diversas Paróquias das Regiões Pe. Marino Conti e Dom Eliseu. Estavam presentes os leigos e leigas, o Bispo Diocesano Dom Jesus, os Vigários Episcopais Pe. Aldo e Pe. Márcio, os Padres: Fernando, Maeldom e José Silva, os Diáconos, as Irmãs Teresitas e a Coordenação Pastoral Diocesana. Dom Jesus durante a oração da manhã, refletiu sobre o evangelho de Mateus 28, 19-20, o mandato e envio de Jesus aos seus discípulos, depois fez um percurso histórico da evangelização colonial dos povos da América Latina. A formação contou com a assessoria do Pe. Aldo Fernandes aprofundando o tema “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo no mundo”, relatou de forma objetiva esclarecendo o percurso missionário da Igreja a partir da carta do Papa Bento XV, Maximum Illud, que pelo aniversário do centenário de sua promulgação, impulsionou o convite à vivência do Mês Missionário Extraordinário, no mês de outubro de 2019. Enfatizou o objetivo de reavivar a consciência batismal, despertar a missão ad gentes e retomar o novo ardor da transformação missionária, enfrentando os desafios atuais de tempo na dimensão histórica e de espaço na dimensão territorial. No período da tarde realizou-se a partilha e planejamento das Regiões Episcopais, as orientações das Propostas Diocesanas para o mês de outubro e se encerrou com a formação sobre os Conselhos Missionários: COMINA, COMIRE, COMIDI e COMIPA, exposto pela Ir. Joana Paula. A conclusão se deu com a oração de reavivamento do ser missionário, através da Palavra de envio e encorajamento do Evangelho de João 21,4-6, seguida da benção e envio feito pelas mãos do Pe. Aldo Fernandes, com a Cruz do Mês Missionário Extraordinário. Secretaria da Coordenação de Pastoral Diocesana

19º Domingo do Tempo Comum

Rápida e rara segue a vida Frei Gustavo Medella Na composição “Paciência”, o cantor e compositor Lenine traz duas afirmações que se completam ao descrever a vida. Diz o artista: “A vida não para” e “A vida é tão rara”. Correria e raridade, cotidiano e beleza, compromisso e dom. Equilibrar estas duas dimensões exige discernimento e flexibilidade. No Evangelho deste 19º Domingo do Tempo Comum, Jesus adverte seus discípulos para que não vivam displicentemente. Manter os rins cingidos e as lâmpadas acesas significa ter sempre no horizonte a fugacidade e a raridade da vida. Fugaz porque limitada no tempo e no espaço, porque cheia de desafios e surpresas, repleta de exigências. Rara porque plena de oportunidades, porque cheia de possibilidades de encontro, porque criada e desejada amorosamente por Deus, porque, em Jesus, o Pai veio partilhá-la conosco. Entre correria e contemplação, o dom da fé, definida como “a convicção acerca das realidades que não se veem” (Cf. Hb 11,1), promove a comunhão do efêmero com o eterno, produzindo frutos de solidariedade e serviço. Que a vida, frágil e rara, jamais seja banalizada.   19º Domingo do Tempo Comum, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes”. Primeira leitura: Sb 18,6-9 Aquilo com que puniste nossos adversários, serviu também para glorificar-nos. O livro da Sabedoria é o último livro do Antigo Testamento, provavelmente escrito em Alexandria (Egito), entre os anos 30 a.C. e 40 d.C., quando a colônia judaica local sofria severas perseguições. O autor exalta o papel da sabedoria de Deus na criação e na história da salvação, sobretudo ao fazer uma releitura do êxodo do Egito (cf. Sb 16–19). O texto da liturgia de hoje lembra a noite de vigília, na qual os hebreus se preparavam para celebrar a páscoa, antes de atravessar o Mar Vermelho. Era uma noite esperada pelos hebreus “como salvação dos justos e perdição dos inimigos”, que perseguiam o povo de Deus. A punição dos inimigos e a libertação da escravidão do Egito preparam a aliança do Sinai. Ali Deus escolheu os hebreus como seu povo eleito, libertou-o da escravidão do Egito, estabeleceu com ele uma aliança (“pacto divino”) e assim os fez “participar dos mesmos bens e dos mesmos perigos”. Com estas palavras, o autor conforta os judeus perseguidos em Alexandria, lembrando-lhes que ser povo eleito por Deus tem o seu preço. Mas o sofrimento não significa abandono de Deus, porque Ele jamais se esquece da aliança de amor que fez com seu povo. A fé no Deus da aliança, no Libertador da escravidão do Egito, é a âncora mais segura para a comunidade agitada pela perseguição religiosa. Salmo responsorial: Sl 32 Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança. Segunda leitura: Hb 11,1-2.8-19 Esperava a cidade que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor. Hebreus é a última das catorze epístolas atribuídas a Paulo. Seu verdadeiro autor, porém, é um discípulo anônimo de Paulo. Não escreve propriamente uma carta, mas uma homilia ou exortação a uma comunidade que ele conhece e da qual está ausente. A comunidade é formada por cristãos de origem judaica, da segunda geração, que estavam perdendo o fervor original. O texto que ouvimos quer revigorar a fé e a esperança, num ambiente hostil no qual viviam os cristãos. O autor anônimo parte da definição do que é fé: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Ao longo do texto ocorre sete vezes a palavra fé. O autor propõe como testemunho a fé dos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó. O elogio se concentra em Abraão e Sara. Abraão obedeceu à ordem de Deus e partiu para uma terra desconhecida que lhe seria dada em herança. Pela fé Abraão e Sara, embora estéreis, tornaram-se pais de uma multidão de descendentes, comparável às estrelas do céu. Pela fé na promessa que, de Isaac, teria uma grande descendência, Abraão ofereceu seu filho em sacrifício. Crente que Deus poderia “até ressuscitar os mortos”, recuperou assim seu filho vivo. O autor coloca a fé que Abraão tinha no “Deus dos vivos” como um símbolo da fé cristã na ressurreição dos mortos. Em meio à ameaça de morte em que viviam os cristãos o autor planta a fé na ressurreição de Cristo como um estandarte de esperança. A fé na ressurreição de Cristo e nossa ressurreição caminham juntas: “Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é inútil…” (cf. 1Cor 15,17). O Deus de Jesus Cristo “não é Deus dos mortos e sim dos vivos” (Mc 12,27). Aclamação ao Evangelho É preciso vigiar e ficar de prontidão; Em que dia o Senhor há de vir, não sabeis, não! Evangelho: Lc 12,32-48 Vós também, ficai preparados! No evangelho do domingo passado, Jesus criticava a cobiça e o acúmulo dos bens passageiros deste mundo e nos exortava a sermos vigilantes e a buscarmos os bens que não passam. Acima de tudo deve estar o amor a Deus e ao próximo. No evangelho de hoje, Lucas retoma e aprofunda os ensinamentos do texto anterior, aplicando-os à comunidade cristã, que ele chama de “pequenino rebanho, a quem foi dado o Reino”. Esse Reino que Jesus anuncia caracteriza-se pela venda e partilha dos bens com os pobres, para investir no tesouro do céu, que jamais acaba. O cristão deve estar focado em Deus e não nas riquezas deste mundo: “Onde está vosso tesouro, ali também estará vosso coração” (v. 34). Deve estar sempre preparado e vigilante, aguardando a vinda do Senhor, que não tem data marcada. Para esclarecer o sentido do estar vigilante Jesus conta a parábola dos empregados que devem estar sempre vigilantes para receber seu patrão, quando ele voltar de uma festa de casamento, a qualquer hora da noite (v. 35-40). No início da segunda parte (v. 41-48), Pedro, em nome dos apóstolos, pergunta a Jesus: “Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos”? Na resposta Jesus se dirige, sobretudo, aos dirigentes da comunidade cristã, encarregados de vigiar o “pequenino rebanho” e cuidar de seu bem-estar. Jesus é o bom Pastor (cf. Lc 15,1-7; Jo 10,1-18). Encarregou os dirigentes da comunidade (apóstolos e ministros) de cuidar de seu rebanho. Escolhidos pelo Senhor, eles precisam estar mais bem preparados para vigiar pelo “pequenino rebanho” e assim deixá-lo sempre preparado para a segunda vinda do Senhor. Por isso, deles se exigirá mais quando o Senhor vier como juiz dos vivos e dos mortos, no final dos tempos. O Evangelho de hoje contém como mensagem central a fé e a esperança na segunda vinda do Senhor. Esta fé tem como desdobramentos práticos: 1) a partilha dos bens deste mundo com os mais pobres; 2) a busca do tesouro mais precioso, que é o amor a Deus sobre todas s coisas e o amor ao próximo como a si mesmo; 3) e a atitude de vigilância na expectativa da segunda vinda do Senhor. Pergunta: Que prioridade eu coloco em minha vida como cristão?   O Senhor vem para cear conosco Frei Clarêncio Neotti Jesus exemplifica com três pequenas parábolas: a do porteiro, a do ladrão e a do administrador. As três figuras ocorrem outras vezes no Novo Testamento. O patrão que volta da festa do casamento, lembra a parábola das moças vigilantes (Mt25,1-13), a do porteiro é parecida com a parábola contada por Marcos (Mc 13,33-37). A do administrador é contada também por Mateus (Mt 24,42-51). A figura do Senhor que chega como um ladrão encontramo-Ia também em 1 Ts 5,2; 2Pd 3,10 e Ap 3,3. A mãe, que espera acordada o retorno do filho ou da filha de uma festa noturna, lembra bem a primeira parábola, que Jesus exemplifica com o porteiro que deve abrir a porta ao patrão, quando ele chegar de uma festa de bodas. Ele não podeapagar a lamparina (de azeite), porque demorará em reacendê-la, quando o patrão chegar. Não pode despir-se e deitar-se, porque demorará para vestir-se, para abrir a porta e receber o patrão. Se o empregado demorar, o patrão vai ter o desgosto de ficar esperando ao relento. O patrão é o Senhor. O empregado somos nós. Se estamos vigilantes, quando o Senhor bater à porta, ele nos fará parte de sua família. Isso está contido na expressão: “Fá-lo-á sentar-se à mesa e o servirá” (v. 37). Essa frase deve ter repercutido muito entre os primeiros cristãos, que esperavam para logo o fim do mundo e esforçavam-se por suportar tribulações na esperança da chegada imediata da segunda vinda de Jesus. A frase tem claro econo Apocalipse, quando o Autor põe na boca do Senhor as palavras: “Estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos e lhe concederei sentar-se comigo em meu trono” (Ap 3,20-21).   As lâmpadas precisam permanecer acesas Frei Almir Guimarães Precisamos adquirir o colírio, o próprio Jesus, para recuperar a vista. Mas precisamos “cair em nós” e perceber que a autossuficiência é uma ilusão nossa, que nossa situação é de fraqueza, carência, imperfeição.José Tolentino Mendonça Sempre a vida! O que conta é a vida. Somos seres humanos desejosos de viver em plenitude. A sociedade e o mundo nos mostram horizontes fascinantes: sucesso, êxito, beleza, festas, paraísos reais e digitais. Tudo isso pode parecer nos proporcionar satisfações que nem sempre perduram, e que momentaneamente nos encantam. Breve e aparentemente. Somos seres inquietos sempre em busca, sempre olhando para amanhã. Nada de viver por viver. Queremos iluminar a trajetória do que chamamos “nossa vida” com a figura de Jesus, vivo, ressuscitado, presente, próximo. Lucas, no evangelho proclamado, nos oferece direcionamentos a serem assumidos para que nossa vida seja conforme o desejo desse Jesus que amamos e que é nosso companheiro de caminhada. Ao pequeno rebanho são feitas carinhosas admoestações. ♦ Tudo bem. Precisamos de dinheiro. Há pessoas que morrem de fome sem dinheiro. Precisamos agilizar uma política honesta de repartição dos bens. Mas cuidado. Todo acúmulo de bens, de empáfia, de desejo de superioridade pode ferir a fraternidade e nos tornar reféns de nós mesmos. O dinheiro que adquirimos pode nos levar a uma postura de superioridade. Onde anda nosso coração? Quando deitamos para dormir enquanto o sono não chega em que andamos pensando? “Onde está o vosso tesouro, aí está a vosso coração!”. Não podemos nos deixar escravizar pelo desejo de ter sempre mais. Critério seguro: abundância das coisas necessárias. Vida sóbria e, sobretudo, vender no mercado o mais depressa possível nosso “ego” com reclamos tão exigentes. ♦ Sim, nada de viver por viver. Onde encontrar um meio capaz de nos libertar da superficialidade, do aturdimento, no barulho existencial? Vigiar, vigilância, prestar atenção às coisas, ao mundo, a quem está a nosso lado, aos loucos desejos que andam dançando dentro de nós. Fé e vigilância. Aquela fé recebida no catecismo não basta. Jesus está a nos falar de uma fé vigilante. ♦ “É surpreendente como Jesus fala da vigilância. Pode-se dizer que ele entende a fé como atitude vigilante que nos liberta do absurdo que domina muitos homens e mulheres, que andam pela vida se meta e sem objetivo nenhum”. “O apelo de Jesus à vigilância nos chama a despertar da indiferença, da passividade ou do cuidado com que vivemos nossa fé. Para vivê-la de maneira lúcida precisamos conhecê-la mais profundamente, confrontá-la com outras atitudes possíveis perante a vida, agradecê-la e procurar vivê-la com todas as suas consequências” (Pagola, Lucas, p. 213). ♦ Deus não tem residência nas nuvens dos céus. Ele se imiscui em toda a criação e, de modo particular na história. Através de suas visitas chega perto de nós, dos homens e dos povos, da Igreja. Os que vivem da fé andam esperando e perscrutando suas visitas. Será preciso afinar o ouvido. “Senhor, o que andas dizendo? Ajuda-nos a compreender”. ♦  Ele chega quando determina. Chega como um ladrão. As lâmpadas da vida precisarão estar acesas. Despertar do sono. “Para viver despertos é importante viver mais devagar, cultivar melhor o silêncio, estar mais atento aos apelo do coração, Sem dúvida o mais decisivo é viver amando. Só quem ama vive intensamente, com alegria e vitalidade, atento ao essencial. Por outro lado, para despertar uma “religião adormecida”, só há um caminho: buscar para além dos ritos e das crenças, aprofundar-se mais em nossa verdade perante Deus, e abrir-nos confiantes ao seu mistério. “Felizes aqueles que o Senhor ao chegar encontrar vigilantes” (Pagola, idem,p. 215)] ♦  Crer… este o tema do trecho da Carta aos Hebreus proclamado em nossa liturgia de hoje. >> Crer é lançar confiantemente a vida no Mistério de Deus como Abraão que caminhou sem mapa para uma terra desconhecida. Ele nos acompanhará. Viremos na confiança de filho para com o Pai.>> Crer é repetir em nossa vida a postura de Samuel: Fala, Senhor que teu servo escuta!>> Crer é caminhar na presença do Senhor como nosso invisível, mas real companheiro.>> Crer não é apenas repetir as formulações do Credo, mas prestar adesão viva à pessoa de Cristo ressuscitado que se manifesta no hoje da vida e da Igreja de múltiplas maneiras.>> Crer é encarar os acontecimentos com o olhar de Cristo que olha com os olhos do Pai.>> Crer é tornar-se cristão com outros e não na filosofia de uma vida de fé “minha somente minha”. “Religião para mim é apenas comigo mesmo”. ♦  “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito confiado, muito será exigido”. Precisamos ter a casa iluminada esperando as visitas do Senhor Pequena reflexão DIA DOS PAIS ♦ O pai é, antes de tudo, o companheiro da esposa. Em sua juventude ele encontrou uma mulher com a qual desejou criar uma comunhão de vida e um vida de imensa união. Ela veio quebrar sua solidão. Não é bom que o homem viva só. O marido é companheiro, amigo fiel de todos os momentos, parceiro de destino. Os filhos pequenos e crescidos experimentam segurança e alegria quando se dão conta que seus pais se estimam profundamente. Os pais são bons quando são ternos amigos de suas esposas e dos filhos. Experiência dolorosa para os filhos é ver o pai ou a mãe deixando a casa. ♦ O pai é presença forte, meiga e densa no seio da casa. Não é apenas um provedor. Não basta dizer-se a si e aos outros: “Não deixo faltar nada em casa. Conforto, comida, estudo. O que importa é a qualidade de sua presença. Os seres que enchem a casa são dom de Deus. Pai e mãe administram o tesouro que lhes deu o Altíssimo. Presença de qualidade. Presença, mesmo em eventual separação do casal. Presença que dá segurança. ♦ Os pais não querem que os filhos sejam fotocopias suas e da mulher. Os filhos escondem riquezas. O pai, de modo particular, ajuda-os a discernir. Nada impõem. Alertam para que não sejam ingênuos joguetes e presenças da sociedade de consumo e de exploração dos incautos. ♦ O pai da terra nunca pode esquecer do Pai do céu. Os dois são designados da mesma maneira. O pai é alguém que busca o Senhor, Ele e a mulher criam em casa espaços para que o Senhor possa entrar e sentar-se à mesa da refeição e na sala dos encontros. O pai não pode ser um “beato”, mas alguém que deixa transparecer que está sempre na “busca das estrelas”. Os filhos ficam felizes em saber o pai é amigo do Senhor.   Despertar José Antonio Pagola É muito fácil viver dormindo. Basta fazer o que quase todos fazem: imitar, amoldar-nos, ajustar-nos ao que está na moda. Basta viver buscando segurança externa e interna. Basta defender nosso pequeno bem-estar enquanto a vida vai se apagando em nós. Chega um momento em que já não sabemos reagir. Ao sentir que nossa vida está vazia, vamos enchendo-a de experiências, informação e diversões. Enganamo-nos vivendo agitados pela pressa e pelas ocupações. Podemos gastar a vida inteira “fazendo coisas” sem descobrir nela nada de grande ou nobre. Às vezes também a religião não consegue despertar-nos. Pode-se praticar uma “religião adormecida” que dá tranquilidade, mas não vida. Estamos tão ocupados com nossas coisas e desgraças que jamais temos um momento livre no qual possamos sentir o que é amar e compartilhar, o que é ser amável e solidário. E sem viver nada disso queremos saber algo de Deus! Jesus repete sempre de novo um apelo premente: “Despertai, vivei atentos e vigilantes, porque podeis passar a vida sem saber de nada”. Não é fácil ouvir este chamado, porque geralmente não damos ouvidos aos que nos dizem algo contrário ao que pensamos. E nós homens e mulheres de hoje pensamos que somos inteligentes e lúcidos. Para despertar precisamos tomar consciência da nossa estupidez: começamos a ser mais lúcidos quando observamos a superficialidade de nossa vida; a verdade abre caminho em nós quando reconhecemos nossos enganos; a paz chega ao nosso coração quando percebemos a desordem em que vivemos. Despertar é dar-nos conta de que vivemos dormindo. Para viver despertos é importante viver mais devagar, cultivar melhor o silêncio e estar mais atentos aos apelos do coração. Sem dúvida, o mais decisivo é viver amando. Só quem ama vive intensamente, com alegria e vitalidade, atento ao essencial. Por outro lado, para despertar de uma “religião adormecida” só há um caminho: buscar para além dos ritos e das crenças, aprofundar-se mais em nossa verdade perante Deus e abrir-nos confiantemente ao seu mistério. “Felizes aqueles que o Senhor, ao chegar, encontrar vigiando”.   Viver para aquilo que é definitivo Pe. Johan Konings O fim para o qual vivemos reflete-se em cada uma de nossas ações. A cada momento pode chegar o fim de nossa vida. Seja este fim aquilo que vigilantes esperamos, como a noite da libertação, que encontrou os israelitas preparados para saírem (1ª leitura), e não como uma noite de morte e condenação, como o empregado malandro que é pego de surpresa pela volta inesperada de seu patrão (evangelho). Devemos preparar-nos para o definitivo de nossa vida, aquilo que permanece, mesmo depois da morte. Mensagem difícil para o nosso tempo de imediatismo. Muitos nem querem pensar no que vem depois; contudo, a perspectiva do fim é inevitável. Já outros veem o sentido da vida na construção de um mundo novo, ainda que não seja para eles mesmos, mas para seus filhos ou para as gerações futuras, se não têm filhos. Assim como os antigos judeus colocavam sua esperança de sobrevivência nos seus filhos, estas pessoas a colocam na sociedade do futuro. É nobre. Mas será suficiente? Jesus abre outra perspectiva: um tesouro no céu, junto a Deus. Aí a desintegração não chega. Mas, olhar para o céu não desvia nosso olhar da terra? Não leva à negação da realidade histórica, desta terra, da nova sociedade que construímos? Ou será, pelo contrário, uma valorização de tudo isso? Pois, mostrando como é provisória a vida e a história, Jesus nos ensina a usá-las bem, para produzir o que ultrapassa a vida e a história: o amor que nos toma semelhantes a Deus. Este é o tesouro do céu, mas ele precisa ser granjeado aqui na terra. A visão cristã acompanha os que se empenham pela construção de um mundo novo, solidário e igualitário, para suplantar a atual sociedade baseada no lucro individual. Mas não basta ficar simplesmente neste nível material, por mais que ele dê realismo ao empenho do amor e da justiça. A visão cristã acredita que a solidariedade exercida aqui na História é confirmada para além da História. Ultrapassa nosso alcance humano. É a causa de Deus mesmo, confirmada por quem nos chamou à vida e nos faz existir. À utopia histórica, a visão cristã acrescenta a fé, “prova de realidades que não se veem” (2ª leitura ). A fé, baseada na realidade definitiva que se revelou na ressurreição de Cristo, nos dá a firmeza necessária para abandonar tudo em prol da realização última – a razão de nosso existir. Todas as meditações foram retiradas do site franciscanos.org.br

FORMAÇÃO PARA MULTIPLICADORES DO MÊS MISSIONÁRIO EXTRAORDINÁRIO

Nos dias 02 e 03 de agosto de 2019, reuniram-se para a formação sobre o Mês Missionário Extraordinário, representantes das Paróquias São Sebastião/Tracuateua, São Francisco de Assis/Açaiteua, Santo Antônio Maria Zaccaria/Capitão Poço, São Miguel Arcanjo/ Augusto Corrêa, Sagrado Coração de Jesus/Bragança; São João Batista/ Bragança, Perpétuo Socorro/Bragança e Nossa Senhora do Rosário/Bragança, onde foi local do encontro. Com a presença de Dom Jesus Maria que fez a abertura da formação e como formadores os representantes do COMIDI: Diácono Jackson, Ilson, Joene, Ir. Joana e Ir. Alcilene. A formação contemplou a carta do Papa Francisco por ocasião do Centenário da Promulgação da Carta Apostólica Maximund Illud; o tema “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo no mundo”; a Missão Permanente; Orientações práticas das propostas para o mês de outubro e a Organização Missionária da Igreja com a criação dos Conselhos Missionários: COMINA, COMIRE, COMIDI e COMIPA. O objetivo desta preparação missionária é “despertar a consciência da missio ad gentes e retomar com novo impulso a transformação missionária da vida e da pastoral” estimular a vivência da comunhão eclesial do povo de Deus em permanente estado de missão. O mês de outubro será uma ocasião para despertar, animar e não cansar as comunidades, conduzindo todos os filhos de Deus ao encontro com Jesus, à partilha dos testemunhos missionários, à formação e à caridade. No próximo dia 10 de agosto, o COMIDI acompanhado da assessoria formativa do Pe. Aldo Fernandes estará preparando novos multiplicadores do Mês Missionário Extraordinário, das Regiões Pe. Marino Conti e Dom Elizeu, na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Ipixuna-Pará. Por Coordenação Diocesana de Pastoral  

18º Domingo do Tempo Comum

Ilusão destruidora e ridícula Frei Gustavo Medella A ilusão – ainda que inconsciente – da imortalidade tem sido causa de grandes desgraças na vida do ser humano e da humanidade. Trata-se de uma postura delirante que, no tempo presente, se mostra destruidora e, considerada em retrospectiva, manifesta-se ridícula: “Vaidade das vaidades”… Destruidora no presente porque leva a uma visão enganosa da pessoa em relação a si mesma e aos bens da natureza. Quem não se dá conta de sua própria finitude tem grande tendência de estender sua compreensão em relação aos bens criados, explorando-os em próprio benefício como se também fossem inesgotáveis. Levar a sério e acreditar em tal delírio torna a pessoa cega para perceber que sua pretensa vida imortal se constrói à custa da morte da natureza e de seus semelhantes. É uma loucura!, conforme adverte Jesus no Evangelho deste 18º Domingo do Tempo Comum (Lc 12,13-21). Ridícula quando olhada sob o prisma do passado porque revela a perecibilidade de tudo que a seu tempo parecia de fundamental importância e agora não passa de cacareco, tranqueira, quinquilharia: o carro de último tipo, hoje, não sai mais do lugar: virou ferro velho; as muitas mãos que lhe davam tapinhas nas costas foram rareando à medida que o dinheiro foi ficando escasso; a fortuna guardada sob o colchão, hoje, não passa de um amontoado de papel velho todo comido pela traça que nem para acender fogão a lenha serve mais. Seguir o conselho de Jesus e perceber que a vida do ser humano não consiste na abundância de bens é sinal de maturidade na fé e na vida, agraciando quem assim compreende a própria existência com a sabedoria de investir suas melhores forças nos bens que não passam: o companheirismo, a solidariedade, o cultivo de relações de respeito, a prática gratuita e desinteressada do bem, o desejo de caminhar em proximidade com o Senhor. Estes são os valores que permanecem com a pessoa na eternidade, depois de seu último suspiro sobre a terra. Nem sempre é fácil aprender essa lição. Os tombos da vida, às vezes, ensinam. O melhor é pedir a Deus a graça de perceber o quanto antes que o Papa Francisco tem razão quando diz que nunca viu cortejo fúnebre acompanhado de caminhão de mudança.   18º Domingo do Tempo Comum, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Manifestai, ó Deus, vossa inesgotável bondade para com os filhos e filhas que vos imploram e se gloria de vos ter como criador e guia, restaurando para eles a vossa criação e conservando-a renovada”. Primeira leitura: Ecl 1,2; 2,21-23 Que resta ao homem de todos os seus trabalhos? A palavra de Deus que ouvimos na primeira leitura é de um autor do 3º séc. III a.C., chamado Eclesiastes ou Coélet. Era um sábio que instruía o povo, ao ar livre, como os filósofos gregos ambulantes de seu tempo. É um homem de fé, mas de uma fé adulta e questionadora, em busca do sentido da vida. Como outros livros sapienciais (Provérbios, Cânticos, Eclesiástico e Sabedoria), o autor recolhe a sabedoria recebida de sua família, somada à própria experiência de vida e à sabedoria de outros sábios, em busca de princípios para uma vida feliz aqui na terra. A fé judaica do tempo de Coélet ainda não tinha desenvolvido a crença na vida eterna. Pensava-se que as pessoas justas e piedosas que observassem a Lei seriam recompensadas neste mundo com as “bênçãos” divinas, como vida longa, riquezas, vida longa e muitos filhos. Coélet questiona tudo, até as recompensas divinas aqui na terra. O texto ouvido começa com um refrão “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Melhor seria traduzir como “ilusão, pura ilusão, tudo é ilusão”. À luz deste refrão, o sábio questiona todas as “certezas” que a religião judaica lhe oferecia. Todos, bons e maus, morrem e vão parar no xeol, isto é, na morada dos mortos. O “Credo” que recitamos lembra que Jesus, ao morrer na cruz, também foi parar na “mansão dos mortos”, mas ao 3º dia ressuscitou e resgatou todos os mortos do xeol para julgá-los e para dar a vida eterna aos bons. Mas, em Israel, ainda não havia uma crença na vida após a morte. Para o sábio o trabalho no esforço de acumular riquezas nesta vida (Evangelho) não traz felicidade. A qualquer hora a pessoa pode morrer, sem gozar da felicidade, deixando os bens para quem nada fez para os merecer. De certa forma, ao descartar a felicidade nos limitas da vida presente, o sábio vislumbra uma felicidade para além da morte. Salmo responsorial: Sl 89 Vós fostes, ó Senhor, um refúgio para nós. Segunda leitura: Cl 3,1-5.9-11 Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo. Domingo passado, Paulo lembrava que, pelo Batismo, o cristão morre para o pecado, para ressuscitar com Cristo para uma vida nova. “Deus nos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados”. Hoje continua a refletir sobre as consequências para a vida cristã. Pelo Batismo e pela fé o cristão é convidado a voltar-se para “as coisas do alto, onde está Cristo” ressuscitado. Pela fé, “nossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Quando Cristo voltar para julgar os vivos e os mortos, nós também apareceremos revestidos da glória do Cristo ressuscitado. Após esta reflexão, Paulo exorta os cristãos a viverem uma vida que corresponda à fé. Isso significa morrer para tudo o que pertence às coisas terrenas que levam ao pecado (homem velho), como os vícios e a cobiça dos bens terrenos (Evangelho), para se revestir do “homem novo”, chamado a se renovar “segundo a imagem do seu Criador”. Isto é, Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Para realizar este projeto original de amor, Deus enviou o seu Filho, que se encarnou no seio da Virgem Maria. O Filho de Deus assumiu a natureza humana para nos fazer participantes de sua natureza divina. Esta é a resposta cristã aos questionamentos de Coélet (1ª leitura) sobre em que consiste a felicidade do ser humano. Pela fé, nossa felicidade/vida está “escondida, com Cristo, em Deus”. Na Carta aos Hebreus se diz: “A fé é fundamento do que se espera e a prova das realidades que não se veem” (Hb 1,1). O fundamento e a prova da fé são o próprio Cristo ressuscitado. Aclamação ao Evangelho: Mt 5,3 Felizes os humildes de espírito, Porque deles é o Reino dos Céus. Evangelho: Lc 12,13-21 E para quem ficará o que tu acumulaste? No Evangelho de Lucas Jesus é Aquele que veio anunciar a boa-nova aos pobres (Lc 4,18-19). O trecho que ouvimos Lucas traz sentenças de Jesus sobre pobreza e riqueza. Jesus estava ensinando, cercando pela multidão, quando alguém grita do meio da multidão: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. E Jesus responde: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” Fiel ao programa lançado na sinagoga de Nazaré, Jesus se nega a se fazer de juiz. Pela sua prática e ensinamento Jesus estabelece os princípios para viver o Reino de Deus que anuncia. Veio para anunciar a boa-nova aos pobres e ensina a partilhar ou dividir os bens. Basta lembrar o milagre da “multiplicação” dos pães e peixes. O verdadeiro milagre não é a multiplicação, e sim, a “divisão” dos pães… Os primeiros cristãos assim o entendiam, conforme Lucas diz: “Tudo entre eles era comum” (At 4,32). Jesus critica a ganância/cobiça e ensina: “vida de um homem não consiste na abundância de bens” (cf. 1ª leitura). E aprofunda o ensinamento com a parábola do homem que fez uma grande colheita, construiu amplos armazéns e pensava: agora posso comer, beber, descansar e aproveitar a vida. Mas Deus o chama de “louco”, insensato, porque na mesma noite haveria de morrer. E conclui com a sentença: “Onde estiver vosso tesouro, aí estará também vosso coração” (v. 34). Exemplos do dia a dia nos ensinam que a “esperteza” (sabedoria?) em levar vantagem à custa dos pobres na realidade é tolice. A riqueza não traz felicidade, diz o provérbio. Quando a riqueza do cristão está na partilha com os necessitados, sua felicidade já está escondida com Cristo em Deus (2ª leitura).   Cobiça e avareza Frei Clarêncio Neotti O episódio que lemos hoje só Lucas o traz. Aproveitando um fato acontecido numa das roças da Galileia, Jesus mostra a fragilidade da ganância e completa o ensinamento com uma parábola de advertência sobre a precariedade das riquezas. Não é de estranhar o pedido feito a Jesus. Segundo a Lei de Moisés para os camponeses, o filho mais velho, além de herdar a casa e o terreno sozinho, herdava ainda dois terços dos bens móveis. É provável que a briga estivesse em torno do terço sobrante. Nesses casos, recorria-se ao doutor da lei também chamado legisperito, uma mistura de advogado, teólogo e juiz. Vemos, então, que Jesus era considerado pelo povo como um advogado, como alguém que sabia das coisas e podia dar uma solução justa. Mas Jesus, evitando, tomar o lugar dos juristas, para que ninguém pudesse acusá-lo de usurpar poderes, fala da cobiça e da avareza. O episódio era muito propício à lição. Alguém herdara todos os bens, menos uma pequena parte, que devia ser repartida entre os irmãos, e negava-se a fazê-lo, porque queria a herança inteira para si. Uma ganância forte, que não só feria os direitos dos outros, mas também, e sobretudo, o amor fraterno, sobre o qual Jesus queria construir o novo povo de Deus.   A indescritível alegria da partilha Frei Almir Guimarães Para dar certo na vida não basta passar bem. O ser humano não é apenas um animal faminto de prazer e de bem-estar. Ele é feito também para cultivar o espírito, conhecer a amizade, experimentar o mistério do transcendente, agradecer a vida, viver a solidariedade. (José Antonio Pagola) Não há dúvida o homem é mais do que seus bens, sua conta bancária, seus recursos econômicos. As palavras de José Antonio Pagola mencionadas norteiam nossa reflexão, a maneira de nos posicionar diante dos bens. De graça recebemos, de graça damos. Nossa existência é partilha não somente de bens materiais, mas sobretudo de nós mesmos, do melhor que brotou dentro de nós com nosso contato com a fé e nossa convivência com Cristo ressuscitado ao longo do caminho da vida. O homem da parábola teve muita sorte na vida. Teve grande colheita. O agronegócio deu certo. A terra, a chuva, o tempo clemente foram lhe sorrindo. Com tanta abundância precisou pensar em levantar novos galpões e amplos celeiros. E assim, garantido, podia aproveitar a vida “Eu poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita”. Os bens materiais são necessários para que possamos levar a uma vida digna: casa decente, roupa para o corpo, alimento para a mesa, férias para o espírito e o corpo. Não somos espíritos desencarnados. Os bens materiais, os avanços da técnica, os sucessos das pesquisas médicas tudo vem em benefício do ser humano e em respeito pela sua dignidade. Lutamos e lutaremos para que os mais desfavorecidos possam, o mais breve possível, ter os recursos para que levem uma vida digna e tenham mesmo a abundância das coisas necessárias. A sociedade de consume pode, no entanto, olhar com muita paixão os bens materiais, o desejo de ter, de ter sempre mais. A sociedade da produtividade, da concorrência da pressa vai nos esterilizando por dentro. Vamos colocando nossa convicção no poder, no prestígio, no lucro, no ter mas e até mesmo nem sempre um ter lícito e esquecendo-se somos companheiros de viagens de tantos e tantas que carecem de tudo. Somos mistérios ambulantes. Não somos donos de nossa vida. Alguém nos inventou. Somos hóspedes na humanidade. Somos com os outros. Só somos com os outros. Deles dependemos e eles dependem de nós numa interminável cadeia de solidariedades. Com a mãe e o pai, com a escola e os amigos, com o pão e a água, o sol e a chuva. Juntos. Debaixo de um mesmo guarda-chuva. Levantando os caídos, ajudando os velhos a andarem, fazendo com que os casados aprendam se estimar. Partilha de vida, do tempo, das riquezas que Deus coloca dentro de cada um. Partilha dos bens com os de perto e os de longe. Engajamentos em campanhas que promovam uma distribuição sadia dos bens e  combata toda forma de corrupção. Palavras de José Antonio Pagola: “O dinheiro pode dar poder, fama, prestígio, segurança, bem-estar… mas na medida em que escraviza a pessoa, fecha-a para Deus Pai e faz esquecer a condição de irmão e a leva a romper a solidariedade com os outros. Deus não pode reinar na vida de que está dominado pelo dinheiro. A raiz profunda está em que as riquezas despertam em nós o desejo insaciável de ter mais. E então cresce na pessoa a necessidade de acumular, capitalizar e possuir sempre mais (Pagola, Lucas p. 206). Oração Converte-me primeiro a mimpara que eu comunique a outros a Boa Notícia.Dá-me a audácia.Neste mundo cético e autossuficientetenho vergonha e medo.Dá-me esperança.Nesta sociedade receosa e fechada,eu também tenho  pouca confiança nas pessoas.Dá-me amor.Nesta terra insolidária e fria,eu também sinto pouco amor.Dá-me constância.Neste ambiente cômodo e superficialeu também me canso facilmente,Converte-me primeiro a mimpara que eu comunique a Boa Notícia (P.Loidi)   Lucidez de Jesus José Antonio Pagola Um dos traços mais chamativos na pregação de Jesus é a lucidez com que soube desmascarar o poder alienante e desumanizador que se encerra nas riquezas. A visão de Jesus não é a de um moralista preocupado em saber como adquirimos nossos bens e como os usamos. O risco de quem vive desfrutando suas riquezas é esquecer sua condição de filho de um Deus Pai e irmão de todos. Daí seu grito de alerta: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. Não podemos ser fiéis a um Deus Pai que busca justiça, solidariedade e fraternidade para todos, e ao mesmo tempo viver pendentes de nossos bens e riquezas. O dinheiro pode dar poder, fama, prestígio, segurança, bem-estar… mas, na medida em que escraviza a pessoa, fecha-a a Deus Pai, a faz esquecer sua condição de irmão e a leva a romper a solidariedade com os outros. Deus não pode reinar na vida de quem está dominado pelo dinheiro. A raiz profunda está em que as riquezas despertam em nós o desejo insaciável de ter sempre mais. E então cresce na pessoa a necessidade de acumular, capitalizar e possuir sempre mais. Jesus considera uma verdadeira loucura a vida daqueles proprietários de terras da Palestina, cuja obsessão é armazenar suas colheitas em celeiros cada vez maiores. É uma insensatez dedicar as melhores energias e esforços a adquirir e acumular riquezas. Quando, por fim, Deus se aproxima do rico para buscar sua vida, fica evidente que ele a desperdiçou. Sua vida carece de conteúdo e valor. “Insensato!..” “Assim é aquele que acumula riquezas para si e não é rico diante de Deus”. Algum dia, o pensamento cristão descobrirá, com uma lucidez que hoje não temos, a profunda contradição que existe entre o espírito que anima o capitalismo e o que anima o projeto de vida querido por Jesus. Esta contradição não se resolve nem com a profissão de fé dos que vivem com espírito capitalista nem com toda a beneficência que possam fazer com seus ganhos.   Riqueza insensata Pe. Johan Koning A liturgia de hoje ensina a vaidade da riqueza. Para que tanto trabalhar, se nada podemos levar e devemos deixar o fruto de nosso trabalho para outros (1ª  leitura)? Os pais arrecadam, os filhos aproveitam, os netos põem a perder… No evangelho, Jesus ilustra essa realidade com a parábola do homem que chegou a assegurar sua vida material, mas na mesma noite iria morrer … Quem é materialista e só quer conhecer os prazeres deste mundo, para este o ensinamento de Jesus é indigesto, mas nem por isso deixa de ser verdade. Não levamos nada daqui. As riquezas materiais não têm valor duradouro, nem podem ser o fim ao qual o homem se dedica. Talvez o consumismo de hoje tenha isto de bom: lembra-nos essa precariedade. O produto que compramos hoje amanhã já saiu da moda, e depois de amanhã nem haverá mais peças de reposição para consertá-lo. Nossa nova TV estará fora de moda antes que tivermos completado as prestações … Por outro lado, esse consumismo é grosseira injustiça, pois gastamos em uma geração os recursos das gerações futuras. Se as coisas valem tão pouco, melhor seria não as comprar, e voltar a uma vida mais simples e mais desprendida. Haveria recessão econômica, mas também haveria menos necessidade de dinheiro para ser gasto. A caça à riqueza material é um beco sem saída. A razão por que se insiste em produzir sempre mais é que os donos do mundo lucram com a produção, sobretudo das coisas supérfluas que enchem as prateleiras das lojas. Para vender esses supérfluos, criam nas pessoas a necessidade de possuí-las, mediante a publicidade na rua, no jornal e na televisão. Quando então as pessoas não conseguem adquirir todas essas coisas, ficam irrequietas; quando conseguem, ficam enjoadas; e nos dois casos aparece mais uma necessidade: a psicoterapia … A “sabedoria do lucro” é injusta e assassina. Leva as pessoas a desconsiderar os fracos. Um proeminente político deste país disse que “quem não pode competir não deve consumir” … O sistema do lucro e do desejo sempre mais acirrado precisa manter as desigualdades, pois parte do pressuposto que todos querem superar a todos. Tal sistema é “intrinsecamente pecaminoso”, disseram os papas Paulo VI e João Paulo II. Ser rico, não para si, mas para Deus … Não amontoar riquezas que na hora do juízo serão as testemunhas de nossa avareza, injustiça e exploração (cf. Tg 5,1-6), mas riquezas que constituam a alegria de Deus! Não adianta muito discutir se a produção tem que ser capitalista ou socialista, enquanto não se tem claro que o ser humano não existe para a produção, e sim a produção para o ser humano. E este, se for sábio, tentará precisar dela o menos possível. Todas as reflexões disponíveis em: franciscanos.org.br

17º Domingo do Tempo Comum

Jesus e o Gênio da lâmpada Frei Gustavo Medella Pelo menos no meu tempo, era muito conhecida a história do “Gênio da Lâmpada” que, quando despertado de seu sono, concedia àquele que o despertou o privilégio de fazer três pedidos. E essa possibilidade é que mexia com nossos sonhos infantis: o que pedir? Como aproveitar da melhor maneira esta oportunidade? Um carro de luxo, uma mansão à beira-mar, a possibilidade de voar como o super-homem? Jesus não é o gênio da lâmpada mas, no Evangelho deste 17º Domingo do Tempo Comum, garante aos discípulos: “Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto” (Lc 11,9). Faz lembrar, de certa na maneira, as promessas do lendário gênio. No entanto, antes de oferecer estas garantias aos seus, o Mestre ensina-os a pedir, na oração do Pai-Nosso. O que pedir?– O Reino – Modo de organizar a vida e as relações de acordo com os sonhos de Deus, onde a justiça, o respeito e a partilha sejam realidade permanente. – O Pão – Alimento corporal, combustível da vida física, necessidade fundamental de uma existência digna. – O Perdão – Condição dos relacionamentos saudáveis, possibilidade de recomeços, experiência da bondade e da generosidade que o ser humano pode e deve fazer diante de seus limites e dos limites dos outros. Como pedir?– Com confiança e humildade Em favor de quem pedir?– Não somente para si, mas para todos (Pai NOSSO). Seguindo as instruções de Jesus, o discípulo sente-se realizado e percebe que a felicidade capaz e preencher sua vida de sentido não passa por luxos, bens e caprichos, mas pela certeza de sentir-se amado por Deus e chamado a distribuir gratuitamente este amor.   17º Domingo do Tempo Comum, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: ”Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam, e sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam. Primeira leitura: Gn 18,20-32 Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar. Domingo passado ouvimos que Abraão hospedou três personagens misteriosos e reconheceu neles a presença do Senhor. Na ocasião recebeu a promessa do nascimento do tão esperado filho herdeiro. Na saída, dois personagens seguiram para Sodoma e Gomorra e um deles ficou para trás, com Abraão. O texto que hoje ouvimos continua o relato anterior. Quem toma a palavra é o Senhor, que anuncia a Abraão o que estava acontecendo e iria acontecer com as duas cidades. O clamor do povo contra as injustiças e violências que ali se cometiam chegava ao Senhor cada vez mais forte (ver Ex 2,23-25). Deus ia descer até o vale do rio Jordão, que termina no ao mar Morto, para conferir se as injustiças correspondiam à intensidade do clamor. Abraão logo percebeu que Deus iria castigar as cidades e começou a interceder em favor do povo. De fato, Deus havia prometido que em Abraão todas as nações seriam abençoadas e a ameaça de castigo iminente parecia contradizer às promessas que havia recebido (ver Gn 12,1-3). Enquanto intercessor, Abraão assemelha-se a outros intercessores como Moisés e profetas Amós, Jeremias e Ezequiel. Coloca em questão a justiça divina: “Vais realmente exterminar o justo com o ímpio”? Seis vezes Abraão tenta levar Deus a desistir do castigo coletivo por causa dos possíveis justos que haveria nestas cidades. Começa com 50 justos para chegar até dez possíveis justos e Deus sempre lhe responde que não destruiria as cidades mas usaria de misericórdia, mesmo se nelas houvesse apenas dez justos. Na continuação do relato se vê que não havia nem dez justos. A injustiça e a violência praticadas nessas cidades eram clamorosas e por isso foram destruídas; Deus, porém, salva a família de Lot, sobrinho de Abraão. Vemos como é importante a oração perseverante dos justos. Deus nem sempre atende exatamente ao que pedimos. No entanto, a resposta divina à nossa oração pode nos surpreender e superar em muito o que pedimos (Evangelho). Deus não salva os pecadores por causa da bondade dos justos, e sim, porque Ele é bom e misericordioso. Salmo responsorial Naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor. Segunda leitura: Cl 2,1-13 Deus vos trouxe para a vida, junto com o Cristo, E a todos nós perdoou os pecados. Paulo está preso, aguardando uma possível condenação à morte. Por meio de um secretário dita sua carta aos cristãos de Colossos, cidade na atual Turquia. No pequeno trecho de apenas três versículos, que hoje ouvimos, Cristo Jesus ocupa o centro. Termos relacionados à nossa união com Cristo são o batismo, o perdão dos pecados, a morte e a vida, a sepultura e a ressurreição. Paulo compara a vida em pecado ao estar morto. Ser mergulhado na água do Batismo equivale a morrer para o pecado e ser sepultado com Cristo. Assim, “com Ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos”. Pela fé e pelo batismo “Deus nos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados”. O escravo podia receber a liberdade (alforria), pagando com suas economias o resgate para seu patrão. No caso de não possuir os recursos para obter a liberdade, podia haver pessoas de boa vontade que pagavam a conta do resgate (redenção). Esta linguagem era bem entendida naquele tempo de escravidão. Por isso Paulo diz que “existia contra nós uma conta a ser paga”. Deus, porém, a cancelou (zerou), “pregando-a na cruz”. Isto é, Jesus Cristo, Filho de Deus, pagou por nós essa conta “pendurada”, entregando sua vida por nós, pregado na cruz. Aclamação ao Evangelho Recebestes o Espírito de adoção; É por ele que clamamos: Abá, Pai! Evangelho: Lc 11,1-13 Pedi e recebereis. No Evangelho, hoje anunciado, Cristo nos ensina como devemos rezar, dirigindo-nos a Deus que é nosso Pai. Com uma pequena parábola ensina-nos também que nossa oração deve ser persistente e confiante, porque Ele é bom. Como era seu costume, Jesus estava em oração num lugar retirado. Ao voltar da oração um dos discípulos lhe pede: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. Não sabemos como João Batista ensinava a seus discípulos a rezar. Sabemos pelos evangelhos que João anunciava que o Reino de Deus estava próximo. Convocava todos à conversão como mudança radical de vida e ameaçava os pecadores com o juízo de Deus: “O machado já está posto na raiz da árvore; toda árvore que não produzir frutos (de penitência) será cortada e lançada ao fogo” (Lc 3,9). A imagem que João Batista tinha de Deus era mais a de um juiz que a de um pai. A imagem que Jesus tem de Deus é a de um Pai misericordioso. É o que podemos ver na oração do Pai-Nosso. Lucas inclui apenas cinco pedidos na Oração de Jesus; omite “seja feita a tua vontade, assim na terra comono céu”, e “mas livra-nos do mal”, presentes em Mateus. Os dois primeiros pedidos se dirigem a Deus: que seu nome seja santificado e que venha a nós o seu Reino, isto é, o Reino de Deus que é Pai misericordioso. Pedimos que o nome de Deus seja por nós considerado santo, sublime, e que apressemos a vinda de seu Reino, vivendo o que ele nos ensinou. Os demais pedidos são mais voltados para nossas carências humanas: o pão necessário, o perdão que precisamos receber de Deus e dar aos irmãos, para vivermos a paz que Cristo nos dá e com os irmãos; por fim, pedimos que Deus não permita cairmos em tentação. A seguir Jesus conta a parábola do homem que recebeu três hóspedes inesperados em sua casa e foi pedir três pães na casa de seu amigo. O homem confiava que seu amigo haveria de resolver o problema. De tanto importunar o amigo, este lhe deu o necessário não tanto por ser seu amigo, mas para se livrar da impertinência de seu vizinho. Jesus mesmo tira a lição: “Pedi e recebereis, procurai e encontrareis; batei e vos será aberto…” Em seguida Jesus reforça nossa confiança em Deus, nosso Pai. Se um pai é capaz de dar coisas boas a um filho que lhe pede, “tanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem. Nem sempre Deus nos dá as “coisas” que lhe pedimos e consideramos boas para nós. A Deus devemos pedir, antes de tudo, o que de melhor Ele nos pode dar: o Espírito Santo, a si mesmo, o seu Amor. Porque não podemos viver o Reino de Deus, já aqui na terra, sem amar a Deus acima de todas as coisase ao próximo como a nós mesmos.   Oração: tema essencial Frei Clarêncio Neotti O Evangelho de hoje é um pequeno tratado sobre a vida de oração. Diz-nos o que devemos pedir, com que palavras devemos pedir e fala-nos da força da oração e da confiança com que devemos rezar. A lição é dada pelo próprio Jesus num momento em que ele mesmo estava rezando (v. 1). Embora os Evangelhos falem muitas vezes de Jesus em oração, não é muito o que sabemos dele como orante. É sempre temerário querer penetrar no mundo da oração de um santo. A oração verdadeira é coisa tão íntima e pessoal que ninguém consegue penetrar na oração de um santo, mesmo quando tenha deixado fórmulas escritas. Como Jesus, os santos deixam a certeza de que a oração é essencial, mostram-nos alguns princípios e modelos, fornecem-nos textos. Mas tudo isso é pouco, se não fizermos a experiência pessoal de nossa oração, se não juntarmos nossa inteligência e vontade, nosso sentimento, nosso ser inteiro e com ele dialogarmos com Deus, na humildade de criaturas e na confiança de filhos. O tema da oração não pode ser separado do tema desenvolvido no Evangelho do domingo passado: a escuta da Palavra de Deus (Lc 10,38-42). Corremos sempre o perigo de escutar os nossos próprios interesses e necessidades e ideologias e vaidades e tecer orações para nós mesmos. Também não podemos separar o tema da oração do tema da misericórdia, ensinado pelo Evangelho do bom Samaritano (Lc 10,30-37), que lemos há dois domingos.   O inesgotável tema da oração “Jesus estava rezando um certo lugar” (Lc 11,1) Frei Almir Guimarães ♦ Lucas é o evangelista da oração. O terceiro evangelho mostra Jesus, incontáveis vezes, retirado em oração. Sua oração é, basicamente, um se recolher para entrar na intimidade do Pai. Jesus sabe que o Pai está próximo e, no silêncio e recolhimento, ele se compraz em estar com Ele, em sintonia com os desejos e sonhos do Pai. Sua oração se inspira nos salmos. É adoração, súplica, ação de graças, louvor.  Para Jesus a oração  não fazia apenas parte da vida, mas era a própria vida. Sua existência se passava na presença de Deus, seu Pai, a cada instante.  Tudo ele partilha com o Pai. ♦ Somos sempre aprendizes na arte da oração. Balbuciamos fórmulas por vezes com toda a verdade de nosso ser.  De outro lado, temos receio das palavras da Escritura que condenam os que honram o Senhor com os lábios, mas cuja oração está longe do Senhor.  Precisamos nos construir em verdadeiros orantes. ♦ Não podemos nos acostumar a uma oração mecânica e sem viço. Muitos dizem que perderam o gosto, o hábito de rezar. Há mesmo aqueles que confessam que, ao longo dos anos, nunca tiveram encontros profundos, pessoais e suculentos com o Senhor. Acham áridas as orações aprendidas de cor e não conseguem colocar-se diante do Senhor. Há, é verdade,  muitos que não desejam outra coisa senão aprender um jeito de serem íntimos do  Senhor.  Recolhem-se, manuseiam o livro dos salmos, participam de pequenos e serenos grupos de oração. ♦ Tudo precisa começar com o despertar do desejo, do desejo do Senhor. Há os que não experimentam necessidade de Deus. Parece que bastam-se a si mesmos. Há, no entanto, momentos de nossas vidas em que experimentamos um imenso desejo de Deus, uma saudade do Senhor. Para começar a rezar será preciso desejar: “Minha alma te busca, Senhor, tenho sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42, 2-3).  No começo um desejo  confuso acompanhado de certas experiências:  vazio interior, insatisfação generalizada, sensação de inutilidade de uma vida agitada e de correria.  Desejo quase imperceptível ou muito forte. Este desejo  já é oração.  Pode ser que o  Espírito já esteja rezando no homem do desejo. ♦ José Tolentino Mendonça nos orienta: >> “A oração cristã não  é uma viagem ao fundo de si mesmo.  Não é um movimento introspectivo.  Não é uma diagnose de nossos pensamentos e moções externas e íntimas. A oração cristã é ser e estar  diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante de sua presença, com uma atenção vigilante àquele que  nos convida a um diálogo sem censuras. Não é oferecer a Deus alguns pensamentos, tudo o que somos e experimentamos”. >>“A oração é uma  conversão de atitude,  porque a verdadeira oração cristã descentra-nos de nós mesmos –  das nossas preocupações e afanos, de nossos desejos eróticos e pouco purificados – o orienta-nos para Deus de modo que tudo o que passamos a desejar  é a vontade de Deus, o dom de seu olhar, que, como dizia  Santo Agostinho, é mais íntimo a nós que nós mesmos” ( José  Tolentino Mendonça, O tesouro escondido, Paulinas, p. 72). ♦ Sempre se considerou o coração, em seu sentido bíblico, como o lugar da oração. O coração é o mais íntimo da pessoa, a raiz de nosso ser, a sede da liberdade. Não se reza com a inteligência, nem com a memória ou com a sensibilidade. A pessoa ora a Deus no coração e Deus lhe fala ao coração (cf Os 2,16). Para orar é necessário despertar o coração se estiver dormindo porque vivemos na periferia de nosso ser, movidos por coisas exteriores,  derramo-nos  em reflexões superficiais.  Trata-se de buscar o Senhor com o melhor de nós mesmos. ♦ Orar é acolher uma Presença. Ora, a Presença do Senhor não é uma entre outras.  Sua aproximação não pode ser acolhida como uma a mais. É uma presença que vem de longe de nós mesmos, que supera nossos desejos, que questiona nossos projetos. Podemos acolhê-la ou rechaça-la. Deixar que nos escape uma vez mais ou abrirmos a porta para ela.  Quando acolhemos a presença do Senhor  descobrimo-nos a nós mesmos com  nossa grandeza e nossa pequenez, nosso anelo pelo infinito  e nossa miséria.  Chegamos a descobrir nossa interioridade. No começo, quem sabe, somos possuídos de certo temor depois há um movimento de entrega àquele que nos ama “Não abandonas aqueles que te procuram” (Sl 9, 11). ♦ Orar nada mais é do que prestar atenção ao gemido do Espírito que habita em nós. Urge não apaga-lo, mas acolhe-lo. Há dias em que temos a impressão que o desejo e o sopro desapareceram.  Depois ele volta com mais força: “Já estou chegando e batendo  à porta. Se alguém ouvir a minha voz  e abrir a porta, entrarei em sua casa, e juntos faremos a refeição (Ap 3.20).  Abrir a porta significa  não caminhar  sozinho  pela vida afora, mas deixar-se acompanhar por esta presença  misteriosa e não encerrar-se  na própria autossuficiência, mas abrir-se  confiantemente a Deus.   Oração Meu Pai,Eu me abandono a ti,Faz de mim, o que quiseres.O que fizeres de mimEu te agradeço.Estou pronto para tudo, aceito tudo.Desde que tua vontade se faça em mimE em tudo o que criaste,Nada mais quero, meu Deus,Com todo o amor de meu coraçãoPorque te amo. E é para mim uma necessidade de amor  dar-me,Entregar-me nas tuas mãos sem medidaCom uma confiança infinitaPorque Tu és… meu Pai!(Charles de Foucauld)   Precisamos orar José Antonio Pagola Talvez a tragédia mais grave do ser humano de hoje seja sua crescente incapacidade para a oração. Estamos esquecendo o que é orar. As novas gerações abandonam as práticas de piedade e as fórmulas de oração que alimentaram a fé de seus pais. Reduzimos o tempo dedicado à oração e à reflexão interior. Às vezes excluímos praticamente a oração de nossa vida. Mas não é isto o mais grave. Parece que as pessoas estão perdendo a capacidade de silêncio interior. Já não são capazes de encontrar-se com o fundo de seu ser. Distraídas por mil sensações, embotadas interiormente, presas a um ritmo de vida afobado, estão abandonando a atitude orante diante de Deus. Por outro lado, numa sociedade na qual se aceita como critério primeiro e quase único a eficácia, o rendimento ou a utilidade imediata, a oração fica desvalorizada como algo inútil. Facilmente se afirma que o importante é “a vida”, como se a oração pertencesse ao mundo da “morte”. No entanto, precisamos orar. Não é possível viver com vigor a fé cristã nem a vocação humana subalimentados interiormente. Mais cedo ou mais tarde, a pessoa experimenta a insatisfação produzida no coração humano pelo vazio interior, pela trivialidade do cotidiano, pelo tédio da vida ou pela falta de comunicação com o Mistério. Precisamos orar para encontrar silêncio, serenidade e descanso que nos permitam sustentar o ritmo de nossos afazeres diários. Precisamos orar para viver em atitude lúcida e vigilante no meio de uma sociedade superficial e desumanizadora. Precisamos orar para enfrentar nossa própria verdade e ser capazes de uma autocrítica pessoal sincera. Precisamos orar para nos libertarmos aos poucos daquilo que nos impede de ser mais humanos. Precisamos orar para viver diante de Deus em atitude mais festiva, agradecida e criativa. Felizes os que também em nossos dias são capazes de experimentar nas profundezas de seu ser a verdade das palavras de Jesus: “Quem pede está recebendo, quem busca está encontrando e a quem bate estão abrindo”.   Orar e pedir Pe. Johan Konings Certos cristãos, julgando-se esclarecidos, acham as orações de nosso povo muito egoístas, porque são quase sempre orações de pedido. Ora, as leituras de hoje sublinham a importância da petição. Abraão com seus incansáveis pedidos quase salvou as cidades de Sodoma e Gomorra. Infelizmente, as cidades eram ruins demais (1ª  leitura). Jesus, por seu lado, ensina aos discípulos o Pai-nosso, uma oração de pedido (evangelho). O Pai-nosso pede inicialmente que a vontade de Deus seja feita. Ora, uma vez que rezamos em harmonia com a vontade e o desejo de Deus, podemos pedir bastante. Jesus até compara este modo de rezar com um alguém que tira o vizinho da cama para pedir um pão para um hóspede inesperado… Parece ensinar-nos a vencer Deus no cansaço! E, no fundo, Deus gosta de dar-nos suas dádivas boas, seu espírito, pois mesmo nós – que somos ruins – gostamos de dar coisa boa aos filhos. A oração de petição não é uma forma de oração mais egoísta que a meditação, a louvação, o agradecimento, a adoração… Na verdade, agradecer é a outra face do pedir. Quem agradece, gostou. Por que não pedir então? É reconhecer a bondade do doador! Como o frei que, depois de lauto almoço na casa de uma benfeitora, testemunhou sua gratidão com estas palavras: “Senhora, não sei como agradecer… será que posso repetir aquela gostosa sobremesa?” Conforme o espírito do Pai-nosso devemos pedir antes de tudo a realização daquilo que Deus deseja: sua vontade, seu Reino. Ora, uma vez assentada esta base, pode-se pedir – com toda a simplicidade – o pão de cada dia, saúde, vida e todos os demais dons que Deus nos prepara. Inclusive, o perdão de nossas faltas. Só não se deve pedir a Deus o que Deus não pode desejar: a satisfação de nosso egoísmo. E sempre se deve lembrar que Deus sabe melhor do que nós o que nos convém. Podemos insistir naquilo que achamos sinceramente nosso bem… mas Deus sabe melhor. É importante pedirmos. Compromete! Depois de ter pedido, a gente já não pode dizer: “Não pedi!” Comprometemo-nos com Deus e com aquilo que pedimos. Não é como no supermercado, onde você entra, olha e sai sem comprar. É como no armazém da esquina, onde você pede o que deseja e, caso tiver, você compra. Assim as preces dos fiéis, na celebração da comunidade, devem ter sentido de compromisso: devemos querer mesmo que elas se realizem, e oferecermo-nos a Deus para colaborar na realização daquilo que pedimos. Pedir é comprometer-se. Se pedimos a Deus saúde, não é para gozar egoisticamente a vida, mas para servir melhor. Se pedimos paz, não é para sermos deixadas em paz, mas para dedicar-nos à comunhão fraterna. Se pedimos por nossos irmãos e nossas irmãs mais pobres, é porque queremos ajudá-los efetivamente. Importa saber como pedimos (cf. Tg 4,3). Todas as reflexões foram tiradas do site: franciscanos.org.br

16º Domingo do Tempo Comum

Hóspede da alma, presença que acalma Frei Gustavo Medella “Hóspede da alma” é um dos atributos do Espírito Santo que aparecem no célebre texto da Sequência de Pentecostes. E é sobre hospitalidade que tratam as leituras deste 16º Domingo do Tempo Comum. Na primeira leitura (Gn 18,1-10a), Abraão oferece o que possuía de melhor e dá de comer e beber aos três homens que lhe aparecem na hora mais quente de um dia cansativo. Enxerga neles a presença divina, uma prefiguração do Mistério da Trindade posteriormente revelado na Encarnação do Verbo. Aquele gesto para Abraão foi fonte de fertilidade a ponto de Sara, sua esposa já de idade avançada, ser abençoada com a graça de dar à luz um filho, Isaac. Ao colocar-se integralmente à disposição dos hóspedes que se lhe apresentaram, Abraão abriu a alma para o “Hóspede dos hóspedes”, Aquele que, ao fazer no coração humano sua morada, enche de sentido e bênção a vida de seu anfitrião. Marta e Maria também possuíam o coração aberto para receber a visita do Senhor (Lc 10, 38-42). Cada uma dispensava-lhe atenção a seu modo, ambos repletos de carinho e reconhecimento. Maria, com sua escuta atenta e interessada, reconhece nas Palavras de Jesus a antecipação da glória definitiva na direção da qual o crente caminha pela fé: o convívio eterno, próximo e amoroso com Deus, num reino definitivo onde as contradições serão todas superadas. Marta, dedicando-se ao cuidado da casa e dos alimentos, esforça-se em oferecer ao Senhor um ambiente acolhedor, uma refeição restauradora necessária a uma saudável humanidade. Age, sem dúvida, impulsionada pelo amor gratuito que lhe inspira o “Hóspede da Alma”. A solicitude de ambas se completa. E, por que, então, aparece o impasse entre as irmãs? O possível início de uma discussão entre ambas, que não ocorre por conta da intervenção de Jesus, tem grande valor pedagógico e mostra que, até mesmo nos ambientes em que no coração das pessoas existe a disposição sincera para acolher, ouvir e praticar os ensinamentos do Senhor, as limitações humanas também se fazem notar. Para superá-las, portanto, faz-se necessário um permanente espírito de discernimento e oração para que todos os conflitos e desentendimentos sejam resolvidos à luz da inspiração de Deus. No caso de Marta e de Maria e também no dia a dia das comunidades, a presença de Jesus atualiza o verso da Sequência de Pentecostes com o qual teve início esta reflexão: “Hóspede da alma, presença que acalma”.   16º Domingo do Tempo Comum, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que, repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos”. Primeira leitura: Gn 18,1-10a Meu Senhor, não prossigas viagem, sem parar junto a mim, teu servo. Deus tinha prometido a Abraão que faria dele pai de numerosas nações. Mas os anos iam passando e sua esposa Sara não lhe dava filhos, apesar de o Senhor renovar sua promessa: “É Sara, tua mulher, que te dará um filho, a quem chamarás Isaac” (Gn 17,19). Tempos depois, quando Abraão montou sua tenda junto ao carvalho de Mambré, o próprio Senhor lhe apareceu na figura misteriosa de três viajantes, enquanto descansava na entrada de sua tenda. Logo que os viu correu ao encontro deles para recebê-los. Hospedar viajantes era um dever sagrado entre os beduínos e Abraão o faz com presteza, corre ao encontro deles, prostra-se em sinal de respeito e até suplica para que fiquem com ele. Manda trazer água para lavar os pés, pede a Sara que prepare alguns pães, corre até o rebanho, escolhe um bezerro e manda um criado prepará-lo. Depois, de pé, serve aos visitantes tudo o que foi preparado (cf. Marta/Maria, Evangelho). Os três perguntam-lhe, então, sobre Sara, sua mulher, e Abraão diz que ela está na tenda. E um deles promete: “ao voltar no próximo ano, Sara, tua mulher, já terá um filho”. Abraão hospedou os viajantes com o que de melhor possuía, mas recebeu um dom maior: a promessa do nascimento do filho herdeiro. Salmo responsorial: Sl 14 Senhor, quem morará em vossa casa? Segunda leitura: Cl 1,24-28 O mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado aos seus santos. Paulo não fundou a comunidade de Colossos, mas desejava conhecê-la pessoalmente (2,1). Conhecia-a apenas por meio de Epafras, provável fundador da comunidade. Paulo dita a Carta na prisão, onde estava encarcerado e aguardava a possível morte (cf. 4,18). Alegra-se por estar sofrendo pelos cristãos e vê no sofrimento um modo de “completar o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja”. De fato, Paulo sofria por causa do Evangelho que anunciava; foi expulso de cidades, apedrejado, açoitado e preso várias vezes. Os sofrimentos são causados pela missão de “transmitir a palavra de Deus em sua plenitude”. A “plenitude” do anúncio da palavra de Deus consiste em completar o que falta aos sofrimentos de Cristo e revelar o mistério de Deus, antes escondido e “agora revelado às nações, isto é, a presença de Cristo em vós, a esperança de glória” [cf. 1ª leitura e Evangelho]. O mistério revelado, segundo Paulo, era que Cristo não veio salvar apenas os judeus, mas todas as nações. Aclamação ao Evangelho Felizes os que observam a palavra do Senhor, de reto coração, e que produzem muitos frutos, até o fim perseverantes! Evangelho: Lc 10,38-42 Marta recebeu-o em sua casa. Maria escolheu a melhor parte. Estamos acostumados a ler a história de Marta e Maria como um simples fato da vida de Jesus, ou um modelo para “vida ativa” (leigos, sacerdotes, etc.) e “vida contemplativa” (monges e monjas). Mas a Palavra que ouvimos diz muito mais do que isso. Os primeiros cristãos quando recordavam ditos e fatos da vida de Jesus liam-nos a partir da vida concreta das comunidades. É o que Lucas também faz quando escreve o Evangelho e os Atos dos Apóstolos depois dos anos 70. Nos Atos, Lucas fala do crescimento rápido do número dos fiéis em Jerusalém. Os apóstolos já não davam conta de atender a todas as necessidades, sobretudo, das viúvas pobres de origem grega (At 6). Escolheram então sete diáconos, todos de origem grega, para cuidarem das viúvas gregas, “esquecidas no serviço diário”. A eles – diziam – “confiaremos esse serviço e nós continuaremos a dedicar-nos à oração e ao ministério da palavra”. Era uma divisão de trabalho; os diáconos cuidariam do serviço social da comunidade enquanto os apóstolos cuidariam da pregação e do culto. Na realidade, alguns diáconos não se contentaram em cuidar apenas da parte social. Assim, vemos Estêvão pregando em Jerusalém e Filipe em Samaria (cf. At 7–8). Havia na Igreja, portanto, certa tensão entre os dois ministérios, a pregação e o atendimento aos pobres. Este é o pano de fundo para lermos a cena de Jesus na casa de Marta e Maria. Marta, em aramaico, significa senhora ou dona de casa. O nome na mentalidade semita indica a missão ou vocação de uma pessoa. Algumas senhoras, donas de casa, costumavam hospedar os apóstolos itinerantes, como Paulo (At 16,13; 18,1-4). Maria, por sua vez, significa “a excelsa”, sublime, elevada. Ela optou pela “parte melhor” ao assentar-se aos pés de Jesus numa atitude de discípula, para ouvir seus ensinamentos Marta é advertida porque a atividade exagerada podia afastá-la da escuta da palavra do Senhor. No seu modo de acolher e servir a Jesus, Marta acha que o melhor era preparar uma boa comida para o mestre. Quer chamar a atenção de Jesus sobre o que ela faz, – 1ª leitura: Sara prepara a comida e Abraão dá toda a atenção aos seus hóspedes – e de certa forma exige que Ele a libere para ajudá-la. Jesus repreende a distraída agitação de Marta e louva Maria, que escolheu a parte melhor. Marta se agita para oferecer a melhor acolhida a Jesus. Maria volta toda sua atenção para Jesus, abre o coração para ouvir seus ensinamentos e assim recebe o dom da palavra de Deus. Hospedar alguém, mais do um dar alguma coisa, é estar recebendo. “Hospitalidade é ‘receber’ uma pessoa: o hóspede é um dom de Deus” (Konings). Mais oferece ao hóspede quem o escuta. Não se trata de uma contradição entre vida ativa e contemplativa. São duas maneiras de amar próximo: servindo-o e escutando-o (Voigt). Com quem eu pareço mais, com Marta ou com Maria? Como podemos chegar a um equilíbrio entre o serviço ao próximo e a escuta do Senhor?   A escuta da Palavra Frei Clarêncio Neotti Qualquer dona de casa sabe que dar de comer a 13 homens, chegados de viagem, exige uma série de preparativos. Era o que Marta estava fazendo, exatamente o que qualquer dona de casa faria e faz ainda hoje. A expressão ‘estava ocupada com muitos afazeres’ ou ‘andava atarefada com o serviço’ (v. 40) é uma tradução não inteiramente exata do vocábulo grego original, que traz consigo a ideia de ‘distração’. Marta estava atarefada, sim, porém seu trabalho a fazia ficar distraída (não ouvia a palavra de Jesus). O trabalho é necessário e bom. O trabalho (como o de Marta) pode ser expressão de caridade e verdadeiro serviço fraterno. Mas só o será, se não for empecilho para a escuta da Palavra de Deus. E a oração rezada só terá sentido, se ligada à escuta da Palavra de Deus. E o que é escutar a Palavra de Deus? São Paulo, na Carta aos Romanos, dirá que “a fé nasce da escuta da Palavra de Cristo” (Rm 10,17). Em certo momento, Jesus elogia a grandeza de sua mãe, não apenas pela maternidade, mas por “escutar a Palavra de Deus” (Lc 11,28). E diz aos judeus que o pecado deles consiste em “não escutar a Palavra de Deus” (Jo 8,43). Não se trata de supervalorizar a contemplação em detrimento da ação. Não há primazia da contemplação. O que é necessário é que toda a nossa ação brote da Palavra de Deus e dela se nutra. Escutar a Palavra de Deus é não só lê-la com os olhos ou ouvi-la com os ouvidos ou compreendê-la com o intelecto, mas transformá-la em prática de vida, em forma de oração, em comportamento, em obras (Mt 7,24), a ponto de podermos dizer com São Paulo: já não sou eu que faço, já “não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Todos são chamados a essa experiência. A todos é dada essa graça.   Maria e Marta: hospedeiras do Senhor Frei Almir Guimarães ♦ Mais uma vez estas duas mulheres, Maria e Marta são colocadas diante de nossos olhos. Jesus, amigo da família, é recebido em sua casa com toda cordialidade. Estamos diante do tema da hospitalidade. ♦ Houve tempos em que as visitas entre famílias eram muito frequentes. Num universo de calma e de tranquilidade, via de regra, o domingo era o dia das visitas, das refeições em comum, do “almoço da família”, dos encontros, por vezes até mesmo dos desencontros. Os tempos mudaram e pode ser que aos poucos todos, cansados, estressados, preocupados com nosso mundo tenhamos esquecido de visitar e ou decidido deixar a porta da casa e de nossa vida meio trancada. Não queremos ser incomodados. Cansaço, ar dos tempos, falta de condições de “habitar” convenientemente o tempo. ♦ Ora, a hospitalidade é umas das mais belas virtudes humanas. Vivemos um tempo em que muitos seres se deslocam de seus países em conflito em busca de refúgio e de sobrevivência em outras terras. Há uma consciência geral de que leis e ordenanças dos países precisarão montar esquemas de acolhimento sempre levando em conta a dignidade da pessoa humana. Hospitalidade=acolhida do migrante, do andarilho, do peregrino. Ato profundamente humano. ♦ Hospitalidade não significa receber apenas os estrangeiros, mas todos ser humano. Há uma hospitalidade a ser prestada dentro de casa, no seio da família, na convivência com o mundo que nos cerca de perto. Na maneira de acolher dos cristãos há um dado que vem da fé: “Eu era estrangeiro e me acolheste” (Mt 25,35). O peregrino é imagem de Deus. Acolhe-se aquele que chega mesmo antes de conhecê-lo. Há uma predisposição positiva por parte dos corações retos e dos cristãos. O que chega se exprime, fala, deixa vir à tona seu interior e há um enriquecimento de quem recebe e de quem é recebido. Assim, acontece nas visitas entre amigos. A presença do hóspede é sempre um tempo favorável. ♦ A prática da hospitalidade quer dizer acolhida do outro, do diferente. O outro costuma mexer com nossos arranjos existenciais, com o trem de nossa vida. Temos preconceitos e dificuldades de fazer lugar para esses tantos nos recantos de nosso interior e nos espaços de nossas cidades. Preconceitos contra os ciganos irritantes, universitários baderneiros, aos que têm cor diferente da cor de nossa pele. Não nos damos ao trabalho de nos deter em seu mistério pessoal, escutar as batidas de nosso coração parecidas com as batidas de nosso próprio coração. Tememos o diferente, receamos a competição, preocupamos no sentido de que com a partilha nos falte o necessário. A hospitalidade nos torna humanos e humaniza o mundo. ♦ Jesus foi hóspede das duas irmãs. Costuma-se dizer que Marta é a mulher ativa e Maria a contemplativa. Marta estava preocupada com preparar refeição e providenciar o que fosse necessário para o conforto do hóspede. À primeira vista Jesus faz um elogio a Maria e um reprimenda a Marta. Maria escolhera melhor parte, isto é, ficar aos pés do Mestre, degustando sua presença e atentamente o ouvindo. Na verdade, o coração de Marta, mesmo no meio de suas atividade, queria agradar o Mestre. Somos todos, de alguma forma, Marta e Maria. ♦Vivemos um tempo de correria, pressa, urgência, produtividade. Não temos mais tempo de “degustar” o presente, de nos dar momentos de “ociosidade”, silêncio e contemplação. Pensadores contemporâneos insistem na urgência de se sejam criados espaços de contemplação e de recolhimento em nossas vidas. Um filosofo coreano afirma: “Se tirarmos da vida todo elemento contemplativo, ela sofre de hiperatividade mortal. O homem se sufoca em seu próprio fazer. Uma revitalização da vida contemplativa é necessária para abrir espaços de respiração. O espírito nasce de um “excedente” de tempo, de um ócio, de uma maior lentidão na respiração”. ♦ Esta página de José Antonio Pagola situa de maneira bem precisa nosso tema, esse sadio inter-relacionamento entre ação e contemplação. Cada um de nós é, ao mesmo tempo, Marta e Maria: “Jesus não critica o serviço de Marta. Como iria fazê-lo, se ele próprio com seu exemplo, este ensinando a todos a viver acolhendo, servindo e ajudando os outros? O que ele critica é seu modo de trabalhar à flor da pele, sob a pressão de demasiadas ocupações. Jesus não contrapõe vida ativa e vida contemplativa, nem a escuta fiel de sua Palavra e o compromisso de viver praticamente a entrega aos outros. Antes, alerta quanto ao perigo de viver absorvido por um excesso de atividades, apagando em nós o Espírito e transmitindo mais nervosismo e afobação do que paz e amor. Sob a pressão da escassez de forças estamos nos habituando a pedir aos cristãos mais generosos todo tipo de compromissos dentro e fora da Igreja. Se, ao mesmo tempo não lhes fornecemos espaços para conhecer Jesus, escutar sua Palavra e alimentar-se de seu Evangelho, corremos o risco de fazer crescer na Igreja a agitação e o nervosismo, mas não seu Espírito e sua paz. Podemos deparar-nos com comunidades animadas por funcionários afobados, mas não por testemunhas que irradiam seu vigor” (Lucas, p. 188). ♦ São Francisco de Assis, muito sabiamente prescrevia o trabalho para seus frades a condição que não deixassem de “habitar” o coração: “Aqueles irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar trabalhem fiel e devotamente, de modo que, afastando o ócio que é inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção ao qual devem servir as demais coisas temporais” (Regra bulada, V). Oração Creio em Jesus. Creio em Jesus.Ele é meu amigo, minha alegria, é meu amor.Ele é meu Salvador.Ele bateu à minha porta e me convidou a segui-lo.Seguirei seus passos, levarei sua mensagem de paz.Ele ajudou o enfermo e lhe trouxe a fidelidade.Defendeu o humilde; combateu a mentira e o mal.Dia e noite creio em Jesus.Ele está a meu lado, creio em Jesus.Sigo suas palavras, creio em Jesus.Ele é meu Salvador.Ele é o Messias, sigo Jesus.Ele é minha esperança, creio em Jesus.Ele vive para sempre, espero em Jesus.Ele é meu Salvador (C. Erdozain).   Direito de sentar-se José Antonio Pagola Mais uma vez, Jesus aproxima-se de Betânia, uma aldeia próxima de Jerusalém, para hospedar-se na casa de uns irmãos muito amigos seus. Ao que parece, Ele o faz sempre que sobe para a capital. Estão em casa apenas as mulheres. As duas adotam posturas diferentes. Marta se queixa e Jesus pronuncia umas palavras que Lucas não quer que sejam esquecidas entre os seguidores de Jesus. Marta é quem “recebe” Jesus e lhe oferece sua hospitalidade. Desde que Ele chegou desvela-se para atendê-lo. Isso nada tem de estranho. É a tarefa que cabe à mulher naquela sociedade. Esse é seu lugar e sua incumbência: fazer o pão, cozinhar, servir ao varão, lavar-lhe os pés, estar ao serviço de todos. Enquanto isso, Sua irmã Maria permanece “sentada aos pés” de Jesus, em atitude própria de uma discípula que ouve atenta sua palavra, concentrada no essencial. A cena é estranha, porque a mulher não estava autorizada a ouvir como discípula os mestres da lei. Quando Marta, sobrecarregada pelo trabalho, critica a indiferença de Jesus e pede ajuda, Jesus responde de maneira surpreendente. Nenhum varão judeu teria falado assim. Ele não critica a Marta sua acolhida e seu serviço. Ao contrário, fala-lhe com simpatia, repetindo carinhosamente seu nome. Não duvida do valor e da importância daquilo que ela está fazendo. Mas não quer ver as mulheres absorvidas somente pelos afazeres da casa: “Marta, Marta, andas inquieta e nervosa com tantas coisas. Só uma coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”. A mulher não deve ficar reduzida às tarefas do lar. Ela tem direito a “sentar-se”, como os varões, para escutar a Palavra de Deus. O que Maria está fazendo corresponde à vontade do Pai. Jesus não quer ver as mulheres só trabalhando. Quer vê-las “sentadas”. Por isso, acolhê-as em seu grupo como discípulas, no mesmo plano e com os mesmos direitos que os varões. Falta-nos muito, na Igreja e na sociedade, para olhar e tratar as mulheres como o fazia Jesus. Considerá-las como trabalhadoras ao serviço do varão não corresponde às exigências desse reino de Deus que Jesus entendia como um espaço sem dominação masculina.   O “importante” e o necessário Pe. Johan Konings Um grande mal em nossa sociedade, e também na Igreja, é o ativismo, a falta de disposição para aprofundar o essencial, sob o pretexto de tarefas urgentes. Neste domingo, a 1ª leitura nos mostra a virtude da hospitalidade na figura de Abraão. Deus – que nos anjos se tomou seu hóspede – o recompensa com a promessa de um filho. O evangelho, porém, parece contradizer esta lição: Jesus dá a impressão de valorizar mais a presença passiva de Maria, que fica escutando-o, do que a preocupação de Marta em bem recebê-lo. Ou será que o jeito certo de recebê-lo é o de Maria: escutar sua palavra? Jesus observa a Marta que ela anda ocupada e preocupada com muitas coisas, enquanto uma só é necessária. Essa observação não é uma recusa da hospitalidade, mas indica uma escala de valores: a melhor parte é a que Maria escolheu! O que esta faz é fundamental e indispensável: escutar. O resto (as correrias pastorais, as reuniões) é importante, mas deve ter fundamento no escutar. Jesus censura Marta não porque ela cuida da cozinha, mas porque quer tirar Maria do escutar, para fazê-la entrar no ritmo das suas próprias ocupações. Marta não conhecia a escala de valores de Jesus. Paulo, na 2ª leitura, pode ser um exemplo. Ele passou pela “passividade” do sofrimento, assumindo no seu corpo aquilo que o sofrimento de Cristo deixou para ele. Foi desta identificação profunda com Cristo que ele tirou a força para seu surpreendente apostolado. Gente ocupada é o que menos falta. Mas sabemos muito bem que toda essa ocupação não gira em torno daquilo que é fundamental. Dá até pena ver certas pessoas complicarem sua vida com mil coisas de que dizem que simplificam a vida. Ao lado delas encontramos o pobre, o lavrador, o índio, vivendo uma vida simples, mas com muito mais conteúdo e, sobretudo, com um coração sensível e solidário. Importa acolher (a Deus, a Jesus, aos outros) em primeiro lugar no coração. Só então as demais ações terão sentido. Isso vale na vida pessoal e também na vida comunitária. Comunidades que giram exclusivamente em tomo de preocupações e reivindicações materiais acabam esvaziando-se, caem em brigas de personalismo e ambição. Mas comunidades que primeiro acolhem com carinho a palavra de Jesus num coração disposto saberão desenvolver os projetos certos para pôr a palavra de Jesus em prática. “Buscai primeiro o Reino de Deus … ” Todas as meditações estão disponíveis em: franciscanos.org.br

15º Domingo do Tempo Comum

Deus presente em cada esquina Frei Gustavo Medella “Ouve a voz do Senhor, teu Deus, e observa todos os seus mandamentos e preceitos, que estão escritos nesta lei. Converte-te para o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma. Na verdade, este mandamento que hoje te dou não é difícil demais, nem está fora do teu alcance” (Dt 30,10-11). – Onde está Deus? – Está bem perto de você e é muito fácil encontrá-lo! Este seria um brevíssimo resumo da mensagem contida nas leituras deste 15º Domingo do Tempo Comum. Tanto o Evangelho (Lc 10,25-37) quanto a Primeira Leitura (Dt 30.10-14) vêm insistir na presença próxima de Deus junto ao ser humano. Este é o “suprassumo” da Teologia Cristã: um Deus que se faz próximo e que facilmente se deixa encontrar. Quanto à proximidade, parece ser um ponto pacífico a partir do Mistério da Encarnação. Agora, o que diz respeito à facilidade, neste ponto parece haver a necessidade de um aprofundamento na reflexão. Encontrar Deus na vida e no dia a dia é fácil e não é fácil ao mesmo tempo. É fácil se levarmos em conta a predileção de Jesus pelos últimos e pelos pequenos, a ponto de afirmar: “O que fizestes a um dos menores destes meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Este critério multiplica exponencialmente a presença divina no seio da sociedade, nos semáforos da vida, limpando para-brisas a troco de moedas, retirando o alimento próprio e da família em meio à podridão das latas e dos lixões, implorando uma consulta ou um exame nas imensas filas dos hospitais, amargando a humilhação do desemprego e da falta de perspectiva, abandonado nos asilos e orfanatos, dormindo nas esquinas e calçadas sem banho, sem nome, sem nada. Encontrar este Deus que sofre está ao alcance de qualquer um. Basta uma volta a pé na esquina de casa ou um pequeno deslocamento até as periferias de qualquer cidade. Sempre será possível e fácil encontrar Deus, em qualquer hora e lugar. Este encontro, no entanto, não é fácil se levarmos em conta o exercício de superação e entrega que devemos fazer para encontrar Deus. Afinal, não será um encontro agradável aos sentidos, pois, nestes irmãos, o Senhor se apresenta faminto, mal cheiroso, às vezes grosseiro e quase sempre incapaz de nos oferecer algo em troca. Certamente teremos também que deixar de lado opções bem mais confortáveis e prazerosas para irmos ao encontro destes irmãos, colocando-nos a serviço deles. A Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), apresentada do Evangelho, ilustra com maestria este desafio e mostra que nem sempre é fácil se priorizar de fato o que é prioritário. O levita e o sacerdote certamente tinham compromissos suficientes para justificar sua indiferença em relação àquele que jazia quase morto à beira do caminho. Mudar os planos àquela altura não seria nada fácil. Permaneceram fiéis a seus compromissos e certamente cumpriram com desenvoltura seu papel social. No entanto, perderam a oportunidade de estarem mais próximos de Deus. O samaritano, porém, foi capaz de sensibilizar-se com aquela cena de dor, sofrimento e abandono. Colocou em segundo plano a própria agenda e entregou-se de corpo e alma ao cuidado daquele que naquela hora mais precisava de sua atenção. Fez a melhor escolha, abraçou o Senhor que estava lhe visitando na figura daquela pobre vítima. Viver samaritanamente significa ter os olhos e o coração atentos a perceber a presença de Deus nos fatos e nas pessoas e a coragem de superar as próprias conveniências para ir ao encontro do Senhor.   15º Domingo do Tempo Comum, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que erram para retomarem o bom caminho, dai a todos que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo que é digno desse nome”. Primeira leitura: Dt 30,10-14 Esta palavra está bem ao teu alcance, para que a possas cumprir. O texto da primeira leitura faz parte do discurso de despedida de Moisés, no qual ele exorta o povo a ser fiel à aliança com seu Deus. Nos versículos precedentes (30,6-9) Moisés exortava o povo, dizendo: “O Senhor teu Deus circuncidará teu coração e o de teus descendentes, para amares ao Senhor teu Deus de todo o coração e com toda a tua alma para que vivas”. Deus quer a felicidade e a vida de seu povo. Para obtê-la, porém, exigem-se condições: ouvir a voz de Deus, observar os seus mandamentos, converter-se (voltar-se) sempre de novo a Deus. Por isso Deus fez uma aliança com seu povo, um pacto de amor. Não um mero afeto ou sentimento, e sim, um amor de compromisso e fidelidade. A imagem deste amor sintetiza-se nas palavras dos noivos no dia do casamento: “Eu te serei fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de nossa vida”. O mandamento do amor a Deus, diz Moisés, não é difícil de observar porque Deus vai circuncidar o coração de seu povo, tornando-o capaz de observá-lo (cf. Jr 31,33-34), “está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir”. De fato, podia estar na boca e no coração de todo judeu fiel, como se vê na oração “Escuta Israel” (Xemá Israel: Dt 6,4-9), que os judeus ainda hoje recitam de manhã e de noite. Sabem-na de cor e a guardam em caixinhas de couro, que são presas, na hora da oração, com tiras de couro, uma na testa e outra no braço, perto do coração. Jesus aos treze anos conhecia o texto de cor (cf. Evangelho). Este e outros textos eram ensinados aos filhos desde a infância. O problema não é conhecer de cor o texto-base da fé judaica, mas pô-lo em prática. Salmo responsorial: Sl 18b Os preceitos do Senhor são precisos, alegria ao coração. Segunda leitura: Cl 1,15-20 Tudo foi criado por meio dele e para ele.  Paulo utiliza partes de um hino cristão para falar do primado de Cristo na ordem da criação (v. 15-17) e na ordem da nova criação sobrenatural, que nos traz a redenção/salvação (v. 18-20). Na ordem da criação, Ele é o Filho de Deus, a imagem do Deus invisível na natureza humana visível. Em Cristo o Deus invisível torna-se visível. É como Jesus diz a Filipe: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Tudo foi criado por causa de Cristo, por meio dele e para ele. Em Cristo, primogênito de todas as criaturas, Deus quis manifestar seu amor para “fora de si”. Por isso cria o universo. Pela encarnação de seu Filho Unigênito em Cristo, Deus quis reconciliar pelo sangue derramado na cruz, trazendo de volta a si toda a criação, corrompida pelo pecado dos homens. O Cristo histórico, Filho único de Deus feito homem, é o mediador da criação. Por causa dele, por meio dele e para ele todos nós existimos. Jesus é também o mediador da salvação, porque por meio dele nos tornamos filhos e filhas de Deus, herdeiros da vida eterna (Evangelho).  Aclamação ao Evangelho Ó Senhor, vossas palavras são espírito e vida; as palavras que dizeis bem que são de eterna vida. Evangelho: Lc 10,25-37 E quem é o meu próximo? O evangelho que ouvimos divide-se em duas partes, iniciadas por uma pergunta de um mestre da Lei: “Que devo fazer para receber em herança a vida eterna” (v. 25-28) – e “quem é o meu próximo” (v. 29-37). A resposta à primeira pergunta Jesus tira-a da boca do mestre da Lei, perguntando-lhe o que está escrito na Lei e como ele a lia. E ele responde com a síntese da Lei, que consta na oração “Escuta Israel” (1ª leitura), conhecida de todo garoto judeu desde a adolescência. Respondendo à pergunta “o que fazer”, Jesus diz: “Faze isto e viverás”. O problema não é saber o que está escrito na Lei, mas como se lê e como se coloca em prática o que está escrito. Mas o mestre da Lei insiste e pergunta “e quem é o meu próximo?” O normal era considerar como “próximo” a quem pertencia à mesma fé (cf. Lv 19,15-18). Mas depois do exílio o conceito de próximo já se alargou. Próximo passa a ser toda pessoa da qual eu me aproximo. Esta é a posição de Jesus, como o vemos na parábola do bom samaritano. O sacerdote e o levita que liam a mesma Lei conhecida também pelos samaritanos, que têm apenas o Pentateuco (a Lei), não viram no homem ferido o próximo porque dele se desviaram. O sacerdote e o levita “desciam” de Jerusalém, tendo cumprido suas funções no Templo, onde Deus está presente, mas não viram a presença de Deus no homem ferido. O samaritano não subia ao Templo, porque os samaritanos adoravam a Deus no monte Garizim (cf. Jo 4,19-20). Estava de viagem a negócios, viu o mesmo homem ferido, “chegou perto dele, viu e sentiu compaixão”, cuidou de seus ferimentos e o colocou numa pensão à sua custa. O mestre da Lei tinha perguntado “e quem é o meu próximo”, mas ao final da parábola, Jesus lhe pergunta: “qual dos três foi o próximo do homem que caiu na mão dos assaltantes?” Também desta vez Jesus tira a resposta da boca do próprio mestre da Lei, que diz: “Aquele que usou de misericórdia para com ele, isto é, aquele que se aproximou do homem ferido”. Mais uma vez Jesus conclui: “Vai e faze a mesma coisa”. Portanto, fica claro que a questão não é ler e conhecer a Palavra de Deus, mas como eu a leio e a ponho em prática. Com que mais me pareço? Com o sacerdote e o levita que viram o homem ferido mas desviaram dele? Ou procuro ser como o bom samaritano?   Misericórdia sem fronteiras Frei Clarêncio Neotti A lição de Jesus está em dizer que a misericórdia exige que se deixe de lado o bem-estar pessoal para socorrer um necessitado. Mas suponhamos que se insista na desculpa de não se poder tocar no defunto, para melhor servir a Deus no culto, observando a lei. É justamente nesse ponto que Jesus dá a grande lição: o irmão necessitado tem precedência, e, se não lhe dermos precedência, nossa oração será falha e errado será nosso culto. Em outra ocasião, Jesus foi ainda mais explícito, citando o profeta Oseias (Os 6,6): “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Mt 9,13 e 12,7). Jesus referia-se aos sacrifícios dos animais no templo. A misericórdia tem precedência até mesmo sobre a obrigação da Missa dominical. Observe-se que Jesus não menciona a nacionalidade ou a religião do infeliz que caiu na mão dos ladrões. Mas fica claro que quem fez a pergunta era um doutor da lei, judeu, portanto. E os judeus, sobretudo os do partido dos fariseus, restringiam muito os que podiam ser denominados próximo: eram só os familiares, os que tinham o mesmo sangue, os compatriotas observantes da Lei Mosaica, os pagãos que adotassem as leis, a fé e as tradições judaicas, desde que circuncidados. Ficavam expressamente excluídos os estrangeiros, os que trabalhavam para estrangeiros, os inimigos de qualquer espécie, a plebe ignorante, os que exerciam certas profissões que facilitavam a impureza legal – a pesca, o pastoreio, o curtimento de couros -, os pobres e os leprosos. A lição de Jesus é clara, nova e forte: a misericórdia não tem fronteiras religiosas, geográficas ou de sangue. A misericórdia não faz restrições. É obrigação de todos.   Há seres humanos jogados à beira do caminho Frei Almir Guimarães Em nossa vida cotidiana, às vezes tão medíocre e vulgar, pode acontecer ainda “o milagre da fraternidade”. Basta atrever-nos a renunciar a pequenas vantagens e começar a aproximar-nos das pessoas com os olhos e o coração do samaritanoJosé Antonio Pagola ♦ Mais um vez esse samaritano bom nos visita. Ficamos sempre encantados a parábola de Jesus narrada com tanto carinho, delicadeza e maestria pela pena de Lucas, grande escritor, sempre sensível ao tema da dor. Na verdade, ela não necessita de muita explicação. Tudo é muito claro. Não há que regatear. Os seres humanos jogados à beira do caminho requerem cuidados inadiáveis e tratamento generoso. Ali está um pedaço da humanidade está clamando por vida. É preciso parar imediatamente. Há que socorrer aqui e agora. ♦ Há pessoas que se encontram em situações limites. Um homem é assaltado, ferido, quase morto sem nada e sem ninguém. Jogados à beira da estrada ontem e hoje: doença imprevista, ataque de bandidos, miséria material, miséria moral, trapos humanos, gente aparentemente bem mas que camufla, gente fugindo da miséria de seus países de origem, refugiados, gente de perto e de longe, estruturas pesadas e injustas que podem fabricar jogados à beira do caminho. ♦  O samaritano tinha os olhos abertos. Os primeiros passantes, o sacerdote e o levita, estavam muito preocupados com o culto, com as regras da vida aprendida de cor, com as tarefas. Passaram olharam sem enxergar. O texto dá a entender que encararam o caso com certa indiferença. “Outros vão se ocupar do caso”, pensam eleas. Mas ali estava um ser humano cujo coração ainda batia e que podia continuar a bater. Quem não sabe reparar, não pode ver. ♦ Um homem trafega pelo mesmo caminho. Devia também ter tarefas a cumprir. Não estava a flanar. Para, observa, reflete rapidamente e toma todas as providências com rapidez e total generosidade, com encantadora generosidade: aproxima-se, faz curativos, derrama óleo e vinho nas feridas, coloca o assaltado na sua montaria, leva-o a uma pousada, paga as despesas e promete reembolsar posteriormente se mais fosse preciso ser pago. O samaritano se torna próximo do homem jogado à beira do caminho. Cabe a cada um de nós, em nossos contextos sociais, familiares, de vizinhança não somente ver, mas enxergar os que precisam de atenção para retomarem a caminhada da vida, o fôlego do existir. ♦ Não é assim que podemos nos satisfazer com “tudo certinho e arrumadinho” em termos de religião. Nossa fé caminha pela história e observa, além das práticas religiosas, o ser humano. Somos aqueles que nos deixamos impressionar com o sofrimento. Não podemos nos esconder atrás de nossas ocupações nem nos refugiar em nossas belas teorias. Não é suficiente gritar por nossas reivindicações, mas criar espaços em nós para os outros. ♦ Lucas afirma que o samaritano experimentou compaixão. Estamos no campo das atenções íntimas para com os semelhantes. José Tolentino Mendonça: >> “A etimologia explica a compaixão (no latim, cum-passio) um “sofrer com o outro”. É uma forma de subtrair a dor à solidão que ela própria gera, dizendo àquele de quem nos aproximamos: “Você não está só, porque reconheço o seu sofrimento e tomo a sua dor, em parte para mim” A dor sequestra-nos num isolamento que pode atingir proporções inomináveis. A compaixão é essa peculiar relação humana que começa paradoxalmente aí, quando precisamos de cuidado e somos positivamente correspondidos por uma presença amigável. O grito do que sofre chega-nos frequentemente sem palavras: o silêncio indefeso diz tudo, a vida mais nua ainda do que o habitual, o olhar ferido pela adversidade. A compaixão torna-se escuta, consonância, responsabilidade pela vida, escolha solidária, gestos, permanência” (Libertar o tempo, p.51). Oração Ó Espírito Santo,dai-me um coração grande,aberto à vossa silenciosa e forte palavra inspiradora,fechado a todas as ambições mesquinhas,alheio a qualquer desprezível competição humana,compenetrado do sentido da santa Igreja. Um coração grande,desejoso de se tornar semelhanteao coração do Senhor Jesus. Um coração grande e forte,para amar a todos,para servir a todos,para sofrer com todos. Um coração grande e forte,para superar todas as provações,todo tédio, todo cansaço,toda desilusão e toda ofensa. Um coração grande e forte,constante até ao sacrifício,quando for necessário. Um coração cuja felicidade sejapalpitar com o coração de Cristoe cumprir humilde, fiel e virilmentea vontade do Pai. Amém! Paulo VI (1897-1978)   Igreja Samaritana José Antonio Pagola Há muitas maneiras de empobrecer e desfigurar a misericórdia. Às vezes ela fica reduzida a um sentimento de compaixão próprio de pessoas sensíveis. Para alguns consiste nessa “ajuda paternal” que se oferece aos necessitados para tranquilizar a própria consciência. Há os que recordam as “obras de misericórdia” do catecismo como algo que é preciso praticar para ser virtuoso. A partir da fé cristã devemos dizer que a misericórdia é a única reação verdadeiramente humana diante do sofrimento alheio que, uma vez interiorizada, se transforma em princípio de atuação e de ajuda solidária a quem sofre. Por isso, o teólogo Jon Sobrino começou a falar, há muitos anos, do “princípio misericórdia”, apresentando-o não como uma virtude a mais, mas como a atitude radical de amor que deve inspirar a atuação do ser humano diante do sofrimento do outro. O relato do “bom samaritano” não é uma parábola a mais, e sim aquela que melhor expressa, de acordo com Jesus, o que é ser verdadeiramente humano. O samaritano é uma pessoa que vê em seu caminho alguém ferido, aproxima-se, reage com misericórdia e o ajuda no que pode. Esta é a única maneira de ser humano: reagir com misericórdia. Pelo contrário, “dar uma volta” diante de quem sofre – postura do sacerdote e do levita – é viver desumanizado. A misericórdia é o princípio fundamental da atuação de Deus e o que configura toda a vida, a missão e o destino de Jesus. Diante do sofrimento, não há nada mais importante do que a misericórdia. Ela é a primeira coisa e a última. O princípio ao qual se deve subordinar todo o resto. Também na Igreja. Uma Igreja verdadeira é, antes de tudo, uma Igreja que “se parece” com Jesus. E uma Igreja que se parece com Jesus deverá necessariamente ser uma “Igreja samaritana” que reage com misericórdia diante do sofrimento das pessoas. Esta é a primeira coisa que se pede também hoje à Igreja: que seja boa, que tenha entranhas de misericórdia, que não discrimine ninguém, que não dê voltas diante dos que sofrem, que ajude os que padecem feridas físicas, morais ou espirituais. Se quiser parecer-se com Jesus, a Igreja deve reler a parábola do “bom samaritano”. É importante a ortodoxia. É urgente a ação evangelizadora. Mas como fica tudo isso se os homens e mulheres de hoje não podem descobrir nela o rosto misericordioso de Deus nem sentir sua proximidade e ajuda no sofrimento?   Amor ao próximo – solidariedade Pe. Johan Konings Os profetas de Israel teceram os mais sublimes elogios à Lei de Deus. Aliás, o termo “lei” traduz mal o que a Bíblia hebraica chama a torah; melhor seria traduzir por “instrução” ou “ensinamento”. Era um caminho de vida (1ª leitura). Mesmo assim, havia quem achasse a Lei complicada e procurasse um resumo ou pelo menos um mandamento-chave que por assim dizer resumisse a Lei. A pergunta foi feita também a Jesus, e ele respondeu, sem hesitar: “Amar a Deus com todas as forças e ao próximo como a si mesmo” (evangelho). O amor ao próximo é o dever número um do cristão. S. Paulo (Gl 5,13) e S. Tiago (Tg 2,8) resumem toda a moral cristã neste único mandamento. S. João nos diz que é impossível amar a Deus sem amar ao irmão (1Jo 4,21). Não se pode amar ao Pai sem amar os filhos. Mas o que é amar? E quem são nossos próximos? Depois de interpelar Jesus a respeito do primeiro mandamento, o mestre da Lei pergunta quem é o próximo. Jesus não lhe dá uma resposta direta. Conta-lhe a história do bom samaritano. Os judeus não consideravam os samaritanos como “próximos”, como candidatos à sua solidariedade. Eram inimigos de sua comunidade. Os membros da comunidade judaica, a esses era preciso “amá-los como a si mesmo” (Lv 19,18), e o mesmo valia com relação aos estrangeiros vivendo no meio dos judeus (Lv 19,35). Mas os samaritanos não. Ora, exatamente um samaritano torna-se solidário com um judeu jogado à beira da estrada, depois que dois ilustres “próximos” judeus, um sacerdote e um levita, deram uma volta para não se incomodar com o compatriota assaltado … Jesus não respondeu diretamente ao mestre da lei, porque a questão não é descobrir quem é e quem não é próximo. Coração generoso se torna próximo de qualquer um que precisa; a melhor maneira de ter amigos é ser amigo. A questão também não é teórica, mas prática. Na prática esquecemos a parábola de Jesus e fazemos como o sacerdote e o levita: afastamo-nos do necessitado, mesmo se pertence à nossa comunidade, e não “nos aproximamos” dele. Tornar-se próximo é ser solidário. Somos solidários com os que vivem na margem da estrada de nossa sociedade? Mesmo quando damos uma esmola a um coitado, não é para nos desviarmos dele? “Vai e faze a mesma coisa” … Imitar o samaritano exige solidariedade, assumir a vida do outro, não se livrar dele. Torná-lo um irmão, pois este é o sentido verdadeiro da palavra “próximo”. Como está a solidariedade nesse tempo em que a doutrina da competição, do lucro e do proveito ilimitado solapou o tecido social, as relações de gratuidade entre as pessoas? Todas as reflexões estão disponíveis originalmente em: franciscanos.org.br

Festa de Santo Antonio Maria Zaccaria em Capitão Poço

No último dia 05 de julho, conforme mencionado anteriormente, foi celebrada a Festa de Santo Antonio Maria Zaccaria em Capitão Poço. Santo Antonio é o padroeiro da paróquia de Capitão Poço, paróquia que é de responsabilidade dos Padres Barnabitas deste a sua fundação. A procissão com a imagem do santo padroeiro saiu da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro às 17:30. Após percorrer várias ruas da cidade, e de receber várias homenagens por onde passou, chegou à Igreja Matriz para a Missa Solene. A Santa Missa foi presidida pelo Padre José Giambeli, padre Barnabita italiano que mora em São Miguel do Guamá e que já tem mais de 80 anos de idade e mais de 50 anos de sacerdócio, dos quais mais da metade foram dedicados ao Brasil e a Diocese de Bragança.   Pe. José Giambeli durante a Missa do Padroeiro/ Foto: Paróquia C. Poço Após a Santa Missa aconteceu a parte social da festa, realizada no salão paroquial. Nesta parte da festa sempre acontecem os leilões, venda de comidas típicas e várias outras atrações para alegrar os paroquianos que todos anos lotam o salão. E na noite de ontem, 07, aconteceu a Santa Missa de encerramento da Festividade 2019. A Eucaristia foi presidida pelo pároco do lugar, Pe. Benedito Moura, que naquela ocasião agradeceu a colaboração de todos: equipes de trabalho e coordenação da festa, doações, ao povo que participou, aos padres que vieram celebrar nas noites, etc. Por Diocese de Bragança

14º Domingo do Tempo Comum

Diante da paz, o que significa o mistério da cruz? Frei Gustavo Medella Seio de consolação, úberes de glória. A imagem da amamentação aparece na auspiciosa profecia de Isaías em torno da Jerusalém (Is 66,10-14c) como prefiguração de uma terra de justiça, paz e amor, como prefiguração do Reino de Deus anunciado e proposto por Jesus. Amamentar é necessário para a mãe, condição para que sua saúde seja preservada. Para o filho, questão de sobrevivência. Deus, qual mãe zelosa, oferece abundantemente o “leite” de sua graça, fonte de vida e salvação para seus filhos e filhas. A Paz que Jesus orienta seus discípulos a distribuir nas casas por onde passarem equivale a este alimento abundante que Deus disponibiliza para os seus. Quando os discípulos a oferecem como dom, ela em nada se diminui, ao contrário, multiplica-se na vida de quem a oferece e daquele que a recebe. É nesta lógica da generosidade que a paz nasce e se estabelece. Diante da bonita perspectiva da construção de um mundo de paz, como entender neste contexto o mistério da cruz? Por que São Paulo, na Carta aos Gálatas (Gl 6,14-18), descreve-se como alguém “crucificado para o mundo”. Como o anúncio de algo tão puro e sublime como a paz pode produzir feridas dolorosas como aquelas da cruz? O mesmo profeta Isaías é capaz de fornecer uma luz que pode iluminar esta questão: “A Paz e fruto da justiça” (Is 32,17). Construir a paz significa, então, trabalhar pela justiça. E foi a luta pelo florescer desta segunda que Cristo, os apóstolos e mártires, cristãos de ontem e de hoje, derramaram seu sangue que penetraram o chão da história como sementes fecundas de paz. A mesma generosidade de Deus ao distribuir largamente o dom da paz encontra aquele que se torna capaz de entregar a própria vida por este ideal. Radicalizar-se neste caminho é prova de amor incondicional a Deus e aos irmãos.   14º Domingo do Tempo Comum Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e daí aos que libertastes do pecado o gozo das alegrias eternas”. Primeira leitura: Is 66,10-14c Eis que farei correr para ela a paz como um rio. A primeira leitura renova e atualiza as promessas feitas aos judeus exilados em Babilônia, por um profeta, discípulo de Isaías. Ele animava o povo com a esperança de um próximo e glorioso retorno do povo para a terra de Judá e para Jerusalém, a cidade santa. O retorno aconteceu depois de 538, quando Ciro, rei dos persas, permitiu que os povos exilados voltassem a suas terras. Mas a vida em Judá e Jerusalém continuava difícil e o desânimo tomava conta do povo. Havia conflitos com os que ocuparam as terras abandonadas pelos exilados e a reconstrução das moradias e do templo era dificultada. Levanta-se, então, a voz de outro discípulo de Isaías para reanimar os desalentados. Anuncia que as promessas de salvação continuam válidas. Deus não abandona os que ele ama e é fiel às suas promessas. Os que choravam de amor por Jerusalém, agora são convidados a se alegrar – exultar de alegria e júbilo – porque Deus, como uma mãe, está pronto para consolar, acariciar e amamentar os filhos em seu colo. A promessa central se dirige a Jerusalém e o seu povo: “Farei correr para ela a paz como um rio e a glória das nações como torrente transbordante”. Todos os povos acorrerão a Jerusalém, aos braços maternos de Deus (Sl 131). E então haverá paz! Viver na presença de Deus traz a verdadeira paz (Evangelho). Anunciar e promover a paz é a missão dos “filhos de Deus” Mt 5,9). Salmo responsorial: Sl 65 Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira cantai salmos a seu nome glorioso. Segunda leitura: Gl 6,14-18 Trago em meu corpo as marcas de Jesus. Paulo fundou a comunidade cristã da Galácia (atual Turquia) durante a segunda viagem missionária e as revisitou na terceira viagem. A maior parte da comunidade era formada por pagãos convertidos. Entre as duas viagens vieram cristãos de origem judaica, que forçavam os pagãos convertidos a observarem a Lei de Moisés, adotando práticas judaicas, como a circuncisão. Ao saber disso, Paulo ficou indignado porque, obrigando a observar a Lei, como condição para serem salvos, anulavam a fé em Cristo. Isso contrariava o evangelho que Paulo anunciava: A salvação não vem da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, que morreu por nós e ressuscitou. O texto hoje escolhido faz parte da conclusão da carta. Paulo costumava ter um “secretário” que escrevia o que ele ditava. Mas a conclusão é de “própria mão, escrita com grandes letras” (6,11), expressão que resume e frisa os pontos mais importantes da carta. O Apóstolo defende seu evangelho e denuncia os judeu-cristãos que tentam escravizar os pagãos convertidos a Cristo. Eles se gloriavam de terem forçado os novos cristãos a se circuncidarem. Paulo, porém, se gloria somente na cruz de Cristo. Por causa de sua pregação Paulo sofreu perseguições, foi apedrejado e flagelado várias vezes. Com razão podia dizer: “eu trago em meu corpo as marcas de Jesus”. É pela cruz de Cristo que somos salvos. Não importa se alguém é circuncidado ou não, se é judeu ou pagão. Os que acolhem esta fé em Cristo crucificado fazem parte da “nova criação” e formam o “Israel de Deus”, distinto do Israel segundo a carne (Gl 5,6). A nova criação é graça, é um dom de Deus. É o vinho novo que deve ser colocado em odres novos, do contrário arrebenta os odres velhos (Lc 5,37-38). Aclamação ao Evangelho Aleluia, Aleluia, Aleluia. A paz de Cristo reine em vossos corações: ricamente habite em vós sua palavra. Evangelho: Lc 10,1-12.17-20 A vossa paz repousará sobre ele. O evangelho nos fala da missão dos setenta e dois discípulos, seguidores de Jesus. Com Marcos e Mateus, Lucas lembra que Jesus enviou os doze apóstolos em missão. Mas Lucas é o único a lembrar a missão dos setenta e dois discípulos. O núme70 lembra a totalidade das nações descendentes dos filhos de Noé, após o dilúvio (Gn 10). Portanto, toda a humanidade salva por Deus. Este número lembra também os 70(72) anciãos escolhidos por Moisés. Com eles Moisés devia partilhar seu espírito (poder) para dirigir e julgar o povo de Deus no deserto (Nm 11,23-30). Em nosso texto, Jesus partilha seu Espírito com os doze apóstolos e os 72 discípulos. Todos eles são enviados por Jesus com o “poder” de expulsar os demônios, curar os enfermos, anunciar que o Reino de Deus está próximo. A missão imediata destes discípulos é preparar a vinda de Jesus, em toda a cidade e lugar aonde Ele próprio haveria de ir. Mas esta missão se encaixa no contexto da universalidade da missão do Filho de Deus encarnado (Lc 2,30-32), confirmada quando Jesus conclui sua missão ao subir aos céus: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). Ninguém é excluído da salvação trazida por Cristo. O motivo da escolha e envio destes discípulos é que “a messe é grande e os trabalhadores são poucos” (Lc 10,2). A missão é tão ampla que é preciso pedir ao dono da messe que envie mais trabalhadores. Jesus alerta os discípulos sobre as dificuldades que os discípulos haverão de enfrentar: serão como ovelhas entre lobos, deverão andar despojados como os pobres, sem levar bolsa (dinheiro), sacola (merenda, roupa) e sandálias. O que deverão fazer? – Visitar as famílias (casas), anunciar que o Reino de Deus está próximo, saudar as pessoas e levar para elas a paz, isto é, Jesus que traz a todos a paz e a reconciliação com Deus e com o próximo. Se forem bem acolhidos, poderão ali se hospedar. Se forem mal recebidos, devem anunciar a mesma coisa nas cidades, curando os doentes que ali encontrarem. Em outras palavras, deverão anunciar o Reino de Deus e fazer o que Jesus fazia. – A experiência missionária foi muito gratificante para os discípulos e para Jesus. Eles voltaram muito contentes e diziam: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa de teu nome”! E o próprio Jesus confirma: “Eu vi Satanás cair do céu, como relâmpago”! Sim, o Reino de Deus cresce, à medida em que vivemos e promovemos a justiça e a paz. Os discípulos preparavam a vinda do Reino de Deus aonde Jesus devia chegar. Eis o imenso campo aberto para nossa missão.   Os filhos da Paz Frei Clarêncio Neotti A pobreza, procurada e aceita como um modo de viver, tem muito a ver com as duas qualidades que Lucas aponta hoje: a mansidão e o desprendimento. São Francisco disse ainda: “Se possuímos haveres, necessitamos de armas paraprotegê-los. Disso nascem as brigas e os litígios, que costumam impedir o amor de Deus e do próximo”. Evidentemente, não estamos fazendo a apologia da miséria, que degrada o ser humano e o impede de viver com dignidade. A miséria,que nasce da injustiça social, é uma afronta à criatura, feita à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). A pobreza que o Cristo exige de seu discípulo é a do desprendimento, que acaba sendo sinônimo de coração voltado para Deus e para opróximo necessitado. À pessoa de coração fraterno e receptivo Jesus chama “filho da paz” (v. 6), da paz salvadora, que ele nos trouxe. O conteúdo da pregação do discípulo será a chegada do Reino de Deus (v. 9), e esse Reino será necessariamente um Reino de Paz. Não se trata da paz como a pensam os diplomatas e políticos do mundo, mas da paz que é sinônimo de Jesus Cris-to (Ef 2,14). A paz de Jesus tem muito a ver com a mansidão, o desprendimento e o respeito a tudo e a todos. Tem também a ver com a derrota de Satanás (v. 18). O demônio era tido como a causa de toda a maldade, doenças e males. Agora,com a pessoa de Jesus, Filho de Deus, entra nas estruturas do mundo o Reino dos Céus. O diabo é derrotado (v. 18). A pregação da Verdade, feita em nome de Jesus, faz correr o pai da mentira e do homicídio (Jo 8,44). A alegria dodiscípulo não deve ter por base o poder sobre os espíritos do mal e a derrocada de Satanás (v. 20), mas o fato de Deus o ter escolhido para a comunhão com ele, que significa também o gozo da sonhada e plena pacificação (Is 11,8), ouseja, a comunhão pacífica de todas as criaturas (v. 19).   Enviados em nome de Jesus Frei Almir Guimarães O Senhor escolheu setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. Ouvimos neste domingo o relato do evangelho de Lucas a respeito do envio dos setenta e dois discípulos por parte de Jesus. Tema da missão. Jesus faz uma série de recomendações. Que sejam pessoas simples e atuem com despojamento, não levem muita bagagem, que preparem os caminhos que ele depois percorrerá. Os que são enviados não esqueçam que a tarefa não é simples: são como ovelhas no meio de lobos. A missão haverá de se concretizar, de modo particular, como convite à paz. Como conclusão há essa afirmação de que os nomes dos apóstolos seriam escritos no céu. Vivemos um tempo de insistência no labor da evangelização. Somos discípulos do Mestre amado e seus enviados. Vivemos o tempo do discípulo que se torna espalhador da boa nova. Não se concebe uma Igreja fechada em si mesma. Queremos uma Igreja renovada com discípulos cheios de zelo ao dizerem que são felizes porque abraçaram a Boa Nova do Evangelho. Evangelizar, fazer missão, não quer dizer encher a cabeça das pessoas de ideias, de coisas bonitas, que rezem, que sejam “bonzinhos, obedientes e dóceis” ao que lhes é mandado. Evangelizar é continuar no hoje do mundo a missão de Jesus, que foi enviado pelo Pai para anunciar boas notícias e atingir o nó mais profundo das pessoas. O que é, na verdade, uma boa nova? Conhecemos boas notícias na vida de todo dia: o filho que andava com a marginalidade voltou para o seio da família; os amigos que pareciam ter morrido no mar estão são e salvos; a mulher livrou-se do fantasma de uma doença com os bons resultados do tratamento. O Evangelho é boa notícia. Não é apenas a transmissão de verdades que precisam ser cridas. O Evangelho é uma Pessoa viva, Cristo amado e presente. Evangelizar, anunciar a Boa Nova: ♦ É dizer e fazer com as pessoas compreendam que o Senhor Deus não cabe em nossas elucubrações, nossas ideias e nossas categorias. É bem mais belo e maior do que possamos imaginar. Os santos e os homens retos de coração nos ensinaram que aproximar-se dele no movimento da entrega significa dar claridade e luz à nossa vida. Ele é tudo: o bem, o grande bem, o sumo bem. ♦ Não é policial à espreita de nossas faltas para nos castigar. Ele é fornalha de dom, de amor, de entrega. Viemos dele. Ele nos inventa a cada instante e para ele nos encaminhamos. Nosso destino é o oceano do amor que é Deus enquanto viajamos. William Blake, poeta, diz termos sido “colocados na terra por um pequeno espaço de tempo para podermos aprender a suportar os raios do amor”. ♦ Evangelizar é fazer com que as pessoas possam entrar em contato com a pessoa de Jesus vivo, ressuscitado, presente no meio de nós, atuando em nossas comunidades, falando pela vida e pelos lábios dos que o amam, dos que são verdadeiros anunciadores da paz e da reconciliação. ♦ Evangelizar é tentar tocar o fundo do coração das pessoas para que se voltem para o Senhor, para o louvor de sua glória, para o cuidado amoroso das pessoas, para que recolham no albergue do coração os jogados à beira da estrada, para que extirpem de sua vida e de seu redor todo movimento de inimizade, cobiça, injustiça. Evangelizar é criar um mundo segundo o coração de Deus. Resultado da evangelização é a conversão. ♦ Evangeliza-se pela palavra, palavra sincera, simples, sem pose. Evangeliza-se, no entanto, muito mais pelo testemunho, pelo exemplo do que por documentos e palavras que o vento leva. ♦ Por sua vida familiar decente, correta, bonita as famílias que encontram Cristo evangelizam outras famílias. Religiosos límpidos e transparentes mostram ao mundo que a vale a pena viver o Sermão da Montanha, as admoestações do Senhor para uma vida sem aparatos. Evangelizam os políticos honestos e corretos que defendem a causa dos injustiçados. ♦ Certamente, uma maneira toda especial de evangelizar é por meio de gestos e manifestações de atenção: pensamos aqui no cuidado que podemos desenvolver e muitos de nossos serviços: proximidade de pessoas doentes, encarceradas, crianças soltas, jovens sem referências familiares. ♦ No final desta reflexão tantas perguntas ainda, tantos questionamentos! Nós que pensamos estar evangelizados ainda não conhecemos todo o amor da Boa Nova. Precisamos ser mais permeáveis. Há pessoas que se contentam com um cristianismo de práticas e, sem querer, perderam o veio do Evangelho. De repente, nesse mundo em que vivemos será preciso atingir a pessoas lá onde elas vivem. Como? Como fazer com que a Igreja passe de um grupo contente de ter encontrado o Evangelho para um Igreja em saída como deseja o Papa? ♦ “A primeira coisa que se aprende de Jesus nos evangelhos não é doutrina, mas um estilo de vida: uma maneira de estar na vida, uma forma de habitar o mundo, de interpretá-lo e de construí-lo; uma maneira de tornar a vida mais humana. O característico deste estilo de viver é que ele se inspira em Jesus. Nasce da relação com ele. É-nos transmitido seu Espírito. Aprendemos sua maneira de pensar, sentir, amar, orar, sofrer, confiar e morrer. Pouco a pouco vamos convertendo-nos em “discípulos” e “discípulas” de Jesus” (Ch.Theobald,SJ). Oração Envia-me de novo Pediste minhas mãos, Senhor,porque tinhas para mim uma tarefa;emprestei-as a ti por um momento,mas as retirei quase que imediatamente,porque era duro o trabalho. Pediste meu olhos, Jesus,para ver sofrimentos e pobrezas;fechei-os logo,para não passar mais vergonha. Pediste minha boca, Senhor,para clamar contra a injustiça;dei-te apenas um sussurro,para que ninguém me acusasse de nada. Pediste minha vida,para trabalhar para ti;dei-te apenas uma pequena parte,para não comprometer-me demasiado. Perdoa-me, Senhor,e envia-me de novo,porque agora sim tomarei a sériotua cruz e tua tarefa (Anônimo)   Com meios pobres José Antonio Pagola Muitas vezes entendemos o ato evangelizador de maneira excessivamente doutrinal. Levar o Evangelho seria dar a conhecer a doutrina de Jesus a quem ainda não a conhece ou a conhece de maneira insuficiente. Se entendemos as coisas assim, as consequências são evidentes. Precisaremos, antes de mais nada, de “meios de poder”, para com eles assegurar a propagação de nossa mensagem diante de outras ideologias, modas e correntes de opinião. Além disso, precisaremos de cristãos bem formados, que conheçam bem a doutrina e sejam capazes de transmiti-la de maneira persuasiva e convincente. Precisaremos também de estruturas, técnicas e pedagogias adequadas para propagar a mensagem cristã. Definitivamente, será importante o número de pessoas preparadas que, com os melhores meios, cheguem a convencer o maior número de pessoas. Tudo isto é muito razoável e encerra, sem dúvida, grandes valores. Mas, quando nos aprofundamos um pouco na atuação de Jesus e em sua ação evangelizadora, as coisas mudam bastante. O Evangelho não é só nem sobretudo uma doutrina. O Evangelho é a pessoa de Jesus: a experiência humanizadora, salvadora, libertadora que começou com Ele. Por isso, evangelizar não é só propagar uma doutrina, mas tornar presente, no próprio coração da sociedade e da vida, a força salvadora da pessoa de Jesus Cristo. E isto não se pode fazer de qualquer maneira. Para tornar presente esta experiência libertadora, os meios mais adequados não são os de poder, mas os meios pobres dos quais se serviu o próprio Jesus: amor solidário aos mais abandonados, acolhida a cada pessoa, oferecimento do perdão de Deus, criação de uma comunidade fraterna, defesa dos últimos … Então, o importante é contar com testemunhas em cuja vida se possa perceber a força humanizadora contida na pessoa de Jesus quando é acolhida de maneira responsável. A formação doutrinal é importante, mas só quando alimenta uma vida mais evangélica. O testemunho tem primazia absoluta. As estruturas são necessárias precisamente para apoiar a vida e o testemunho dos seguidores de Jesus. Por isso, o mais importante também não é o número, e sim a qualidade de vida evangélica que uma comunidade pode irradiar. Talvez devamos ouvir com mais atenção as palavras de Jesus a seus enviados: “Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias”. Levai convosco meu Espírito.   “Paz a esta casa” Pe. Johan Konings A liturgia de hoje revive o anúncio da paz no tempo dos profetas e no tempo dos discípulos de Jesus. A 1ª leitura é da terceira parte de Isaías. Os judeus levados ao cativeiro babilônico estão de volta, e sua comunidade recebe, pela boca do profeta, a missão de levar ao mundo inteiro a paz – a harmonia com Deus e com os homens. É essa também a missão que Jesus confia aos setenta e dois discípulos (evangelho). Jesus não contava somente com os doze apóstolos, que representavam as doze tribos e os doze patriarcas, mas também com um grupo mais amplo: setenta e dois, como os anciãos (chefes de família) sobre os quais desceu o Espírito durante a estadia no deserto (cf. Nm 11,24-30). Os setenta e dois representam a assembleia guiada pelo espírito de Deus. Eles têm de sair pelos caminhos e pregar ao povo a chegada do Reino de Deus, anunciando: “Paz a esta casa”, a esta família. E o sinal dessa paz são os fatos extraordinários que os acompanham: curas, expulsões de demônios … A “paz”, que se pode traduzir também “felicidade”, na Bíblia, não é apenas o silêncio das armas, sobretudo a harmonia com Deus e com todos os seus filhos: o bem-estar conforme o plano de Deus. É a síntese de todo o bem que se pode esperar de Deus; por isso, vai de par com o anúncio de seu Reino. Essa paz não cai como um pacote do céu, nem se faz em um só dia. É uma realidade histórica. É fruto da justiça (Hb 12,11; Tg 3,18). A paz cresce em meio às vicissitudes da história humana, em meio às contradições. Mas a fé que fixa os olhos na paz que vem de Deus nos orienta em meio a todos os desvios. Anunciar a paz ao mundo, apesar de todos os desvios, é como as correções de rota que um avião continuamente tem de executar para não se desviar definitivamente. Jesus manda seus discípulos com a mensagem da paz, para que o mundo se anime a continuar procurando o caminho do Reino. Concretamente, anunciar a paz de Cristo acontece não só por palavras, mas por atos. Não basta falar da paz, mas é preciso mostrar em que ela consiste, realizando atos exemplares. É preciso, também, construí-la aos poucos, pacientemente, pedra após pedra, implantando passo a passo novas estruturas, que eliminem as que são contrárias à paz. Muitas pessoas entendem paz como “deixar tudo em paz”. Mas a paz não é tão pacifica assim! Por isso Jesus manda anunciar a paz como algo que vem juntamente com o Reino de Deus. Devemos transformar aos poucos o mundo para que este anúncio não fique uma palavra vazia. Todas as meditações estão disponíveis originalmente em: franciscanos.org.br

PARÓQUIA SÃO SEBASTIÃO REALIZA FÓRUM DE JUVENTUDE

Juventude se organiza em prol da educação e geração de renda e cria associação No último domingo, realizou-se no Salão Paroquial da sede do município, o Fórum de Juventude Católica, organizado pela Pastoral da Juventude da Paróquia São Sebastião. Na oportunidade, foi debatido o panorama municipal acerca das políticas públicas para a juventude, onde houve destaque na educação, lazer, saúde e política. A Pastoral da Juventude tem como base a Campanha da Fraternidade de 2019, que fala sobre as políticas públicas e vem realizando desde de sua Assembleia de Juventude, realizada no dia 02 de março na comunidade de Vila Socorro, a preocupação com a juventude, onde estão ocorrendo a saída de jovens do município para outros estados em busca de emprego e consequentemente enfraquecendo os grupos de base da sede e do interior do município. A Proposta do Fórum foi de ouvir a juventude acerca de sua demanda e lançar a criação de uma Associação, que irá oferecer cursos de capacitação, principalmente em atividades relacionadas à economia do município e consequentemente ajudar na produção agrícola com intuito que gere renda aos associados. Durante a manhã, foi feito a palestra magna com o jovem Bruno Lima, da Cáritas do Brasil, apresentando o benefício de ser protagonista juvenil, seguindo com a apresentação da proposta do fórum e debates sobre as demandas dos jovens do município, presidida pelo Professor Felipe Santos. O período da tarde se iniciou com a leitura do regimento da associação e aprovação da plenária, presidido pelo Senhor Allen Santos e apresentação da diretoria da Associação da Juventude Católica. Após o momento, houve a composição da mesa redonda com o Eng. Benedito Dutra Souza (FAEPA/SENAR), Prefeito Zezinho Costa, Felipe Santos (Presidente da Associação de Juventude Católica) e o Pároco Calos Afonso. O Eng. Dutra parabenizou o Pároco Calos Afonso pela criação da Associação e se mostrou solícito em auxiliar em cursos e insumos agrícolas; o Prefeito Zezinho Costa parabenizou a iniciativa e se propôs em ajudar no que fosse preciso para estruturação da Associação e reiterou que Tracuateua precisa de atitudes independentes como essas. Paróquia São Sebastião – Paróquia São Sebastião TEXTO: PROF. FELIPE SANTOS

Catequese da Catedral realizou encontros de formação para catequistas do interior

No último sábado, 29 de junho, a coordenação paroquial da catequese da Paróquia da Catedral completou os encontros de formação que realizou no mês de junho, para os catequistas das comunidades do interior. Os momentos formativos foram realizados nas quatro regiões em que a Paróquia Catedral Nossa Senhora do Rosário está dividida. O tema que a coordenação escolheu para trabalhar nos quatro momentos formativos foi "a missão e o compromisso do catequista". O primeiro encontro foi realizado na Região Nossa Nossa Senhora da Conceição, no dia 08 de junho pela manhã. A Comunidade que sediou esse momento foi Nossa Senhora das Graças - Cururutua. Momento de formação na Comunidade Cururutua/ Foto: Catequese Catedral   Idem / Foto: Catequese Catedral   O segundo encontro foi realizado na Região São Pedro, na tarde do dia 15 de junho. A comunidade que sediou esse momento foi São Domingos de Gusmão - São Domingos. Catequistas mostram como trabalham a catequese em suas comunidades/ Foto: Catequese Catedral   Momento realizado no salão da comunidade São Domingos/ Foto: Catequese Catedral   O terceiro encontro foi realizado na Região Santa Teresinha, e ocorreu na manhã do dia 22 de junho. A comunidade que sediou o encontro  foi Santo Antonio - Cearazinho. Presença de Pe. Mayro na formação no Cearazinho/ Foto: Catequese Catedral   Momento foi realizado na Capela Santo Antonio/ Foto: Catequese Catedral   E no sábado passado, 29 de junho pela manhã, na Comunidade Sagrado Coração de Jesus - Vila dos Lucas, foi realizado o quarto último dos encontros para os catequistas do interior. Este último foi na Região São Sebastião. Houve a participação de quase 50 catequistas. Momento realizado no dia 29 de junho na Vila dos Lucas/ Foto: Catequese Catedral   Idem/ Foto: Catequese Catedral Idem/ Foto: Catequese Catedral Nos encontros, além da apresentação do tema proposto, foi dado oportunidade para que os catequistas falassem de suas experiências e dificuldades encontradas na caminhada catequética. E mais do que registrar as dificuldades, foi muito gratificante e inspirador ver e registrar o trabalho que esses nossos irmãos realizam em suas comunidades. Por Diocese de Bragança

Solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo

Pedro e Paulo: propostas vivas para a Igreja atual Frei Gustavo Medella “Naqueles dias, o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro” ( At 12, 1-3). Mais de 2000 mil anos se passaram e ainda hoje se faz necessário um profundo discernimento para não cairmos nas armadilhas dos “Herodes atuais”, que não lançam mão dos mecanismos da lei para promover a justiça, mas para agradar alguns. Os apóstolos souberam se posicionar com coragem, convictos de que a força de Deus estava com eles. Por isso, não se abateram diante das lutas e perseguições, mas mantiveram-se firmes no propósito de levar adiante a verdade do Evangelho, sempre incômoda para quem se beneficia da desigualdade e da exploração. Nesta seara adquirem destaque Pedro e Paulo. Personalidades, histórias e estilos diferentes que souberam convergir suas melhores forças para aquilo que os unia: o seguimento de Jesus Cristo. Fidelíssimos ao Mestre, esforçaram-se ao máximo por imitá-lo na vida e na morte. Pedro e Paulo atualizam uma proposta de Igreja capaz de responder ainda hoje as muitas questões que nascem no seio de uma sociedade dinâmica, diversa, complexa e plural. O desejo sincero e transparente de seguir Jesus Cristo pode e deve ser um ponto de encontro fecundo e consistente capaz de unir na mesma causa pessoas profundamente distintas mas que se reconhecem pelo vínculo divino como irmãos e irmãs. Que São Pedro e São Paulo nos ajudem, hoje e sempre, a sermos cada vez mais uma Igreja da abertura e do diálogo.   São Pedro e São Paulo, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias da fé”. Primeira leitura: At 12,1-11 Agora sei que o Senhor enviou o seu santo anjo para e libertar do poder de Herodes.  Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Durante a última ceia Jesus prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jurava fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes. Mas Jesus rezou por Pedro: “… eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros” (Evangelho). O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos dos Apóstolos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e o rei Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas Pedro é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, a fim de continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. No Evangelho e nos Atos dos Apóstolos Lucas deixa claro que, pela força do Espírito Santo, a Boa-Nova da Salvação não pode ficar acorrentada. Por isso, Pedro é libertado porque “enquanto ele era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5). O Papa Francisco pede que rezemos com ele, para que Deus o livre de possíveis ameaças, de dentro e de fora da Igreja, e tenha as luzes do Espírito Santo para cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã. O Papa Francisco nos pede ainda mais. Pede também que sejamos uma Igreja em saída, livre das cadeias que nos prendem a nossos medos e temores (Salmo responsorial). Livres, para viver e anunciar o Evangelho nos dias de hoje. Salmo responsorial: Sl 31 De todos os temores me livrou o Senhor Deus. Segunda leitura: 2Tm 4,6-8.17-18 Agora está reservada para mim a coroa da justiça. São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”. Aclamação ao Evangelho   Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;             E as portas do inferno não irão derrotá-la. Evangelho: Mt 16,13-19 Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus. Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhes pergunta: “Quem dizeis que eu sou”? É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes… Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu. Previu que Pedro o negaria três vezes, mas prometeu rezar- por ele, pedindo que, por sua vez, confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu.   Confissão perfeita Frei Clarêncio Neotti O Evangelho da Missa conta a célebre perícope, que os exegetas chamam de ‘petrina’, de Mateus 16, em que se harmonizam dois fatos: a confissão de fé de Pedro e a promessa de Jesus para seu futuro. A confissão de Pedro vem narrada pelos três Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), mas a promessa de Jesus sobre o primado é específica e exclusiva de Mateus. Por isso, alguns estudiosos, sobretudo protestantes, quiseram ver nela um acréscimo posterior. A Igreja sempre encontrou na promessa o fundamento do primado de Pedro e sempre foi clara em sua afirmação. Em Mateus, a profissão de fé de Pedro é mais ampla e mais completa do que nas versões de Marcos e Lucas. Em Marcos, Pedro diz: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29). Segundo Lucas, Pedro confessa: “Tu és o Cristo de Deus” (Lc 9,20). Na confissão segundo Mateus, Pedro consegue resumir a verdadeira identidade de Jesus, em forma luminosa e perfeita: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente” (v. 16). Não apenas reconhece em Jesus o Messias, como também nele vê o Filho de Deus.   Chispas e lampejos do Papa Francisco Frei Almir Guimarães Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja Celebramos com muita alegria a memória de Pedro e Paulo, dois baluartes de nossa Igreja. Impulsionados pela força do alto os dois chegaram até Roma: Pedro o primeiro bispo de Roma e pastor da Igreja universal; Paulo, o andarilho, o lutador, o corajoso empreendedor, o inflamado. O Prefácio desta solenidade faz uma solene declaração a respeito das duas colunas: “ Hoje (Pai santo), vós nos concedeis a alegria de festejar os apóstolos São Pedro e São Paulo. Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o Evangelho da Salvação”. A Igreja vai fazendo seu caminho ao longo dos milênios, santa e imaculada, mas sempre precisando que seus membros, santos e pecadores, se animem e tomem gosto pelo projeto de Jesus. Neste dia do Papa, queremos enriquecer este momento com palavras do próprio Papa Francisco a quem aprendemos a estimar com filial afeto: ♦ A medida de Deus… é sem medida O Papa conversa sobre o amor, mas o amor a todo e um amor sem medida. Qual é a medida de Deus? Sem medida! A medida de Deus é sem medida! Tudo! Tudo! Tudo! Não pode ser medido o amor de Deus: é sem medida! E então nos tornamos capazes de amar até aqueles que não nos amam, e isso não é fácil… amar a quem não nos ama… Não é fácil! Porque sabemos que uma pessoa não nos ama também somos levados a não amar. Mas não! Devemos amar também aqueles que não nos amam! Opormo-nos ao mal com o bem, perdoando, compartilhando, acolhendo. Graças a Jesus e seu Espírito, também a nossa vida se torna “pão repartido” para nossos irmãos. E vivendo dessa maneira, descobrimos a verdadeira alegria. Alegria de ser um presente, para retribuir o grande dom que nós, primeiramente, recebemos, sem merecimento nosso. Isso é belo: nossa vida se torna um presente! Isto é imitar Jesus, eu gostaria de lembrar estas duas coisas: Primeiro: a medida do amor de Deus é sem medida. Isso está claro? E a nossa vida com o amor de Jesus, recebendo a Eucaristia, se torna um dom como foi a vida de Jesus. Não se esqueça destas duas coisas: a medida do amor de Deus é amar sem medida. E seguindo Jesus, nós, com a Eucaristia, façamos de nossa vida um presente. Angelus, 22 de junho de 2014 ♦ Reze com sua família Que beleza quando os membros de uma família colocam-se juntos diante de Deus. O Papa sugere e deseja que as famílias rezem no sacrossanto espaço do lar. Vocês costumam rezar em família? Alguns sim, eu sei. Mas muitos me dizem: Como se faz isso? Faz-se como fez o publicano, é claro, humildemente, diante de Deus. Cada um, humildemente, se coloca diante do Senhor e lhe pede sua bondade, que ele venha até nós. Mas, em família, como se faz? Porque parece que a oração é algo pessoal e, além disso, nunca se tem um momento adequado, tranquilo em família… Sim, é verdade mas é também questão de humildade, de reconhecer que precisamos de Deus, como o publicano! E todas as famílias têm necessidade de Deus: Todas! Necessidade de sua ajuda, de sua força, de sua bênção, de sua misericórdia, de seu perdão! É preciso simplicidade para rezar em família. Rezar juntos o Pai-nosso ao redor da mesa não é algo extraordinário, é fácil . Rezar o rosário em família, é muito bonito, fortalece tanto. E também rezar um pelo outro, o marido pela mulher e a mulher pelo marido, ambos juntos pelos filhos e dos filhos pelos pais, pelos avós… Rezar um pelo outro: isso é rezar em família, e isso fortalece a família, a oração (Homilia, 27 de outubro de 2013). • A Igreja que eu amo Sim, a Igreja é para ser amada. Ela é esposa do cordeiro. Ela nasceu do lado aberto de Jesus e no fogo de Pentecostes.Queridos amigos, esta é a Igreja, esta é a Igreja que todos nós amamos, esta é a Igreja que eu amo: uma mãe que se importa com o bem de seus filhos e que é capaz de dar a vida por eles. Nos não devemos esquecer, porém, que a Igreja não são apenas os sacerdotes ou nos bispos; somos todos! Todos somos a Igreja! Tudo bem? Além disse, nós também somos filhos, mas também mães de outros cristãos. Todos os batizados, homens e mulheres, juntos somos a Igreja. Quantas vezes, em nossa vida não damos testemunho dessa maternidade da Igreja’! Quantas vezes somos covardes! (Audiência geral, 3 de setembro de 2014).   Nossa imagem de Jesus José Antonio Pagola A pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” continua pedindo ainda uma resposta aos crentes do nosso tempo. Nem todos temos a mesma imagem de Jesus. E isto não só pelo caráter inesgotável de sua personalidade, mas, sobretudo, porque cada um de nós vai elaborando sua imagem de Jesus a partir de seus interesses e preocupações, condicionado por sua psicologia pessoal e pelo meio social ao qual pertence, e marcado pela formação religiosa que recebeu. E, não obstante, a imagem que nos fazemos de Cristo tem importância decisiva para nossa vida, pois condiciona nossa maneira de entender e viver a fé. Uma imagem empobrecida, unilateral, parcial ou falsa de Jesus nos conduzirá a uma vivência empobrecida, unilateral, parcial ou falsa da fé. Daí a importância de evitar possíveis deformações de nossa visão de Jesus e de purificar nossa adesão a Ele. Por outro lado, é pura ilusão pensar que alguém crê em Jesus Cristo porque “crê” em um dogma, ou porque está disposto a crer “no que a Santa Madre Igreja crê”. Na realidade, cada crente crê no que ele crê, isto é, no que pessoalmente vai descobrindo em seu seguimento a Jesus Cristo, ainda que, naturalmente, o faça dentro da comunidade cristã. Infelizmente, não são poucos os cristãos que entendem e vivem sua religião de tal maneira que, provavelmente, nunca poderão ter uma experiência um pouco viva do que é encontrar-se pessoalmente com Cristo. Já numa época bem cedo de sua vida se fizeram uma ideia infantil de Jesus, quando talvez ainda não se tinham feito, com suficiente lucidez, as questões e perguntas que Cristo pode responder. Mais tarde não voltaram mais a repensar sua fé em Jesus Cristo, ou porque a consideram algo trivial e sem importância para sua vida, ou porque não se atrevem a examiná-la com seriedade e rigor, ou ainda porque se contentam em conservá-la de maneira indiferente e apática, sem eco algum em seu ser. Infelizmente, não suspeitam o que Jesus poderia ser para eles. Marcel Légaut escrevia esta frase dura, mas talvez bem real: “Esses cristãos ignoram quem é Jesus e estão condenados por sua própria religião a não descobri-lo jamais”.   O Papa, o missionário e a comunidade Pe. Johan Konings Popularmente, a festa de hoje é chamada o Dia do Papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que ao lado de Pedro é celebrado também Paulo, o Apóstolo, ou seja, missionário, por excelência. No evangelho, o apóstolo Simão responde pela fé de seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro. Este nome é uma vocação: Simão deve ser a “pedra”(rocha) que deve dar solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc 22,32). Esta “nomeação”vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do reino “dos Céus” (= de Deus). A 1ª leitura ilustra essa promessa: Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Pedro aparece, assim, como o fundamento institucional da Igreja. Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, ele se transforma em apóstolo e realiza, mais do que os outros apóstolos inclusive, a missão que Cristo lhes deixou, de serem suas testemunhas até os extremos da terra (At 1,8). Apóstolo dos pagãos, Paulo torna realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A 2ª leitura é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha que ser ouvida por todas as nações (v. 17). Não esconder a luz de Cristo para ninguém! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, cambaleando entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Neste contexto, o apóstolo anunciou o Cristo Crucificado como sendo a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pode dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé/fidelidade”, a sua e a dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo – o bom pastor – não deixa as ovelhas se perderem, assim também o apóstolo – o enviado de Cristo – conserva-lhes a fidelidade. Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementariedade dos carismas de Pedro e Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia “romana”versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é monopólio dos “pastores constituídos”como tais, a hierarquia. Todos fiéis são um pouco pastores uns para com os outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”. E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, uma luta pela justiça e a verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião; por outro, a tentação de largar tudo e de dizer que a religião é um obstáculo para a libertação. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo fiéis a ele; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar. Reflexões disponíveis originalmente em: franciscanos.org.br

12º Domingo do Tempo Comum

Uma resposta dada mais com as ações do que com as palavras Frei Gustavo Medella “Senhor, quem sois vós? E quem sou eu?” São Francisco trazia esta pergunta no coração como um refrão orante sempre repetido a partir de dentro. O santo sabia que a resposta a estas indagações brotaria no mais profundo do seu coração e que seria uma construção a ser erguida dia após dia, “pedra por pedra”. Tinha convicção de que respondê-la não era questão apenas do uso acertado de palavras, mas de uma postura a ser cultivada na perseverança, a ponto de conformá-lo cada vez mais ao Senhor. Dirigindo-se a seus seguidores mais próximos, perguntando primeiro “Quem dizem os homens que eu sou?”, e, sem seguida, “E vós, quem dizeis que eu sou?”, certamente Jesus não pretendia fazer uma sondagem sobre sua popularidade como se estivesse preocupado com o que os outros estariam pensando sobre ele. Também não parece que o Mestre desejasse promover uma prova oral a fim de conceder uma nota de 0 a 10 para compor o ranking de seus melhores alunos. O foco da pergunta não era Jesus, mas os discípulos. Seu desejo, tudo indica, era chamar a atenção deles sobre a natureza processual do discipulado, realidade diante da qual as possíveis respostas precisam ser revisadas no decorrer da caminhada. Nesta direção, torna-se muito inspiradora uma prece que faz parte da Oração das Vésperas da Liturgia das Horas, que diz assim: “Fazei com que todos aqueles que se dedicam à busca da verdade possam encontrá-la, – e, encontrando-a, se esforcem por buscá-la sempre mais”. Mais uma vez recorrendo à sabedoria franciscana, deste 12º Domingo do Tempo Comum, podemos levar como lição a frase proferida pelo Seráfico Pai a seus confrades pouco antes de sua partida deste mundo: “Irmãos, comecemos, porque até agora pouco ou nada fizemos”.   12º Domingo do Tempo Comum, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor”. Primeira leitura: Zc 12,10-11; 13,1 Contemplarão aquele a quem transpassaram. A primeira leitura começa com uma promessa à casa real de Davi e aos habitantes de Jerusalém. Trata-se da promessa do nascimento de um filho, descendente da família do rei Davi que, no futuro, ocupará o trono real: Deus derramará um espírito de graça e oração/súplica, de modo que a casa de Davi e o povo voltarão seu olhar suplicante para Deus. Surge logo a figura misteriosa de alguém ferido de morte, o “traspassado”. O espírito de graça e de súplica será seguido de pranto pelo que foi por eles ferido de morte. Haverá por ele um lamento como se fosse por um filho único. Por fim, promete-se à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém que no futuro haverá uma fonte acessível para a purificação. Para Isaías Deus é a fonte de vida e salvação: “Tirareis água das fontes de salvação” (Is 12,3). Jeremias acusa os habitantes de Jerusalém de abandonarem ao Senhor, “a fonte de água viva” (Jr 17,13). Ezequiel promete que Deus derramará água viva e o povo será purificado (36,25). Esta água viva brotará debaixo do Templo (47,1). Para João, nascer da água e do Espírito Santo é condição para entrar no Reino de Deus (3,5; 4,1). E Jesus diz para a Samaritana: “Quem beber da água que eu lhe der jamais terá sede. A água que eu lhe der será nele uma fonte que jorra para a vida eterna” (4,14). Muitos profetas que, no passado, falaram em nome de Deus foram rejeitados e assassinados. Por fim, Deus quis manifestar seu amor em Jesus de Nazaré, Filho de Deus (Evangelho), que também foi “traspassado” pela lança, quando pendia morto da cruz e de seu lado aberto saía sangue e água (Jo 19,34-37). Paulo identifica a rocha da qual Moisés fez sair água no deserto com o próprio Cristo. A água purificadora nos lembra o batismo e nossa vida em Cristo (2ª leitura). Salmo responsorial: Sl 62 A minh’alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água. Segunda leitura: Gl 3,26-29 Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. Paulo nos lembra a essência da vida cristã. Pela fé em Jesus Cristo nos tornamos filhos de Deus. Ser batizado em Cristo – diz ele – é revestir-se de Cristo (veste branca do batismo). Isto é, assumir a vida de Cristo como norma de nossa própria vida cristã. O que Paulo escreve também vive: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Por isso, pelo batismo e pela fé em Cristo – diz Paulo – nos tornamos um só em Jesus Cristo e assim acabam as divisões, judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher. Aclamação ao Evangelho: Jo 10,27                 Minhas ovelhas escutam minha voz, minha voz elas estão a escutar.                 Eu conheço, então, minhas ovelhas, que me seguem comigo a caminhar. Evangelho: Lc 9,18-24 Tu és o Cristo de Deus. O Filho do Homem deve sofrer muito. O Evangelho que acabamos de ouvir é do evangelista Lucas. Antes deste texto, Lucas conta o milagre da divisão dos cinco pães e dois peixes para cinco mil pessoas. Depois disso, Jesus se retira com os discípulos para orar, como costumava fazer, especialmente antes de tomar decisões importantes. Na intimidade com Deus, Jesus certamente se questionava qual era a vontade do Pai a respeito de sua missão. A pregação e os milagres que Jesus fazia levavam também o povo a se perguntar quem era este homem de Nazaré. O próprio Herodes dizia que era João Batista, o profeta que ele mandou executar, que teria ressuscitado dos mortos; outros diziam que era Elias, cuja volta era esperada antes da vinda do Messias; outros ainda, que era um dos profetas que ressuscitou (cf. Lc 9,7-9). Neste clima, também Jesus pergunta aos discípulos: “quem as multidões dizem que eu sou”? A resposta dos discípulos confirma o que se dizia entre o povo a respeito de Jesus. Quando Jesus pergunta “e vós quem dizeis que eu sou”? – Pedro responde: “O Cristo de Deus”, isto é, o Messias, o Ungido do Senhor, prometido no passado e que agora Deus estava enviando. Jesus, porém, proíbe aos discípulos de falar disso ao povo, porque havia diferentes expectativas do Messias/Cristo. A partir de então Jesus começa a esclarecer aos discípulos que Ele era o Messias, Servo do Senhor. É muito provável que Pedro, os discípulos e muita gente do povo pensavam num Messias que iria tomar o poder em Jerusalém, expulsar os romanos e reformar o culto no Templo. Até mesmo antes da ascensão de Jesus ao céu alguns discípulos ainda perguntavam: “Senhor, é agora que vais restabelecer o reino de Israel”? Na Última Ceia Jesus diz aos discípulos: “Vós sois os que permanecestes comigo nas minhas tentações” (Lc 22,28). Não foram apenas as “tentações” no deserto. O próprio Pedro foi um dos tentadores que tentava desviar Jesus de seu propósito de ser o Messias Servo Sofredor, que deu a vida por nós (cf. Mt 16,21-23). Para falar de sua missão, Jesus se apresenta como o “Filho do Homem”, alguém que assumiu nossa condição humana de limitação e sofrimento, esquecendo sua condição divina (cf. Fl 2,5-11): “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. Quem viveu assim pode dizer, em seguida, a todos (a nós também): “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-me”. Quem deu a sua vida por nós também pode dizer a nós que o seguimos: “Quem perder a sua vida por mim, esse a salvará”. Seguir a Jesus Cristo, renunciar-se a si mesmo e tomar a cruz de cada dia, – a nossa e a de nossos irmãos a quem servimos – é perder sua vida para salvar a dos irmãos. – João expressa a mesma mensagem com outras palavras: “Na verdade eu vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24). Que tipo de Cristo nós seguimos? Não podemos seguir o Cristo glorioso que triunfou sobre a morte, sem abraçar o caminho do Cristo Servo Sofredor. Logo mais, na consagração, ouviremos as palavras: “Fazei isto em memória de mim”. Não é apenas ordem de celebrar a Eucaristia, mas também o que Jesus fez em sua vida, até à morte na Cruz.   Cristo: ungido de Deus Frei Clarêncio Neotti Na verdade, seu comportamento era o de um profeta, enviado de Deus, cercado de mistério, que falava da presença de Deus entre os homens e da conversão do coração ao Criador. Comparavam-no a Elias, que vivera 800 anos antes e cuja memória permanecia por causa de seu empenho em levar o povo de volta ao verdadeiro Deus. Jesus manifestava muitas qualidades de Elias e tinha semelhanças com João Batista. Não fosse o Batista ou Elias retornado do céu, certamente seria alguém com a têmpera e a força dos antigos profetas (v. 19). Os Apóstolos, que conviviam com ele, sabiam que ele era homem como eles, mas envolto em mistério. E o mistério tinha a ver com o divino. Todos conheciam sua família (Me 6,3), mas sua palavra era maior que a doutrina dos rabinos (Jo 7,16). Pedro expressou o que eles pensavam: era o Cristo, o enviado de Deus. Mas eles ainda pensavam num Cristo restaurador do Reino de Davi (At 1,6). Era preciso que eles se convencessem de que o Cristo, o ungido de Deus, viera para restaurar a integridade das criaturas, manchadas e fragmentadas pelo pecado. Era o “Cordeiro de Deus que viera tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29) e cumpriria essa missão, deixando-se pregar numa cruz. Sua morte, longe de ser um fim, tornar-se-ia fonte de graça. Era a luz do mundo (Jo 9,12), o Filho de Deus vivo (Mt 16,16) com poder de dar a vida divina a quantos nele acreditassem (Ja 3,36).   Voltar a Jesus de verdade Frei Almir Guimarães Jesus, Jesus Cristo! Quanto se fala dele! Quantas vezes pronunciamos esse nome!!! Sua cruz está suspensa em paredes, suas imagens presentes em muitos espaços, suas palavras ainda repetidas. Mas quem é ele, de fato, para cada um de nós e para esse mundo do século XXI?  Muitos ficam com ele, mas não querem a religião.Lá se foi uma cristandade, um tempo em que estava sempre presente, nem sempre corretamente presente. Talvez muitos tenhamo-nos acostumado com ele, ele que não admite “acostumações”. Jesus tem como marca registrada inquietar os que dele se aproximam. Pode ser que ao longo dos tempos e dos séculos fomos nos construindo caricaturas do Cristo. Impossível pintar seu retrato numa tela.  Faltam-nos as melhores cores. Talvez não tenhamos acertado a receita para o encontro com ele. Quem é ele, afinal de contas? ♦  Antes de tudo devemos dizer que ele vive. Não mais esse gênero de existência que vivemos. Esse que veio o Mistério da Trindade, da comunhão eterna de amor entre o Pai, o Verbo e o Sopro, esse que ganhou corpo, braços, pernas, voz, olhos, veio até nós revestido da fragilidade e das promessas de menininho deitado nas palhas. Terminou seus dias morrendo de amor no alto do madeiro.  Veio do Mistério, falou-nos do Mistério. Morreu. Ressuscitou. Vive. Faz-se  presente na história da humanidade.  Cremos  que ele vive. ♦ A primeira e basilar afirmação é esta: Ele vive, de uma vida nova, ele mesmo com seu corpo, diferente é verdade, junto do Pai e perto de nós com sua insinuante presença na Palavra, nos símbolos dos sacramentos e seus segredos, nos espaço de amor sem limites e no rosto  dos mais sofridos. ♦  Ele veio como Mestre. Quer discípulos. Convocou ontem e convoca hoje pessoas para seu seguimento. Pessoas que vão, aos poucos, configurando seu semblante  com os traços de um Mestre que buscam e amam. Vive a nos dizer: “Vinde e vede”. ♦ Insinua-se me nossas vidas de várias maneiras e modos: uma parábola que mexe com nossas entranhas, nas cruzes que podem se elevar diante de nós, no convite a que sejamos construtores de um mundo diferente, mundo de justiça de atenção para o que frágil, que tentemos custe o custar não deixar  as pessoas jogadas à beira do caminho. ♦ Ele é pão, luz, pastor, caminho, verdade e nos leva ao modo diferente de viver que se chama conversão: o amargo pode ser doce. Quer que nos desvencilhemos de nós mesmos. Ele nos convoca, nos chama. Quer que adotemos um certo estilo de viver: ♦ “Para entrar pelo caminho aberto por  Jesus é necessário entender muito bem  que os evangelhos são relatos de conversão. Foram escritos para produzir  fé em Jesus Cristo, para suscitar discípulos e seguidores. São relatos que convidam a entrar num processo de mutação, de mudança de identidade, de seguimento de Jesus, de identificação com sua causa, de colaboração com seu projeto do reino de Deus. Nesta atitude de conversão é que os evangelhos devem ser lidos, meditados, compartilhados, acolhidos e transmitido nos grupos.  A primeira coisa que se aprende de Jesus nos evangelhos não é uma doutrina, mas um estilo de vida: uma maneira de estar na vida, uma forma de habitar o mundo, de interpreta-lo, de construí-lo; uma maneira de tornar a vida mais humana. O característico deste estilo de viver é que ele se inspira em Jesus. Nasce da relação com ele. É-nos transmitido seu Espirito. Aprendemos sua maneira de pensar, sentir, amar, orar, sofrer, criar, confiar e morrer. Pouco a pouco vamos convertendo-nos em discípulos e discípulas de Jesus” (Pagola, Voltar a Jesus,  Vozes, p. 65). Oração Senhor, Tu és nossa luz.Senhor, Tu és a verdade.Senhor, Tu és a nossa paz.Querendo acompanhar-nos te fizeste peregrino;compartilhas nossa vida, nos mostras o caminho.Não basta rezar a ti,dizendo que te amamos;devemos imitar-te,amar-te nos irmãos.Tu pedes que tenhamos  humilde confiança;Teu amor saberá encher-nos de vida e esperança.   O que fizemos de Jesus?  José Antonio Pagola ÀS vezes é perigoso sentir-se cristão “por toda a vida”, porque corremos o risco de não revisar nunca nossa fé e não entender que, definitivamente, a vida cristã não é senão um contínuo processo de passar da incredulidade para a fé no Deus vivo de Jesus Cristo. Muitas vezes acreditamos ter uma fé inabalável em Jesus, porque o temos perfeitamente definido com fórmulas precisas, e não nos damos conta de que, na vida diária, o estamos desfigurando continuamente com nossos interesses e covardias. Confessamo-lo abertamente como Deus e Senhor nosso, mas às vezes Ele não significa quase nada nas atitudes que inspiram nossa vida. Por isso, é bom ouvir sinceramente sua pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Na realidade, quem é Jesus para nós? Que lugar ocupa Ele em nossa vida diária? Quando, em momentos de verdadeira graça, alguém se aproxima sinceramente do Jesus do Evangelho, encontra-se com alguém vivo e palpitante. Alguém que não é possível esquecer. Alguém que continua atraindo-nos apesar de nossas covardias e mediocridade. Jesus, “o Messias de Deus”, nos coloca diante de nossa última verdade e se transforma, para cada um de nós, em convite prazeroso à mudança, à conversão constante, à busca humilde, mas apaixonada, de um mundo melhor para todos. Jesus é perigoso. Nele descobrimos uma entrega incondicional aos necessitados, entrega esta que põe a descoberto nosso radical egoísmo. Uma paixão pela justiça que sacode nossas seguranças, covardias e servidões. Uma fé no Pai que nos convida a sair de nossa incredulidade e desconfiança. Jesus é a coisa maior que nós cristãos temos. Ele infunde outro sentido e abre outro horizonte à nossa vida. Ele nos transmite outra lucidez e outra generosidade. Ele nos comunica outro amor e outra liberdade. Ele é nossa esperança.   Em Cristo, todos são iguais Pe. Johan Konings Todo mundo sabe que existem distinções e, muitas vezes, discriminações no tratamento social. O que fazemos com isso na Igreja, na comunidade de Cristo? Paulo, na 2ª leitura, anuncia a igualdade de todos no sistema do “Senhor Jesus”. Acabou o regime da lei judaica, que considerava o ser judeu um privilégio, por causa da antiga Aliança com Abraão e Moisés. A crucificação de Jesus, em nome desse regime antigo (cf. evangelho), marcou a chegada de um regime novo. Simplesmente observar a lei de Moisés já não é salvação para quem conhece Jesus, para quem sabe o que ele pregou e como ele deu sua vida por sua nova mensagem e por aqueles que nela acreditassem. Estes constituem o povo da Nova Aliança. São todos iguais para Deus, como filhos queridos e irmãos de Jesus – filhos com o Filho e co-herdeiros de seu Reino, continuadores do projeto que ele iniciou. Neste novo sistema não importa ser judeu ou não-judeu, escravo ou livre, homem ou mulher (branco ou negro, patrão ou operário, rico ou pobre). Mesmo não tendo chances iguais em termos de competição econômica e ascensão social, todos têm chances iguais no amor de Deus. Ora, este amor deve encarnar-se na comunidade inspirada pelo evangelho de Jesus, eliminando desigualdade e discriminação. Provocada pelas diferenças econômicas, sociais, culturais etc., a comunidade que está “em Cristo” testemunhará igual e indiscriminado carinho e fraternidade a todos, antecipando a plenitude da “paz” celeste para todos os destinatários do amor do Pai. Programa impossível, utopia? Talvez seja. Mas nem por isso podemos desistir dele, pois é a certeza que nos conduz! Na “caridade em Cristo”, o capital já não servirá para uma classe dominar a outra, mas para estar à disposição de todos que trabalham e produzem. A influência e o saber estarão a serviço do povo. O marido não terá mais “liberdades” que a mulher, mas competirá com ela no carinho e dedicação. É preciso perder sua vida para a encontrar (evangelho). Quem se apega aos seus privilégios não vai encontrar a vida em Cristo. Só quem coloca suas vantagens a serviço poderá participar da vida igual à de Cristo, na comunidade dos irmãos. Todas as meditações foram tiradas do site: franciscanos.org.br

Corpus Christi reuniu milhares de pessoas em Bragança

Na manhã de ontem, 20 de junho, foi realizada a procissão de Corpus Christi na sede da Diocese de Bragança. A mesma reuniu cerca de 7 mil pessoas, de acordo com estimativas das paróquias que realizaram a festa. O belíssimo tapete de aproximadamente 1,5 km foi confeccionado especialmente para a passagem de Jesus na Eucaristia. Claro que o tapete dá um brilho todo especial a esta festa em homenagem a Jesus Eucarístico. O mesmo foi confeccionado por vários grupos e pastorais das quatro paróquias de Bragança. Procissão em Bragança/ Foto: Márcio Borges A belíssima festa foi iniciada com a Santa Missa na praça do Santuário do Perpétuo Socorro. A Eucaristia foi presidida pelo bispo diocesano Dom Jesus Maria, e concelebrada por vários padres da cidade. Após a Santa Missa a procissão seguiu pela avenida Nazeazeno Ferreira até chegar ao Ginásio de Esportes Dom Eliseu, no centro de Bragança, encerrando com um de celebração e adoração ao Corpo de Cristo. O ginásio ficou lotado. A Festa de Corpus Christi envolvendo as quatro paróquias de Bragança ao mesmo tempo, teve início em 2018, com a chegada do Pe. Elias como pároco da Catedral. Tivemos registros fotográficos da festa em mais duas paróquias da Diocese de Bragança do Pará: Garrafão do Norte e Ulianópolis. Procissão em Garrafão do Norte/ Foto: Divulgação   Chegada da procissão na Matriz de Ulianópolis/ Foto: Jr. Miranda Por Diocese de Bragança Com informações e imagens do site sbtbraganca.com.br

Hospital das Bem-Aventuranças, em Viseu, completa 19 anos

Entrada principal do HBA/ Foto: Internet Na manhã de 18 de junho, na Capela do Hospital das Bem-Aventuranças - HBA, na cidade de Viseu, Dom Jesus Maria presidiu uma Missa pelos 19 anos de existência do hospital. A data de fundação é 12 de junho, mas por motivos de agenda apenas ontem Dom Jesus pode estar em Viseu. A liturgia foi concelebrada pelo pároco do lugar, Pe. Fagner Alves, e pelo pároco da Catedral, Pe. Raimundo Elias. Esteva presente, também, o seminarista Agostiniano Recoleto Rafael, que está passando férias na casa da família, aí em Viseu. A Missa foi celebrada na capela do hospital/ Foto: Edielson Santos No inicio da Santa Missa foram recordadas algumas pessoas que fizeram parte do HBA. Algumas, inclusive, já são falecidas. Em sua homilia Dom Jesus lembrou um pouco a trajetória de sofrimento do HBA. O hospital ao longo destes 19 anos não fechou as portas em muitas ocasiões por graça de Deus e pelo empenho de seus funcionários, que muitas vezes trabalharam sem ter os salários em dia, pois o hospital não tinha condições naqueles momentos de honrar esse compromisso. Mas, por amor a instituição nunca a abandonaram e sempre tiveram seus salários pagos. Dom Jesus lembrou ainda que, nesse momento, o hospital passa por apertos financeiros. E que mais uma vez a Diocese de Bragança do Pará, juntamente com a administração do HBA, tenta encontrar formas de resolver a situação junto ao poder público municipal. Dom Jesus durante a homilia/ Foto: Edielson Santos No final da Santa Missa foram lembradas as dificuldades encontradas nos anos da construção do hospital. Pessoas que participaram daqueles momentos nos anos 90 relataram que a população se uniu para fazer o que fosse possível para ajudar na construção: carregando pedras, água, cozinhando para quem trabalhava, etc. Assim, o HBA é fruto, também, do esforço de muitos viseuenses. Após a Santa Missa foi oferecido um café da manhã para todos que estavam aí presentes.   Histórico do HBA O Hospital das Bem Aventuranças é uma entidade filantrópica de propriedade das Obras Sociais da Diocese de Bragança, localizado na cidade de Viseu, Bairro do alto, situa-se na parte mais elevada da cidade, em terreno que foi doado pelo prefeito, em exercício na época, Sr. Carlos Cardoso. Com expressa arquitetura, disposto em 06 grandes pavilhões e uma capela, ligados, entre si, por belíssimas passarelas. Seus idealizadores foram, Pe. Carlos Verzeletti, hoje bispo da Diocese de Castanhal, e Pe. Luigi Guerrini, que voltou a morar no seu país natal; ambos imbuídos pelo espírito missionário e preocupados com o homem no seu todo, sentiram o forte apelo de Deus a apoiar o carente da saúde local. Sempre a “CONFIAR NA DIVINA PROVIDÊNCIA”. O povo contribuiu com um trabalho de base: limpeza e nivelamento do terreno acidentado, abastecimento de água, carregamento de pedras, tijolos, telhas, madeirames, etc. Foi uma colaboração desafiadora, árdua, sempre com a presença do Pe. Carlos que cobrou de homens e mulheres muitos esforços e dedicações incondicionais. Eram contagiados com grande entusiasmo. Multidões da cidade e das localidades do interior reuniram-se em mutirões de até trezentas pessoas. No ano de 1998, quando a construção encontrava-se completamente acabada, para zelar pelas doações e manter a conservação do prédio, três missionárias passaram a fazer a experiência de permanência no Hospital, sem comunidade definida. Parte da fachada do HBA/ Foto: internet Em maio de 2000, Irmã Francisca Zilmar Cavalcante com curso de Administração Hospitalar feito na Universidade Camiliana em São Paulo, Irmã Maria de Fátima Sena da Silva com curso Técnico em Enfermagem, experiência em bloco cirúrgico e partos e Irmã Elga Maria Alexandrino com a responsabilidade de supervisionar a Secretaria e o controle da parte financeira, estabeleceram-se definitivamente no local para darem os primeiros impulsos de atendimentos gerais no Hospital. A fase de organização do Hospital começou com a presença das Irmãs Missionárias. Foi assim que, no dia doze de junho de 2000, o Diretor Pe. Luigi Guerrini, e também vigário pároco de Viseu, celebrou na capela própria do complexo hospitalar a Santa Missa de abertura do Hospital das Bem-Aventuranças. Por Diocese de Bragança Com informações do HBA

Solenidade da Santíssima Trindade

Deus joga amor no ventilador Frei Gustavo Medella Em tempos em que cantar “Atirei o pau no gato” é passível de punição como apologia de maus tratos a animais, em que criança não pode andar descalça para não ferir o pé no caco do anel de vidro que se quebrou na “Ciranda, cirandinha”, a sociedade parece ter se revestido de um tom sisudo demais. A gratuidade da festa, da dança, da brincadeira adormece esquecida na vala comum do que é considerado “perda de tempo”. “Sucesso é fruto de trabalho! Arte, cultura, folclore, poesia, teatro, nada disso contribui para o ‘progresso do país’”, garantem aqueles que perderam a capacidade de brincar. A Solenidade da Santíssima Trindade, no entanto, vem nos apresentar a figura de um Deus que se faz brincadeira, conforme se lê no texto do Livro dos Provérbios: “Eu [a Sabedoria] estava ao seu lado como mestre de obras; eu era seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença [do Senhor], brincando na superfície da terra, e alegrando-me em estar com os filhos dos homens” (Pr 8,30-31). Pai, Filho e Espírito Santo se entregam mutuamente numa ciranda amorosa que tem como vocação eterna espalhar-se como fonte inesgotável de Bênção. Deus joga amor no ventilador. Numa sociedade hiperconectada, onde a intimidade se devassa em vídeos, áudios e gravações, tudo que remete a mistério corre o risco de ficar em segundo plano. A sutileza do erótico tende a ser substituída pelo escracho do pornográfico. Neste contexto, Deus Trindade deseja agir em nós com duas forças que se equilibram. A força centrípeda, atraindo-nos para o núcleo amoroso que habita em nossos corações, e a força centrífuga, que nos leva a sair de nós mesmos para anunciar em palavras e ações o quanto é bom e salutar sermos filhos e filhas do Mistério.   Santíssima Trindade, ano C Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito Santo santificador, revelastes vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”. Primeira leitura: Pr 8,22-31 Antes que a terra fosse feita a Sabedoria já tinha sido concebida.  No Antigo Testamento temos a ideia de um único Deus, mas não a ideia de um Deus uno e Trino. Mesmo assim, Deus cria o universo pela sua “Palavra” e pelo seu “Espírito” (Gn 1–2; Sl 104,27-30), e fala pela “Sabedoria”. Na primeira leitura é a “Sabedoria de Deus” que fala de Deus criador e de sua origem em Deus. Desde a eternidade foi constituída, “antes das origens da terra” (universo) foi gerada e Deus a “possui”. A sabedoria de Deus acompanha toda a obra da criação. Alegre como uma criança, brinca na presença de Deus, na superfície da terra, entre as criaturas; mas sua maior alegria é “estar com os filhos dos homens”. No livro do Gênese, o Criador alegra-se com obra da criação, fruto de seu amor: “E Deus viu que era bom”. E, ao falar da criação do ser humano no sexto dia, conclui: “E Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1). Pela Sabedoria, tudo estava preparado para a encarnação do Filho de Deus, que assumiu nossa humanidade e veio morar entre nós. Paulo identifica Cristo com a “força e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23-24). Em Cristo, Sabedoria de Deus, por ele e para ele “foram criadas todas as coisas nos céus e na terra” (cf. Ef 1,16). Na criação, fruto de sua sabedoria divina, Deus se revela a todos os seres humanos, como diz Paulo: “Desde a criação do mundo, o invisível de Deus – o eterno poder e a divindade – torna-se visível à inteligência através de suas obras” (Rm 2,20). – Como me relaciono com as criaturas, com as pessoas criadas pela Sabedoria de Deus? Percebo nelas a presença do Criador? Cuido delas como se fossem parte de nossa “Casa Comum”? Salmo responsorial: Sl 8 Ó Senhor nosso Deus, como é grande o vosso nome por todo o universo! Segunda leitura: Rm 5,1-5 A Deus, por Cristo, na caridade difundida pelo Espírito.  O apóstolo Paulo fala dos bens recebidos por quem foi justificado pela fé em Cristo Jesus. Pela fé estamos em paz, reconciliados com Deus, por meio de Jesus Cristo; a reconciliação é o mais precioso dom (cf. Jo 20,19-29). Jesus Cristo morreu por nós e obteve para nós a graça do perdão dos pecados e o dom da fé, plantou em nós a esperança de um dia participar da glória de Deus. Por isso Paulo se alegra em meio aos sofrimentos, porque fortificam nele a perseverança, que fortalece a esperança e desabrocha no amor de Deus, “derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Aclamação ao Evangelho: Aleluia, Aleluia, Aleluia. Glória ao Pai, ao Filho, e ao Espírito Santo, Ao Deus que é, que era e que vem, pelos séculos. Amém. Evangelho: Jo 16,12-15 Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo receberá do que é meu e vo-lo anunciará.  Ouvimos no Domingo da Ascensão, que os discípulos, apesar de Jesus os ter instruído após a ressurreição, ainda não entendiam qual era sua missão. Jesus os enviava a pregar o reino de Deus, e eles perguntavam: “Senhor, é agora que vais instaurar o reino [terrestre] de Israel”? Por isso, no evangelho de hoje Jesus diz: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de compreender agora”. O texto do Evangelho nos fala da missão do Espírito Santo: a) conduzir os discípulos à plena verdade, isto é, colocá-los nos passos de Jesus, que é “o caminho, a verdade e a vida” (cf. 14,6); b) ensinar “até as coisas futuras” e recordar tudo o que Jesus falou (cf. 14,26); c) tudo o que Jesus ensinou recebeu do Pai e, ao concluir sua missão, confiou ao Espírito Santo. Jesus de Nazaré revela o rosto misericordioso de Deus como Pai. Em Cristo Jesus, Deus se revela como Filho e sua presença e ação entre nós continua pela ação do Espírito Santo, o dom maior da Páscoa e de Pentecostes concedido aos discípulos. Deus não é um ser solitário. Deus é comunhão de amor. O Espírito Santo é a força do amor de Deus, presente entre nós: “Eis que estou convosco, todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). É o amor a Deus e ao próximo que nos faz viver na presença de Deus e em comunhão de amor com a Santíssima Trindade: “Se alguém me ama, guarda a minha palavra; meu Pai o amará, viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23).   Um Deus que se relaciona, que se manifesta, que ama e é amado Frei Clarêncio Neotti O mistério da Santíssima Trindade vem-nos dizer ainda que Deus não é um ser fechado sobre si mesmo, mas um Deus, sempre usando linguagem humana, aberto, dialogante, que se relaciona, que se manifesta, que ama e é amado, que age, cria, recria, quer ser procurado e deixa-se encontrar. Na frase do Evangelho de hoje: “O Espírito Santo vos transmitirá toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas de tudo aquilo que terá ouvido” (v. 13), temos, de alguma maneira, esse relacionamento entre as Pessoas divinas e das Pessoas divinas com as criaturas. O Espírito Santo transmitirá o que ouviu do Pai, fará os discípulos compreenderem o que Jesus ensinou. Não esqueçamos que ‘ouvir’ e ‘escutar’ em João tem mais o significado de ‘vivenciar’. O Espírito Santo, então, transmite-nos a vida que vive a Trindade e ensina-nos como viver também nós em comunhão com Deus. De novo, a grande verdade trazida por Jesus: formamos uma coisa só com Deus (Jo 17,21). Entre as coisas que o Espírito Santo deverá esclarecer aos discípulos estão “as coisas futuras” (v. 13). Essas coisas são a paixão, morte e ressurreição de Jesus que deveriam acontecer em breve. Fatos que uma inteligência humana, sozinha, não consegue entender. Estão também as consequências desses fatos: mundo novo, vida nova, nova presença de Deus entre as criaturas, novo relacionamento entre o céu e a terra e, de modo especial, a graça da inabitação divina na criatura humana e a inaudita graça da nossa “participação da natureza divina” (2Pd 1,4), de nosso destino de perene comunhão com a Santíssima Trindade.   Um abismo de dom Adoramos a Trindade três vezes santa Frei Almir Guimarães O espaço em que o Mistério se torna visível é a história da pessoa. Sua presença se realiza fundamentalmente na tensão humana entre a abertura infinita do homem para a verdade, o bem, a beleza e os limites colocados para tanto no espaço e no tempo da corporalidade própria e do outro.Maurizio Formini ♦ Quem somos nós? De onde viemos e para onde a vida quer nos levar? Um ser cheio de perguntas e de questões. Este somos nós. Tomamos consciência desta tensão quando visitamos nosso interior. Se isso não acontece vivemos por viver. Temos saudade sem saber de que quê. Quase nunca encontramos respostas a tantas perguntas. Mistério: transcendência, Deus, abismo dos abismos, morte, futuro, amanhã, Deus Trindade. Tudo isso atravessa nossa mente. Em tantos momentos da vida: essa Trindade. Sinal da cruz em nossa fronte cada manhã ou ao anoitecer, na testa dos irmãos, na bênção da missa, sobre o corpo inerte dos que terminaram a peregrinação. Um Deus em três. Inútil querer compreender. Fé de carvoeiro? Talvez não. Abertura ao Mistério. Nada de matemática: três em um e um em três. Um abismo de amor. Que bom que seja assim para não corrermos o risco de colocar Deus dentro de nossas caixinhas e impedir que ele seja o que é: Mistério que nunca acabamos de descobrir. Um abismo de amor que se revela a quem ele quiser e aos que o coração não tiver sido empedernido. ♦ Esse Mistério anda a nos rondar. Sentimos seu apelo. Dele viemos e para ele nos voltamos, cansando as pernas, sorrindo e chorando, mas sempre com o bastão de peregrinos apontando para a frente, para um oceano de amor. O carburante de nossa caminhada é o Amor que nos chama. Profundidade das profundidades, nossa vida, nosso ser, a meta das metas. Sem ele, sem Mistério com m maiúsculo, tudo se torna opacidades: amores incompletos, viagens pela metade, vidas que vegetam. ♦ Um Tu para o qual precisamos nos abrir em vista de um diálogo que nos permita sobreviver ou viver de verdade. Não precisamos de um inspetor a examinar nosso comportamento, nem de um policial com arma apontada, ou um controlador de nossos atos escrevendo numa cadernetinha o que andamos perpetrando de funesto. Precisamos um sopro, de um Tu, de Alguém, precisamos do Amor. Somente o Amor nos dá alegria nesses tempos de cansativas esperas. ♦ Moisés percebeu alguma coisa do Mistério num arbusto que queimava e não parava de queimar. Fogo ardente. Terra santa, espaço sem mancha, imaculado. Foi convidado a tirar as sandálias dos pés porque pisava uma terra santa, por assim dizer, a terra de Deus. Pés nus e coração livre de toda prepotência que leva à macabra dança em torno de nós mesmos. Isaías, por sua vez, também o vislumbrou como santo, com serafins a voltejar e a cantar definitivamente santo, santo, santo. O profeta não tinha outra coisa se não juntar sua voz ao coral dos anjos: santo, santo, santo. Elias, cansado da vida e das diabólicas tomadas de decisão da megera Jezabel, entrega os pontos. Vai para uma montanha. Solidão. De repente, trovoada, mexer-se da terra, tumultos, gritarias, conversas fiadas, lá e cá, ontem e hoje. Ali não estava o Senhor… Depois, à porta da caverna, uma brisa suave. Elias cobre o rosto com as mangas de suas vestes e murmura palavras de adoração e de amor. Deixa-se envolver pelo Mistério. Pedro, o apóstolo, percebe que o Senhor Jesus está próximo dele e de seus companheiros no trabalho da pesca. Mal vestido joga-se ao mar. Sente-se indigno de uma tal vizinhança. Como nós, nus em nós mesmos, lançamo-nos ao mar. Reconhecimento de nossa nudez mais interior. Clamamos por uma veste. Não podemos viver nus. ♦ “Quem és tu? Como chamar-te? Onde é tua casa? Por que falas tão pouco? O que tu fizeste e andas fazendo?” Como uma criança somos convidados a fazer tantas perguntas quase infantis Àquele que nos envolve. A possibilidade de abrirmo-nos ao mundo do Mistério parece fundamental para nossa cultura, fragmentada, instrumental, cultura de consumo e de banalidades. Necessário respeitar a gratuidade e não querer programação no que tange à aproximação do Senhor. A experiência de Deus não é algo de automático que acontece em determinado momento ao nível de nossa consciência. Será sempre necessário o empenho da abertura. O Divino é maior do que as elucubrações racionais ou sentimentais. Ele tem iniciativa. Ele quer nos surpreender. ♦ Jesus, de alguma forma abre para nós as cortinas do Mistério. Ele fala de um Pai que o ama e de onde ele proveio. Um Pai que o cerca de todo carinho, para o qual ele volta incessantemente. Ele mesmo, esse Jesus de carne e osso, é a Palavra do Pai. Ele e o Pai são um. Todo poder ele recebe do Pai e veio ao mundo da parte desse Pai. Num determinado momento de sua caminhada ele promete de sua parte e do Pai a missão e o envio do Espírito, do Sopro, do Vento do Hálito. Antes que tudo existisse os três, a Tríade era e sempre foi. Pai, Filho e Espirito. Trindade sacrossanta. ♦ O Pai não é gerado, mas eternamente Pai. O Verbo eternamente gerado. Na plenitude dos tempos o Verbo se faz carne. Missão ad extra da segunda pessoa da Trindade. O amor do Pai pelo Verbo e vice versa é forte, tão forte que é um liame, um laço, ou seja, o Espírito. Depois da missão do Filho continua a ação do Espírito, Deus derramado em nossos corações. Vivemos o tempo do Espírito. ♦ “A perda do senso do Mistério impede o relacionamento pleno com a totalidade do existente: quem se obstina, plena ou levemente consciente, em excluir de seu interesse ou de levar em conta a realidade do Mistério contenta-se com relacionamentos imediatos, fruíveis, indecifráveis. Não atinge a realidade e nunca entra em contato com aquela parta do eu que só pode ser vivenciada a partir do envolvimento total com o real. E o real inclui essa sôfrega busca do Mistério. Temos apenas vontade de dizer a mais não poder: Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Oração Senhor, Tu sempre me deste a força necessária:e, embora eu seja fraco,creio em ti.Senhor, Tu sempre colocas paz em minha vidae, embora eu viva perturbado,creio em ti.Senhor, tu sempre me proteges na provaçãoe, embora eu sofra,creio em ti.Senhor, tu sempre iluminas as minhas trevase, embora eu não tenha luz,creio em ti.   Deus é de todos José Antonio Pagola Poucas frases terão sido tão citadas como esta que o Evangelho de João coloca nos lábios de Jesus. Os autores veem nela um resumo do essencial da fé, tal como era vivida entre os poucos cristãos nos começos do século II: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único”. Deus ama o mundo inteiro, não só aquelas comunidades cristãs às quais chegou a mensagem de Jesus. Deus ama todo gênero humano, não só a Igreja. Deus não é propriedade dos cristãos. Não deve ser monopolizado por nenhuma religião. Não cabe em nenhuma catedral, mesquita ou sinagoga. Deus habita em todo ser humano acompanhando cada pessoa em suas alegrias e desgraças. Não deixa ninguém abandonado, pois tem seus caminhos para encontrar-se com cada qual, sem que tenha que seguir necessariamente os caminhos que nós lhe indicamos. Jesus o via cada manhã “fazendo surgir o Sol sobre bons e maus”. Deus não sabe nem quer, nem pode fazer outra coisa senão amar, pois, no mais íntimo de seu ser, Ele é amor. Por isso diz o Evangelho que Ele enviou seu Filho único, não para “condenar o mundo”, mas para que “o mundo se salve por meio dele”. Deus ama o corpo tanto como a alma, e o sexo tanto como a inteligência. O que Ele deseja unicamente é ver já, desde agora e para sempre, a humanidade inteira desfrutando de sua criação. Este Deus sofre na carne dos famintos e humilhados da Terra; está nos oprimidos defendendo sua dignidade e nos que lutam contra a opressão dando ânimo a seu esforço. Está sempre em nós para “buscar e salvar” o que nós deturpamos e deixamos se perder. Deus é assim. Nosso maior erro seria esquecê-lo. Mais ainda, fechar-nos em nossos preconceitos, condenações e mediocridade religiosa, impedindo as pessoas de cultivar esta fé primeira e essencial. Para que servem os discursos dos teólogos, dos moralistas, dos pregadores e dos catequistas, se não despertam o louvor ao Criador, se não fazem crescer no mundo a amizade e o amor, se não tornam a vida mais bela e luminosa, lembrando que o mundo está envolto nos quatro lados pelo amor de Deus?   Deus comunica sua intimidade Pe. Johan Konings Para muitas pessoas, a pregação da Igreja a respeito da Trindade é obscurantismo. Para que ofender a inteligência dizendo que Deus é ao mesmo tempo um e três? Tal pergunta é tão precipitada quanto o marido que não tem tempo para escutar sua mulher quando ela lhe abre a complexidade de seu coração. Deus quer manifestar a sua riqueza íntima, mas nós não queremos escutar o Mistério. Preferimos o nível de entendimento de uma maquininha de calcular … Deus é um só, sempre o mesmo e fiel, mas ele abre seu interior em Jesus de Nazaré, um ser pessoal, livre e autônomo. Deus se dá a conhecer no modo como Jesus, livremente e por decisão própria, nos amou e nos ensinou, sendo para nós palavra de Deus, muito mais do que a sabedoria tão elogiada pelo Antigo Testamento (1ª leitura). E depois que Jesus cumpriu sua missão, perpetua-se para nós a “palavra” que ele tem sido, numa outra realidade pessoal, o Espírito de Deus, a inspiração que, vinda de Deus e de Jesus, invade o nosso coração, a ponto de nos tornar semelhantes a Jesus (2ª leitura). Tanto em Jesus como no Espírito Santo, quem age é Deus mesmo, embora sejam personagens distintas. Riqueza inesgotável que a Igreja nos aponta para que saibamos onde Deus abre seu íntimo para nós: no seu Filho Jesus e no Espírito de Jesus que nos anima. Lá encontramos Deus, e o encontramos não como bloco de granito, monolítico, fechado, mas como pessoas que se relacionam, tendo cada uma sua própria atuação: o Pai que nos ama e nos chama à vida; o Filho Jesus, que fala do Pai para nós e mostra como é o Pai, sendo bom e fiel até o dom da própria vida na morte da cruz; e o Espírito Santo, que doutro jeito ainda, fica sempre conosco. O Espírito atualiza em nós a memória da vida e das palavras de Jesus e anima a sua Igreja. E todos os três estão unidos e formam uma unidade naquilo que Deus essencialmente é: amor. Essas reflexões não visam a “compreender” a Trindade como se compreende que 1 + 1 = 2! Visam a abrir o mistério de Deus, que é maior que nossa cabeça. Santo Agostinho, ao ver uma criança na praia colocar água do mar num poço na areia, caçoou dela, dizendo que o mar nunca ia caber aí. E a criança respondeu: “Assim também não vai caber na tua cabeça o mistério da Santíssima Trindade”. Pois bem, se não conseguimos colocar o mistério do amor de Deus em nossa cabeça, coloquemos nossa cabeça e nossa vida toda dentro desse mistério! Todas as reflexões foram tiradas do site: franciscanos.org.br

Solenidade de Pentecostes

Pentecostes: a Solenidade do “Cristo em nós” Frei Gustavo Medella “Que a graça de Deus cresça em nós sem cessar. E de ti, nosso Pai, venha o Espírito Santo de Amor pra gerar e formar Cristo em nós”. Este é o Refrão de um célebre canto para a comunhão inspirado na figura de Maria. No refrão, evoca o mesmo movimento do Espírito Santo de Deus que se alojou no ventre da Virgem gerando o Salvador para a humanidade. Percorridos todos os passos dados desde a Quaresma, passando pelo Tríduo que culmina na Páscoa da Ressurreição, vivendo com intensidade os dias do Tempo Pascal, celebrando a Ascenção do Senhor, chegamos à Solenidade de Pentecostes, a Festa do “Cristo em nós”. São Francisco foi um entusiasta desta verdade teológica e, em sua Carta aos Fiéis, explica como este mistério de amor se concretiza na vida prática do cristão: “[Somos] Mães [de nosso Senhor] quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (Cf. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5, 16). Gerar Cristo para o mundo é, portanto, oferecer um testemunho prático (santa operação) que seja capaz de tocar o coração das pessoas, de renovar-lhes a esperança, de fazê-las mais uma vez acreditarem na força da bondade e do amor. Na certeza de que uma árvore caindo faz muito mais barulho do que toda uma floresta que nasce, o cristão é chamado deixar-se tomar pelo Espírito Santo a fim de gerar Cristo para o mundo. Ao entrar nesta dinâmica, ele passa a pensar e a agir à semelhança de Cristo, nutrindo a convicção de que, mais importante do que seus próprios interesses é o “Reino de Deus e sua justiça” (Cf. Mt 6,33). Neste trabalho, o discernimento maior é perceber onde Deus quer e precisa nascer. Toda atenção se faz necessária neste exercício de escuta atenta da realidade. Deixar-se guiar pelo Espírito nesta procura é fundamental. Nem sempre os apelos vão estar em consonância com as nossas expectativas. Certamente com alguma frequência vão, inclusive, contrariar nossos desejos de conforto e estabilidade. No entanto, se desejamos ser geradores(as) férteis de Jesus para o mundo, parceiros eficientes do Espírito Santo, muitas vezes teremos de vencer a nós mesmos.   Pentecostes, ano C Comentários exegéticos de Frei Ludovico Garmus Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, quisestes que o mistério pascal se completasse durante cinqüenta dias, até a vinda do Espírito Santo. Fazei que todas as nações dispersas pela terra, na diversidade de suas línguas, se unam no louvor do vosso nome”. Primeira leitura: At 2,1-11 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar. Primeira leitura: At 2,1-11 Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar. João coloca a doação do Espírito Santo no dia da Páscoa, quando Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos reunidos no Cenáculo (Evangelho). O evangelho de Lucas (cap. 24), também, coloca no mesmo dia as manifestações de Jesus Ressuscitado aos discípulos de Emaús e aos apóstolos, concluindo com a promessa do Espírito Santo e a Ascensão de Jesus ao céu. Nos Atos dos Apóstolos, porém, situa a Ascensão quarenta dias após a Páscoa e, dez dias depois, na festa judaica de Pentecostes, o dom do Espírito Santo. Na origem, Pentecostes era uma festa agrícola ligada a colheita do trigo, celebrada sete semanas após a festa da Páscoa. Era uma das três festas de peregrinação. Nesta festa o israelita devia comparecer diante de Deus e apresentar os primeiros frutos da colheita do trigo. No II século a.C., a festa de Pentecostes passou a comemorar a promulgação da Lei de Moisés no Sinai, feita 50 dias após a saída do Egito (cf. Ex 19,1-16). Na teofania do Sinai, a descida de Deus era acompanhada por “trovões, relâmpagos (…) fortíssimo som de trombetas (…) em meio ao fogo” (Ex 19,16-19). Rabi Johanan dizia a respeito: A voz divina “saiu e se repartiu em setenta vozes ou línguas, de modo que todos os povos a entendessem; e cada povo ouviu a voz em sua própria língua”. Lucas conhecia tal tradição. Por isso fala que a doação do Espírito se dá em meio a um “barulho” e “forte ventania”. Com a voz do Sinai, repartida em setenta línguas, a Lei de Moisés tornou-se conhecida em todo o mundo e unia os judeus dispersos no Império Romano. Agora, a partir de Jerusalém (At 1,8), também o Evangelho é pregado a todos os povos, citados em nosso texto. A diversidade das línguas nas quais cada um entendia a mensagem do Evangelho é um convite aos apóstolos e discípulos, impulsionados pelo Espírito Santo, a levarem a mensagem de Jesus a todos os povos e culturas. Todos os povos estão ouvindo a mensagem do Evangelho, levada pelos discípulos e discípulas que aprenderam ou conheciam suas línguas. Salmo responsorial: Sl 103  Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai. Segunda leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13 Fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo.   Paulo fala longamente para a comunidade de Corinto sobre os dons do Espírito Santo (1Cor 11,2-16; 12,1–14,39). Sem estes dons, nada podemos fazer, nem mesmo dizer: “Jesus é o Senhor”. Os dons ou “carismas” são “atividades”, serviços ou manifestações do Espírito “em vista do bem comum”; cada membro presta serviço para o bem do mesmo corpo. Paulo usa a imagem do corpo que tem muitos membros, mas forma uma única unidade. O Espírito nos unifica num só Corpo com o Cristo: “judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito”. O Espírito Santo distribui seus dons / carismas em vista do bem da comunidade, e não para distinguir esta ou aquela pessoa. A manifestação do Espírito se dá em todos os membros da comunidade. Não é privilégio do clero, dos religiosos ou de “grupos carismáticos”. O projeto imperial de Babel era de impor o domínio, unindo todas as raças e culturas por meio de uma só língua (Gn 11,1-9: primeira leitura da Vigília). Deus, porém, pôs fim a tal domínio, multiplicando as línguas e culturas. É na diversidade de línguas e culturas que Deus quer ser louvado e adorado. Em Pentecostes Deus refaz a unidade pela mensagem do Evangelho, a ser anunciado a todos os povos, preservando, porém, as diferentes culturas e raças. O que nos une é a linguagem do amor a Deus e ao próximo (Evangelho). Aclamação ao Evangelho: Vinde, Espírito Divino, e enchei com vossos dons os corações dos fiéis; e acendei nele o amor como um fogo abrasador. Evangelho: Jo 20,19-23 Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio: Recebei o Espírito Santo! No domingo da Ascensão ouvimos, no evangelho de Lucas, que Jesus prometia aos discípulos enviar-lhes a “força do alto”, o Espírito Santo, antes de começarem a anunciar “a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”. Hoje, segundo João, Jesus no dia de sua ressurreição, se manifesta aos discípulos e concede-lhes o dom do Espírito Santo e a paz. Depois de lhes dizer “a paz esteja convosco”, Jesus se identifica, mostrando-lhes as mãos e o lado perfurados. Ele é o mesmo Jesus crucificado, que cumpriu sua missão, a obra de nossa salvação e volta ao Pai (Jo 20,17). Antes, porém, deixa-nos a tarefa de continuar a sua missão: “Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Ao voltar para junto do Pai, Jesus promete estar sempre conosco: “Eis que estou convosco, todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Esta presença de Cristo se dá pelo seu Espírito, o Advogado e Consolador que estará sempre ao lado de seus discípulos. Pelo dom de sua vida Jesus nos reconciliou com Deus, manifestando o amor misericordioso do Pai. O presente da Páscoa que nos deixa é o Amor: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Agora confia aos seus discípulos a missão de manifestar este mesmo amor misericordioso: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados…”. O perdão dado e recebido reconstrói os vínculos do Amor, reconstrói a paz. “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”, que é Amor. Nossa missão é vivermos o que anunciamos aos outros. Para isso recebemos a “força do alto”, o Espírito Santo.   Pelo que faz sabemos quem é Frei Clarêncio Neotti É muito significativo que o Espírito Santo desça sobre os Apóstolos no mesmo lugar da instituição da Eucaristia, como se ele viesse completar o mistério do Corpo e do Sangue de Jesus. De fato, a partir de Pentecostes, os discípulos (a Igreja) formarão o corpo total de Cristo, serão os continuadores da missão de Jesus aqueles que, fazendo a Eucaristia, são por ela transformados no Corpo do Senhor. Ensina o Concílio: “Ao comunicar o seu Espírito, fez de seus irmaos, chamados de todos os povos, misticamente os componentes de seu próprio corpo” (Lumen Gentium, 7). Numa de suas Admoestações, São Francisco de Assis faz uma afirmação que muitos julgam confusa. Na verdade, é transparente, se lembrarmos que o Espírito Santo é quem age em nós, quando nos relacionamos com Deus: “É o Espírito Santo do Senhor, que habita nos fiéis, quem recebe o santíssimo Corpo e Sangue do Senhor”. Portanto, será nula a comunhão, se não estivermos santificados pelo poder do Espínto Santo. E por menores que sejamos, seremos dignos do Senhor, porque não é a pequenez que conta, mas a grandeza do Espírito Santo de Deus em nós. Nesse sentido, São Paulo escreveu aos Coríntios: “Só quem é guiado pelo Espírito Santo pode dizer: Senhor Jesus!” (1Cor 12,3). E São Francisco escreveu na Regra da Ordem que, antes de tudo, os Frades devem possuir o Espírito Santo e seu modo de operar. Lemos no Ano C, como Evangelho da festa de Pentecostes, dois pequenos trechos do discurso de despedida de Jesus na Ultima Ceia, em que ele promete o Espírito Santo. O Evangelista João inseriu no discurso-testamento de Jesus cinco afirmações sobre o Espírito Santo. Daquilo que o Espírito Santo faz podemos deduzir aquilo que ele é. O Espírito Santo age sempre em comunhão com Jesus e o Pai (vv. 16.23.26) em benefício da comunidade eclesial.   Um vento impetuoso e um gemido murmurante O Espírito renova a face da terra Frei Almir Guimarães Vê, Senhor, desse vento que é teu próprio sopro, hálito de tua vida e de teu amor, o que andamos fazendo. O Espírito da vida tornou-se um pássaro de pedra numa parede de nossos templos.Petrificamos o vento do Espírito.Revista “Prier”, maio de 1988 ♦ Belíssima solenidade esta do fogo, do vento violento e da brisa suave. Sopro, hálito, vento. O Espírito procede do Pai e do Filho. É o Defensor. Mais uma vez mergulhamos no mistério da Trindade. O Pai, o Filho unidos. O Filho gerado, não criado. Entre o Pai e o Verbo, o sopro do Vento, do Espírito. O Pai envia o Filho e o Espírito o unge ao sair das águas do Jordão. O Espírito está sobre Jesus. O Filho é ungido. Depois da missão do Filho o Espírito vela pela obra do mundo novo inaugurada pelo Verbo feito carne. ♦ No alto da cruz, no momento da morte, segundo o quarto evangelista, “Jesus entrega o Espirito”. Não se trata apenas de dar o espírito, com e minúsculo, mas o Sopro, o Vento, a Luz. Ele, o Espírito foi derramado em nossos corações. Depois ele seria derramado sobre os apóstolos numa radiosa manhã. ♦ É como o vento… Não é vento, mas como o vento. Vento, sopro, hálito. Vento que chega ao Cenáculo onde estavam reunidos os apóstolos com medo. Não se pode reter ou guardar o vento. Como o vento, o Espírito não pode ser “estocado”, nem percebido com as coisas palpáveis. O vento do Espírito sopra onde quiser e como quiser. Para onde sopra, em nossos dias, o Vento de Deus? Vento que mexe com as coisas paradas, mornas, estratificadas, rotineiras. Vento que não deixa o projeto de Jesus envelhecer. ♦ É como o fogo. A junção entre fogo e Espírito aparece em fala do Batista. Jesus receberia um batismo diferente daquele que o filho de Isabel e Zacarias administrava. Ele batizaria no Espirito e no fogo. “Apareceram línguas como que de fogo que se repartiram e se colocaram sobre cada um deles. E todos ficaram repletos do Espírito Santo”. Fogo: ardor, novo ardor, ardor sempre renovado. Nova evangelização, novo modo de ler a figura de Jesus. Jesus havia afirmado que, quando viesse o Paráclito, ele ensinaria todas as coisas. ♦ Sim, insistamos. O Espírito não admite os caminhos batidos. Ele é propulsor da novidade. A ele se atribui o excepcional, o extraordinário. É fonte inesgotável de criatividade. Entra em conivência com toda novidade quando esta venha a favorecer a instauração e consolidação do Reino. A presença do Espírito na Igreja faz com que ela se embrenhe pelos caminhos de um futuro não previsível. ♦O Espírito é impregnação. É água que a tudo penetra. Ao lado das imagens do Espírito como movimento e ação ele é mostrado como impregnação. O Espirito é derramado como a água. Impregnação, interiorização, casa, habitação, morada. Nesta linha vão as imagens do óleo e da unção. Apoiado nessa imagens Santo Agostinho falará do Espirito como alma da Igreja. Dizemos que estamos “repletos” do Espírito Santo. Para a reflexão e oração Dá-nos teu Espirito, Senhor!Onde não há Espírito surge o medo.Onde não há Espírito a rotina invade tudo.Onde não há Espírito a esperança murcha.Onde não há Espírito não podemos reunir-nos em teu nome.Onde não há Espírito esquece-se o essencial.Onde não há Espírito introduzem-se normas.Onde não há Espírito não pode brotar a vida.Dá-nos teu Espírito, Senhor.F.Ulíbarri ♦ Penso nos vários sentidos que a palavra Espírito tem no texto bíblico: sopro, hálito vital, vento…E é isso que me apetece rezar nesta manhã, Senhor. Sopra sobre o indeciso, venha o sussurro do teu alento íntimo renovar o hesitante, a ventania de Deus nos mova. Parecemo-nos tanto a embarcações travadas, velas erguidas sem a energia de novas praias, de intactos e aventurosos cabos… Os nossos barcos rodam apenas em torno de si próprios. Manda, Senhor, a pulsão do Espírito, o ânimo criador que incessantemente nos coloca ao encontro da novidade e da beleza de teu Reino. José Tolentino MendonçaUm Deus que dançaPaulinas, p. 80   Só o Espírito de Jesus nos converte em Igreja viva José Antonio Pagola João teve um cuidado especial com a cena em que Jesus vai confiar a seus discípulos sua missão. Ele quer deixar bem claro o que é essencial. Jesus está no centro da comunidade, cumulando todos com sua paz e alegria. Mas aos discípulos, espera-lhes uma missão. Jesus não os convidou só para desfrutar dele, mas para fazê-lo presente no mundo. Jesus os “envia”. Não lhes diz em concreto a quem devem ir, o que devem fazer ou como hão de atuar: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio”. Sua tarefa é a mesma de Jesus. Não têm outra: a que Jesus recebeu do Pai. Eles têm que ser no mundo o que Ele foi. Eles viram de quem Ele se aproximava. Como Ele tratava os mais desvalidos, como levou adiante seu projeto de humanizar a vida, como semeou gestos de libertação e de perdão. As feridas de suas mãos e seu lado lembram-lhes sua entrega total. Jesus os envia agora para que “reproduzam” sua presença entre as pessoas do mundo inteiro. Mas sabe que seus discípulos são frágeis. Mais de uma vez ficou surpreso com sua “pouca fé”. Precisam de seu próprio Espírito para cumprir sua missão. Por isso dispõe-se a fazer com eles um gesto muito especial. Não lhes impõe as mãos, nem os abençoa, como fazia com os enfermos e os pequenos: “Sopra sobre eles e lhes diz: “Recebei o Espírito Santo”. O gesto de Jesus tem uma força que nem sempre sabemos captar. Segundo a tradição bíblica, Deus modelou Adão com barro; depois soprou sobre Ele seu “sopro de vida”, e aquele barro converteu-se num “vivente”. Isso é o ser humano: um pouco de barro animado pelo espírito de Deus. E a Igreja será sempre isso: barro animado pelo Espírito de Jesus. Crentes frágeis e de pouca fé: cristãos de barro, teólogos de barro, sacerdotes e bispos de barro, comunidades de barro … Só o Espírito de Jesus nos converte em Igreja viva. As zonas em que seu Espírito não é acolhido permanecem “mortas”. Prejudicam a todos nós, pois nos impedem de atualizar sua presença viva entre nós. Muitos não podem captar em nós a paz, a alegria e a vida renovada por Cristo. Não devemos batizar só com água, mas infundir o Espírito de Jesus. Não só temos de falar de amor, mas amar as pessoas como Ele as amou.   A Igreja inicia sua missão profética Pe. Johan Konings Pentecostes é o aniversário da Igreja? Sob certo aspecto, sim. A primeira comunidade tinha sido reunida por Jesus durante a sua vida. Mas o que foi tão decisivo na data de Pentecostes, depois de sua morte e ressurreição, é que aí começou a proclamação ao mundo inteiro da Salvação em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Para os antigos judeus, Pentecostes era o aniversário da proclamação da lei no Monte Sinai: esta proclamação constituiu, por assim dizer, Israel como povo, deu-lhe uma “constituição”. De modo semelhante, quando os apóstolos proclamam no dia de Pentecostes a salvação em Jesus Cristo, é constituído o novo povo de Deus. Não só Israel, mas todos os povos são agora alcançados, cada um em sua própria língua (1ª leitura). Até hoje, a Igreja continua procurando alcançar todos os povos, grupos, classes e raças, numa linguagem que os atinja. Não necessariamente na linguagem que lhes agrade! Aos pobres, terá que falar uma linguagem de carinho e animação; aos ricos, uma linguagem provocadora, para descongelar seu coração. Mas, de qualquer modo, a todos ela deverá explicar na linguagem adequada – que na conversão a Cristo se encontra a salvação. O verdadeiro milagre das línguas não consiste em dizer “Aleluia” em todas as línguas, mas em falar com clareza para todos os povos, raças e classes. Os diversos dons do Espírito Santo, de que fala a2ª leitura, servem exatamente para isto: para atingir as pessoas de todas as maneiras, para sermos profetas da Nova Aliança, selada por Cristo em seu próprio sangue e agora publicada para o mundo sob o impulso de seu Espírito. Como Moisés e os setenta anciãos no Sinai se tornaram porta-vozes de Deus e da antiga Aliança (*), assim agora, a partir de Pentecostes, a Igreja deve tornar-se toda profética, denunciando o que está errado e anunciando a salvação que está na fraternidade e na comunhão que Jesus veio instaurar. Assim, o Espírito de Deus renovará, pela Igreja, a face da terra (cf. salmo responsorial). (*) Lembra uma antiga lenda judaica, que conta como, no Sinai, a proclamação da Lei teria sido confiada aos setenta anciãos, em setenta línguas (só que agora os setenta anciãos são os doze apóstolos). Todos os textos foram tirados do site: franciscanos.org.br

Solenidade da Ascensão do Senhor

Ascensão: formatura na Escola de um Deus Educador Frei Gustavo Medella O termo “educar”, a partir de sua etimologia, significa “conduzir para fora”. A tarefa do educador seria, portanto, a de proporcionar ao educando a possibilidade de sair de si mesmo, de olhar para além dos próprios limites e perceber nas diferenças um lugar de encontro e comunhão, aprendendo a viver e conviver em sociedade. Em Jesus Cristo, Deus se faz educador de seus e filhos e filhas. Toda a caminhada do Filho de Deus se deu num processo constante de educação, no qual o Senhor incansavelmente se dispôs a conduzir os seus. O núcleo de seus ensinamentos está contido nas lições do Tríduo Pascal e passa pelo Lava-Pés, pelo Mandamento do Amor, pela Paixão e pela Morte na Cruz e, finalmente, pela Páscoa da Ressurreição. Em todos estes episódios, Jesus faz um esforço absoluto para provocar seus seguidores a saírem de si, a vencerem o medo, a se entregarem sem reservas à missão. Vencedor absoluto do pecado e da morte, o Ressuscitado segue pacientemente seu caminho de educador a fim de solidificar no coração dos seus o vigor apostólico necessário à construção do Reino. Na introdução aos Atos dos Apóstolos (At 1,1-11), proclamada na Primeira Leitura nesta Solenidade da Ascensão, o autor sagrado faz um resumo das aparições do Ressuscitado a seus discípulos. Finalmente sobe aos céus. É como se fosse a solenidade de formatura na Escola de Jesus Educador. O Mestre, sempre presente, percebe que o fruto da missão está maduro no coração dos seus. Garante a permanência próxima e, ao mesmo tempo, entrega à comunidade o compromisso de testemunhar as maravilhas de um mundo a ser construído conforme os planos e sonhos de Deus. O diploma na escola de Cristo Educador não deve, portanto, ser pendurado na parede como relíquia, mas configura-se num convite permanente aos batizados e batizadas a fim de que levem para todos os cantos a Boa-Nova da Salvação.   7º Domingo da Páscoa – Ascensão do Senhor Comentário do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: ”Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”. Primeira leitura: At 1,1-11 Jesus foi levado aos céus, à vista deles. Lucas escreveu dois livros: o Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Nestes livros ele divide a história da salvação em três tempos: a) o tempo da promessa é o Antigo Testamento até o final da atividade de João Batista; b) o tempo da realização da promessa é a vida pública de Jesus, desde o batismo até a ascensão ao céu; c) e o tempo da Igreja que se inicia com o dom do Espírito Santo. No texto que hoje ouvimos Lucas lembra o seu primeiro livro escreveu “sobre tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar”. Isto é, desde o batismo de Jesus até o dia em que “foi elevado ao alto”. Mas esta frase também sugere que no segundo livro (Atos) Lucas vai falar daquilo que a Igreja, movida pela força do Espírito Santo, continuou a “fazer e ensinar”. – O tempo da Igreja é inaugurado pelo próprio Jesus Ressuscitado, que durante quarenta dias instrui pelo Espírito Santo os apóstolos sobre as “coisas referentes ao Reino de Deus”. Enquanto Jesus recomenda que não se afastem de Jerusalém antes de receberem o Espírito Santo, alguns ainda lhe perguntam: “Senhor, é agora que vais restabelecer o reino de Israel?” De fato, somente com o dom do Espírito Santo haveriam de entender que Jesus não veio para restaurar o velho reino de Israel, mas para implantar algo totalmente novo: o Reino de Deus. Por isso, traça o programa da missão a ser iniciada quando receberem o Espírito Santo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins da terra”. Enquanto Jesus era levado ao céu e se afastava dos discípulos, anjos os devolvem à realidade da missão; “Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?” A esperança do retorno do Filho do Homem em sua glória, para julgar vivos e mortos, continua válida. Mas antes é necessário que o evangelho seja anunciado a todas as nações (cf. Mc 13,10). Agora é o momento de executar o projeto da missão delineado por Jesus: Com a força do Espírito Santo, os discípulos devem dar testemunho do Ressuscitado, em Jerusalém, na Judeia e Samaria, até os confins da terra Para Jesus, a ascensão significa o término de sua missão aqui na terra e sua glorificação junto ao Pai. Para nós, marca o início de nossa missão. Cristo, a Cabeça, cumpriu sua missão e foi glorificado; nós, seu corpo, cumprindo nossa missão de testemunhar o Evangelho até os confins da terra, esperamos participar também, um dia, de sua glória (2ª leitura). Como discípulos de Jesus, precisamos compreender que “Aquele que ao descer à terra não tinha deixado o Pai, também não abandonou os discípulos ao subir ao céu” (São Leão Magno). – É o que o Papa Francisco pede: Devemos ser uma “Igreja em saída”, não uma Igreja que só olha para o céu e esquece a missão que Jesus nos deixou. Segunda leitura: Ef 1,17-23: E o fez sentar-se à sua direita nos céus.  O Apóstolo nos convida a abrirmos o coração, para conhecermos qual é a esperança que o chamado divino nos dá, qual a riqueza de nossa herança com os santos e que imenso poder Deus exerce naqueles que nele creem. A força do Espírito Santo, derramado em nossos corações, é que nos envia em missão. O Espírito Santo é a força de Cristo dada pelo Pai que o “ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus”. O triunfo de Cristo, a Cabeça, é também o triunfo dos fiéis, que são “membros do seu corpo” (Oração). Salmo responsorial: Sl 46 Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta. Aclamação ao Evangelho Ide pelo mundo, ensinai aos povos todos; Convosco estarei todos os dias, Até o fim dos tempos, diz Jesus.   Evangelho: Lc 24,46-53 Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Enquanto Mateus e Marcos falam das manifestações do Ressuscitado apenas na Galileia, Lucas as concentra em Jerusalém. Inicia seu evangelho com Zacarias prestando culto no templo de Jerusalém, e o conclui com os discípulos que, após a Ascensão, voltam a Jerusalém, cheios de alegria, onde permanecem no Templo “louvando a Deus”. Antes de ser “levado para o céu”, Jesus recorda o que “está escrito”, isto é, que após sua morte e ressurreição em seu nome seriam anunciados “a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações” (cf. Lc 3,3; At 2,32-41). Ordena que retornem a Jerusalém, para serem “revestidos pela força do alto”, isto é, pelo Espírito Santo prometido pelo Pai. Como Jesus foi revestido pela força do Espírito Santo antes de começar a anunciar o reino de Deus (Lc 3,22; 4,1.18), também os discípulos seriam revestidos desta “força do alto” para anunciarem a conversão e o perdão dos pecados (salvação) a todas as nações (1ª leitura). Jesus conclui sua missão e nos deixa seu Espírito para que a continuemos. Sinto-me convidado a anunciar e viver a boa-nova do reino de Deus, anunciada e vivida por Jesus? “Por que [então] ficais aqui, parados, olhando para o céu?”   Começa o tempo da Igreja Frei Clarêncio Neotti Lucas é o Evangelista que sempre recorda a universalidade da redenção. Volta a acentuá-la hoje (v. 47). Todos os povos, todas as pessoas podem encontrar a santidade no nome de Jesus (At 4,12). Isaías havia predito: “Toda a carne verá a salvação de Deus” (Is 40,5). Simeão, com o Menino nos braços, no templo, profetizara: “Ele será luz (salvação) para todos os povos” (Lc 2,32). Em Cristo começou o tempo propício para a salvação (2Cor 6,2). Na sua morte e ressurreição, acontecidas historicamente em Jerusalém, todos podem beber na fonte da plenitude da vida (Jo 10,10). Agora, completada a obra, Jesus diz aos Apóstolos que a partir de Jerusalém, isto é, de sua morte e ressurreição, a salvação deve ser levada a todos (v. 48) e ser sua principal missão. Começa o tempo da Igreja. Cristo parte, mas permanece. A Igreja é seu corpo (Ef 1,23) e sua plenitude. Os cristãos são as testemunhas vigilantes da morte, ressurreição e glória do Senhor. Começa o tempo do despertar e crescer das sementes do Reino. Da nova e definitiva Aliança. Da nova e eterna primavera. Do tempo da “esperança depositada no céu” (Cl 1,5). Nada de orfandade. Somos a nova família de Deus, vivemos em comunhão com ele, porque “amamos Jesus e guardamos sua palavra” (Jo 14,23). Por isso louvamos a Deus (v. 53) com “grande alegria” (v. 52).   O Senhor Jesus está na glória Temos saudades do céu? Frei Almir Guimarães Teria sido bom poder retê-lo entre nós. O vazio de sua presença viria nos fazer mergulhar em terrível angústia. Tivemos nele, afinal, alguém de insubstituível. Não nos incomodava. Era, na verdade, o contrário de alguém que perturba: nosso apoio, nosso sustentáculo; ele era bom, de uma bondade tão simples que a havíamos tomado como qualquer coisa de ordinário.Karl Ranher ♦ Ressoam aos nossos ouvidos os relatos do Novo Testamento que falam da Ascensão do Senhor Jesus. Ele, o mais belo dos filhos dos homens, não podia, com efeito, permanecer definitivamente entre nós. Seu lugar, sua casa definitiva era no seio da Trindade. Não o tivemos mais entre nós daquela maneira tão singela como até então: bebendo de nossas fontes, sentando-se à mesa com puros e não tão puros, contando histórias de moedas e ovelhas perdidas, de administradores corruptos, de fermento, de sal, de luz, de gente jogada à beira das estrada… Quantas histórias ele sabia contar! Ele havia prevenido que tinha que voltar para o seu Pai e nosso Pai. ♦ Deu ao enigma de nossa vida o nome de Pai. Ele era a misericórdia de Deus e sabedoria eterna morando entre nós. Pudemos representar Deus de uma maneira diferente das abstrações filosóficas. Deus, um Pai que nos ama! Na terra finalmente vivia alguém que não precisava de palavras eruditas e complicadas para falar das coisas de Deus. Servia-se de silêncios e usava palavras curtas, colocava gestos e toques eloquentes. ♦ Ele não podia continuar entre nós naquela figura simplesmente humana. Ele havia conhecido a realidade da morte e nesse preciso momento conferiu-lhe um sentido de amor, de dom de sai para o bem de todos. Deu sua vida para que ninguém mais precisasse temer a morte. Sua morte se transformou em vida para que o seus fossem libertados de todo temor e medo. Levou para a morte o nosso corpo que ele havia adquirido de uma mulher de nossa raça. Pela sua morte corporal, nosso irmão mais velho, vencer nossa morte e nas alturas prepara um lugar para nós. ♦ Nossos olhos estão fitos nas alturas, na glória. Lá é nossa casa definitiva. Estamos, no entanto, ainda no tempo da peregrinação e das andanças. Ainda na caminhada e, misteriosamente, ele nos acompanha. Prepara um lugar para aqueles que morreram a si mesmos e renasceram para o mundo novo que começou a existir com sua encarnação, pregação, paixão, morte e ressurreição. ♦ Jesus viera do Mistério do Alto. Esse Jesus que se remexia nas palhas do presépio e que precisou se contorcer no alto da cruz foi a realização do sonho de Deus: morar na casa dos homens, na sua intimidade, viver sua vida e sempre apontar para o alto. Um alto que não é geográfico como as alturas das montanhas e dos espaços siderais. Um Alto diferente. O Alto das coisas de Deus. O Alto do Mistério. Nos espaços da Trindade penetrou nossa natureza humana. Ele subiu ao mais alto dos céus. ♦ Segundo os Atos dos Apóstolos a nuvem, a nuvem de Deus cobriu Jesus, o irmão mais velho, e os apóstolos não puderam mais vê-lo. Os anjos ou o Espírito sussurraram que não era para ficar olhando para o céu. Uma nova missão: “Homens da Galileia, por que ficais ai olhando parados para o céu”. Começava, naquele momento, para valer a missão dos anunciadores da Boa Nova. Ir pelo mundo anunciar sua vitória, seu evangelho, sua força. E não podemos descansar. Anunciar que ele vive e que um pedaço de nós, a carne humana de Jesus de Nazaré, está na esfera da glória. Lá é nosso lugar e nossa casa. Para a oração e meditação AO ENTRAR NA GLÓRIA Bela página cheia de poesia de Santo Epifânio, bispo: A maior das festas é aquela diante da qual todo discurso nada mais é do que um simples balbucio. Na verdade, hoje, na festa da ascensão, jorra uma torrente de delícias e tudo se enche de alegria. Hoje, o Cristo, abre a porta do céu refulgente de luz. Vinde e contemplai esse cocheiro que, de modo maravilhoso, atravessa os espaços celestes. Ninguém, nem mesmo Elias, mais subiu ao céu, mas somente aquele que de lá desceu, o Filho Unigênito de Deus. Ele mesmo o afirma claramente: Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu. Na verdade, esse bom Pastor, que havia deixado nas montanhas celestes as noventa e nove ovelhas. Isto é, os anjos, para procurar a ovelha que se havia perdido, tendo-a encontrado, colocou-a misericordiosamente sobre os ombros e a reconduziu ao aprisco celeste. Ofereceu-a então ao Pai do céu, dizendo: “Pai, encontrei a ovelha perdida que a serpente havia induzido ao erro. Tendo-a visto coberta de lama de uma vida de pecado, estendendo a minha mão divina, imediatamente a levantei e, impelido por uma profunda compaixão, lavei-a no rio Jordão, perfumando-a depois com a unção do Espírito Santo. Agora, ressuscitado venho à tua presença para oferecer à tua divindade este dom digno de ti: a ovelha reencontrada”. Lecionário Monástico III, p.547   O céu começa na terra José Antonio Pagola Falar do céu pode parecer a muitos não só escapismo e evasão covarde dos problemas que nos envolvem, mas até um insulto insuportável e uma zombaria. Não é com o céu que nos devemos importar, mas com a terra, a nossa terra. Provavelmente muitos subscreveriam de alguma forma as palavras apaixonadas de Friedrich Nietzsche: “Eu vos conjuro, meus irmãos, permanecei fiéis à terra e não creiais nos que vos falam de experiências supraterrenas. Consciente ou inconscientemente são uns envenenadores … A terra está cansada deles: que vão embora de uma vez!” Mas, o que é ser fiel a esta terra que clama por uma plenitude e reconciliação totais? O que é ser fiel a esta humanidade que não pode alcançar essa libertação e essa paz que tão ardentemente busca? O que é ser fiel ao ser humano e a toda a sede de felicidade que ele encontra em seu ser? Nós crentes fomos acusados de ter fixado os olhos no céu e esquecido a terra. Sem dúvida é verdade que uma esperança mal-entendida levou muitos cristãos a abandonar a construção da terra, e inclusive a suspeitar das conquistas humanas nesta vida. No entanto, a esperança cristã consiste precisamente em buscar e esperar a plenitude total desta terra. Crer no céu é procurar ser fiel a esta terra até o fim, sem defraudar nem desesperar de nenhum anseio ou aspiraçãoverdadeiramente humanos. A esperança que nos leva a desinteressar-nos dos problemas e sofrimentos desta terra não é esperança cristã. Precisamente porque crê, busca e espera um mundo novo e definitivo, o crente não pode conformar-se com este mundo cheio de lágrimas, sangue, injustiça, mentira e violência. Quem não faz nada para mudar este mundo não crê em outro melhor. Quem não trabalha para desterrar a violência não crê numa sociedade fraterna. Quem não luta contra a injustiça não crê num mundo mais justo. Quem não trabalha para libertar o ser humano de suas escravidões não crê num mundo novo e feliz. Quem não faz nada para mudar a terra não crê no céu.   O Espírito do Senhor Jesus e nossa missão Pe. Johan Konings A 1ª leitura e o evangelho nos contam como os apóstolos viveram as últimas aparições de Jesus ressuscitado: como despedida provisória e como promessa. Jesus não voltaria até a consumação do mundo, mas deixou nas mãos deles a missão de levar a salvação e o perdão dos pecados a todos que quisessem converter-se, no mundo inteiro. E prometeu-lhes o Espírito Santo, a força de Deus, que os ajudaria a cumprir sua missão. A vitalidade e juventude da Igreja, até hoje, tem sua raiz nesta herança que Deus lhe deixou. “É bom para vocês que eu me vá – diz Jesus no evangelho de João – porque, senão, não recebereis o Paráclito, o Espírito da Verdade” (1016,7). Jesus salvou o mundo movido pelo Espírito e dando a sua vida pelos homens. Agora, nós devemos dar continuidade a esta obra, geração após geração. O Espírito de Jesus e do Pai deve animar em nós, e através de nós, um testemunho igual ao de Jesus: deve fazer revi ver Jesus em nós. O que salva o mundo não é a presença física de Jesus para todas as gerações, mas sim o Espírito que ele gerou em nós pela morte por amor – o Espírito do Pai e dele mesmo. A Igreja não caiu no vazio depois da Ascensão de Jesus. Antes, entrou com ele na plenitude do tempo da salvação e da reconciliação, embora não de vez e por completo. Tem que lutar para realizar o que Jesus já vive em plenitude. Ainda não está na mesma glória, na mesma união definitiva com Deus em que está o seu fundador, mas vive movida pelo mesmo Espírito, e este nunca lhe faltará até a hora do reencontro completo. A Igreja terá que expor às claras as contradições, as injustiças, as opressões que impedem a reconciliação e o perdão. Terá que urgir opção e posicionamento, e também transformação dos corações e das estruturas do mundo, para que um dia o Cristo glorioso seja a realidade de todos nós. Todos os textos disponíveis originalmente em: franciscanos.org.br

Apesar dos avanços, mulheres ainda carecem de reconhecimento e equiparação

“Se quisermos um futuro melhor, se sonharmos com um futuro de paz, precisamos dar espaço às mulheres”. Essa foi uma das falas do papa Francisco durante o encontro com a delegação do Comitê Judaico Americano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 08 de março deste ano. O discurso do pontífice vai de encontro com uma característica da cultura do presente – o reconhecimento do papel que a mulher desempenha na vida pública, principalmente no mundo do trabalho. Nos últimos anos, a participação da mulher brasileira no mercado de trabalho tem ganhado destaque. Em 2007 a presença feminina representava 40,8% do mercado formal. Já em 2016, esse número subiu para 44%. Os dados são do Ministério do Trabalho baseados em pesquisas do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged) e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Além do mundo do trabalho, a crescente presença das mulheres também ganhou destaque no âmbito acadêmico, na política, nas instituições civis e no empreendedorismo. Mariana Bicalho, Community Builder e fundadora do grupo “Mommys” no Facebook. Foto: Fabiana Cristina Atualmente, as mulheres brasileiras ultrapassaram os homens na criação de novos negócios. A taxa de empreendedorismo feminino de empresas com até três anos e meio de existência ficou em 15,4% frente aos 12,6% entre os homens. As informações estão no estudo Global Entrepreneurship Monitor 2016, coordenado no Brasil pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ).  Apesar desse crescimento, uma boa parte das mulheres ainda passa por dificuldades que muitos homens não encontram, tais como o equilíbrio entre atividades domésticas versus o emprego fora de casa e a diferença salarial. Conciliar maternidade e trabalho também continua sendo um desafio para a maioria das mulheres. Antes mesmo de dar à luz, a Mariana Bicalho, 40, já sabia que no momento em que se tornasse mãe não ia querer mais exercer a sua profissão como advogada. Seu ritmo era intenso e ela tinha certeza que não conseguiria conciliar com a maternidade. “Desde o momento em que decidi engravidar já fui pensando em alternativas para largar o Direito”, conta. Para acompanhar mais de perto o crescimento dos filhos, a Laura Bicalho, de 3 anos e o Lucas Bicalho, de 7 anos, e ter liberdade para cuidar da rotina deles, ela decidiu empreender. Mariana Bicalho, mãe da Laura Bicalho, 3, e do Lucas Bicalho, 7. Foto: Ivna Sá Fundadora do grupo “Mommys” no Facebook, comunidade digital que já conta com a participação de mais de seis mil mães brasileiras, inclusive residentes em várias partes do mundo, Mariana conta que a ideia surgiu de forma despretensiosa. “O Mommys surgiu há pouco mais de oito anos quando eu estava grávida do meu primeiro filho e me vi cheia de dúvidas e com muita vontade de conversar com pessoas que estavam vivendo o mesmo que eu, era um universo totalmente novo. Decidi então reunir algumas amigas grávidas e que tinham acabado de ter bebê. Esse grupo rapidamente cresceu, hoje somos mais de 6.200 mães reunidas em um grupo secreto do Facebook”, afirmou. Mariana Bicalho com seu esposo e filhos. Fotoo: Letícia Spirandelli Dentro do grupo, Mariana foi identificando demandas e tentando resolvê-las e assim foi construindo o seu negócio, realizando eventos para as mães e produzindo conteúdo. “A maternidade chega com muitos desafios, a mãe se torna invisível, muitas vezes ela mesmo se esquece, se deixa de lado. Esse olhar amoroso e acolhedor para as mães é necessário para que elas entendam que a maternidade pode ser leve, e que se cuidarmos de nós, isso irá refletir em toda a família, pois uma mãe feliz cria filhos felizes”, disse. Diante de tantos feedbacks positivos que recebia, Mariana descobriu que o Mommys era sua missão e que seu propósito estava ali. “Minha paixão e minha energia estavam depositadas nessa comunidade”, afirmou. Atualmente, o grupo conta com o Portal Mommys – um site que oferece conteúdo de qualidade, um blog e uma revista digital bimestral – e um projeto offline que promove palestras e eventos periódicos para fortalecer as relações entre as mommys, por meio de experiências, trocas e aprendizados. “Com o passar do tempo fui entendendo porque era tão importante para as mães ter essa rede de apoio, acolhimento e amor”, reiterou. Divisão de responsabilidades Para conciliar família e trabalho, muitas vezes, é necessário haver mudanças radicais na organização da vida familiar. Compatibilizar estas responsabilidades provoca um enorme desgaste principalmente para as mulheres, pois mesmo com o avanço no mercado de trabalho feminino, bem como com a crescente participação das mulheres no espaço público, ainda são elas que se encarregam, em maior proporção, às tarefas familiares, assumindo assim uma dupla jornada, a de mulher-profissional e a responsável pelo cuidado de filhos e familiares. Paula Pizzato, 38, amamenta a sua filha Lisa Pizzato, 6 meses, enquanto trabalha. Foto: Acervo pessoal Paula Pizzatto, 38, estava de licença-maternidade e retornou ao trabalho recentemente, motivo pelo qual ainda está se adaptando a nova rotina. “Minha carreira sempre foi a prioridade da minha vida. Imaginava que pouco mudaria sendo mãe, mas tinha curiosidade em saber como conseguiria conciliar a maternidade com a carga horária e as viagens do trabalho. Jamais cogitei deixar de trabalhar em razão disso. Sabia que quando chegasse o momento, daria tudo certo”, contou. Paula é nutricionista e atua na função há 16 anos. Quando engravidou da Lisa Pizzato Mink, atualmente com seis meses de idade, ela e seu marido estavam em pleno consenso de que a filha passaria a ser prioridade em suas vidas e que os dois seriam responsáveis pelos cuidados com a pequena nos primeiros anos de vida. “Optamos em trabalhar menos horas por dia e não precisar arcar com despesas de creche ou cuidador”, apontou. Paula Pizzato e sua filha Lisa Pizzato. Foto: Acervo Pessoal A empresa em que Paula atua aceitou sua proposta de desenvolver seu trabalho em casa e dessa forma, tanto ela como o esposo conseguiram se organizar, intercalando os deveres com a filha, as tarefas domésticas e os cuidados com a saúde da família. “Trabalhar em casa é realmente um privilégio, especialmente porque o horário é flexível e participo de todos os momentos especiais do desenvolvimento da minha filha”, garante. Paula concorda que hoje, as mulheres que trabalham não deixam os afazeres domésticos de lado. “É um acúmulo de funções. Parece que faltam horas no dia para realizar todo o planejado. Por isso, precisamos de disciplina e organização, do contrário, muito deixa de ser feito”, garante. Para ela, estabelecer prioridades é primordial e consente que a participação do homem em casa, seja nas tarefas de casa ou nos cuidados com os filhos, aumentou muito com o passar do tempo. “Colaboração, cumplicidade. Considero isso fundamental para a harmonia da família. Juntos vamos mais longe”, afirma. Diferença salarial O mercado de trabalho brasileiro mostra que as mulheres ainda têm um longo caminho a percorrer para obter o mesmo reconhecimento que os homens. Pesquisa realizada pelo site de empregos Catho, em 2019, com quase oito mil profissionais mostra que elas ganham menos que os colegas do sexo oposto exercendo os mesmos cargos, áreas de atuação e com os mesmos níveis de escolaridade pesquisados. A diferença salarial chega a quase 53%. Além disso, mulheres ainda são minoria ocupando posições nos principais cargos de gestão, como diretoria, por exemplo. Mariana do Socorro com seu marido e filhos. Foto: Acervo Pessoal Maria do Socorro Nunes de Melo, 50, é sargento da Policia Militar do Distrito Federal (PMDF) e mãe de três filhos: o Isaac Nunes Melo, 21, a Yasmin Nunes Melo, 18, e a Joyce Nunes Melo, 10. Para ela, o ponto positivo de ser militar é o de ter um regulamento que funciona para homens e mulheres. Ela explica que o que difere no salário da categoria é o posto/graduação que cada um exerce ou tem. “Não há discriminação de salários, agora para assumir um certo comando, sim, a mulher tem que se superar, mostrar com eficácia sua competência”, garante. Vânia Lúcia Ferreira Leite, 49, acredita ser importante a equiparação salarial entre homens e mulheres. “Houve muitas mudanças, mas queremos atingir o ponto ideal, como por exemplo, a igualdade salarial. É importante não visualizar a mulher como uma figura ilustrativa, mas como uma profissional competente”, afirma. Vânia Lúcia é mãe de três filhos e atualmente atua como assessora nacional da Pastoral da Criança. Crédito: Daniel Flores/CNBB Mãe de dois filhos, o André Henrique, 27, e a Alessandra Helena, 23, Vânia é bacharel em Ciências Econômicas e atualmente atua como assessora nacional da Pastoral da Criança, organismo de ação social vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ela também exerce as funções de Conselheira Nacional de Saúde (CNS), coordenando a Comissão Intersetorial de Atenção à Saúde nos Ciclos de Vida do Distrito Federal. Direitos e Deveres Apesar de, nos últimos vinte anos, várias mudanças sociais, políticas, culturais e jurídicas terem favorecido a consolidação dos direitos da mulher, culminando com o reconhecimento do papel significativo que o sexo feminino tem, Vânia acredita que tudo isso só foi possível graças ao acolhimento da justiça brasileira para com as mulheres, diminuindo suas fragilidades. Como exemplo, ela cita a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, e que garante às mulheres em situação de risco proteção privilegiada e efetiva do Estado. Vânia Lúcia. Foto: Daniel Flores/CNBB Outra recente é a Lei do Feminicídio que entrou em vigor em 2015, alterando o código penal para incluir mais uma modalidade de homicídio qualificado, o feminicídio, que é quando o crime é praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. “Tenham certeza que continuaremos lutando pela igualdade dos nossos direitos e deveres garantidos pela Constituição Federal de 1988”, enfatiza Vânia. Com tantos obstáculos que, em várias partes do mundo, impedem ainda às mulheres a sua plena inserção na vida social, política e econômica, a Igreja também reconhece que resta muito a fazer para que o ser mulher e mãe não comporte discriminação. Além do papa Francisco, São João Paulo II, em Carta às Mulheres (1995), já argumentava que é necessário conseguir onde quer que seja a igualdade efetiva dos direitos da pessoa e, portanto, idêntica retribuição salarial por categoria de trabalho, tutela da mãe-trabalhadora, justa promoção na carreira, igualdade entre cônjuges no direito de família e o reconhecimento de tudo quanto está ligado aos direitos e aos deveres do cidadão num regime democrático. “Obrigado a ti, mulher, pelo simples fato de seres mulher! Com a percepção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas” (São João Paulo II). Inserção das mulheres no mercado de trabalho 60% das mulheres desejam compatibilizar o trabalho com a vida familiar20% prefere de dedicar exclusivamente à família20% prioriza o trabalho em certos momentos do próprio itinerário existencial e profissionalFonte: HAKIM, C. Work-Lifestyle Choices in the 21º Century. Dritain Journal of Sociology. Foto capa: Ivna Sá Matéria disponível no site da CNBB

6º Domingo da Páscoa

A palavra de ordem é “Coragem” Frei Gustavo Medella As leis e as tradições existem para oferecer respostas de libertação e vida plena aos apelos da realidade de cada tempo. Esta constatação já estava clara na Igreja Primitiva, conforme apresenta a 1ª leitura deste 6º Domingo do Tempo da Páscoa, retirada dos Atos dos Apóstolos. No impasse diante da obrigatoriedade da circuncisão para a acolhida de membros não judeus à comunidade cristã, o Espírito Santo, as lideranças e o bom senso chegaram à conclusão de que, embora fosse um ritual importante para a cultura hebraica, não haveria de necessidade de que tal prática estivesse atrelada ao seguimento de Cristo. “Simples assim”, como diz a nossa juventude. Na atualidade, permanece como desafio para a Igreja beber da sabedoria primitiva e colocar em diálogo franco e transparente doutrinas e regras que podem ser revistas à luz dos sinais dos tempos. Neste particular, o pontificado do Papa Francisco tem sido marcado pela liberdade e pela disposição de um pastor que não se furta em abrir os ouvidos e o coração para ouvir, acolher e discernir os apelos da humanidade que ressoam no seio da própria Igreja. Sem negociar o que é fundamental dos ensinamentos de Cristo – tudo que brota e deriva do Mandamento do Amor – o Santo Padre demonstra um total desapego em relação a questões que tendem à mera formalidade, à autorreferência e à manutenção de estruturas obsoletas de status e poder. Assim age o Papa ao desejar ouvir as famílias, a juventude, os povos amazônicos, as outras tradições religiosas, ao colocar-se sem intermediário diante das perguntas e questionamentos de jornalistas, intelectuais e agentes de diversos setores da sociedade. Da mesma maneira quando pede que nossas paróquias não funcionem como alfândegas pastorais, que nossas igrejas mantenham teimosamente as portas abertas para todos, que a chaga maligna do abuso sexual de jovens e crianças seja trazida para a luz dia como única maneira eficaz de ser curada. Francisco demonstra-se um Papa sem medo. A coragem do Santo Padre pode e deve nos inspirar. Afinal, o Mestre Jesus garante que neste empenho jamais estaremos a sós. Sua presença é próxima constante e fiel pela força e a ação do Defensor que Ele e o Pai enviam a nós. Neste domingo que precede a Solenidade da Ascensão do Senhor, a palavra de ordem é “Coragem”!   6º Domingo da Páscoa, ano C Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus Oração: “Deus todo-poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra do Cristo ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos”. 1. Primeira leitura: At 15,1-2.22-29 Decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor nenhum fardo,além das coisas indispensáveis. Nas leituras do 5º Domingo da Páscoa ouvimos que tudo o que é novo provoca crises e divisões, mas também traz a alegria da salvação. Ao término da primeira viagem missionária, os apóstolos Paulo e Barnabé relataram o sucesso que a mensagem do Evangelho teve, sobretudo, entre os pagãos. A comunidade de Antioquia da Síria, formada por judeus e pagãos convertidos ao Cristianismo muito se alegrou com o sucesso da missão. Em Antioquia era florescente a primeira comunidade, fundada fora da Judeia por cristãos que fugiram da perseguição após o martírio do diácono Estêvão. Foi fundada por alguns dos que fugiram de Jerusalém começaram a pregar o Evangelho apenas para os judeus; outros, porém, pregavam diretamente as outros também para os gregos (cf. At 11,19-26). Preocupada com a novidade, a igreja de Jerusalém enviou Barnabé a Antioquia a fim de conhecer de perto essa maneira de pregar o Evangelho diretamente aos pagãos. Barnabé, um “homem bom, cheio de Espírito Santo e de fé” (11,24), ficou encantado com a nova igreja composta de judeus e pagãos convertidos e os animava a perseverarem firmes na fé. Depois foi buscar Saulo em Tarso e os dois permaneceram em Antioquia por um ano, instruindo “muita gente” na fé. Vendo as qualidades e o entusiasmo de Barnabé e Saulo e o sucesso da pregação do Evangelho entre os gregos, por inspiração do Espírito Santo, a igreja de Antioquia enviou-os em missão para a região da Ásia Menor. Domingo passado ouvimos o relato que Saulo e Barnabé fizeram em Antioquia, ao término da primeira viagem missionária. O número de cristãos em Antioquia aumentava a cada dia. A paz e alegria da comunidade, porém, foi perturbada por alguns judeu-cristãos, provenientes da Judeia, que começaram a obrigar os gregos convertidos a se circuncidarem. Sem observar a Lei de Moisés, diziam eles, ninguém poderia ser salvo. Paulo e Barnabé, contudo, defendiam que os pagãos convertidos não precisavam tornar-se judeus para se tornarem cristãos. A comunidade de Antioquia formou uma comissão formada por Paulo e Barnabé e que defendiam a obrigação da lei de Moisés. A questão foi levada a Jerusalém para ser resolvida pelos apóstolos e anciãos. Os dois lados foram ouvidos e a questão foi discutida na presença dos anciãos e dos apóstolos. Na carta escreveram: “Decidimos o Espírito Santo e nós”. Foi o Espírito Santo que os levou a tomar a decisão. O “nós” inclui os apóstolos, os anciãos e os cristãos, as lideranças dos judeu-cristãos e dos cristãos gregos. O Espírito Santo conduz ao diálogo e une na mesma comunhão de amor e fé, superando as diferenças culturais. Os pagãos convertidos não foram obrigados à circuncisão. Deles pediu-se apenas, por respeito aos judeu-cristãos, que se abstivessem de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animai sufocados e das uniões matrimoniais consideradas ilegítimas (cf. 1Cor 10,23-33). São princípios de boa convivência nas diferenças culturais daquele tempo. A boa nova de Cristo não está presa a uma cultura, mas pode encarnar-se nas mais diferentes culturas. É o amor de Deus encarnado em Cristo que nos une a todos como cristãos. Exemplo atual: O Sínodo Pan-Amazônico. Salmo responsorial: Sl 66 Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor,que todas as nações vos glorifiquem! 2. Segunda leitura: Ap 21,10-14.22-23 Mostrou-me a cidade santa descendo do céu. A visão do domingo passado anunciava o “novo céu e a nova terra”, descendo de Deus, bela como a noiva que vai ao encontro de seu noivo. E Cristo, o Cordeiro imolado, dizia: “Eis que faço novas todas as coisas”. Na leitura de hoje, um dos sete anjos convida o vidente a conhecer a noiva: “Vem! Vou mostrar-te a esposa do Cordeiro” (21,9). E descreve o esplendor da cidade santa. Na descrição da cidade recorre ao profeta Ezequiel (Ez 40–48). Os fundamentos das muralhas são os doze apóstolos que testemunharam sua fé no Cordeiro (o esposo), morto por nós e ressuscitado. Na antiga Jerusalém Deus morava no templo. Na cidade santa não haverá templo, porque o próprio Deus será o Templo. Nela se abrigarão todos os que deram testemunho de sua fé, até com a própria vida, milhões e milhões de fiéis resgatados pelo sangue do Cordeiro (Ap 7,1-17). Deus veio morar entre nós e em cada um de nós. Encarnou-se no seio da Virgem Maria e armou sua tenda para habitar no meio de nós (Jo 1,14), a fim de introduzir-nos no Templo celeste, que é o próprio Deus (Evangelho). Aclamação ao Evangelho: Jo 14,23 Quem me ama realmente guardará minha palavra,e meu Pai o amará, e a ele nós viremos. 3. Evangelho: Jo 14,23-29 O Espírito Santo vos recordará tudo o que eu vos tenho dito. No 5º Domingo da Páscoa ouvimos que a essência da vida cristã está no mandamento do amor. A medida para vivermos o amor fraterno é o exemplo de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Vimos que este é o testamento de Jesus aos seus discípulos, antes de morrer. No Evangelho de hoje Jesus continua falando do amor, que nos une a Cristo, ao Pai e ao Espírito Santo. Isto é, enquanto estamos mergulhados no mistério da Santíssima Trindade. Da parte de Deus este amor é gratuito, é fiel. De nossa parte exige guardar sua palavra, isto é, colocar em prática o mandamento do amor que Jesus nos deixou. Quando observamos o mandamento do amor a exemplo de Jesus somos introduzidos na família divina. Depois da última ceia estava para se cumprir a “exaltação” de Jesus, isto é, sua morte, ressurreição e ascensão ao céu (próximo domingo). Por isso Jesus fala do Espírito Santo, “que o Pai enviará em meu nome”. Cristo Jesus continuará a nos ensinar pelo Espírito Santo: “Ele vos ensinará e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. Recordará e ensinará sempre de novo o mandamento do amor, a nós dado por Jesus. A paz que Jesus nos deixa vem da fé: Quando vivemos o amor a exemplo de Jesus, tornamo-nos a morada da Santíssima Trindade: “Se alguém me ama – diz Jesus –, guarda minha palavra; meu Pai o amará, viremos a ele e nele faremos nossa morada” (14,23). Deus veio morar conosco: “A Palavra se fez carne”, isto é, “armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). No futuro, não haverá mais templo, o próprio Deus será o Templo e acolherá todos os que vivem no seu amor, para que vivamos para sempre em sua companhia (2ª leitura, v. 22). A escuta e a prática do mandamento do amor, nos coloca em comunhão com Deus. Que o Espírito Santo, enviado a nós pelo Pai em nome de seu Filho Jesus, recorde-nos sempre o mandamento do amor. Que Ele nos ensine a descobrir quem é o nosso próximo, para amá-lo como ele nos amou.   Um Deus que fala Frei Clarêncio Neotti Quem não guarda a Palavra de Jesus não o ama (v. 24), ainda que declare com os lábios que o ama. E em quem não guarda a Palavra, Deus não mora. O que significa de fato ‘guardar a palavra’? Comecemos com o Antigo Testamento. Cento e quarenta e uma vezes ocorre a expressão ‘palavra de Javé’ (palavra de Deus). O Deus do Antigo Testamento é um Deus que fala, que se manifesta, que delega a palavra a outros, que faz dela um ensinamento, uma doutrina, uma lei. Digamos logo: é um Deus vivo (e não como o dos pagãos, de ouro e prata, mas mudo, como lembra o Salmo 115,4-8), um Deus que se interessa por tudo o que acontece às criaturas e entre as criaturas. Noventa e três vezes a expressão ‘palavra de Deus’, no Antigo Testamento, vem com um sentido profético – grande força do Antigo Testamento. Ela aparece em forma de chamado, escutado diretamente de Deus (Jr 1,4: “A palavra do Senhor foi-me dirigida”. Jr 1,9: “O Senhor estendeu a mão e tocou-me a boca. O Senhor disse-me: ponho as minhas palavras em tua boca”). Cada profeta recebe a palavra a seu modo, mas há nela sempre um encontro muito pessoal e um compromisso com Deus. A palavra do profeta passa a ser palavra de Deus, ou seja, o profeta fala em nome de Deus.   "Eu vos dou a minha paz..." Frei Almir Guimarães Não é difícil assinalar alguns traços da pessoa que leva em seu interior a paz de Cristo: ela sempre busca o bem de todos, não exclui ninguém, respeita as diferenças, não alimenta a agressão, fomenta o que une, nunca o que traz discórdia. José Antonio Pagola ♦ O evangelho deste domingo nos coloca diante de trecho do Discurso de Adeus de Jesus segundo a versão do quarto evangelista. Jesus parece sentir que o frio toma conta dos corações dos seus. Quer animá-los. Não deseja que sintam o frio da orfandade. Há um clima de confidência e de intimidade em toda a página proclamada. ♦ Antes de tudo há um tema fundamental, uma afirmação de beleza estonteante, quase incrível. Os que amam a Jesus se tornam templo do amor da Trindade, da própria Trindade.. O amor a Jesus é a base da casa do coração que é visitada e habitada por Deus. “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”. Os que amam a Jesus se tornam, pois, habitação da Trindade. ♦ O que é amar a Jesus? Amar a Jesus é aproximar-se dele com toda confiança. É compreender que Deus se fez fragilidade para de nós se aproximar: o menino que se remexe nas palhas e o torturado do Gólgota. Amar a Jesus é aceitar com estupefação que Deus se tenha tornado tão frágil. É ter certeza de sua vida nova de ressuscitado. É acreditar que, misteriosamente, ele anda a nos rondar pedindo que a ele nos entreguemos sem reservas. Quer que sejamos nós mesmos mas com ele. Pede licença de viver em nós. ♦ Amar a Jesus é ler o Sermão do Montanha com a avidez de alguém que necessita viver e viver intensamente. É ler o Evangelho  com um desejo de deixar que esse espírito  tome conta de nós, transpareça em nosso olhar e module nossa voz.  Amar a Jesus é ter traços dele na vida do casamento,  na missão de padre, no jeito de viver o cotidiano. Os que amam a Jesus tem a certeza de que ele e o Pai farão morada da Trindade.  Templos do Espírito!!!  Casa de Deus. ♦ Com sua partida Jesus anuncia aos seus a vinda do Espírito. Essa força, fogo, luz ensinará todas as coisas. O Espírito será a memória viva de Jesus. “É grandioso o horizonte que Jesus oferece a seus discípulos. De Jesus nasceu um grande movimento espiritual de discípulos e discípulas que o seguirão seguidos pelo Espírito Santo. Eles se manterão em sua verdade, pois esse Espírito lhes ensinará tudo o que Jesus lhes comunicou pelos caminhos da Galileia. E os defenderá no futuro da perturbação e da covardia” (Pagola, João, p. 207). Medo, insegurança, cansaço, tédio, dúvidas… O Defensor ensinará tudo. ♦ “Deixo-vos a paz, a minha paz eu vos dou”. São muitos os conflitos que sacodem a sociedade. Há povos que matam povos. No interior das famílias há graves manifestações de violência. Rejeições e exclusões de toda sorte fazem com que as pessoas sofram, sintam-se tristes e fadadas a morrer antes da morte. Conflitos e desavenças são resolvidos pela violência, pela força e pela morte do adversário. A fé na violência precisa ser substituída pelo diálogo, pela busca de caminhos de realização para todos. “Deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz”. ♦ “Por que é tão difícil a paz? Por que voltamos sempre de novo ao enfrentamento e à agressão mútua? Há uma resposta primeira tão elementar e simples que ninguém leva a sério: só homens e mulheres, que possuem a paz, podem introduzi-la na sociedade” (Pagola, op. cit., p.206). Tudo começa no interior de cada. Há o pecado, a divisão. Os construtores da paz se reconciliam com sua história e acolhem o perdão do Senhor que belamente é também concedido pelo sacramento da reconciliação. A pessoa precisa respirar a paz. Ter um interior sem ressentimentos, intolerâncias, dogmatismos, mas com simpatia pelo outro, buscando entendimento, depondo as armas. ♦ “Não é difícil assinalar alguns traços da pessoa que leva em seu interior a paz de Cristo: ele sempre busca o bem de todos, não exclui ninguém, respeita as diferenças, não alimenta a agressão, fomenta o que une, nunca o que traz a discórdia” (Pagola, op.cit., p. 206). Oração Dá, Senhor, à nossa vida a sabedoria da paz.Que o nosso coração não naufrague na lógica de tanta violência disseminada ao nosso redor.Que os sentimentos de dor e de despeito não sufoquem a necessidade dos gestos de reconciliação,a urgência de uma palavra amável  que rompa as paredes  do silêncio,o reencontro dos olhares que se desviam.Dá-nos a força de insinuar  no inverno gelado em que,  por vezes vivemos, o ramo verde, a inesperada flor,a claridade que é esta irreprimível e pascal vontade de recomerçar. José  Tolentino  MendonçaUm Deus que dançaPaulinas, p.95 “A cultura da paz  só se assenta numa sociedade  quando as pessoas estão dispostas ao perdão sincero, renunciando à vingança e à revanche. O perdão liberta da violência do passado e gera novas energias para  construir o futuro entre todos” (Pagola, op. cit., p.209)   Uma cultura da paz José Antonio Pagola São muitos os conflitos que sacodem hoje nossa sociedade. Além das tensões e enfrentamentos que ocorrem entre as pessoas e no seio das famílias, graves conflitos de ordem social, política e econômica impedem entre nós a convivência pacífica. Para resolver os conflitos, sempre temos que fazer uma opção: ou escolhemos a via do diálogo e do mútuo entendimento, ou seguimos os caminhos da violência e do enfrentamento. Por isso, muitas vezes o mais grave não é a própria existência dos conflitos, mas o fato de que se pode acabar acreditando que os conflitos só podem ser resolvidos por meio de imposição da força. Diante desta “cultura da violência” temos que promover hoje uma “cultura da paz”. A fé na violência deve ser substituída pela fé na eficácia dos caminhos não violentos. Temos que aprender a resolver nossos problemas por vias dignas do ser humano. Não fomos feitos para viver permanentemente no enfrentamento. Antes de qualquer outra coisa, somos humanos e chamados a entender-nos buscando honestamente soluções justas para todos. Esta “cultura da paz” exige que se busque a eliminação das injustiças sem introduzir outras novas, e sem alimentar e aprofundar mais as divisões. Só os que resistem aos meios injustos e combatem todo atentado contra a pessoa podem ser construtores de paz. Além disso, uma “cultura de paz” exige que se crie um clima de diálogo social promovendo atitudes de respeito e escuta mútuos. Uma sociedade avança para a paz renunciando aos dogmatismos, buscando a aproximação de posturas e esclarecendo no diálogo as razões em confronto. A “cultura da paz” sempre se arraiga na verdade. Deformá-la ou manipulá-la a serviço de interesses partidaristas ou de estratégias obscuras não levará à verdadeira paz. Mentir e enganar o povo sempre geram violência. A “cultura da paz” só se assenta numa sociedade quando as pessoas estão dispostas ao perdão sincero, renunciando à vingança e à revanche. O perdão liberta da violência do passado e gera novas energias para construir o futuro entre todos. No meio desta sociedade, nós, cristãos, temos que escutar de maneira nova as palavras de Jesus, “deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz”, e temos que perguntar-nos o que fizemos dessa paz que o mundo não pode dar, mas precisa conhecer.   Onde o amor e a caridade, Deus aí está Pe. Johan Konings É comum ouvir-se que a Igreja é opressora, mera instância de poder. Isso vem do tempo em que, de fato, a Igreja e o Estado disputavam o poder sobre a população. E os meios de comunicação se esforçam por manter essa imagem, como se nunca tivesse acontecido um Concílio Vaticano II, como se nunca tivessem existido o Papa João XXIII, Dom Hélder Câmara… Disse um psicólogo: “A sociedade precisa de manter viva a imagem de uma Igreja opressora para poder se revoltar contra quando pode revoltar-se contra o pai … “ A liturgia de hoje nos faz ver a Igreja de outra maneira. Claro, ela ainda não é bem como deveria ser, aquela “noiva sem ruga nem mancha” que é a Jerusalém celeste da 2ª  leitura. Mas quem ama acredita que a pessoa amada é muito melhor por dentro do que parece por fora. Por isso, se amamos a Igreja, acreditamos que em sua realidade mais profunda ela é, mesmo, a noiva sem ruga nem mancha … Vista com os olhos do Apocalipse, a Igreja é a morada de Deus, a Jerusalém nova, em que não existe mais templo, porque Deus e Jesus – o Cordeiro – são o seu templo. Seu santuário é Deus mesmo, não algum edifício para lhe prestar culto. Deus está no meio de seu povo. Isto basta. A 1ª  leitura descreve um episódio da Igreja que manifesta isso. Os apóstolos tiveram uma discussão sobre a necessidade de conservar-se os ritos judaicos na jovem Igreja, no momento em que ela estava saindo do mundo judeu e abrindo-se para outros povos, na Ásia e na Europa. Depois de oração e deliberação, os apóstolos chegaram à conclusão de que, para ser cristão, não era preciso observar o judaísmo (que tinha sido a religião de Jesus). Somente fossem observados alguns pormenores, para não escandalizar os cristãos de origem judaica. Os apóstolos reconheceram que o antigo culto do templo se tinha tornado supérfluo. O evangelho de hoje nos faz compreender por quê: “Eu e o Pai viremos a ele e faremos nele a nossa morada”, diz Jesus a respeito de quem acredita nele (João 14,23). Os fiéis são a morada de Deus. A Igreja, enquanto comunhão de amor, é a morada de Deus. Não precisamos de templo concebido como “estacionamento da santidade”. O povo simples sente isso intuitivamente, quando arruma um galpão ou um pátio para servir de salão comunitário e capela e tudo, lugar de oração, de celebração, de reunião, para refletir e organizar sua solidariedade e sua luta por mais fraternidade e justiça. Sabe que não é nos templos de pedra que Deus habita, mas no coração de quem ama e vive seu amor na prática. “Onde o amor e a caridade, Deus aí está”. Todas as reflexões estão disponíveis originalmente em: franciscanos.org.br Imagem: ilustração de Hugo Varlez

18 de maio: dia de luta contra o abuso e exploração sexual de crianças a adolescentes.

No último sábado, 18 de maio, foi o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Para lembrar a luta por essa causa, várias paróquias da Diocese de Bragança do Pará realizaram várias atividades com o objetivo de conscientizar e encorajar para a denuncia. Entre essas atividades, em todas as paróquias, foram realizadas caminhadas para lembrar o dia 18 de maio. Lembramos que o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes foi instituído em 2000, em decorrência do episódio que ganhou ampla repercussão na mídia, retratando o drama da menina Araceli, de 8 anos, que foi raptada, drogada, violentada, morta e carbonizada por jovens de classe média de Vitória (ES), caso acontecido em 18 de maio de 1973, e até hoje nunca foram punidos. Desde então, as ações que marcam este dia visam mobilizar os diferentes setores da sociedade, governos e mídia sobre a urgência da proteção dos direitos de meninas e de meninos.   Tracuateua A Paróquia São Sebastião, em Tracuateua, foi uma das que participou seriamente da campanha nacional de enfrentamento contra o abuso sexual de crianças e adolescentes... De lá, a secretária paroquial Marcela Corpes, nos enviou informações sobre o dia 18 de maio. Durante a campanha, que foi lançada em Tracuateua no dia 5 deste mês, foram promovidas diversas reflexões, bem como rodas de conversas visando sensibilizar a comunidade para a prevenção e o combate ao crime, culminando com a caminhada na manhã do dia 18, que teve concentração na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde o Pároco, Pe. Carlos Afonso, apresentou o objetivo da caminhada e convocou a todos para a invocação do Espírito Santo, iniciando, assim, a caminhada que percorreu as principais ruas do centro da cidade, com paradas estratégicas de reflexões até o encerramento na Praça da igreja Matriz, após breve reflexão realizada novamente pelo Pároco.   Bragança Na sede da diocese aconteceram 3 caminhadas: uma saindo da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, outra da Paróquia São João Batista e a terceira da Paróquia Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. As três caminhadas chegaram até a Praça das Bandeiras, no centro da cidade, onde encontraram o pequeno grupo da Paróquia Catedral Nossa Senhora do Rosário. Com todos juntos, já em uma só caminhada, o grupo desceu até as proximidades da feira livre de Bragança e depois se dirigiu ao Ginásio de Esportes Dom Eliseu, onde a programação do dia foi completada e encerrada como a distribuição do lanche. Com tristeza registramos a diminuição na quantidade de participantes da programação do 18 de maio em Bragança.   Mãe do Rio Em Mãe do Rio, Paróquia São Francisco de Assis, tivemos acesso a imagens da realização da caminhada do combate, que por lá foi realizado no dia 17 de maio.    Veja em nossa galeria abaixo mais algumas imagens do dia 18 de maio pelo Diocese de Bragança do Pará. Por Diocese de Bragança

5º Domingo da Páscoa

A novidade amorosa que é o Reino de Deus Frei Gustavo Medella “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5a) “Eu vos dou um novo Mandamento” (Jo 13,34a) O tema da novidade se faz presente com bastante ênfase nas leituras deste 5º Domingo da Páscoa. Pensando-se no significado do adjetivo “novo(a)” e dos diferentes sentidos que o termo pode assumir, vêm as perguntas: “O que garante a novidade de um mandamento apresentado por Cristo há mais de dois mil anos? Se um carro, uma casa ou uma roupa adquiridos como “novos”, depois de um ou poucos anos o deixa de ser, por que um ensinamento apresentado há tantos séculos ainda não pereceu?” Talvez a resposta para estas dúvidas esteja na capacidade divina descrita no trecho do livro do Apocalipse, quando Aquele que está sentado no trono garante: “Eis que faço nova todas as coisas”. O caminho da novidade é, portanto, um caminho de compromisso “artesanal”. “Fazer nova todas as coisas” é um atributo de Deus que ele deseja partilhar com o ser humano, manifestando-o na capacidade de se re-encantar, na disposição para superar a provação, na coragem para vencer o sofrimento em vista de um bem maior, conforme constatam Paulo e Barnabé na 1ª Leitura, dos Atos dos Apóstolos: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14, 21b-27). Cada vez alguém se propõe a um ato de amor, o mandamento de Cristo se faz verdadeiramente novo, nas atitudes mais simples, na disposição mais singela de quem, consciente de seus limites, se doa por inteiro num gesto amoroso, seja ele de perdão, de partilha, de acolhida, de serviço desinteressado e gratuito. Com sua Ressurreição, Jesus Cristo chama a todos para serem, com ele, construtores da novidade amorosa que é o Reino de Deus.   5º Domingo da Páscoa Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus  Oração: “Ó Deus, Pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que creem no Cristo a liberdade verdadeira e a herança eterna”. Primeira leitura: At 14,21b-27 Contaram à comunidade tudo o que Deus fizera por meio deles.  Antes de concluir a primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé tornaram a visitar as comunidades fundadas para encorajá-los e exortá-los a “permanecerem firmes na fé”. E diziam: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. Os apóstolos sentem-se solidários com os fiéis recém-convertidos ao cristianismo. Mas, o sofrimento, a oposição, desprezo e perseguição eram o caminho a ser percorrido para entrar no reino de Deus. A conversão muitas vezes exigia romper com a família, com os costumes e vícios pagãos. Para dar solidez às novas igrejas, “designaram presbíteros para cada comunidade e os confiavam ao Senhor”, com jejuns e orações. Em seguida, voltaram a Antioquia a fim de prestar conta na comunidade reunida do sucesso da missão a eles confiada. Em Antioquia é que foram escolhidos pelo Espírito Santo e, depois de um jejum, orações e imposição das mãos, enviados para a missão. Os apóstolos não consideraram como sucesso pessoal os belos frutos da missão, mas “contaram tudo o que Deus fizeram por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos”. O Espírito Santo é a “força” prometida por Jesus para serem testemunhas suas “em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). É o mesmo Espírito que nos impulsiona, ainda hoje, a anunciar o Evangelho e dar testemunho de nossa fé. Salmo responsorial: Sl 144 Bendirei o vosso nome, ó meu Deus, meu Senhor e meu Rei para sempre. Segunda leitura: Ap 21,1-5a Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos.  A segunda leitura inicia a visão que contêm a última revelação do livro do Apocalipse, recebida pelo vidente. O texto caracteriza-se pela palavra novo/nova, repetida quatro vezes. Ele vê um “novo céu e uma nova terra”. Na concepção bíblica, a expressão “céu e terra” engloba toda a realidade que existe entre estes dois pontos opostos, céu e terra. Indica a totalidade do até então conhecido. A nova realidade substitui a anterior, marcada pelo pecado, pela violência e pela morte, derrotadas pelo Cordeiro. A nova realidade se caracteriza pela ausência do mal e presença do bem. A nova Jerusalém desce do céu, isto é, vem de Deus, e está vestida como uma noiva, para celebrar o casamento com o Cordeiro. Uma voz que sai do trono (Deus) explica o que é este casamento: “Esta é a morada de Deus entre os homens” (cf. Ap 7,15: 2ª leitura do 4º Domingo da Páscoa). “Deus vai morar no meio deles”, como já morou em Jesus de Nazaré (cf. Jo 1,14; Mt 1,23). “Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles”. É a imagem da união conjugal que melhor expressa a comunhão de amor entre Deus e o seu povo(cf. Ef 5,21-33). Nesta nova realidade não haverá mais lágrimas, morte, luto nem dor. Será a plena realização do Reino de Deus anunciado por Jesus. Ele, o Cordeiro imolado, agora sentado no trono, é a garantia deste novo céu e nova terra: “Eis que faço novas todas as coisas” (Evangelho). Aclamação ao Evangelho: Jo 13,34 Eu vos dou novo preceito: que uns aos outros vos ameis:                 Como eu vos tenho amado. Evangelho: Jo 13,31-33a.34-35 Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. O Evangelho que acabamos de ouvir é o testamento de Jesus, sua última vontade antes de enfrentar a morte. Jesus caminha para sua glorificação, pelo caminho da exaltação na cruz. Em vida, Jesus dizia: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (10,11). Durante a última ceia disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”. Chegando a hora de mostrar este amor, Jesus nos deixa o mandamento do amor. Fala aos discípulos com a ternura de um pai: “Filhinhos”. Este novo mandamento que nos dá ultrapassa o mandamento do amor ao próximo como a si mesmo. O mandamento do amor que Jesus deixa aos discípulos é o amor capaz de dar a vida pelos que ama: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. É assim que seremos reconhecidos como discípulos de Jesus.   Não é fácil viver o Cristianismo Frei Clarêncio Neotti Essa entrega de si mesmo aos outros, sem nada pedir em troca, Jesus a chamou de amor. E é desse amor de que fala hoje (v. 34). Compreendemos, então, porque ele o chama de novo. O amor pode ter mil faces, desde que seu motor seja “como eu vos amei” (v.34), isto é, seja como o amor com que Cristo glorificou o Pai, um amor gratuito, que nada pede em troca a não ser a alegria de que o Pai receba essa expressão de amor como glorificação. Não é qualquer gesto caritativo que distingue o cristão nem um amor genérico, que é mais sinônimo de gosto que de entrega. Ninguém dirá que Jesus gostou da paixão e da cruz, por isso gostou de ser nela pregado. Isso seria sadismo e não amor. No amor ensinado por Jesus não há lugar para simpatias e antipatias, que tanto condicionam nossos gestos. Esse ‘mandamento novo’ de Jesus é duro de se entender e mais duro de se praticar. Assemelha-se ao discurso em que promete dar de comer seu corpo e de beber seu sangue (Jo 6,53-56). Muitos discípulos disseram: “Estas palavras são duras. Quem as pode aceitar?” (Jo 6,60). Jesus não retirou sua promessa. Como não há de retirar suas palavras da Última Ceia. Não são as medalhas que levamos ao peito nem o número de comunhões que fazemos que garantem a genuinidade do nosso Cristianismo, mas sim a gratuidade de nossos gestos de caridade. A gratuidade é uma virtude rara na sociedade de hoje, tão sensível a pagamentos e recompensas. Além do mais a vida de cada dia ensina que vencem os espertos, os dribladores das leis. O que conta não é meu próximo, mas meus interesses. Ao que não me traz vantagens dou indiferença. Também hoje a pregação do amor gratuito, marcado pelo desapego, pela renúncia consciente, amor pautado no Cristo crucificado soa como grande novidade. Quem tem coragem de ser discípulo de Jesus (v. 35)?   O que conta mesmo é o amor e nada mais! Frei Almir Guimarães Precisamente porque faz o ser humano enraizar-se em seu verdadeiro ser, o amor dá cor à vida, alegria, sentido interno. Quando falta o amor a pessoa pode conhecer o êxito, o prazer, a satisfação do trabalho bem feito, mas não a alegria e o sabor que só o amor pode trazer.José Antonio Pagola ♦ Continuamos nossa caminhada ao longo do tempo pascal e vamos deixando que o Mestre Ressuscitado modele o coração da Igreja e de cada um. Não há dúvida: o que importa de verdade é amar de verdade. Não qualquer “aquecimento sentimental” do coração, mas uma existência aberta, voltada para os outros. E será precisamente pelo amor que os discípulos serão reconhecidos como sendo do Senhor. ♦ Tudo começa no seio da Trindade. As pessoas divinas se amam, se entregam num jogo irrestrito de dom. Um da Trindade, o Filho, o Verbo veio até nós para viver do amor e dar a sua vida pela vida de muitos. Nós somos resultados de um sonho e de um projeto de amor de Deus que deseja nos fazer participantes desse jogo de bem querer, dessa imensa alegria de existirmos para os outros. Inventados pelo amor somos fadados a ser homens e mulheres do dom. Vede como eles se amam ◊ No entardecer de nossas vidas seremos julgados pela qualidade de nosso amor pelos outros. Os cristãos, segundo as Escrituras, eram reconhecidos devido ao amor que exprimiam e viviam. Como se vive concretamente o amor? ♦ Amar, antes de mais nada, significa respeitar o outro, respeito que vai se manifestar de muitos modos: acolhida, nunca provocar situações que diminuam sua grandeza e de sua nobreza de ser humano. Fazer lugar para escutar e olhar. ♦ Respeito pela dignidade de ser humano e porque o homem é imagem de Deus. ♦ Amar significa (que bom que seja assim) acolher o diferente e a diferença na cor, na cultura, na formação, na religião, na maneira de estruturar-se como pessoa. ♦ O amor se traduz em gestos de serviço desde os mais simples até o mais complexos: dar banho num doente, visitar os doentes, fazer com que descansem nossos queridos cansados e assumir o seu fardo. ♦  Em nível mais amplo o amor significa a criação e defesa de políticas que zelem para dignidade do outro: pão para a mesa, casa digna de um filho de Deus, instrução das escolas, descanso para os que trabalham. Amar é buscar o outro por causa do outro em vista do bem do outro. ♦ Amar significa não ser conivente com tudo aquilo que banaliza o ser humano, todo hedonismo tolo, toda existência açodada sem pensamento, sem silêncio, sem vida interior. ♦ Amar é fazer com que as pessoas redescubram sua verdade mais profunda e deixem de trilhar caminhos de superficialidade que farão com que a médio prazo vão se dar conta de que perderam a viagem da vida. ♦ Amar quer dizer preservar a boa fama do outro, nas conversas, nos escritos, na mensagens eletrônicas. ♦ Amar é adivinhar aquilo que o outro precisa com urgência independentemente de meus interesses pequenos. ♦ Amar é desistir de fazer a vida uma eterna luta para competir com o outro. Amar é, pois, não viver em espírito de competição. ♦ Amar é gostar de estarmos juntos com outros diante do Senhor. Mesmo esses outros diferentes. ♦ Amar é eliminar da vida todo sectarismo, guetos e fortalezas para se proteger. ♦ “Vede como eles se amam…” Campos prioritários ♦ Os cristãos não podem ser inertes. ♦ Na vida cristã há três trilhas a serem percorridas: oração, estudo e ação. ♦ Cuidar dos mais próximos e cuidar bem: o cônjuge, os filhos, os filhos que chegam do outro numa segunda união. ♦ Os familiares mais abandonados porque têm uma ficha suja. ♦ Os idosos e os doentes. ♦ Os que precisam ser ajudados a morrer humana e dignamente. ♦ Ter a capacidade de olhar os vizinhos. ♦ As crianças: os que nascem e são apenas tolerados, os sem família, os que crescem sem alma e abertura para o Mistério. ♦ Os mais fragilizados dessa sociedade de exclusão. Oração Senhor, neste mundo insolidário e frioqueremos buscar-te.Nos bairros marginais e zonas periféricasqueremos encontrar-te.Nos que a sociedade esconde e esquecequeremos ver-te.Nos que não contam para a cultura dominantequeremos descobrir-te.Nos que carecem do básico e do necessárioqueremos acolher-te.Nos que pertencem a reverso da históriaqueremos abraçar-te. F. Ulíbarri   Comunidade de amizade José Antonio Pagola Jesus compartilha com seus discípulos os últimos momentos antes de voltar ao mistério do Pai. O relato de João recolhe cuidadosamente seu testamento: o que Jesus quer deixar gravado para sempre em seus corações: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. O evangelista João tem sua atenção voltada para a comunidade cristã. Não está pensando nos de fora. Quando Jesus faltar, em sua comunidade terão que amar-se como “amigos”, porque assim quis Jesus: “Vós sois meus amigos”; “já não vos chamo servos, mas chamei-vos amigos”. A comunidade de Jesus será uma comunidade de amizade. Esta imagem da comunidade cristã como “comunidade de amigos” bem depressa foi esquecida. Durante muitos séculos, os cristãos se viram a si mesmos como uma “família” onde alguns são “pais” (o papa, os bispos, os sacerdotes, os abades … ); outros são “filhos” (os fiéis), e todos hão de viver como “irmãos”. Entender assim a comunidade cristã estimula a fraternidade, mas tem seus riscos. Na “família cristã” tende-se a sublinhar lugar que corresponde a cada um. Destaca-se o que nos diferencia, não que nos une; dá-se muita importância à autoridade, à ordem, à unidade, à subordinação. E se corre o risco de promover a dependência, o infantilismo e a irresponsabilidade de muitos. Uma comunidade baseada na “amizade cristã” enriqueceria e transformaria hoje a Igreja de Jesus. A amizade promove o que nos une, não o que nos diferencia. Entre amigos se cultiva a igualdade, a reciprocidade e o apoio mútuo. Ninguém está acima de ninguém. Nenhum amigo é superior a outro. Respeitam-se as diferenças, mas se cuida da proximidade e da relação. Entre amigos é mais fácil sentir-se responsável e colaborar. E não é difícil estar abertos aos estranhos e diferentes, aos que necessitam de acolhida e amizade. De uma comunidade de amigos é difícil sair. De uma comunidade fria, rotineira e indiferente, a gente vai embora, e os que ficam dificilmente sentem a nossa falta.   Um Mandamento novo para um mundo novo Pe. Johan Konings Muitas pessoas hoje demonstram desânimo. As notícias são deprimentes. Guerras intermináveis, que sempre de novo inflamam por baixo das brasas. Populações africanas que se apagam pela fome, pelas epidemias. Cruéis guerras religiosas na Ásia, na Indonésia. Extermínio das crianças meninas na China. Violência em nossos bairros, corrupção em nossas instituições. E mesmo na Igreja … Existe alguém que possa dar um rumo a este mundo? A resposta é: você mesmo, mas não sozinho. Alguém faz aliança com você. Ou melhor: com vocês, como comunidade. E em sinal dessa aliança, deixou-lhes um exemplo e modo de proceder: um novo mandamento. “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” – isto é, até o fim, até o dom da própria vida, seja vivendo, seja morrendo. É o que nos recorda o evangelho de hoje. Não há governo ou poder que nos possa eximir deste mandamento. Só se o assumirmos como regra de nossa vida, o mundo vai mudar. Não existe um mundo tão bom e tão bem governado, que possamos deixar de nos amar mutuamente com ações e de verdade. Mas, por mais desgovernado que o mundo seja, se nos amarmos mutuamente como Jesus nos tem amado, o mundo vai mudar. Por que, então, depois de dois mil anos de cristianismo, o mundo está tão ruim assim? A este respeito podem-se fazer diversas perguntas, por exemplo: Será que os homens se têm amado suficientemente com o amor que Jesus nos mostrou? E como seria o mundo se não tivesse existido um pouco de amor cristão? Não seria bem pior ainda? O Apocalipse, lido nas liturgias deste tempo pascal, muitas vezes é considerado um livro de terror e de medo. Mas, na realidade, ele termina numa visão radiante da nova criação, da nova Jerusalém, simbolizando a indizível felicidade, a “paz” que Deus prepara para os que são fiéis ao novo mandamento de seu Filho (2ª leitura). A nova Jerusalém é o povo de Deus envolvido pelo esplendor, ainda escondido, do amor de Cristo, que o torna radiante, como o amor do noivo torna radiante a sua amada. Quem é amado e se entrega ao amor, torna-se amor! É isso que deve acontecer entre nós. Jesus nos amou até o fim. Nossa comunidade eclesial deve transformar-se em amor, irradiando um mundo infeliz e desviado por interesses egoístas e mortíferos. Ao invés de ver somente o lado ruim da Igreja – talvez porque nosso olho é ruim -, vamos tratar de ver a Igreja como uma moça um tanto desajeitada e acanhada, mas que aos poucos vai sentindo quanto ela está sendo amada e, por isso, se torna cada dia mais amável e radiante. Ora, para isso, é preciso que deixemos penetrar em nós o amor de Deus e o façamos passar aos nossos irmãos, não em palavras, mas com ações e de verdade. Todas as reflexões disponíveis em: franciscanos.org.br

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